Antes de mais, perdoa-me a audácia de mudar o ditado popular. Bem sei que a expressão que sempre ouvimos diz que parar é morrer, mas numa altura em que parece que nunca temos momentos de pausa, acho que estamos a morrer só para não abrandar.

Creio que toda a gente que me lê sabe do que falo: não há tempo para respirar, não há tempo para nós. Os ponteiros do relógio parecem ser do contra. Os dias passam num ápice que nos obriga a fazer escolhas extremas. Descansar ou trabalhar? Cuidar dos outros ou cuidarmos de nós? Cumprir os prazos ou dedicar alguns momentos à nossa saúde física e mental? E todos corremos nesta roda de hamster, sempre atrás de mais tempo e perdendo-o em cada passo apressado que damos.

Todos temos de parar. O ritmo acelerado com que vivemos os nossos dias deixa mossa na saúde e principalmente na alma. As redes sociais e os gadgets são pano de fundo constante e convidam-nos a nunca, jamais desligar. Este lavor constante é normalizado e no fim somos absorvidos da nossa vida, acabando emaranhados na teia de um dia extremamente preenchido.

Não sou a única a viver neste frenesim sem fim, nem tão pouco a única que passa os seus dias com uma constante lista de coisas para fazer que insiste em aumentar independentemente das ações que faça. Aposto que tu, tal como eu, muitas vezes te obrigaste a dizer não ao descanso e se, por algum acaso, te sentas no sofá já em cansaço extremo, a tua cabeça não te dá tréguas lembrado-te da mensagem para responder, da cozinha para arrumar ou do pendente que ficou do trabalho. Muitas vezes sinto que não há horas, minutos ou segundos no dia para respirar fundo, sem pensar em tudo o que espera por mim. E, infelizmente, não sou a única a sentir-me atolada. Quantos de nós já não se olharam ao espelho e viram o olhar cansado e a alma a pedir um minuto que seja de paz? Quantos de nós não foram adiando esse momento de descanso porque ainda resta aquele pedaço ínfimo de energia?

Esta culpa em parar tem de acabar. É impossível continuar num ritmo alucinante, esperando que o nosso corpo não se ressinta ou que a nossa saúde mental não nos ponha um travão. Durante a pandemia, muitas foram as pessoas que se viram obrigadas a pedir ajuda. Vi este fim de semana que foram mais de 99 mil chamadas para a linha de aconselhamento psicológico criada pelo Serviço Nacional de Saúde. Isso indica uma coisa apenas: temos de parar ou, no mínimo dos mínimos, abrandar. Porque desta forma, a vida vai continuar a passar-nos entre todas as obrigações e não vamos aproveitar tudo o que há de bom no mundo.

Aprendi que as obrigações esperam e que somos donos da nossa vida e do nosso tempo e que por vezes temos de impor um ritmo diferente para estarmos bem e felizes. Viver é um ato corajoso porque até para se poder aproveitar os dias é preciso saber dizer basta a tudo o que nos rodeia. É preciso ter coragem para acabar com imposições e solicitações e para nos focarmos naquilo que queremos para nós, naquilo de que precisamos.

Agora que agosto chegou, carregado de expectativas e desejos, muitas são as pessoas que estão a permitir-se parar. Não estranho, agosto é sinónimo de férias e para muitos será a primeira pausa do ano. Chegamos a agosto carregados de cicatrizes nascidas de um ano e meio a ferro e fogo. Mas, mesmo que este mês não te seja possível parar por completo, aprende a parar aos poucos. Nem sempre precisamos de uma semana de sossego, mas precisamos de vários momentos de sossego numa semana.

Vamos aprender a descansar. Porque, no final do dia, parar é viver. É viver mais e melhor e ser, acima de tudo, mais feliz e mais saudável. Convido-te a parar. Aprende a dedicar-te a ti da mesma forma que te dedicas ao sem fim de compromissos que tens. Tu és a pessoa mais importante da tua vida - dá-te espaço para respirares.

Com amor,
Sofia Dinis

-Sobre Sofia Dinis-

Sofia Dinis é tatuadora, fotógrafa, designer, ilustradora, criadora de conteúdos e muito mais. Sofia Dinis é artista.
Nasceu e cresceu em Albufeira, mas foi em Lisboa que floresceu. Mudou-se para a capital para tirar a licenciatura em design de comunicação, no IADE, e foi nesta cidade que construiu todos os seus projetos. Teve um espaço de estética e deu formação na área, trabalhou como fotógrafa e designer e abraçou a tatuagem como hobby.
Em 2017, viu-se obrigada a repensar o seu percurso profissional quando fechou o seu espaço de estética e design e regressou a Albufeira. No meio do caos, decidiu que queria ser tatuadora a tempo inteiro e a 15 de fevereiro de 2018 regressou a Lisboa. Dava assim o primeiro passo para se tornar a tatuadora que toda a gente conhece.
O projeto SHE IS ART nasceu em pleno coração de Lisboa, numa casa de Air BnB de uma amiga. Durante duas semanas, Sofia tatuou 2 amigos e fotografou os trabalhos de forma a parecer que tinha um extenso portfólio. Desenhou o seu Instagram, desenvolveu a marca e, duas semanas depois, começou a receber vários pedidos para tatuar, não tendo parado desde então. Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 8 meses.
A marca SHE IS ART não parou de crescer ao longo destes 3 anos. Neste momento, é muito mais do que um projeto de tatuagens, é um projeto artístico. O ano passado, Sofia lançou o seu primeiro produto, o Diário 2021. Este ano, tem já planeados novos projetos para apresentar ao público. Afinal, criar faz parte da sua essência.

Texto de Sofia Dinis
Fotografia cortesia de Sofia Dinis
gerador-gargantas-soltas-sofia-dinis