“O que é que leva uma criança a achar que o único caminho que tem é trabalhar na restauração ou nas limpezas se for mulher e trabalhar na construção civil se for homem? O que é que leva alguém a fechar-se nesta narrativa?”. As questões são colocadas por Paula Cardoso em jeito de desabafo, mas também de forma a promover um debate que visa ser mais audível e interventivo: os problemas de representatividade negra em Portugal mantêm-se e começam nos pequenos detalhes – nos dicionários que nos rodeiam, nos livros infantojuvenis que encontramos nos escaparates das livrarias ou nos critérios socioeconómicos de uma oferta de emprego.

Movida por esse silêncio, de uma sociedade que toma as pessoas negras como sendo “estrangeiras”, mesmo que aqui tenham nascido, Paula criou, recentemente, o Afrolink, um projeto de várias frentes,  que junta profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal – ou com ligação ao país –, com o propósito de partilhar experiências, valorizar competências, criar alianças, divulgar e suportar negócios. Depois de ter começado na rede social Facebook, a comunidade alargou-se e os próximos passos já estão a ser delineados.

Em entrevista ao Gerador, a também jornalista explica as motivações por detrás da iniciativa e os desafios a enfrentar num país que tem diversidade, mas que a mesma não é espelhada nos media, nas universidades ou nos postos de trabalho. Por outro lado, Paula reflete sobre o chumbo da introdução, nos Censos de 2021, de uma pergunta sobre a origem/pertença étnico-racial, sobre as políticas de ação afirmativa que têm sido debatidas em Portugal e tantos outros factores que, como diz, têm impacto na construção pessoal de cada um daqueles rostos negros a quem todos os dias são negados direitos elementares.

“As narrativas que entram têm sempre que ver com minorias étnicas e com superação, isto é, de alguém com uma história tipo Oprah e Obama, ou então com criminalidade e violência, que é a tal narrativa da exclusão. Não há um meio termo. Não há aquela história do cidadão comum. Quando falo em promover uma maior representatividade, o que defendo é que isto seja diluído por todos os aspectos da sociedade”, sintetiza.

Gerador (G.) – O projeto começou no Facebook e foi-se materializando a partir dessa comunidade. O que levou à criação do Afrolink?
Paula Cardoso (P.C.) –O processo de criação do Afrolink começa com a Força Africana, que é um projeto que tem o foco de promover uma maior representatividade negra em livros infantojuvenis. A partir de determinada altura, comecei a sentir a necessidade de encontrar livros para os meus sobrinhos que refletissem sobre a sua identidade. Quando não encontrei nada, comecei a perguntar a pessoas que são mães, nomeadamente às minhas irmãs e amigos, se era eu que não estava a conseguir encontrar ou se, de facto, não existiam e cheguei à conclusão de que não existiam. Então, a partir de um determinado momento começo a pensar sobre que é que eu podia fazer para alterar isso. Como sou jornalista, a primeira coisa que me ocorre é procurar um caminho mais factual,de procurar histórias tradicionais dos PALOP, que é a realidade na qual eu conseguiria navegar mais facilmente por causa da língua. Depois, tentar dar uma roupagem contemporânea a essas histórias e trazer isso para um público mais jovem. Entretanto, neste processo vou à procura de pessoas que me possam orientar nessa temática e é nesse vazio que começo. Comecei a identificar que é difícil encontrar em Portugal especialistas que se debruçassem sobre esta questão da literatura africana, que já tivessem alguns estudos ou que fossem já reconhecidos. Aí apercebo-me desse tal vazio de não existirem. Além disso, queria que fossem africanos ou afrodescendentes. Mas quando não encontro, começo a questionar o porquê. Porque é que isto acontece? Porque é que não temos académicos negros a debruçar-se sobre estas questões? Ultrapassei esta situação, porque não consegui materializar o projeto por essa via,e crio, então,uma história ficcionada, com alguns elementos de actualidade, mas quero fazer isto com uma ilustradora que tenha a mesma pertença que eu. Quando eu digo a mesma pertença falo de uma africana criada nesta diáspora ou então de uma afrodescendente, que à partida reconhecesse esta narrativa de uma forma mais vivencial. Mais uma vez, começa a procura e nada. Começo a questionar-me cada vez mais: mas porque é que isto acontece? É uma falta de presença digital? É porque não existem mesmo? E começo também a revisitar todo o meu percurso a nível profissional que, depois, obviamente,recua ainda mais e vai parar ao meu percurso académico. Onde é que começa este desaparecimento? Onde é que começo a deixar de ter essas referências ao meu lado? Onde é que começo a deixar de ter pares negros? Constato que é à medida que vou ascendendo nos estudos. Começa logo no secundário, em que eu era a única da minha turma. Depois, passei para a universidade, em que os meus colegas negros eram maioritariamente bolseiros que vinham dos PALOP ao abrigo de certos programas que existem. Que tivessem feito o percurso todo em Portugal, diria que na minha turma mesmo, talvez existissem apenas duas pessoas.

G. – E portanto faltava sempre essa proximidade.
P. C. – Faltava. Só que ao revisitar todo o meu percurso a primeira coisa que me vem à cabeça é que durante muito tempo estive iludida com o discurso da meritocracia. É preciso dizê-lo, porque nós engolimos aqui uns chips e achamos que aquilo faz sentido e levas a tua vida como se nada fosse. Isto porque se eu, de facto, à minha volta vou sentindo este apagamento ou esta inexistência,naturalmente não vou estranhar que eles também não existam quando eu estou a ocupar uma posição que é considerada diferenciada.

G. – Mas há um ponto em que acaba a ideia de meritocracia e começa a efetiva falta de representatividade.
P. C. – A questão é que eu sempre notei essas ausências, como é óbvio. Mas até determinada altura da minha vida atribuo esse fenómeno à tal questão da meritocracia. Porque se eu não tive colegas no secundário, como é que eu vou esperar que numa posição para a qual é exigida uma licenciatura, eles lá estejam? Não faz muito sentido. Portanto, se as pessoas ficaram para trás, naturalmente que não vou apanhá-los mais à frente. Mas aqui a questão é: porque ficaram para trás? E é sobre isso que começo a refletir.

G. – Começaste a perceber porque é que muitas delas foram relegadas ou simplesmente desistiram?
P. C. –Sim, porque é que elas foram ficando para trás. E há uma outra questão que apareceu no meu percurso só porque estive em Angola e que tem duas dimensões: uma delas tem que ver com os meus colegas brancos, normalmente chefias brancas, porque Angola continua a reproduzir uma lógica colonial a nível de posições. Os colegas que eu tinha em posições diferenciadas, todos eles brancos, vinham de Portugal com essas posições já diferenciadas. Não era o meu caso. Eu fui assumir posições de chefia em Angola,mas em Portugal nunca fui considerada para as mesmas. Chego a Angola já com um estatuto diferente em termos profissionais eaí começo a lidar, num outro nível, com as chefias portuguesas e onde percebo que, de facto, a antiguidade é um posto. Muitas daquelas pessoas que ali estão há décadas não trabalham nem querem trabalhar. Quando percebes que isso não existe e que em muitas situações não reconheces competências àquelas pessoas é frustrante. E depois, por outro lado, começo a contactar, e esta é a outra dimensão, com profissionais negros super qualificados que saíram de Portugal ou que passaram por lá e que não tiveram nenhuma oportunidade digna de nota. Tudo isso misturado levou-me a este projeto que serve para tentar perceber que, mesmo não tendo dados étnico raciais que o sustentem, se é o meu umbigo ou se é uma coisa mais alargada.

G. – É aí que começas a pensar na estrutura do projeto?
P. C. – Sim, começo a matutar nessa ideia de criar uma plataforma, isto é, alguma coisa que permita juntar estes profissionais, mas sempre numa perspectiva de «quem somos nós? O que andamos aqui a fazer, como é que nós nos podemos fortalecer enquanto comunidade?». E porque se eu tenho um projeto e que quero que o mesmo tenha uma presença profissional mais identitária, não sei, a menos que tenha dentro do meu círculo de amigos alguém que me indique um profissional daquela área, onde encontrá-lo. Começo então a navegar nesse universo e a tentar perceber o que é que eu posso fazer. Faço desde logo um programa de ignição de negócios para perceber que passo é que eu devo dar a esse nível. Porque uma coisa é teres uma ideia, outra coisa é como é que isto se pode transformar num projeto mais sério. A determinada altura, assumi o risco de “chutar o balde” e agarrar aquilo que eu queria. Despeço-me do Novo Jornal, em Angola, e começo a trabalhar nisto mais afincadamente. Foi então nesse programa que me disseram para não lançar um projeto e investir num site sem antes estudar melhor quem é a comunidade. Daí o grupo fechado no Facebook que surge, justamente, para testar a ideia.

G. – E a ideia era encontrar pessoas – fossem afrodescendentes ou africanos – que ocupassem profissões e posições variadas?
P. C. – Exatamente. Aqui o ponto era perceber que tipo de histórias é que me rodeavam. Porque, por exemplo, os meus amigos negros quase todos, diria talvez 90 por cento, tem formação superior. E a partir do momento em que constato isso, começo a questionar a questão da meritocracia e a desconstruir o porquê de não as ver representadas.

G. – A tal falta de destaque e representatividade.
P. C. – Sim. Porque é que quando ligo a televisão ou abro uma revista ou um jornal vejo sempre as mesmas caras, os mesmos nomes? Porque é que não existe esta diversidade que nós temos no país espelhada nos media? Porque é preciso não esquecer que a ideia que nós temos de mundo, das sociedades em que vivemos, é muito reflexo daquilo que é produzido pelos media. Como é que funcionam as redações? Funcionam na base de «tenho aqui o meu caderninho de contactos, o colega também» e normalmente quando temos algum trabalho para fazer é para ontem. Então estás sempre a ouvir as mesmas pessoas e nós não somos formados nem programados para diversificar fontes. Para exemplificar: se vou fazer um trabalho sobre famílias,devo apresentar fontes que evidenciem diversidade que nós temos na nossa sociedade. Se eu vou falar de famílias, vou querer que esteja representada uma família monoparental, uma de afrodescendentes, uma homossexual, etc. Tudo o que nós pudermos agregar a esse trabalho é importante, só que depois temos a realidade em que, a partir do momento em que começas a trazer isto para o nível das chefias começas a encontrar resistência. Percebo que seja difícil para um jornalista contrariar isso, porque tu podes tentar fazer uma vez, mas se à segunda encontras resistência deixas de o fazer porque dá muito trabalho e por ser uma batalha que, muitas vezes,não queremos travar.

G. – Mas sentes que editorialmente há pouco espaço nos media tradicionais para esse tipo de narrativas?
P. C. – Há pouco espaço porque as narrativas que entram têm sempre que ver com minorias étnicas e com superação, isto é, de alguém com uma história tipo Oprah e Obama, ou então criminalidade e violência, que é a tal narrativa da exclusão. Não há um meio termo. Não há aquela história do cidadão comum. Quando falo em promover uma maior representatividade, o que defendo é que isto seja diluído por todos os aspectos da sociedade. Nós temos uma série de investigadores na academia que se debruçou sobre as mais variadas áreas e eu não os vejo a serem chamados para produzir opinião, a menos que tenha que ver com questões raciais ou com questões étnicas. Aí é que eu vejo um rosto. Por exemplo, a revista Cristina fez, a propósito de todas estas convulsões, uma edição toda ela dedicada a representatividade com o mote “Uma questão de justiça”. De uma ponta a outra tinhas rostos negros, mas aquilo para mim não tinha importância nenhuma. O que eu gostaria de ver era uma reflexão sobre se a equipa dela – na altura ela estava na SIC – tem membros negros. E já agora, quem pensou aquela revista? Inovador seria pegar e entregar aquela revista a uma equipa negra. Isso é que era um manifesto digno de nota. 

Nós temos uma série de investigadores na academia que se debruçou sobre as mais variadas áreas e eu não os vejo a serem chamados para produzir opinião © Paula Cardoso

G. – E o nome Afrolink surge naturalmente?
P. C. – Era também porque nesta questão de redes, do mundo digital, quanto pensas em rede profissional, a primeira que vem à cabeça é o Linkedin. Por outro lado, queria que a palavra “afro” estivesse presente. Na realidade, o primeiro nome era Afrolinked. Só depois, no tal programa de ignição de negócios, em que tens de apresentar a tua ideia, é que me dei conta de que as pessoas não percebiam o ‘linked’. E foi aí que acabou por ficar apenas com Afrolink. Mas a ideia era essa, de estarmos ligados por laços. Gosto muito daquela ideia de como é que é fácil os laços ficarem nossos quando nós não temos essa capacidade de nos ligarmos uns com os outros. Era, no fundo, para jogar com isso e com as origens africanas, que todos os negros têm, estejam eles onde estiverem, por mais recuadas que sejam.

G. – Mas este programa de ignição acontece ainda antes do grupo de Facebook?
P. C. – Sim, porque o objetivo era sobretudo o de estruturar, partindo daquele reconhecimento de que nós precisamos de formação quando queremos transitar entre áreas, e em que temos de reconhecer que temos de aprender. Eu não sabia nada sobre o mundo empresarial, então há conceitos e há etapas na constituição de um projeto que nós, quando estamos a começar e mesmo quando já estamos no caminho, que nos esquecemos, porque normalmente tens um objetivo e dificilmente consegues perceber ou descer à terra para saber que há ainda uma longa escadaria por subir. E obviamente a questão dos apoios também era uma questão que queria explorar. Esta questão da personalidade jurídica. O que é que é mais vantajoso quando empreendes? Qual é a personalidade jurídica mais adequada para o projeto que estás a desenvolver? É uma associação? Faz mais sentido ser empresária em nome individual? Isto são tudo noções importantes e é preciso que reconheçamos que há pessoas que têm percursos em determinadas áreas e que é benéfico que nós tenhamos a humildade de procurar suporte.

G. – Mas atualmente o Afrolink já está classificado?
P. C. – Eu vou avançar com uma associação. É o que neste momento está sobre a mesa, até porque ao nível das alianças que entretanto foram criadas, tenho pessoas com quem tenho articulado que têm empresas. E como já sei que tenho pessoas da minha confiança, profissionais em quem eu acredito plenamente, não só pelas competências mas pela visão que têm para a construção de uma comunidade, essa parte está salvaguardada. E hoje em dia, quando começas a navegar nestas áreas dos financiamentos percebes que é fundamental fazer parcerias.

G. – De qualquer das formas, quem entra no site percebe que há várias vertentes. Há uma vertente editorial, mas há também uma vertente empresarial. Como é que foi pensada a sua estrutura em termos de conteúdo?
P. C. – Essa estruturação foi o quebra-cabeças em todo o processo e continua a ser, porque aquilo que está neste momento online já não é aquilo que acho que faça sentido estar disponível. O site foi lançado a 29 de junho e, logo à partida, comecei a sentir que havia necessidade de arrumar aquilo de outra forma. Partindo do princípio que tens de avançar, eu sabia que havia ali afinações a fazer. De qualquer forma,queria que o site tivesse esta dimensão de, ao abrir, se encontrarem rostos negros e histórias negras. Eu queria que isto saltasse à vista, que fosse o primeiro impacto. Mas como é que isso se faz do ponto de vista do design? Para não ser uma coisa pesada em termos de imagem e para ser ao mesmo tempo funcional. A parte dos artigos (editorial) não estava pensada inicialmente. Só que tu não apareces no ranking do Googlese não alimentares o site. Se eu me cingisse à questão dos perfis, não teria vida. Daí a parte editorial que também parte de uma constatação, a partir do grupo fechado de Facebook, que é o facto de que, cada vez que eu partilhava uma história de alguém da comunidade, aquilo gerava um engagement tremendo. Eu comecei a olhar para isso como um fator de empoderamento, como fatorque motiva outros profissionais que também tenham aquelas aspirações, sobretudo crianças e jovens. Porque adulta, bem ou mal, vou fazendo as minhas escolhas com maior ou menor consciência e já tenho aqui uma construção feita. Por exemplo, no meu caso eu não tive quase referências nenhumas. Eu começo a considerar o jornalismo como uma possibilidade a partir do momento em que eu vejo um pivot negro na televisão. Foi José Mussuaili, na TVI. Só a partir dessa altura é que o jornalismo começou a ser uma opção nas minhas escolhas.

G. – De encontrares algo que te funciona como semelhante.
P. C. – Exatamente. E de achares que é possível a partir desse tal reflexo. Porque é que as meninas crescem a achar que determinadas posições não são para elas? Porque toda a sociedade lhes diz que aquilo é uma função masculina. E quando tu começas a ver os teus pares a ocupar essas posições, tu começas apensar, «OK, aquilo também é uma possibilidade». E alargar este espetro é muito importante quanto te estás a construir como pessoa. E porque é que isso também é tão importante para mim? Porque no meu percurso já tive a possibilidade de estar em contextos considerados desfavorecidos, em que estive a trabalhar com crianças e jovens, e falo com eles sobre as suas perspetivas. Para mim, é demolidor ter percebido em muitos momentos destas conversas um denominador comum que é o do auto boicote, como a postura de «eu nem sequer tenho direito a querer ser alguma coisa». O que é que leva uma criança a achar que o único caminho que tem é trabalhar na restauração ou nas limpezas se for mulher e trabalhar na construção civil se for rapaz? O que é que leva alguém a fechar-se nesta narrativa?

G. – Que começa na infância e nos tais livros.
P. C. – Tudo começa aí, na nossa infância, quando todos os livros e todas as imagens que consomes, seja na televisão ou não, são de um mundo que é branco. A própria aceitação da imagem negra é um processo que não é fácil. Daí existir a tal questão da rejeição da boneca negra pelas crianças negras, porque o ideal de beleza que se tem é um ideal branco. E por muito que eu consiga perceber o alcance da imagética, há pessoas que não percebem. Por exemplo, lembro-me de falar sobre a questão dos livros da Força Africana e tive um colega branco a perguntar, «mas por que é que todos os teus protagonistas são negros?», e eu perguntei «mas tu alguma vez te perguntaste porque é que todos os livros têm protagonistas brancos? Isso foi alguma coisa que questionaste enquanto foste crescendo?». Ele parou e disse, «pois, tens razão». Para mim, é natural que aquela pessoa nunca tenha pensado naquilo, mas teve essa capacidade de ouvir e de perceber qual era o meu ponto.

G. – Estamos num período bastante inflamado em termos do discurso político. Achas que isso acentua a necessidade de um projeto como este?
P. C. – Não sei se acentua. Acho é que este momento é especial no sentido da receptividade. Ou seja, há pessoas que têm predisposição para o diálogo e estão no poder. Além disso, existem projetos que criam interesse e, estando na ordem do dia, acabam por trazer para a discussão pessoas que antes não estavam, sendo que temos também órgãos de comunicação social interessados em trazer estas discussões para as suas páginas. Isto está a acontecer, portanto é positivo. Nem sempre é feito nos termos em que deveria ser? Não, mas acho que todos nós estamos a aprender a dialogar. Por isso é que criei uma secção com perguntas e respostas que nasce precisamente do facto de, ao longo deste processo, ter sido confrontada por várias pessoas com todo o tipo de ilações. Mas eu percebo,porque tudo o que é novo gera estranheza e desconfiança e se tu não estás minimamente consciente das desigualdades e da importância de dar voz a comunidades que são silenciadas, vais estranhar.

G. – É por isso que a questão dos censos, e a possibilidade de se integrarem quotas étnico-raciais, é essencial para o Afrolink?
P. C. – Sim, para mim, a questão é essencial, por muito que exista um núcleo de pessoas que entende que a questão pode ser ainda mais prejudicial para a luta. Mas não me revejo nada nesse tipo de argumentação. Acho que é importante e fundamental que se recolham os dados para que se perceba que Portugal não é branco. Que as pessoas comecem a retirar esse tipo de mindset que ainda hoje prevalece no país. Quando olham para mim sou sempre a “estrangeira” ou a“africana”, e não reconhecem que eu posso ter nascido cá. Além disso, é fundamental, porque não foi por não existirem os dados que eu deixei de estar conectada a um grupo de pessoas que é preguiçoso, que não trabalha e até que cheiram mal. Ainda hoje me recordo de ir ao dicionário com as minhas irmãs à procura da definição de “catinga” e o dicionário dizia “mau cheiro proveniente da pele dos negros”. Ora, eu sou uma criança que estou a alfabetizar-me e confronto-me com esta definição sobre a minha pertença. Quando há crianças que evidenciam traumas e problemas a nível de saúde mental que são decorrentes destas realidades e que nem sempre, felizmente que já há psicólogos negros a tratar dessas questões, existiria esse acompanhamento, o que acontecia era uma desvalorização da discriminação racial e do peso destas experiências para aquele quadro clínico. E isto para dizer que a desigualdade sempre esteve presente no meu percurso, portanto ter dados técnicos que depois vão trazer desigualdade, não me não faz sentido nenhum. Esses dados vão permitir perceber quantos negros é que estão desempregados e quantos é que têm licenciaturas, por exemplo. Porque é que em questões de paridade de género já temos leis? Porque se demonstrou que as desigualdades existiam, a nível salarial, a nível de representatividade, etc.

G. – Mas concordas que nessa integração das quotas deveria haver várias opções de resposta?
P. C. – O que eu sugiro às pessoas que contestam esta recolha é que vejam como é que a equipa de trabalho iria colocar as questões. Havia ali uma série de auto declarações em que cabe ali tudo. É um processo que parte do esforço de uma equipa multidisciplinar para chegar àquelas categorias. E foi um trabalho muito bem conseguido, devo dizê-lo.

G. – Estamos a falar do projeto que havia em Portugal?
P. C. – Sim. Nessa altura, existia um grupo de trabalho que foi criado com esse objetivo de incluir essa tal questão e isso foi feito.  Só que o que é ridículo em todo o processo é que depois de reunirem durante oito ou dez meses, a conclusão foi de que não havia tempo para integrar aquela questão na recolha censitária. Então, porque é que iniciaste aquele processo se não havia tempo? E mais do que isso, decorreu um inquérito que foi feito à população para perceber se havia abertura para e a conclusão foi esmagadora. As pessoas não tinham qualquer objeção que aquilo entrasse.

G. – Mas relativamente a este tipo de políticas, há também o caso recente da Lei da Nacionalidade. Sentes que tem sido feito um esforço nos últimos anos para haver políticas de ação afirmativa?
P. C. – Acho que o esforço que tem sido feito é do movimento negro. Existe uma pressão que vem da sociedade civil e por parte de grupos que advogam a igualdade e a plena cidadania e que percebem que, a partir do momento em que um cidadão nasce em Portugal, que não conhece outra realidade a não ser Portugal e que não consegue ser reconhecido como português, isto é uma falha elementar. E quando te retiram esse direito que cidadão é que estás a construir? E mais, ao fazê-lo assim, estás a penalizar incontáveis portugueses por causa da exclusão em que eles nasceram. Estamos a falar de pessoas cujos pais não tinham a situação regularizada porque é difícil do ponto de vista do acesso à informação, mas também do ponto de vista financeiro, o que resulta nos filhos a levarem por tabela. Isto é justo de algum perspetiva? E se não fossem os tais ativistas a fazerem finca-pé e a não desistirem, não acredito que isto fosse sequer uma questão a ser considerada.

G. – Sei também que questionaram o Priberam por causa da definição de cor de pele. O que é que me podes contar sobre isso?
P. C. – Esse contacto com o Priberam já tem mais de um ano. A determinada altura, por causa da questão dos lápis cor de pele, que acontece muito na escola, em que se pede para usar um lápis cor de pele e eu fico a olhar para a minha e a pensar «mas qual é que é a minha cor de pele?». Felizmente que começámos a ter marcas a alargar a palete. Não são muitas e não são de fácil acesso, mas em todo o caso acaba por ser o melhor retrato daquilo que é acessível. Começaram a surgir essas marcas e num belo dia fui de novo ver a definição ao dicionário e vejo que diz “tonalidade entre o bege, o acastanhado e o rosa”. A minha questão é o singular disto. Não são tonalidades, diz que é uma tonalidade. A partir do momento em que vejo isso pensei «eles ainda não perceberam» e como o Priberam até tem aquele call to action de sugestões, mandei um primeiro email a sugerir alteração. Até hoje não obtive resposta. Já mandei mais emails, mas ainda nada.

G. – Falaste há pouco da necessidade de parcerias. Esse é um dos próximos passos do Afrolink?
P. C. – Sim, sem dúvida. Eu quero que seja possível, sem teres de ler, acederes a uma série de marcas com esta pertença identitária. Quero sobretudo que, dentro da comunidade, se criem essas alianças e essas parcerias. Quero ter uma bolsa de emprego e quando falo em bolsa de emprego, falo em alianças que surjam fora da comunidade também, com pessoas que reconheçam que na cultura empresarial em que vivem é necessário diversificar os quadros. Não sabem como o fazer, mas sentem que existe essa necessidade e precisam de um interlocutor? O Afrolink facilita essas ligações. Isto é algo que considero essencial e porque pode ajudar até mesmo os recrutadores a perceberem que os critérios de seleção que estão definidos excluem pessoas que vêm de contextos socioeconómicos desfavorecidos. As empresas têm consciência disso? Não sei até que ponto é que terão. Também tenho o sonho de fazer disto uma redação e sonho vir a ter uma editora para publicar autores negros, questionando a forma como estes estão a ser trazidos para o mercado português, percebendo quem é que está a traduzir. Já temos um mercado que está interessado em ler estes autores, mas depois trazem estas vozes sem perceber que era muito importante que a tradução dos mesmos tenha esse cuidado, de haver quem leia e dizer ao que isto soa, para que haja uma tradução mais correspondente a certas formas de falar. Será que o mercado editorial já pensou nisso? Não sei se pensou. Acho que as pessoas estão tão convencidas que basta trazer o autor e traduzir que não se questionam sobre isto, mas era importante que se começassem a questionar.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Libânia Fernandes

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