O espaço cultural Rua das Gaivotas 6 tem um novo coordenador: Pedro Barreiro, de 31 anos, cuja passagem pelo Teatro Sá da Bandeira em Santarém gerou polémica. Agora em Lisboa, até onde quer ele ir?

Saiu a mal da direcção do Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, com responsáveis políticos a censurarem “nudez e asneiras” numa peça que levou a cena, e, sem que pudesse prever, o acontecimento haveria de ser o passaporte para o lugar que agora ocupa. Pedro Barreiro, de 31 anos, é desde 6 de Janeiro o novo programador e gestor da Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, um espaço artístico fundado pelo grupo Teatro Praga, com propostas à margem do convencional. Ao mesmo tempo, continuará a fazer espectáculos em nome próprio e através do grupo Sr. João, que ajudou a fundar há uma década. “Ser artista é grande parte do meu capital como programador”, afirma.

Alto e depressa, assim fala Pedro Barreiro, com resposta pronta para qualquer pergunta, mesmo se por vezes guarda silêncio para pensar no que vai dizer. Há poucos dias, num fim de tarde, sentou-se connosco para explicar as ideias que tem para as Gaivotas e falou também de criação artística e respectivos limites. Deixou duas certezas: quer uma “pluralidade brutal” na Rua das Gaivotas 6 e pretende influenciar outras instituições culturais da cidade e do país.

Ao longo de 2019, a programação do espaço será ainda a que deixou a anterior coordenadora, Cristina Correia, cuja saída foi anunciada em fins de 2018. “Pouco tempo depois, os Praga ligaram-me”, recorda Pedro Barreiro. “Achei imediatamente que era um bom desafio, mas pedi tempo para pensar.” Descreve o convite como “um encontro”. “Não me impuseram condições, não disseram que teria de vir para aqui programar projectos ou formas experimentais. Eles já conheciam o meu trabalho, sabiam como olho para as coisas e quais as propostas que à partida me interessaria programar.”

Centro de documentação da Rua das Gaivotas 6, fotografia de Alípio Padilha

Daqui a um ano, já serão visíveis as escolhas de Pedro Barreiro. Por enquanto, está à escuta. “Tenho ainda de medir temperaturas, artistas e movimentos em Portugal e lá fora”, explica, adiantando que a dinâmica de funcionamento da casa vai sofrer algumas alterações. Além dele, são duas as pessoas que ali trabalham a tempo inteiro: Marta Almeida Santos (comunicação) e Filipe Pureza (área técnica).

“O projecto que tenho está em construção, estará sempre, e a linha de programação é não ter uma linha, ou ter uma linha sinuosa”, garante. “Quero muito estimular uma criação experimental investida, comprometida com o trabalho de criação e que, de alguma forma, consiga emancipar-se de ditames hegemónicos ou de cânones dominantes, isto é, emancipar-se de espaços que desenham a programação em torno de ciclos temáticos ou estratégias circunscritas de comunicação.

Quererá isto dizer que um dos objectivos é o de influenciar o meio? “Gosto de acreditar que sim”, responde. “Pode parecer utópico, termo com o qual, aliás, me relaciono muito bem. Quando tivermos uma dinâmica mais poderosa em relação à cidade e às criações dos artistas, poderemos ser uma influência para que outras instituições criem outros espaços seguros para o risco, para o teste, para a experimentação e para a independência e liberdade artística.” A proposta é ambiciosa. O programador aproxima-se de um patamar ideológico libertário e resume: “Estamos aqui para criar outros modos de fazer e de estar e de nos relacionarmos uns com outros e com os públicos, para apresentarmos formas artísticas que não estejam presas a uma disciplina ou a um cânone, ainda que aquilo que é canónico também caiba aqui. Não tenho qualquer dogma. O cânone também faz parte do mundo e temos de nos relacionar com ele.”

Rua das Gaivotas 6 é um espaço cedido em 2013 pela Câmara de Lisboa ao Teatro Praga, colectivo de actores, formado em 1995, tendo quase 23 anos, em Lisboa. Começou por receber artistas de maneira esporádica em Janeiro de 2015 e em Outubro desse ano assumiu uma programação regular. A entrada é discreta, junto a um outro espaço municipal, o Pólo Cultural das Gaivotas, perto de Santos, ambos no Palácio Alarcão, edifício com origem no século XVI, antiga casa de habitação, depois liceu, escola primária e sede de um sindicato. Lá dentro existe um centro de documentação, uma sala de espectáculos com 50 lugares, uma sala para exposições e um estúdio de som, onde opera a Rádio Quântica (com emissão online).

Auditório da Rua das Gaivotas 6 tem capacidade para 50 espactadores, fotografia de Alípio Padilha

O slogan inicial, “um novo lugar para começar”, é repetido por Pedro Barreiro durante a conversa. É o que as Gaivotas fazem desde o início: programação, acolhimento e residência de jovens artistas, muitas vezes classificados como “emergentes”. O termo faz algum sentido para o programador, mas ele oferece outra leitura. “Emergente pode ser o mesmo que vanguardista, e não tem de corresponder a artistas que estão a apresentar o primeiro trabalho, o que até pode acontecer. O artista emergente é aquele que se propõe ser o primeiro a chegar, mesmo numa escala pessoal, à forma que vai apresentar ou ao lugar de investigação em que esteja a trabalhar.”

Que isso determine menor empatia com o grande público e menos pessoas interessadas, é uma possibilidade que este responsável aceita serenamente. “Existem outros meios que cumprem a função de obedecer àquilo que o grande público quer consumir à partida, o que tem muito que se lhe diga, porque não há um público, há vários públicos. Mas isso são as lógicas televisivas, os mecanismos de solicitude, a lógica do açúcar. Os artistas que aqui se apresentam sabem que não têm de limar arestas.”

Pedro Barreiro pede ao entrevistador que o trate por “tu”. Nasceu em Santarém a 17 de Abril de 1987 e ainda criança iniciou-se no grupo Teatrinho de Santarém. Entrou para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 2005, antes de se transferir para a Escola Superior de Teatro e Cinema, onde chegou a ser aluno de Pedro Penim, um dos fundadores dos Praga. Viveu quatro anos e meio no Brasil e aí fez mestrado em Artes Cénicas, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Quando voltou a Portugal, foi dirigir o Teatro Municipal Sá da Bandeira, na cidade em que nasceu. Esteve ali três anos.

Depois das eleições autárquicas de 1 de Outubro de 2017, foi informado pelo executivo municipal de Santarém de que não contariam mais com ele na direcção da sala. O assunto chegou aos jornais, com a vereadora da Cultura, Inês Barroso, a justificar que o afastamento se ficava a dever a queixas de munícipes perante “uma atriz nua em palco a dizer asneiras”, o que constituiria “um comportamento não digno para o teatro municipal” da terra. A peça em causa era “O Mandarim – Apóstrofe e Paciência”, criação do próprio Pedro Barreiro.

“A questão da nudez foi o bode expiatório e é facilmente desmontável, porque a peça se estreou a 1 de Dezembro e a minha avença tinha terminado a 30 de Novembro”, alega agora Pedro Barreiro, filho do candidato socialista que em 2017 concorreu contra o actual presidente da Câmara, o social-democrata Ricardo Gonçalves. “Tudo isto revelou o nível de caciquismo em Santarém e a falta de visão e coragem do executivo”, acrescenta.

Está certo de que os três anos no Sá da Bandeira lhe permitiram construir uma proposta “notável no panorama nacional”, apesar das “condições muito adversas” em termos orçamentais (“12 mil a 30 mil euros por ano”) e em termos políticos (“o pelouro da Cultura não tinha um projecto, e o pensamento, não sendo ausente, era muito insuficiente”).

O episódio evoca também o tema dos limites da criação artística, que existem e são apenas os que a lei imponha, diz Pedro Barreiro, numa abordagem que considera resumida. “De resto, tudo é permitido, sujeitando-se os criadores a toda a crítica e a todo conflito que daí advenha. No limite, até a lei se pode quebrar, com as devidas consequências previstas”, sustenta.

Os avisos prévios aos espectadores sobre conteúdos eventualmente explícitos ou chocantes – prática cada vez mais frequente em salas dos EUA, através dos chamados “trigger warnings” –  é um assunto sobre o qual admite não ter opinião fechada. “Precisaria de analisar um caso concreto”, explica. “Não gosto da ideia de termos de avisar sobre tudo, mas as pessoas também devem escolher não ser agredidas por alguma coisa que se passe em cena.”

Com as novas funções, Pedro Barreiro vai acumular a criação artística individual ou através do grupo de teatro e performance Sr. João, ao lado de Óscar Silva, Ricardo B. Marques e Silvana Ivaldi, cujo trabalho tem sido apresentado com frequência no Brasil. Neste momento, vive em Santarém e quase todos os dias ruma a Lisboa. Gosta da vida na capital e está à procura de casa, mas a médio prazo sente-se mais seduzido por uma vida longe da cidade, “sobretudo pela forma como o cérebro e o corpo se alinham com o tempo”. Preza menos a velocidade do que ter tempo para viver, garante.

*O autor segue o antigo acordo ortográfico.

 Texto de Bruno Horta
Fotografia de capa de  Rui Félix
O Gerador é parceiro do espaço cultural Rua das Gaivotas 6

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