Escreveu Jorge de Sena:

Uma pequenina luz bruxuleante

não na distância brilhando no extremo da estrada

aqui no meio de nós e a multidão em volta

une toute petite lumière

just a little light

una piccola… em todas as línguas do mundo

uma pequena luz bruxuleante

brilhando incerta mas brilhando

aqui no meio de nós

entre o bafo quente da multidão

a ventania dos cerros e a brisa dos mares

e o sopro azedo dos que a não vêem

só a advinham e raivosamente assopram.

Uma pequena luz

que vacila exacta

que bruxuleia firme

que não ilumina apenas brilha.

Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

Muda como a exactidão como a firmeza

como a justiça

Brilhando indefectível.

Silenciosa não crepita

não consome não custa dinheiro.

Não é ela que custa dinheiro.

Não aquece também os que de frio se juntam.

Não ilumina também os rostos que se curvam.

Apenas brilha bruxuleia ondeia

indefectível próxima dourada.

Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

brilha.

Uma pequenina luz bruxuleante e muda

Como a exactidão como a firmeza

como a justiça.

Apenas como elas.

Mas brilha.

Não na distância. Aqui

no meio de nós.

Brilha.* 

O regresso aos palcos é para mim essa pequenina luz, a luz da vitalidade, da esperança, da resistência, a luz matricial, a luz bálsamo.

Não me é fácil discorrer sobre este assunto e sei bem o porquê:

Quando todas as portas de todos os teatros, salas de espetáculos, auditórios se fecharam pela primeira vez, ainda as batentes da incredulidade se agitavam em mim, inconscientes certamente, mantendo-se assim por muito tempo.

 Esta era uma realidade difícil de digerir e demorou a ser aceite. Só compreendi a extensão da minha mágoa quando, há pouco, muito pouco, pude de novo cantar para uma sala com público.

E lá estava ela, pela primeira vez em cinco meses, visível à minha alma: “uma pequena luz bruxuleante, brilhando incerta mas brilhando, aqui no meio de nós, entre o bafo quente da multidão…

Passou-se um ano em que todas as vezes em que pude cantar ao vivo foram poucas e me souberam a pouco.

Construí muros à volta da minha revolta e aos poucos fui-me resignando.

A pequenina luz bruxuleante tinha desaparecido...aprendi a aceitar que talvez não a voltasse a ver, ainda que sabendo da sua existência, ela tinha-se extinguido quase por completo para mim e eu já nem lutava para a rever.

O foco foi canalizado para outros lugares da minha existência e nessa realidade  novas portas de percepção foram dando os seus passos tímidos...depois menos tímidos, agora cada vez mais confiantes... mas a minha luz pequenina, nem vê-la.

A vida foi-se preenchendo como sempre com outras actividades e cada vez era menor o espaço e o tempo para a procurar. 

Comecei a sentir algo parecido com medo de voltar a cantar ao vivo, uma sensação de ansiedade, de não saber exatamente o que fazer, como se tivesse desaprendido tudo mas mesmo tudo, era tão confuso que já nem fazia sentido. Era como se a parte dedicada ao palco estivesse tão intimamente ligada à percepção de mim mesma que, ao abdicar dela, uma grande parte do que me constrói, se tivesse ido também, como um morro desfeito pelas enxurradas. O mais estranho é não me ter apercebido disso: neguei, tornei dormente, tornei-me tão indiferente a esse facto que não o pus mais em causa.

E foi então, que no 13º dia de Maio, qual revelação mística, com um enorme rallentando de consciência da minha parte, ela “desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha. Uma pequenina luz bruxuleante e muda. Como a exactidão como a firmeza, como a justiça.” Essa sensação de comunhão, que nos transcende, que nos torna unos, materializa-se no meu espírito através do ritual da música, no momento irrepetível do concerto. Neste ritual, para mim sagrado, todos os que estão presentes são necessários, de uma forma ou de outra, todos os elementos são imprescindíveis. 

É um acto de entrega e aceitação, desapego e cumplicidade extremas e sem a possibilidade de materializar esta devoção, tenho sido “metade arrancada de mim”.

Pedaço de mim, Chico Buarque

Oh, pedaço de mim

Oh, metade afastada de mim

Leva o teu olhar

Que a saudade é o pior tormento

É pior do que o esquecimento

É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim

Oh, metade exilada de mim

Leva os teus sinais

Que a saudade dói como um barco

Que aos poucos descreve um arco

E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim

Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim

Oh, metade adorada de mim

Lava os olhos meus

Que a saudade é o pior castigo

E eu não quero levar comigo

A mortalha do amor

Adeus

* Uma Pequenina Luz, 1949, Jorge de Sena

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi