Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,

Vibra uma imensa claridade crua.

De cócoras, em linha os calceteiros,

Com lentidão, terrosos e grosseiros,

Calçam de lado a lado a longa rua.

Cesário Verde, poema “Cristalizações”

Por quem habita pela bela “Lisboa, menina e moça” sabe que a inquietação do quotidiano, dos portugueses, paira pelo ar. Aliás, não é novidade que todos os dias somos expostos a uma quantidade absurda de estímulos visuais e auditivos, seja através do ruído dos carros ou do movimento apressado das pessoas.

Dada toda esta azáfama da vida agitada lisboeta a que estamos sujeitos, muitas vezes acabamos por fazer cair no esquecimento pequenos pormenores que estão ao nosso redor ou, neste caso, debaixo dos nossos pés. É este o caso da calçada portuguesa. Na maioria, esta arte, em Lisboa, é representada pelas cores do preto e do branco, resultantes do calcetamento com pedras de basalto e calcário, produzindo-se assim padrões simétricos de beleza pelas ruas. Todavia, se percorrermos as diferentes regiões portuguesas, de norte a sul, apercebemo-nos de que é possível encontrá-la em diversas cidades, sem ser a cidade capital, de variadas formas, cores ou tamanhos. De superfície lisa e brilhante, a pedra torna-se mais cintilante em dias de chuva e, por vezes, escorregadia. Muitas vezes é representada por desenhos, por emblemas, outras vezes, até só por frases.

Enfim, parece apenas ser necessário dar alas à nossa imaginação e à criatividade, já que tudo é possível nesta arte de decorar ruas e praças. Mas por onde se encontram os seus antecedentes e com que propósito surgiram?

Pode parecer mito, mas, anteriormente, às calçadas portuguesas existiram as calçadas funcionais, de pavimentação viária. Estas tiveram origem por conta de um rinoceronte chamado Ganga. Sim, a história passou-se por volta de 1500 quando o rei D. Manuel I de Portugal recebeu de presente um rinoceronte ornamentado. Rapidamente, o animal tornou-se um êxito, e o rei quis levá-lo consigo aos cortejos das festividades do seu aniversário. No entanto, o gigante mamífero, de quase duas toneladas, andava pelas ruas e acabava por sujar as patas de lama. Assim sendo, o rei ordenou que fosse pavimentada a rua com pedras de granito vindas da cidade do Porto, a fim de resolver o problema.

A primeira rua calcetada acabou por ser a Rua Nova dos Mercadores, antes conhecida por Rua Nova dos Ferros. A aposta na calçada data dos anos de 1498 e 1500.

Mas o pior estava para vir. Dizemos o pior porque algo haveria de causar toda a destruição da Baixa pombalina. O terramoto de 1755. Contudo, há males que até vêm por bem. O plano de reconstrução da Baixa, que viria ser conhecida por pombalina, veio a priorizar a importância da rua no desenho urbanístico. Ainda assim, todo o processo de reconstrução foi demorado. A realidade é que só passado um século, já, no ano de 1842, o governador de armas do Castelo de São Jorge, o tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado, engenheiro e conhecedor das técnicas de construção romanas, ordenou que fosse calcetada a Praça do Castelo de São Jorge, utilizando pedras de calcário branco e basalto negro. Na altura, a mão de obra utilizada foram os presos da cadeia do Limoeiro, chamados grilhetas. Oficialmente, nascia assim a primeira calçada decorativa, mais conhecida, nos dias de hoje, por calçada portuguesa. Hoje, a maior homenagem a esta “espécie de artesanato” pode ser deslumbrada na Praça dos Restauradores desde 2017, em Lisboa.

Ainda assim, de nada vale falar desta arte, e da sua origem, sem se falar dos seus artesãos: os calceteiros. Diariamente, através do trabalho manual, com o auxílio de um martelo, estes artífices colocam pedra sobre pedra até formarem os desenhos majestosos que, nos dias de hoje, contemplamos. Em tempos passados, esta arte chegou mesmo a ser uma das profissões com maior reputação, chegando a empregar, nos anos 40 e 50, mais de 400 calceteiros. Aliás, foi até estruturada, nesse tempo, uma escola na cidade de Lisboa para a formação destes artesãos.

Fotografia disponível via Câmara Municipal de Lisboa

No entanto, e olhando para o panorama atual do país, esta é agora uma profissão em risco de desaparecer. São poucos aqueles que ainda se dedicam a este tipo de trabalhos, e os que se dedicam ou não têm uma formação adequada, ou são profissionais já de uma faixa etária avançada.

Quem nos confirma este panorama é Paulo Almeida. Calceteiro desde 1986, com 53 anos, é na cidade lisboeta que, atualmente, põe em prática a paixão por esta arte. Apesar do “amor à primeira vista”, não esconde o descontentamento com o panorama precário que a área enfrenta.

“Para além de ser uma profissão muito penosa fisicamente, e em tudo que rodeia, é uma arte que exige trabalho de cócoras o dia todo. Hoje em dia, os horários são mais reduzidos, mas lembro-me de que quando comecei trabalhávamos oito horas seguidas. Ora, andar o dia todo de cócoras, as mazelas começam a sentir-se pelo corpo. No meu caso, já fui operado ao joelho, outros colegas já foram operados à coluna. Grande parte do nosso trabalho diário é através do contacto com o pó da pedra, ou seja, na maioria, a gente sofre ainda de problemas respiratórios. A profissão em si é uma profissão do meio ambiente. Tanto nos sujeitamos ao sol como à chuva, e isso tudo junto causa nas pessoas um envelhecimento mais rápido.”

A estas condições “penosas”, acrescenta que hoje são cada vez menos os profissionais que a sabem praticar e que têm gosto pela calçada. “Todo o trabalho de calçada artística tem de ter o seu tempo e o seu espaço. As pessoas não são máquinas e tem de se ter gosto a fazer. Infelizmente, somos cada vez menos. Já não existe mais quantidade nem qualidade de trabalho.”

A somar a isto, acrescenta que é uma arte mal paga. “Nem sequer é atrativa para os mais jovens. Para dar um exemplo concreto, recentemente abrimos vagas para o nosso quadro, com dez vagas, e só entraram três pessoas.”

Fotografia disponível via Câmara Municipal de Lisboa

Face à ameaça de extinção por falta de profissionais, Paulo enumera ainda outro dos maiores perigos da calçada portuguesa: os automóveis. “Hoje em dia, temos vindo a dizer que o maior perigo para as calçadas até é o trânsito em cima dos passeios. Costumo dizer que os lisboetas conseguem ter o estacionamento mais caro do mundo. Quando digo isto, as pessoas ficam muito sérias a olhar para mim.”

“Se as pessoas soubessem o que custa fazer uma calçada na Avenida da Liberdade, ou em outro lado, e ter carros lá estacionados em cima… Se soubessem o preço dos materiais que lá estão da pedra branca, da pedra preta.... É um atentado à nossa cultura, as pessoas não respeitam. Vemos um maior gosto por parte dos turistas e um desinteresse crescente por parte dos portugueses”, realça.

Alerta ainda que se não se tomarem medidas para enaltecer a calçada e os seus profissionais, dentro de dez a 15 anos será uma arte em extinção. Existirão, sim, “calçadas mal executadas e sem qualidade”, finaliza Paulo Almeida.

Para fazer frente a estes obstáculos, o primeiro passo em direção à valorização da calçada foi dado. A candidatura de inscrição da calçada artística portuguesa no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Pelo menos, é essa a vontade da Associação Calçada Portuguesa (ACP), que apresentou no dia 19 de março a candidatura “Arte e Saber-Fazer da Calçada Portuguesa”. No horizonte, está ainda a candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade, junto da UNESCO.

Para António Prôa, secretário-geral da Associação Calçada Portuguesa, a candidatura justifica-se, “já, que a calçada tem um potencial imenso enquanto elemento de identificação e, enquanto, expressão de valorização do espaço público. Ter nas ruas a reprodução dos tapetes que temos em casa, oferece uma sensação de conforto, de requinte, da distinção do espaço público.”

Fotografia disponível via facebook António Prôa

Apesar desta singularidade, reconhece que a calçada portuguesa tem desvantagens associadas a ela, o que pode levar a uma maior desvalorização por parte dos portugueses. “Ainda, existe um desconforto muito grande nas calçadas, porque, por vezes, a calçada é mal construída, e isso provoca insegurança.”

“Mas isso acontece porque deixou de haver calceteiros devidamente formados e em número suficiente para garantirem uma boa manutenção da calçada. Portanto, por um lado, assistimos a um sentimento do desconforto aliado a uma fragilidade da profissão, mais o fator extrativo da pedra que também está em queda. São estes fatores que nos levaram a concluir que se não se fizesse nada, de facto, existiria um risco de perda desta arte e da existência desta expressão da nossa identidade e cultura”, acrescenta António.

António Prôa realça que a solução tem de passar por vários planos. “O primeiro passo é valorizar a profissão e criar condições para que seja atrativa. É uma profissão muito dura, mal paga e desconsiderada. Portanto, nós queremos atingir uma maior valorização da profissão para que isso permita, igualmente, um maior reconhecimento no plano de recuperação. Por outro lado, queremos garantir a transmissão de conhecimento para que as pessoas que queiram seguir essa profissão possam receber a formação devida. Cabe-nos a nós usar este bem à nossa volta para os turistas olharem para o nosso país de forma diferenciada. Temos de valorizar aquilo que nos distingue.”

Atualmente, essa “formação devida”, referida por António Prôa, é assegurada pela Escola de Calceteiros de Lisboa.

Luísa Dornellas, diretora da escola de calceteiros de Lisboa, começa por explicar que a escola surgiu em 1986, por já na altura “existir uma preocupação do desaparecimento de calceteiros e mestres”. A verdade é que essa preocupação do saber-fazer se tem mantido até aos dias de hoje com o envelhecimento dos ativos.

“Se olharmos para os trabalhadores da câmara, todos eles já têm uma idade avançada. Há cada vez menos trabalhadores a saber-fazer. É verdade que outros pavimentos surgiram na cidade, mas nada substitui o património que temos em calçada artística e que carece de ter profissionais habilitados, mas com experiência para fazer as calçadas mais exigentes. As calçadas com desenho obrigam a muitos anos de experiência. Não se adquire de um dia para o outro”, sublinha Luísa Dornellas.

Apesar da luta constante pela dinamização dos cursos “com um conjunto de iniciativas de educação, sensibilização sobre calçada, como visitas guiadas, peddy papers, cursos de curta duração, demonstrações nas escolas para miúdos ou para seniores”, Luísa confessa que é cada vez mais difícil abrir cursos todos os anos, já que é uma arte mal remunerada e considerada uma profissão operária.

“Um trabalho duro, ao sol, de braço dado em que o calceteiro está sempre sentado no banquinho, abaixo das pessoas que passam a pé. Isto parece uma coisa menor, mas estas representações não têm ajudado à valorização e colocam esta profissão ainda num patamar maior de desvalorização. Se escolhermos aleatoriamente 200 pessoas, se calhar só duas ou três querem vir para calceteiro. É difícil arranjar pessoas. Ainda não encontrei a maneira ideal. Queremos muito ter pessoas que gostem desta arte”, salienta a diretora.

Com isto, acredita que com a candidatura a património nacional seja possível demonstrar à sociedade “que estamos preocupados e que é urgente cuidar desta arte”.

Fotografia disponível via Câmara Municipal de Lisboa

Por enquanto, e já que o mundo mudou, com a chegada da covid-19, a Portugal, e “as pessoas mudaram o seu espírito crítico” resta a ânsia que a partir de hoje, para a frente, os portugueses passem a olhar para este pavimento com outros olhos. “É esta arte que confere à cidade de Lisboa uma particularidade para quem nos visita, não a podemos perder”, termina Luísa Ornellas.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via Câmara Municipal de Lisboa