Oeiras é o lugar onde o Passa a Palavra habita na sua 3ª edição. Foi nesse mesmo lugar que Cristina Taquelim, os Contabandistas – António Gouveia e Cláudia Fonseca, Sofia Maul e Gaspar Matos, (representante da Câmara Municipal e das Bibliotecas de Oeiras), decidiram conversar com o Gerador.

Por entre diversas memórias e propósitos, recordar o nascer do festival foi o ponto de partida de uma longa conversa, no qual a valorização e a importância da palavra, tanto como quem a escuta, foram os aconchegos que abraçaram este projeto.    

Responsáveis pela história de quem o “faz hoje”, o festival nasce de “um trabalho de mais de uma década de intervenção no território, na área da narração oral e promoção da leitura. Este trabalho começou em 2005, com Histórias de Ida e Volta, um projeto europeu, que impulsou um movimento muito forte em torno da narração oral e da promoção da leitura, com uma caraterística interessante, na medida em que ele nunca se perdeu. Foi contínuo ao longo do tempo”, contam-nos Cristina e Cláudia.

O projeto tinha várias vertentes. António rapidamente nos elucidou: “vertente de formação de contador de histórias; recolha de histórias de vida das comunidades do concelho, comunidades migrantes e ainda sessões de contos nas bibliotecas e nas escolas.”        
É com este embalo que a história da colaboração da associação cultural Contabandistas de Estórias e a Rede de Bibliotecas Municipais de Oeiras nos leva a viajar no tempo e a assistir ao impulsionar do Passa a Palavra.

No caso de Cristina, o “rico Alentejo” trouxe o seu conhecimento e a sua arte em contar histórias até Lisboa. Depois de desempenhar funções ligadas à narração, promoção de leitura e coordenar uma equipa de um festival muito reconhecido em Portugal, “Palavras Andarilhas”, em Beja, conhecendo “muito bem” Oeiras, “inevitavelmente”, veio para ficar.

O festival que “reflete o território e a equipa”, nasceu no seio das Bibliotecas Municipais. O “Doutor Gaspar”, mais conhecido por Gaspar Matos, completa esta contextualização afirmando que “é engraçado porque, hoje em dia, a associação que, de alguma forma, está à frente da organização deste festival, é um pouco “filha” das Bibliotecas de Oeiras. Já é quase a filha a cuidar do pai, o que é uma coisa muito interessante. De alguma forma, é um evento que eleva. Qualquer Biblioteca Municipal trabalha essencialmente para o entorno, para a comunidade. (…) Faz todo o sentido que os Contabandistas estejam a liderar isto, juntamente com a Taquelim, que está aqui pelo Chão Nosso, crl mas que, em 2004, 2005 e 2006, foi também mãe deste projeto”, afirma.

O Passa a Palavra, celebra tudo aquilo que foi conseguido e se consolidou — “a bolsa de contadores, uma prática recorrente nas bibliotecas de Oeiras, formação para professores bibliotecários e para outras pessoas, as atividades que temos nas escolas, as que temos ao fim de semana (…). Tanto que as atividades nas bibliotecas de Oeiras que tinham diferentes nomenclaturas, mas baseavam-se no mesmo, hoje em dia, chamam-se Passa a Palavra”, reconhece Gaspar.

Descrito como uma comemoração, o festival é “o culminar e o celebrar”. É com este “semear”, de quem tem noção de que “não podemos parar”, que refletir a evolução da narração é fundamental: “percebe-se que a linguagem das bibliotecas e da leitura pública — a narração, transformou-se um instrumento muito importante para comunicar com os públicos”, partilha Cristina.     
É com este trabalho que a equipa reconhece a sua importância na saúde mental: “o nosso trabalho tem uma função importantíssima de saúde pública, de saúde mental. É percebermos isto além da dimensão da formação do leitor. Estamos a falar do sujeito”, completa.

No caso de Sofia, revela a sua preocupação com o ato de ouvir e o papel deste projeto ser tão relevante “também por causa de alimentar uma coisa que está em grave crise que é a escuta.”.

A importância de “ouvir uma história mobiliza a presença, o olhar, o tempo que a história leva a entrar, a ficar. Depois, o tempo que ela leva até ser transmitida implica de novo na forma como nos relacionamos. É uma espécie de cadeia.”. É com estas palavras que Cláudia nos explica o porquê da relevância deste festival e do seu contexto.

Tendo em conta o papel da comunicação, hoje em dia, “uma coisa tão violenta e tão brutal”, Cláudia considera ainda que “temos tantos meios e nunca estivemos tão sozinhos. (…) A relação pela via da palavra (…) que é algo que nos constitui humanos, que nos constitui gente, capazes de estar com o outro é algo extremamente importante”.

Fotografia de cortesia do festival

Passar a Palavra por todas as idades

A programação do festival fala por si, “quando olhas para o programa do festival percebe-se na linha de fundo este olhar. Encontras uma linha de trabalho que celebra aquilo que é feito ao longo do ano, por famílias, porque aquele velho ditado — “de pequenino se torce o pepino” — é mesmo assim. Para a família que mais precocemente lida com estas dinâmicas, as possibilidades de sucesso como gente aumenta. A linguagem é um instrumento fundamental no desenvolvimento e até na recuperação de espaços em jogo e de afetividade que no passar dos dias se vão perdendo e se recuperam nestes dias”, reconhece Cristina, a intitulada “Taquenim”. 

Por entre os diversos momentos de espetáculo destacam-se o “É tão grande o Alentejo”, “Ouvir Juntos”,“Histórias na tela”,“Ofício da Palavra”“Descobrir Juntos – oficinas para famílias”, “Jantares narrados”, o “Palavreado na vila”, “Palavras Para o Século XXIe o“Espetáculo de encerramento com Manuel Dias e Cramol”. 

Biblioteca “como um largo”

Numa perspetiva Alentejana, mas muito presente no festival com “É tão grande o Alentejo”, já vivido no dia 15, a contadora de histórias Cristina recorda-nos ainda de que “os momentos de pensar junto, a atividade de narração, o caminho do narrador, o olhar do escritor sobre a sua obra, são momentos para um público diferenciado”, são atividades e ligações vividas. E a escolha do Alentejo foi uma das coisas que surgiu logo desde o primeiro momento, “perpassa no festival esta preocupação de trazer a cultura popular” em contrapartida com a presença da cultura urbana, também com uma afirmação do feminino. “Há um olhar de cruzar o contemporâneo e o tradicional”, reconhece.

É com este olhar plural que os amantes das palavras reconhecem as bibliotecas que “procuram ter tudo”. Gaspar, depois de nos contar as visitas às bibliotecas distribuídas por alguns países da Europa, afirma que “não é somente a construção da criança como também a consolidação do indivíduo, é a sobrevivência do idoso. O espaço biblioteca tem de ter de tudo para todos e, quem disser o contrário, mente”.

Mercadinho,  fotografia de cortesia do festival

Depois da Fábrica da Pólvora, um festival de outono

A ideia do festival, no primeiro ano, sobressaía na dinamização da Fábrica da Pólvora, que tinha um difícil acesso,. No entanto, perceberam que já não era necessário o festival acontecer lá, devido à extensa programação. No caso do centro histórico de Oeiras, o cenário era outro. “Antes da pandemia, a ideia era fazer algo diferente, mas nada que não se ultrapasse dentro das normas de segurança”, afirma a equipa.                                      
O comércio local é outro fator que permite a mobilização em ambas as partes e, é desta forma, abordado o conceito de comunidade.

“As histórias em idiomas” foram também uma das preocupações desta edição do festival, assim como a divulgação junto das IPPS e a sensibilização na utilização de streaming, junto do público sénior; a componente da participação das famílias “com um tom de preocupação ambiental”; um outro foco, foi a questão da escuta e da língua gestual portuguesa, adotada em duas sessões com intérpretes; o Ofício da Palavra; o mercadinho e ainda o Cinema, que “é também uma outra linguagem”, representada com um filme pensado exclusivamente no festival, de Gonçalo Oliveira.

Nomes como Paula Carballeira, Patrick Mohr, Rodorín, Manuel Dias, Luís Carmelo, Celina da Piedade, Jorge Serafim, Sofia Maul e Antonella Giraldi, fazem parte da programação nacional e internacional do festival.

Trazer para o universo do digital um registo que não é comum em si, será um dos grandes desafios do mundo da narração: “É uma casa onde cabe toda a gente; é palavra e olho no olho; é um desejo comum”, desta equipa e do festival Passa a Palavra.

O Passa a Palavra estará até 18 de outubro, em Oeiras, com entrada gratuita.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de cortesia da organização do Festival Passa a Palavra

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