Acho que vou organizar uma expedição à lua.

Sempre que a olho, ela está acima das possibilidades.

Nada melhor que organizar um programa acima das possibilidades.

E há tantas maneiras de o fazer.

Já houve quem montasse um escadote na noite clara, e subisse, para tocar no cume do maior pico, com o esticado dedo.

Quem sonhasse  alto e lunar, sentindo as rugosidades das suas finas areias.

Os que orbitaram em torno de expetativas vãs, entre legos e outras coisas assim.

E mesmo quem pousou sobre a sua face, sonhando com Marte.

Apontei no caderno a lista de coisas que preciso de levar:

  • uma muda de roupa;
  • escova e pasta de dentes;
  • máquina de barbear não levo, vou deixar crescer a barba;
  • um KitKat e duas barras de cereais;
  • uma garrafa de água, de litro e meio;
  • três pacotes de lenços de papel;
  • um chifre de toiro;
  • dois pares de meias com pesponto;
  • cinco cromos da bola;
  • sete pimentos padron;
  • nove berlindes;

É tudo o que preciso para ir à Lua.

De manhã, faz sol, mas não é quente. Não preciso de chapéu. À noite, não faz sol, não preciso de chapéu. Se andar sempre a direito, mais tarde ou mais cedo venho dar ao mesmo sítio, dizem que a lua é redonda, como os berlindes. Também não preciso de bússola. Posso segurar os sete pimentos padron com os lenços de papel. Pratos, mesa e cadeira, dispenso. Acho que esta lista para a visita à lua me serve. 

Já perguntei ao tio Nuno (que lá esteve) o que achava. Ele achou bem. Só acrescentou um lápis azul. O tio Nuno também achou bem atirar o gato do sétimo andar, no fim das suas sete vidas. O gato morreu. Não acuso o tio Nuno. Está na sua natureza testar os limites da vida. Uma vez, foi nadar num lago cheio de crocodilos perto de Sidney. Outra, juntou-se a uma festa de feministas assanhadas de Manchester. Das duas vezes, ficou sem uma parte dos apêndices. Disse-me que a culpa era do gato, que não falava inglês (isto passou-se durante a sexta vida do bichano). Eu acho que ambas as situações estavam para lá do que o tio podia aspirar. Mesmo assim, não se queixa da diminuição da massa corporal.

Mas o que importa para o efeito é que consigo arrumar na mochila tudo o que preciso para ir à Lua.

Vou dormir um dia bem dormido antes. A viagem, faço-a de noite, bem acordado. Para não perder nem um pouquinho daquela aura linda.

Ela pode estar lá em cima e a viagem ser difícil. Até sei que poucos lá chegaram inteiros. O tio, quando lá esteve, já estava diminuído à dentada.

Mas chega de conversa. Vou preparar o caminho.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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