Ser pai… penso que deve ser lá para os 13/14 anos que começamos a pensar nesta ideia pela primeira vez, quando pensamos começar a ter relações sexuais, o facto de isso já poder acontecer. Ainda me lembro de, com os meus 15/16 anos, uma amiguinha colorida vir com uma conversa para comigo, de que estava grávida. O pânico instalou-se na minha cabeça mas, felizmente, não passou de uma mentira estúpida.

Contudo, uns 6/7 anos mais tarde, recebi esta mesma notícia e desta vez era mesmo verdade. Por mais desumano e bizarro que pareça, talvez por ser algo comum nos jovens dos bairros sociais e não só, mas foi num bairro com esta mentalidade que eu cresci, a primeira coisa que me ocorreu, e de uma forma super normal, foi: "vamos abortar?!" Não me recordo se só pensei isso ou se cheguei mesmo a questionar.

Tinha 22 anos, nunca tinha trabalhado em Portugal, estava a morar na casa dos pais, achei que seria a coisa mais inteligente a fazer. Mas o amor e a vontade de querer ter uma família falou mais alto e logo decidimos que íamos ter um filho.

Uma gravidez com alguns altos e baixos, mas que se pode dizer que foi tranquila. Até o dia do parto, em que tentei não evidenciar, mas estava nervosíssimo e só pensava numa coisa: "Eu não vou assistir, eu não vou assistir!" Enquanto dava suporte à mãe do meu filho no quarto da maternidade, na minha cabeça só procurava uma maneira de poder fugir, quando fosse a hora “H”. Lá relaxei e, por isso, baixei a guarda. Rapidamente me esqueci do meu plano de fuga… nisto, entra um médico com uns seis estagiários no quarto e, ao observarem o que tinham de observar, verificaram que o bebé estava quase a nascer! Nesse instante, montaram uma operação de urgência para fazer o parto e foi nesse momento que pensei por em prática o meu plano de fuga! Não sei como, mas uma das enfermeiras tapou a saída com aqueles apoios para as grávidas porem os pés… pronto não havia saída, tive de ficar ali, a assistir, completamente encurralado.

Assisti a tudo, tudo mesmo, quase desmaiei, mas consegui aguentar, e desde esse dia que tenho um enorme respeito pelas mulheres. De facto, são seres especiais! É mágico, é lindo poder gerar um ser humano dentro delas, não sem a nossa ajuda, é claro, mas é mesmo de louvar.

Isto foi no dia 1 de novembro de 2006, e este ano o meu filho mais velho faz 14 anos, o Aron Varela.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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