Composta por cinco membros, a banda Paradoxo nasceu pelo desejo de um grupo de amigos que já se conheciam dos tempos de escola. Em Sintra, Eduardo Silva, Hugo Gonçalves e Afonso Matos começaram por partilhar a música e compor as primeiras canções. Mais tarde, juntaram-se-lhes João Barata e Guilherme Proença, fechando o grupo musical. 

Nesta sexta-feira, 17 de abril, foi lançado o mais recente álbum dos Paradoxo. Gravado num estúdio montado pela banda no Monte Duraia, Ao Colo ou De Pé apresenta um conjunto de 12 faixas inspiradas pelo campo. “Este álbum reflete o nosso crescimento enquanto banda”, dizem.

Em entrevista ao Gerador, os Paradoxo fazem um balanço enquanto banda, apresentam o novo trabalho, refletem sobre o problema da pandemia para os artistas e deixam a promessa de um terceiro álbum: “Quando voltarmos à estrada não percam um concerto nosso porque será, sem dúvida, único e inesquecível”.

Gerador (G.) – Antes de falar do novo álbum, Ao Colo ou De Pé, qual é a história do nascimento dos Paradoxo?

Paradoxo (P.) – Conhecemo-nos na escola (o Edu, o Hugo e o Afonso), em Sintra. Na altura, havia mais malta que começava a interessar-se por tocar instrumentos, partilhávamos imensa música uns com os outros, em saídas, passeios pela serra ou na escola de música onde andávamos. Acabamos por juntar-nos os três e começar a compor canções. Pouco antes de gravar o Lado do Lago, chamámos o Nuno d’Eça para tocar connosco, que mais tarde acabou por sair. Demos os primeiros concertos em Lisboa, no Barreiro, no Porto e no Passarão, festival que organizamos por três anos em Sintra, na casa do Afonso. Na altura, o Hugo apresentou-nos o Barata, que conheceu na António Arroio. Tocava teclado, vimos muitos concertos juntos e tínhamos referências artísticas semelhantes. Conhecemos também o Gui, através de amizades em comum, que estudava nas Belas Artes, fazia música e tinha uma grande pinta. Convidámo-los para se juntarem a nós. Mal começamos a tocar os cinco, começaram a nascer as músicas deste segundo álbum.

G. – Sobre o novo disco, como é que foi o processo criativo e a execução deste novo trabalho?

P. – Novas ideias, jams e composições começaram a chegar à sala de ensaios no início de 2019. Em julho do ano passado, partimos com oito rascunhos na bagagem, para o Monte Duraia, na aldeia das Silveiras (perto de Montemor-o-Novo), onde nos instalamos e montámos um estúdio. As gravações tomaram um formato live e o resultado foi um conjunto de 12 músicas inspiradas pelo ambiente que o campo nos proporcionou. Cerca de duas semanas depois, já em Lisboa, gravaram-se as vozes e alguns overdubs. Mais tarde, a mistura e masterização ficariam nas mãos do Francisco Monteiro, que fez um excelente trabalho e conseguiu tirar o melhor deste disco.

G. – Sentem que este novo álbum é muito diferente do primeiro disco ou continuaram com a mesma linha artística?

P. – Como dissemos, este álbum integra dois novos membros, o João Barata nos teclados e o Guilherme Proença no baixo, o que levou a uma sonoridade muito diferente do álbum anterior. A isto junta-se uma maturidade que foi ganha três anos depois da gravação do Lado do Lago. Enquanto o nosso primeiro álbum respirava um ar psicadélico e mergulhava em reverbs e delaysAo Colo ou De Pé entra mais numa onda de improvisação, vai beber referências ao jazz, ao funk e ao stoner, misturando instrumentos como a harmónica, acordeão, apitos, ovelhas, moscas, galinhas, entre outros.

G. – O que é que representa, para vocês, o novo trabalho e o que é que os ouvintes podem esperar dele?

P. – Este álbum reflete o nosso crescimento enquanto banda. Daqui em diante podem esperar uns Paradoxo diferentes, porque vamos continuar a ter vontade de explorar novos caminhos, tanto nos concertos e performances que preparamos, como em novas composições. O título aponta, desde logo, para essa questão da maturidade, assim como a melodia que se repete, com ligeiras variações, na primeira e na última música do álbum. Em Ao Colo ou De Pé, há um lado mais prog ao nível da composição, no sentido de a música estar constantemente a evoluir e transformar-se. Pensámos o álbum como um todo que faz sentido ouvir do princípio ao fim, em que certas músicas surgem como continuação natural de outras. Há também muita comunicação, estamos a tocar os cinco ao mesmo tempo e há músicas que nascem da improvisação, solos esgalhados e respostas de parte a parte, distorção pesada em músicas como a Selénio e Apito Dourado, mas também camadas de acordes mais suaves, na Galinha d’água ou na Tragédia. Acreditamos que o álbum é representativo da relação especial que construímos, assim como do espaço que houve para desenvolver as ideias de cada um. Esperamos que possam nutrir por ele o amor que lhe temos.

G. – Quais são as maiores dificuldades de editar um disco enquanto banda independente?

P. – Começa na parte da produção, onde gravar, como gravar, com quem misturar e masterizar… E prolonga-se até às edições físicas e promoção do disco, que é a parte que achamos ser mais complicada no meio disto tudo. Sentimos que no mercado que temos hoje, em Portugal, nem sempre é fácil conseguir que a nossa música chegue a quem nos quer ouvir, ou que poderia eventualmente gostar de nos ouvir. Promover o disco de maneira independente funciona muito à base de passar a palavra, partilhar nas redes sociais e tentar chegar, de forma orgânica a uma audiência. Mesmo com o streaming, até se chegar ao ponto de sermos recomendados pelos algoritmos dos deuses, ou postos magicamente em playlists editoriais, vivemos um pouco numa marginalidade acessível a quem já nos conhece ou ouviu falar de nós. No fundo, é tudo aquilo que nos permite ser independentes, mas achamos que, mesmo assim, sabe bem ter a liberdade de fazer as coisas “à nossa maneira” – homage aos Xutos – mesmo que por vezes esta seja peculiar.

J G. – Já referiram que valorizam o facto de cantarem em português. Sentem que a língua ainda é importante na música que se faz atualmente ou são apologistas de que “a música é uma língua universal”?

P. – Uma coisa não invalida a outra. Há géneros que funcionam melhor sem letra, outros que só funcionam com ela. No entanto, guardamos no peito a vontade de escrever na nossa língua porque é aquela que está mais perto de nós todos os dias, e é algo que nos dá identidade enquanto banda. A música, quando nos aparece como ideia, serve para criar um palco onde certas palavras podem querer ou não dançar. Muitas vezes esse palco já é tão rico, que nenhuma letra o vai querer pisar. Em Ao Colo ou De Pé, há músicas instrumentais e outras com letras do Hugo, do Edu e do Afonso. As palavras que escolhemos podem parecer pouco óbvias, mas dizem exatamente o que queremos dizer de um modo mais onírico, cómico ou grotesco.

G. – Tendo em conta a vossa experiência, consideram que existe espaço suficiente na indústria musical portuguesa para as novas bandas emergentes?

P. – Aos nossos olhos, espaço físico e virtual não falta, na verdade vai aparecendo mais e mais. Temos as redes sociais cada vez mais viradas para a enterprise individual, temos mais plataformas de difusão como vocês e outras revistas digitais, que são uma lufada de ar fresco e nos aquecem o coração. No entanto, espaço dentro das pessoas que gerem as infraestruturas culturais não sabemos quanto há. Estes últimos tempos, com a promoção da banda a sair um pouco das nossas mãos, têm mostrado um lado muito mais fechado por detrás desses novos sítios da moda do circuito lisboeta e sintrense. Parece que há uma cola na sola dos pés desta malta que faz com que um círculo se feche em sua volta e para as bandas talvez um pouco mais pequenas como nós entrarem é preciso uma força hercúlea, traduzida numa rede de contactos que quase cobre o Oceano Atlântico. No entanto, há uma brisa com cheiro a promissor. Claro está, quando a maré baixa, as dunas já não são as mesmas…

G. – Olhando para a atualidade e para o papel da cultura durante esta pandemia, acham que a covid-19 vai mudar a forma como as pessoas olham para os artistas?

P. – Sim, desde logo porque a música passa por um processo de ser tocada e apresentada ao vivo. Sentimos que essa é uma parte importante da atividade de qualquer músico, além de ser, nos últimos anos, uma das poucas maneiras de pagar as despesas associadas à edição de um disco. Se não há esse momento de apresentação pública, em que sentimos a reação das pessoas às músicas, que trabalhámos durantes meses, há algo que se perde. Esperamos, no entanto, que este momento de pausa e reflexão possa contribuir para uma maior proximidade entre os artistas e pessoas ligadas ao meio. Queremos que a música que se faz em Portugal possa continuar a chegar às pessoas, tanto através das plataformas online – e aí cabe-nos agradecer o trabalho do Gerador – como através de concertos, quando isso for possível. Para nós os cinco, tem sido um desafio: comunicarmos à distância e mantermo-nos organizados enquanto banda.

G. – Sobre o futuro, o que esperam dele?

P. – Muita música, muitos concertos. Novas composições já se formam para um terceiro álbum, por isso esperamos um futuro sem travões, com muito turbo e drifts. Gostaríamos de continuar a trabalhar com pessoas que admiramos, colaborar com novos projetos e desbravar territórios desconhecidos. Ficaríamos muito felizes se a nossa música pudesse chegar aos demais ouvidos e venues portugueses. Quando voltarmos à estrada não percam um concerto nosso porque será, sem dúvida, único e inesquecível. 

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia cedida pela banda

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