“De que servem os poetas em tempo de indigência?”, perguntou Höderlin no poema “Pão e Vinho”.

Não tendo solução, mas resposta, é uma interrogação viva, que se manifesta no movimento de procura que, passados quase dois séculos, os seguintes autores aceitaram escutar e partilhar a reverberação. Estas respostas vêm dizer, sobretudo, a contemporaneidade da pergunta, enquanto potência geradora que abre uma fissura no interior do tempo cronológico, extraindo “o eterno do transitório”[1], na expressão de Baudelaire.

As respostas foram pedidas a quem dedica tempo à poesia. E, entregar tempo, é entregar a vida. Assim, há um sentido que precisou desta pergunta para procurar por si quotidianamente.  

Gustavo Rubim é Professor Auxiliar no Departamento de Estudos Portugueses, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigador no Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT). A sua área de investigação passa pela Literatura Portuguesa dos séculos XIX e XX, Literatura e Antropologia, História da Crítica e dos Estudos Literários, Poesia Moderna e sua Teoria e Literatura de Viagens dos séculos XVIII a XX. É autor e co-autor de obras ensaísticas, com uma das quais foi distinguido com o prémio Pen Clube de Ensaio, e consultor de revistas académicas. Gustavo Rubim respondeu, dilatando a pergunta a todos os tempos:

Para que servem poetas?

Para Isabel Aires

Poetas extemporâneos, fora de tempo, tardios ou serôdios no caso da famosa parte 7 da elegia “Pão e Vinho”. Parece ser isto que Hölderlin assinala e interroga. Poesia, como a noite, “a Estrangeira entre os homens”. Mais de duzentos anos depois, a pergunta deveria modificar-se um pouco e talvez fosse agora, sobretudo entre Ocidentais: “para que servem poetas em tempos de abundância?” Porque já nem é certo que sejam eles os mediadores com o antigo deus do vinho, agora que a festa está espalhada por todo o lado e é diária ou quase diária. Ou, pelo menos, era assim até há poucas semanas. Será que deveríamos modificar outra vez os termos da pergunta? Por exemplo: para que servem poetas em tempos de emergência?

                Não quer dizer que tenha mudado tudo. Os poetas continuam extemporâneos como há dois séculos atrás; desde há dois séculos, pelo mínimo, que não há senão poetas extemporâneos e pouco importa que outro nome se lhes dá na tentativa (absolutamente vã) de os pôr a par do seu tempo. Literariamente, são todos poetas na era do romance. Culturalmente, são todos poetas na era do ensaio, da incrível proliferação do ensaio com que nem a imaginação de Montaigne poderia sonhar. E historicamente, agora, são poetas na era do sistema de mensagens curtas (que, por piada, até podia parecer uma definição da poesia, com os seus haiku e epigramas). Os poetas levam muito tempo a mudar, são animais lentos e, francamente desconfiados de tudo o que anda acelerado, vão escrevendo anacronicamente os seus poemas. Se vamos reler Hölderlin quando estamos quase todos fechados em casa — numa suspensão da correria quotidiana, por motivos de saúde — talvez não fosse má ideia responder que é para isso que servem poetas: para lembrar que continuamos e continuaremos ligados a forças que não vemos, algumas mortíferas se não pararmos para pensar na necessidade da lentidão. É um dos lados bons de se estar fora de tempo: não se morre por isso.

Maria João Cantinho é autora de obras de poesia, ensaio, ficção e literatura infantil, professora no Ensino Secundário, membro integrado do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa e membro associado do Collège d’Études Juives et de Philosophie Contemporaine. Integra a Direcção do Pen Clube Português, da APE (Associação Portuguesa de Escritores) e da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários) e colabora com revistas literárias e académicas. María Zambrano, Walter Benjamin, Paul Celan e Levinas são alguns dos autores sobre os quais desenvolve investigação. Maria João Cantinho partilhou:

“Para que servem os poetas em tempo de indigência?”

Recordo aqui o exemplo de Itália e de Espanha, sob o signo da epidemia Covid-19. Num período de crise sem precedentes, os nossos amigos europeus vêm às janelas cantar e declamar poesia. Isso prova que a poesia, como a música e a arte são formas de resistência que provam o que há de humanidade no ser humano. Quando Hölderlin colocou essa questão, não sabia que essa iria ser uma das mais importantes questões da arte de todos os tempos.

A poesia é, por natureza, «inútil», como toda a arte. A escritora Hélia Correia disse-o recentemente nas Correntes d’Escritas e foi muito atacada. Mas é verdade que a poesia não nos põe a comida no prato nem nos salva do perigo. No entanto, ela comporta consigo o que há de mais elevado no homem, a sua capacidade de sublimar a experiência universal. Neste caso, é a nossa pobreza, no sentido rilkeano, que se transforma em sublimidade.

Pedro Mexia é poeta, crítico literário e cronista no Expresso, tendo-o sido no Diário de Notícias e no Público, coordenador da colecção de poesia das Edições Tinta-da-China e co-director da Granta, em língua portuguesa. A sua escrita também atravessa o teatro e o cinema. Organizou antologias, ensaios, crónicas e livros de poesia de autores nacionais e estrangeiros e publicou traduções. Integrou o júri de vários prémios literários e cinematográficos. A ópera Canção do Bandido, de Nuno Côrte-Real, para a qual escreveu o libreto, venceu o Prémio Autores na categoria Melhor Trabalho de Música Erudita, e o livro de crónicas, Lá Fora, de 2018, venceu o Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores. Pedro Mexia reflectiu:

Hölderlin perguntou «para quê poetas» numa época em que uma noção clássica do poético (uma exaltante indistinção entre o divino e o humano) se tornara invivível, inviável. A «indigência» ou a «penúria» do nosso tempo pertence a outra fase histórica. Somos ainda mais cépticos sobre as possibilidades restauracionistas enunciadas por Hölderlin, e vivemos numa lógica utilitarista muito mais hegemónica. Talvez por isso, a poesia libertou-se de qualquer ideia de «utilidade». Mesmo em momentos de «indigência» ou «penúria», o que está em causa não é fazer da poesia um antídoto mas um exemplo. Um exemplo de uma lógica diferente, de uma outra lógica: linguística, sintáctica, evocativa, emocional, meditativa, ambígua, memorável, tão inútil quanto indispensável.

Os poetas não servem. Servem para não servir. Por isso, são a resistência do humano, a capacidade de se salvar a si mesmo. Tal como a vida, a poesia justifica-se a si própria, o que, para o Ocidente, talvez seja um escândalo. Uma criança a seguir com o olhar um carreiro de formigas transportando migalhas de pão ou um velho sentado num banco de jardim a tarde inteira, para que servem? A origem e o destino unem-se na inutilidade que a natureza lhes concede. A inutilidade de existir. Sophia de Mello Breyner Andresen disse que a poesia é “a arte do ser”. Em “Arte Poética II”[2], escreve: “A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. (…) Pede-me a inteireza do meu ser (…)”. Torna-se, assim, uma forma de estar no mundo religada, em relação. É esta que distingue “habitat” de “reino”. Em “Arte Poética I”[3] conta a sua entrada numa loja de barros, em Lagos. Diz-nos que esta está repleta de objectos amontoados. Porém, de repente, passa a olhar para um, apenas. “Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.” A ânfora está vazia e dá-lhe de beber. A poesia é o vazio das formas. Na verdade, é uma relação com o vazio das formas, porque, naquela loja, havia muitas outras ânforas. Um relação íntima, escolhida numa consciência mais funda do que a inteligência, como se lê em “Arte Poética III”[4]. Uma relação livre, com a qual cada ser humano constrói a sua própria casa, não se submetendo à repetição, à homogeneização, à estagnação, que revelam a divisão e a alienação de alguém que se desligou e perdeu.  “O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece. É o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão”, escreve, em “Arte Poética II”.

Como ser criador, o humano intervém. Pela poesia, a intervenção é afectiva. Silvina Rodrigues Lopes reflecte, em Textos Literários, Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, Apresentação Crítica, Selecção e Sugestões para Análise: “A atitude do homem da ciência perante a Realidade é igual à atitude de um anatomista perante um corpo morto que o estuda e analisa. A atitude do poeta perante a Realidade é igual à atitude do amante perante um corpo vivo com o qual se encontra, se une e se confunde.”[5] A experiência poética é uma experiência de envolvimento, de atravessamento das camadas do que existe, sabendo que são inesgotáveis. Assim, quando escrita, na impossibilidade de usar as palavras com os seus significados rígidos, ditados, secos, mortos, lava-as e deixa-as vazias, como a ânfora de Sophia. Então, ganham a forma do movimento de cada corpo, escorregam das leis e tornam-se indomáveis. Através da poesia, cada um segue o seu caminho entre as coisas. Um caminho que não antecede o caminhante. Um caminho que ainda não há. Um caminho imprevisto. Recordo o verso de Tolentino Mendonça, que serve de título à sua antologia de poesia, “A noite abre meus olhos”, porque os amplia, e a visão do que não se vê também existe.

É com a poesia que a vida conta a sua única verdade, a de ser só mistério. O olhar poético é, assim, um olhar humilde, não ditador, mas libertador. Não possui. Só as mãos vazias são mãos de relação. “Nas mãos do oleiro/ o universo descobre-se inacabado”[6], o verso de Tolentino que se encontra com a sensação que Silvina Rodrigues Lopes considera como a mais mortífera, a de quando está tudo dito. É por nos descobrirmos inacabados que nos relacionamos. Se a poesia for vivida, independentemente de ser escrita, é um olhar amoroso que, também, habita as relações humanas, reconhece o outro enquanto outro, aproxima-se, procura-o com tempo, tecendo um “reino”. Essa potência de ligação, é a vida em si mesma. Em “Arte Poética III”, depois de Sophia referir que a sua poesia “evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta”, diz-nos: “Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo.”

A poesia, em tempos de indigência, lembra-nos que servimos para nada. Como a ânfora, mesmo que não tragamos água, o nosso vazio pode dar de beber. “Mesmo que” o poeta/ poetisa “fale somente de pedras ou de brisas” a sua obra “vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.” Talvez fosse por isso que Etty Hillesum, quando estava no Campo de concentração de Westerbork, escreve no seu diário o pedido a Deus de “um pequeno verso por dia”. “E se eu nem sempre o puder copiar por não haver papel ou luz, então hei-de declamá-lo baixinho para o teu grande céu, à noite, mas dá-me um pequeno verso de vez em quando.”[7]

“Ao lado do pão precisaremos sempre de rosas. Ou melhor: em momentos-chave da nossa existência, se não forem as rosas a sustentar-nos, nem o pão nos servirá. Um dos grandes mestres da poesia chinesa, Li Po, tem um poema curto onde recomenda: ‘Vende um dos teus pães e compra um lírio’.”[8], partilha Tolentino.


[1] BAUDELAIRE, Charles, «A modernidade», O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Vega, 2006, p.21

[2] ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, «Arte Poética II», Obra Poética, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p.891

[3] ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, «Arte Poética I», op. cit., p.889

[4] ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, «Arte Poética III», op. cit., p.893

[5] LOPES, Silvina Rodrigues, Textos Literários, Poesia de Sophia de Melo Breyner Andresen, apresentação crítica, selecção e sugestões para análise literária, Lisboa: Editorial Comunicação, 1990

[6] MENDONÇA, José Tolentino, A noite abre meus olhos, «Vida Monástica», “[Nas mãos do oleiro]”, 3ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, p.326

[7]HILLESUM, Etty, Diário, 1941-1943, 3ªed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p.323.

[8] MENDONÇA, José Tolentino, «Trocar o pão por um lírio», O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas, Lisboa: Quetzal, 2007, p.30

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Pintura "Rooms by the Sea" (1951), de Edward Hopper