Querida Mulher,

Hoje quero escrever-te uma carta de amor. Sei que a nossa relação nem sempre foi fácil. Houve tempos em que te vi como fraca, outros em que tive pena de te ver presa por algumas amarras. Mas, hoje, olho para ti apenas com amor e orgulho. Hoje sei que és forte e admiro cada passo que dás. Tenho tanto para te dizer, mas vou tentar apenas escrever sobre aquilo que me lembrar durante a minha próxima hora de escrita.

Calculo que seja difícil, por vezes, acordar e ter motivação para te moveres no sentido contrário ao de uma sociedade em que ainda vigora uma estrutura, muitas vezes, machista. Mas tenho visto o teu vigor crescer a cada dia, mesmo quando nos deparamos com notícias que relatam, em letras garrafais, que “cada vez mais mulheres ocupam lugares do homem” — essas coisas do século passado que acreditávamos já não ter lugar na agenda mediática.  Mas a cada recuo, vejo-te dar duas passadas mais largas rumo à evolução. Uma evolução que acredita na igualdade de direitos, sem superioridade de nenhum sexo.

No último fim de semana do mês passado, no clube do livro feminista — Heróides —, voltei a ver a concretização de um dos conceitos mais belos da convivência em comunidade: a sororidade. És tão inteligente, Mulher. Tão gentil e sensível, mas nunca aquela sensibilidade que nos apontam como fraqueza. Falo da sensibilidade empática que é imperativa para construirmos um mundo melhor. Mulher, permite-me apenas um conselho — não peças desculpa pelas tuas palavras ou divagações. Não peças desculpa pelo que sentes ou por um discurso atropelado por ideias que fervilham desordenadas. Não peças desculpa por pensares pela tua cabeça e pelo teu direito a ter uma vontade e opinião. Não digas que nada sabes ou que as tuas ideias talvez não façam sentido ou não sejam tão pertinentes quanto as anteriormente proferidas. Sabe que cada palavra tua, por mais banal que te pareça, tem o potencial inesgotável de ajudar e/ou inspirar a próxima. Deixas-me tão feliz por não perpetuares o mito de que existe competitividade feminina ou de que as mulheres não são amigas.

Mulher, hoje sei-te inteira e despegada do drama Hollywoodesco que nos vende como metades: a eterna busca pela cara metade em tempos de tanta imediatez e desapego, assim como a pressão inerente na perseguição de um curso de vida idealizado por alguém que não tu — a típica história dum namoro, que evolui para casamento, depois os filhos. (Atenção, não há nada de errado com esse percurso, mas hoje sabes que isso é uma escolha e não aquilo que tens de fazer. Se a tua escolha for diferente, em nada te diminui) Nasces completa, pelo que não encontrarás uma cara metade. No máximo, encontrarás alguéns que te acrescentam e fazem sobressair todas as virtudes que possuis. Sim, atenta que disse alguéns. Não aceites a pressão dos contos de fada em que a cada Mulher atribuem uma só pessoa e que nos dizem que quem não vive um amor único é desvirtuada ou menos Mulher. Hoje vejo-te perceber que tens direito a amar, e mais, que tens direito a crescer e, nesse processo, encontrar os amores, e formatos de amar, que melhor te acompanham a cada etapa. Pode ser o mesmo amor, ou podem ser outros a cada passo, sem que essa diversidade te dê um rótulo pejorativo. Se te permites a amar com toda a tua verdade a cada fase da vida, és mais corajosa do que a maior parte das pessoas.

Quando amas, não aceitas ofensas, insultos ou agressões. Sabes que, independentemente daquilo em que achas que podes ter errado, não mereces ser maltratada ou subjugada. Não és uma vítima. És uma Mulher com dignidade e direito a uma vida plena. Se te insultaram, abusaram, violaram ou assediaram, seja em que contexto for, sabes que isso não é OK, da mesma forma que não seria se o fizesses. Acima de tudo, percebes que a culpa não é tua e o teu nível de alcoolémia ou roupas que levavas vestidas não estavam a pedir nada, nem justificam crimes. Não duvidas que homens passem também por situações abusivas, mas não deixas que isso cale a tua luta, porque a maior parte das queixas destes crimes continua a ser feita por mulheres, tendo homens como agressores. Tu saberás do que falo se te perguntar quantas das tuas amigas nunca foram assediadas. Tens alguma? E existe aqui um fator que costuma diferenciar as narrativas: uma mulher, quando é violada ou assediada, tem medo de ser ferida, ou mesmo de morrer, como resultado da brutalidade da agressão. O mesmo, por norma, não se passa com um homem que seja assediado ou violado por uma mulher.

Não me quero alongar muito mais, mas antes de ir, permite-me que te fale ainda sobre a tua vulva, se fores uma Mulher que a tem, e sobre sexo. Já viste a diferença que fez quando percebeste que todas as vulvas são diferentes e não há nada de errado com a dimensão dos seus lábios ou a sua cor? Da mesma forma como não há nada de errado com o corpo que tens e que ele é belo e único, independentemente dos ideais de beleza que mudam mais rapidamente do que as estações do ano. E naquela tarde em que percebeste que as vulvas não precisam de ser perfumadas, porque, primeiro, não cheiram mal, e, depois, elas autolavam-se, pelo que não precisas de pensos higiénicos perfumados, que prejudicam a tua saúde, nem de vergonhas quando vês que não tens cuecas imaculadas ao final do dia. E daquela vez em que tiveste a certeza de que a menstruação não era um problema, nem era nojenta, nem tão pouco uma questão da mulher, mas sim de toda a gente com ou sem menstruação? A tua vulva não é suja e, como diria a Clara Não, “Cona é poder!”

Escrevi também que te queria falar sobre sexo, não foi? Tanta coisa haveria para dizer sobre tudo o que já descobriste, Mulher, mas também sobre o que ainda há por descobrir — há tanto que nem a ciência sabe, pois durante muito tempo o nosso prazer não era relevante para ser alvo de estudo. Mas deixa-me destacar algumas das coisas que mais gostei de te ouvir dizer. A virgindade não se perde, ganha-se. Ganhas experiências e novas formas de o teu corpo experimentar prazer. Por outro lado, a virgindade não tem que ver com a penetração de um pénis numa vagina, caso contrário um amor lésbico seria eternamente virgem e incapaz de concretizar uma vida sexual — haverá ideia mais descabida? E porquê priorizar um buraco quando, no sexo, existem mais ao dispor, quando assim os intervenientes o entenderem? Sexo oral, beijos pelo corpo fora, entre outros, não são preliminares – SÃO SEXO. Preliminares é aquela mensagem atrevida (consentida), o copo de água que te estenderam quando tinhas sede, ou o elogio sincero que recebeste. É OK estimulares o teu clitóris no sexo com outra(s) pessoa(s), não é uma ofensa e muitas mulheres precisam dessa estimulação para chegar ao orgasmo — e tu sabes que sexo com outra(s) pessoa(s) é um trabalho de equipa. Mas não tens dúvidas de que é também importante fazeres sexo contigo mesma. A masturbação não é errada, mas sim uma forma de vivenciar o amor próprio em pleno, assim como não é traição nem sinal de que o(s) teu(s) parceiro(s)/parceira(s) não te satisfaz(em) — uma coisa não exclui a outra, são prazeres e experiências diferentes e ambos importantes na vivência da sexualidade. Um orgasmo ou a sua ausência não é culpa da(s) pessoa(s) com quem se divide a cama, mas sim uma responsabilidade própria e a comunicação é, muitas vezes, a chave para lá chegar. Por isso, não finges orgasmos e sabes comunicar com as pessoas com quem te envolves.

Puxa Mulher, como és maravilhosa!

Todos os dias são teus, Mulher, e o teu lugar não é na sombra nem de olhos postos no chão. Nos dias em que te for difícil levantar da cama ou explicar isso a quem ainda não o percebeu, sorri-lhe com todo esse amor invencível que carregas em ti e explica-lhe. Se ainda assim não te perceberem, aceita o tempo do outro, mas confiante de que não tens um problema. Há ainda tanto por conquistar, mas acredita que estás no caminho certo e mais preconceitos sociais desconstruirás a cada dia, em ti e nos outros. 

Com um beijo e um abraço do tamanho do mundo da tua sempre amiga,

Andreia.

Um P.S. com Mulheres maravilhosas que me inspiram e ajudam a empoderar todas as mulheres e amigas diariamente: @clara.não; @taniiagraca; @omeuutero; @donatota; @carmogepereira; @circuloperfeito_; @sarahoneypie — e tantas outras!

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
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