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Pedro Abrunhosa pode e deve gritar

Nas Gargantas Soltas de hoje, Sofia Craveiro fala-nos acerca da polémica em torno das declarações de Pedro Abrunhosa sobre Vladimir Putin e a consequente reação da Embaixada Russa. “Aceitar que a intimidação política do discurso é aceitável, é abrir um precedente inaceitável. Ninguém precisa concordar com o que foi dito, mas há que reconhecer a gravidade do sucedido.”

©Jenniffer Lima Pais

Quando a atualidade mediática salta de polémica em polémica é difícil colocar as coisas em perspetiva. Mas, de vez em quando, é imperativo fazê-lo.

As polémicas não são todas iguais. Ainda que surjam por conflitos aparentemente válidos, em muitos casos torna-se fácil descortinar a estratégia demagógica (sim, estou a falar daquilo do deputado XX e do Presidente da AR, mas este texto não será sobre isso).

Hoje aproveito este espaço para falar de uma outra polémica que, passando pelo meio das restantes, corre sério risco de indiferença e esquecimento a curto prazo. Não pode. Porque é mais grave e profunda.

A 2 de julho deste mês, durante um concerto em Águeda, o músico Pedro Abrunhosa criticou a invasão da Ucrânia pela Federação Russa. Fê-lo através da alteração momentânea da letra de uma sua música que critica guerra, fascismo, fome, morte e indiferença perante tudo isso. A música chama-se Talvez Foder, já tem uns bons anos e está aqui, se tiverem curiosidade.

Durante o concerto, Abrunhosa disse – segundo uma notícia do Jornal Económico, já que o vídeo foi bloqueado sabe o cosmos porquê – “nunca escrevi uma musica com meias palavras. A palavra menos obscena nesta música é foder. Tudo o resto é violência, violação, morte, destruição. Não escrevei nenhuma música para pedir desculpas, escrevi para pedir justificações”.

Vai daí, Pedro Abrunhosa exclama:

“Vladimir Putin, go fuck yourself;

Vladimir Putin, go fuck yourself;

Vladimir Putin, go fuck yourself;

barco russo, go fuck yourself;

soldados russos, go fuck yourself;

mísseis russos, go fuck yourself;

Vladimir Putin, go fuck yourself;

filho da Putin, go fuck yourself”.

Pessoalmente não detetei nenhuma ofensa aos cidadãos russos, nem à sua nação. Acho as afirmações bastante pessoais e claras, dirigidas ao Presidente da Federação Russa e à sua incompreensível atitude imperialista que está a ter repercussões inimagináveis na vida (e morte!) de milhares de civis inocentes. Mas pronto. Adiante.

Apesar de não se confundir o líder com o país, a embaixada da Federação Russa em Portugal divulgou, 18 dias depois, a seguinte sentença:

“A Embaixada recebeu apelos de compatriotas russos revoltados, chocados com o comportamento de um dos músicos portugueses populares P. Abrunhosa. Durante um discurso no festival AgitÁgueda 2022 em 2 de julho de 2022, permitiu-se liberar uma série de expressões rudes e inaceitáveis ​​contra os cidadãos da Federação Russa, bem como sua liderança.”

Mais à frente, no comunicado lê-se ainda o seguinte [tradução com a qualidade que o Google permite]:

“O Sr. P. Abrunhosa não pode ter dúvidas: as suas palavras, indignas de uma figura cultural, e até mesmo representando um país que se opõe abertamente a qualquer manifestação de ódio e discriminação, foram ouvidas. Serão tiradas conclusões apropriadas.

Gostaríamos ainda de recordar ao Sr. P. Abrunhosa que os seus gritos vergonhosos estão enquadrados em vários artigos da legislação penal portuguesa de uma só vez, em relação aos quais informamos os órgãos de aplicação da lei competentes sobre o incidente por via diplomática.”

Isto é uma intimidação direta feita por um órgão diplomático a um cidadão português. O mesmo órgão que, aliás, recebia informações da Câmara Municipal de Lisboa sobre ativistas russos que se manifestavam contra as políticas de Putin. Lembram-se disso? Será que essas pessoas se sentiram assim tão ofendidas com as palavras do músico? Pessoalmente, desconfio que não.

No nosso país existem, e estão constitucionalmente protegidas, as liberdades de expressão, de pensamento, de criação artística e cultural. Foram difíceis de conquistar, mas, se estão no papel, é para que sejam asseguradas. É inadmissível que um artista seja atacado desta forma, formal, escrita, pessoal, direta, por meios institucionais de um país estrangeiro. Pedro Abrunhosa tem o direito de afirmar a sua discordância com a ânsia bélica de Vladimir Putin. Aceitar que a intimidação política do discurso é aceitável, é abrir um precedente inaceitável.

Ninguém precisa concordar com o que foi dito, mas há que reconhecer a gravidade do sucedido. Pedro Abrunhosa é um músico respeitado, com consciência política e voz ativa – ainda que, inexplicavelmente, tenha sido dito o contrário. Talvez por isso a seta tenha sido apontada na sua direção.

É certo que o Ministério dos Negócios Estrangeiros português já “transmitiu” a sua indignação à Embaixada Russa, mas ainda assim, sabe a pouco saber que isto foi feito “pelos canais diplomáticos” e não publicamente. Precisamos de uma resposta mais assertiva e clara, que não se cinja a comunicações não divulgadas. Talvez essa reposta venha de uma condenação votada no Parlamento. Figas até lá. Quase apostava que os manifestantes russos a residir em Portugal não iam desgostar de ver...


-Sobre Sofia Craveiro-

Espírito esquizofrénico e indeciso que já deu a volta ao mundo sem sair do quarto. Estudou Ciências da Comunicação nesse lugar longínquo é a Beira Interior, e fez o mestrado em Branding e Design Moda, no IADE/UBI, entre Lisboa e a Covilhã. Viveu tempos convicta a trabalhar na área da Moda até perceber que não tinha jeito nenhum. Apaixonou-se pelo jornalismo ao integrar um jornal local teimoso e insistente que a fez perceber o quanto a informação fidedigna é importante para a vida democrática. Desde essa altura descobriu também que aprecia ser In.so.len.te e que gosta de fazer perguntas para as quais não tem resposta. Encontrou o seu caminho nesta casa chamada Gerador, onde se compromete a suar a alma em cada linha escrita.

A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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