Quando era miúdo e a música já era um amor incondicional, por várias vezes tentei inscrever-me em escolas de música, que, na altura, eram longe de minha casa. Morava numa aldeia perdida e a escola de música mais próxima era na cidade grande (no caso, em Torres Vedras, cidade onde vivo atualmente). E, pela questão monetária na altura, não me foi possível estar inscrito numa escola de música, que me iria possibilitar mais facilmente absorver essa informação que fica para sempre. Ainda tive a experiência de tocar flauta na igreja, e nas aulas de música que as escolas forneciam.

O tempo passou, a vontade ficou. Fui-me fazendo à estrada e tentando ser autodidata. Hoje, com a possibilidade da internet, o conhecimento está nas pontas dos nossos dedos, sobre tudo o que nos quisermos informar ou formar, por mais que os céticos digam que não é a mesma coisa.

Mas, para as pessoas adultas como eu, sabem bem que, noutros tempos, a informação qualificada era vendida. Ninguém, de livre vontade, estava disponível para informar ou ajudar, oferecendo conhecimento livre, da forma como hoje acontece.

E quando vejo músicos americanos que gosto, que tocam viola, piano e um instrumento de sopro, tudo na mesma pessoa, percebo que alguma coisa ainda não está bem em Portugal, no que toca à forma como a educação musical não é para todos.

Sendo que o nosso corpo é ritmo e tudo o que fazemos obedece a este mesmo ritmo, e que a música tem matemática em si, fico sempre de ombros encolhidos quando ainda, hoje em dia, perguntam-me: “és músico, mas fazes mais o quê?”

Como se o facto de se ser músico tivesse que ser um hobby; como se o facto de se ser músico só contasse se fores músico de jazz ou de orquestra. Caso contrário, tens que ter outro emprego, pois ser músico é uma coisa menor.

Com toda a certeza, é na educação que isto falha. Se o ensino da música começa com uma flauta de plástico para todos, é normal que a formatação de uma ideia errada do que é a música comece nessas idades tenras.

Nem todos nascemos para tocar flauta! Entendo também que pode ser um encargo grande para as escolas terem mais instrumentos, nomeadamente de cordas, como violas, por exemplo. Instrumento, esse, que qualquer jovem tem vontade de tocar num final de tarde, junto com os seus amigos para mostrar os seus dotes.

Quem nunca quis tocar as “Dunas”, dos GNR, ou “Nothing Else Matters”, dos Metallica? Eu quis e tentei!

Na minha cidade, se um aluno quiser entrar em música terá que passar do ensino normal para o ensino articulado, que é comparticipado pelo Estado, em parte, mas com vagas escassas. Ainda assim, o valor a pagar é uma exorbitância e não está, de todo, a abranger os jovens de modo geral, e no fim, parece-me que, só pode ser músico quem tem dinheiro e não necessariamente quem tem capacidade inata para o ser. E isto difere muito de países onde entendem que a capacidade inata para se ser músico é uma mais valia.

Se não é realmente assim o que digo, então olhemos para as escolas de música em Lisboa, por exemplo, que são a minha referência. Por norma, os alunos vão para lá aprender jazz e coisas super elitistas. Saem de lá a saber escalas e notas de coisas complicadíssimas, mas, depois, a alma fica fechada numa gaveta que não podem usar.

Enquanto isso acontece cá, os mesmos jovens músicos deliciam-se com o bom gosto e, às vezes, com uma técnica inferior à sua, outros músicos tocam com alma e fazem-se valer da alma que se sobrepõe ao extenso e complexo saber das técnicas de como tocar um instrumento.

É claro que ambas são importantes, da mesma forma que para escrever é necessário o

conhecimento extensivo e alargado das palavras e suas nuances, mas, a alma das coisas, a meu ver, deveria estar em primeiro lugar.

A música é algo do divino, e nunca devemos esquecer-nos disso. Não tornem a música algo terreno, sem a substância que a torna intemporal e sem classe definida. A música é de todos e para todos. No final do dia, a opção do que eu quero ouvir é minha e tua.

Esta semana foi o aniversário de um dos maiores músicos da música moderna portuguesa. Incontornável talento, incontornável conhecedor profundo da música e da arte que carrega nos ombros: Samuel Mira.

Que não haja dúvidas sobre o talento natural e a alma que emana dos poros de Sam The Kid. Há pouco tempo, antes deste terror pandémico, estávamos nos Coliseus a celebrar em glória a sua música, acompanhados de uma orquestra. Nesse momento, duvido que alguma pessoa terá perguntado: “mas o Sam The Kid é músico? Onde tirou o curso?”

Mas todos sabemos que, de cada vez que Sam The Kid exercita e executa, de si sai o mais puro talento e alma que a música pode ter: intemporalidade e divindade numa pessoa só.

E seja um músico de jazz, seja um analfabeto, seja a tia Maria ou o Dr., todos, unanimemente, sabemos o talento e a alma deste, a quem durante muito tempo não chamaram de músico, pois Sam The Kid não sabe tocar nenhum desses instrumentos que a sociedade impõe como regra para se ser músico.

Seria então de pensar que talvez os módulos de percepção de quem é bom ou menos bom fossem analisados, não só com base nas notas que tem, mas sim na alma efervescente de cada ser. Como sabemos, a primeira frustração humana vem pela falta de compreensão e falta de empatia para com as diferentes característica de cada um.

A música é arte divina e, assim, se deve manter, a meu ver. Já estamos cansados de ouvir: “Fogo! Se o Sam nascesse na América, ele era mais conhecido do que aqui …”

Não! O Sam é daqui, é de Chelas, faz falta aqui, para mostrar ao Mundo que, do nada se pode construir uma carreira. Num país onde ser músico ainda é visto como um hobby.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silv
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-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.