Do diálogo entre a arte e a inteligência artificial e robótica, surgem as criações de Leonel Moura, pioneiras a nível mundial pelo recurso à cooperação entre estes campos, cuja técnica operante parece tão distante. Porém, a arte e a tecnologia unem-se no fundamento, que é a capacidade humana de criar, responsável pelo aparecimento do que não existia antes. Moura vem mostrar outras possibilidades da inteligência artificial e robótica, que ocupam um lugar mais inexplorado ou desconhecido no espaço público.

No novo cenário que atravessamos, muitos artistas têm desejado ser impulsionadores do movimento de reinvenção da vida, do quotidiano, do espaço e do tempo a que ficou confinado. Neste sentido, Leonel ofereceu ao Gerador um livro de desenhos para colorir, Colorir Para Crianças Criativas. O artista, que através de actividades com robótica já tinha trabalhado com crianças, escreve, ainda, na capa “A Imaginação é Tua”. Esta expressão anuncia o que serão as seguintes páginas, cujos desejos não são os usuais. Geralmente, nos livros para colorir, destinados a este público tão específico, as formas são representações. “Sempre me incomodou a banalidade da maioria dos desenhos que são dados às crianças para colorir. Casinhas e gatinhos. O que estimula pouco a criatividade. Pelo contrário, as formas abstratas permitem uma maior exploração da imaginação”, refere Leonel. Pela imaginação, cada um vive a sua liberdade, traça um trilho irrepetível e indomável. Neste tempo, emparedado, estes exercícios falam-nos da liberdade como potência inerente ao humano. “A arte é uma forma de agir sobre o seu tempo. Nunca é inocente, nem isenta.” Por este motivo, apesar dos desenhos já terem sido editados noutro livro, Leonel considerou que esta partilha, este “pequeno gesto sem importância”, poderia continuar a ser uma potência geradora, através do entretenimento, “que pode estimular o interesse pela arte”.

Desenvolver este interesse na infância e vivê-lo sem o separar de uma reflexão que vai dialogando com os tempos, é quase uma promessa de futuro. O artista comenta a situação actual da cultura no contexto desta pandemia: “As artes em geral estão em pior situação do que outras áreas da atividade, porque se tornaram bastante conservadoras nas últimas décadas e, sobretudo, não se adaptaram ao mundo digital. Agora, não sabem o que fazer e não será a tocar guitarra no Facebook ou à varanda que farão alguma diferença. Por outro lado, as medidas de apoio anunciadas terão pouco significado. Os artistas, de todas as artes, não precisam de subsídios a fundo perdido, mas de condições para criar as suas obras. O que não é a mesma coisa. Receber dinheiro para não fazer nada não é digno para um artista. É por isso que proponho um programa ambicioso de encomendas para o futuro. As várias entidades, governo, autarquias, fundações, empresas privadas, encomendam e pagam hoje obras originais para serem apresentadas quando a crise passar. Este programa significaria uma verdadeira explosão de criatividade no pós Covid19. Teria ainda um outro efeito positivo. Impedidos de recorrer à rotina, os artistas teriam de inventar novas maneiras de criar as suas obras. Pense-se no teatro, por exemplo, com os encenadores e os actores a terem de ensaiar em ambiente digital. Certamente que iria produzir peças completamente diferentes.”

A cada sexta-feira das próximas quatro semanas, serão publicados cinco desenhos de Leonel Moura. Lembra-te que, independentemente da idade, vais sempre a tempo de colorir a infância.

Podes descarregar os cinco primeiros aqui.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Desenho de Leonel Moura
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