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Pedro Lobo: “O design modernista não inclui toda a gente”

Mestrando em Design de Produto, Pedro Lobo é o autor da obra "Kinky Ceramics", vencedora, na área da Cerâmica, da Mostra Nacional de Jovens Criadores (MNJC), que decorreu em Almada, entre 1 e 3 de dezembro. Em conversa sobre o seu percurso artístico, o designer revelou ao Gerador o objetivo de introduzir ideais mais progressistas na sociedade através das suas criações.

Fotografia de Bárbara Monteiro

As cerâmicas tradicionais de Caldas da Rainha, onde estuda, serviram de inspiração para o jovem de 25 anos produzir a coleção Kinky Ceramics, tema da sua tese de mestrado, cujas peças são modificadas com artefactos de BDSM – termo referente às práticas consensuais de bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo.

Natural de Minde, vila do município de Alcanena, Pedro falou-nos, em videochamada, da sua investigação sobre o design crítico e o seu potencial de transformação social, possibilitando, pela estética e utilidade dos objetos, contactos positivos com temas considerados tabus. “A comunidade do design ainda é cheia de homens héteros brancos que dizem que estão a tentar produzir para todos, mas o design modernista não inclui toda a gente, e as pessoas não se sentem representadas”, considera.

Coleção Kinky Ceramics em exposição na MNJC. Fotografia de Jenniffer Lima Pais.
Gerador (G.) – És licenciado em Design Industrial e estás agora a fazer mestrado em Design de Produto. O que te apaixona nessa área?

Pedro Lobo (P. L.) – No meu segundo ano [de licenciatura], tive quase para anular a matrícula. Não estava a gostar, sentia que só estava a fazer mais lixo, no sentido de só trazer mais objetos para o mundo. Não me relaciono de forma alguma com a indústria, nem com esta ideia de produção em massa e de [que] toda a gente tem de ter um [determinado] objeto. Tive a sorte de me cruzar com professores que fazem mais design de autor e, então, percebi que havia mais coisas dentro do design de produto sem ser só cadeiras, canecas e pratos e que, se calhar, podia explorar outras coisas.

G. – Fala-nos mais sobre a tese que estás a desenvolver. Qual é o papel do design na nossa sociedade e como ele pode ser um agente transformador?

P. L. – Estamos constantemente rodeados de objetos. Para nós, é tão natural usá-los que nem pensamos muito sobre eles. Seguindo este raciocínio, pensei numa forma de usar o design para redesenhar peças comuns do dia a dia e ir introduzindo, aos poucos, ideais mais progressistas, como essa temática que eu estou a trabalhar, mais difícil de comunicar na sociedade por causa dos tabus. Ou seja, a pessoa, ao interagir com o meu trabalho, mesmo que não saiba o que é shibari ou não conheça a comunidade kinky que existe, acaba sempre por ver estes desenhos, reconhecer a beleza nas peças e não [ver o tema como] uma coisa tão negativa.

G. – Na tua biografia, assumes o papel de ativista. De onde consideras que vem o teu “espírito crítico em relação às problemáticas da sociedade”?

P. L. – Desde que me lembro, sempre fui muito argumentativo. O facto de eu pertencer à comunidade queer fez-me também perceber que a nossa sociedade não lida bem com a diferença. Sendo eu, considero, diferente das normas que a sociedade define como normais, penso que há muito que temos de mudar. As pequenas coisas que cada pessoa pode fazer podem ajudar. No meu caso, achei que era o design que eu podia usar para fazer a diferença, então é aí que me considero ativista.

Peça Impact Play. Fotografia da cortesia de Pedro Lobo.
G. – Quando começaste a trabalhar com cerâmica?

P. L. – No meu último ano [da licenciatura], tive uma cadeira de iniciação à cerâmica. Vi que gostava e era o material [com] que eu mais me identificava. Nunca me identifiquei com madeiras ou metais, acho que são materiais muito brutos. A cerâmica é uma coisa tão plástica e natural para mim, que me permite fazer um processo mais calmo, tranquilo e com tempo de ir alterando aos poucos.

G. – O que te motivou a fazer a candidatura à MNJC?

P. L. – Um professor meu falou do concurso, fui pesquisar e achei que fazia todo o sentido [fazer a candidatura], até pelos jurados que foram escolhidos e pela fama e sucesso que a mostra tem tido. Estava um bocadinho preocupado porque, sendo eu designer, tinha medo de que as pessoas fossem preconceituosas em relação a isso e achassem que eu não devia de ser aceite, só artistas. Mas acredito que o meu projeto está muito na margem entre o que é design e o que é arte.

G. – Para ti, o que significou ser selecionado para a exposição?

P. L. – Fiquei muito contente quando fui aceite, como sempre que há uma possibilidade de poder mostrar o meu trabalho. O meu trabalho vive muito do feedback do público. Se eu mostro o meu trabalho e as pessoas não sentem nada ou não interagem, algo estou a fazer mal e alguma coisa tenho de mudar.

Peça Gag Play. Fotografia da cortesia de Pedro Lobo.
G. – Como o prémio vai influenciar os teus próximos passos?

Acho que todos os artistas têm a síndrome do impostor e pensam que o seu trabalho não é bom o suficiente. [A premiação] deu-me ali um alento numa altura em que estava um bocado mais triste com o projeto por não estar a avançar tão rápido como eu queria. Foi incrível também porque a comunidade do design ainda é cheia de homens héteros brancos que dizem que estão a tentar produzir para todos, mas o design modernista não inclui toda a gente e as pessoas não se sentem representadas. Então, de repente, ter alguém relevante na comunidade da cerâmica que valoriza o meu projeto dá-me esse alento. Quando eu for defender a minha tese, já não vão poder mandar a ideia tão abaixo, porque já foi reconhecida por tantas outras pessoas da área que acaba por ficar mais consolidada.

G. – Qual foi o processo criativo das Kinky Ceramics?

P. L. – Caldas [da Rainha] é bem conhecida pela cerâmica, as malandrices, os falos das Caldas. Quando andamos na rua, passamos por montras que têm pénis em todo o lado e figuras de órgãos genitais. Achei tão estranho como, se calhar, ver um homem maquilhado na rua incomoda mais do que ver uma montra cheia de pénis gigantes feitos em cerâmica. Foi aí que eu pensei: se aceitam tão bem estes objetos, porque não usar a cerâmica tradicional como um veículo de comunicação de uma realidade mais progressista?

Comecei a pesquisar o que era a tipologia tradicional da cerâmica em termos de formas e assim defini [as peças]. Também tive de fazer uma pesquisa intensiva sobre a comunidade kinky, porque não fazendo eu parte do meio, não tinha conhecimento algum. Falei com muitas pessoas, tive de aprender a amarrar as cordas, li livros e vi filmes e vídeos. Assim percebi o que funcionava em termos de cordas e nós nos formatos das peças para começar a produzir, e fomos aperfeiçoando os tipos de pasta, de corda e nó. Aos poucos, vou aumentando o meu arsenal de peças e introduzindo brinquedos novos. [O trabalho] também passa por isso, ir a sex shops. Vou frequentemente, tenho uma boa relação com o dono e costumo perguntar-lhe o que ele vende mais e o que tem de novo. Faço um estudo de mercado e percebo quais são os novos fetiches, para tentar seguir um bocadinho os gostos do público e ser o mais representativo possível.

G. – Tendo feito essa pesquisa junto da comunidade, ficaste surpreendido com alguma informação?

P. L. – Eu achava até que era bastante desconstruído e que conhecia bastantes coisas. Estava supererrado, porque o mundo kinky vai de extremos mesmo muito intensos – [falo] isto sem julgamento algum. Foi fascinante perceber os limites do corpo e o que as pessoas gostam.

Peça Rope Play. Fotografia da cortesia de Pedro Lobo.
G. – Porquê achas que há tanto tabu com relação a esse tema e à sexualidade no geral?

P. L. – Pelo simples facto de não existir representatividade. Quanto menos as pessoas veem, mais vão achar estranho o primeiro contacto. Quanto mais representatividade existir, mais as pessoas vão começar a acostumar-se ao facto de existirem diferenças, até que um dia a diferença seja o novo normal.

Na minha geração já não tanto, mas se formos pensar nos meus pais e nos meus avós, falar de sexo com a família e os amigos era impensável. Hoje em dia, se eu tiver alguma questão ou se achar pertinente comentar alguma coisa com os meus amigos num café, seja onde for, nós sentimo-nos confortáveis em comentar, perguntar e contar histórias. É bom também perceber que estamos a mudar aos poucos.

G. – Li num artigo que seguiste um processo específico para que as peças ficassem mais similares à textura da pele humana. Podes detalhar essa parte prática da produção da obra?

P. L. – Misturando vários tipos de pastas, conseguimos várias tonalidades. Não faria sentido para mim estar a tentar lutar contra tabus e produzir todas as peças da mesma cor, sendo que o ser humano existe com tantos tons de pele. O facto de eu não vidrar as peças, ou seja, não aplicar um acabamento brilhante, também é por esse mesmo motivo, para que ela tenha aquele aspeto quase de pele, mais carnal. Para eu poder usar estas pastas sem vidrados, o barro vermelho, que não é possível de cozer a alta temperatura, é cozido a baixa temperatura e, depois, tenho de vidrar [a cerâmica] por dentro para que ela fique impermeável. As outras pastas que uso, cozo a alta temperatura e a peça, quando vai ao forno, contrai com o calor, o que fecha os poros e a deixa impermeável.

Como eu queria trabalhar a cerâmica tradicional e tenho três anos de experiência, percebi que o ideal seria falar com um ceramista, o Miguel Neto, daqui das Caldas, artesão há 30 anos. Com esta ligação, depois de ele fazer a peça base na roda, faço o design das cordas e a aplicação delas, deixo as peças secarem, tiro as cordas, cozo as peças e volto a colocar as cordas no sítio para fazer os acabamentos todos. É um trabalho mútuo que tem sido muito enriquecedor.

Peça Gag Play. Fotografia da cortesia de Pedro Lobo.
G. – Tens continuado a desenvolver mais peças?

P. L. – Sim, já produzi bastante mais. Tenho mudado os tons de pasta, o tipo de desenho de cordas, acrescentado alguns objetos e as dimensões das peças tem vindo a aumentar. Ainda hoje estive a fazer umas peças em vidro, que hão de ter a mesma energia das cordas.

G. – Numa outra entrevista, dizes que a tua obra não foi feita para chocar, mas que pretendias provocar alguma reação. Quais?

P. L. – Quando as coisas são muito hardcore ou chocantes, o público cria logo uma barreira e fica impermeável a qualquer informação que queiramos passar. A minha ideia era, através dessa estética, quebrar essa barreira para que pensassem “afinal esta peça até é bonita, deixa-me cá ver o que isto é”, começassem a pesquisar sobre o assunto e visse que a cultura kinky afinal não é tão depravada. [A proposta] é, através da estética, conseguir cativar as pessoas a verem este mundo de uma forma mais bonita, mais artística e não tão degradante como pensam que é.

G. – No teu Instagram, deixaste a frase “Porque a tradição não deve ser uma prisão”. É da tua autoria? O que queres dizer com isso?

P. L. – É. Quando comecei a fazer este projeto, ouvi muitos comentários do género “não é assim que se faz, porque a cerâmica tradicional tem de seguir essas regras assim e assim”. Até dou outros exemplos: sou contra a tourada, e o argumento que oiço sempre a favor é que é tradição e que nós temos de a manter, mas quem a inventou fomos nós, por isso temos o poder de a mudar. Acho que a tradição que alguém criou há centenas de anos não pode estar a castrar a mim criativamente. O projeto é pegar na tradição e [pensar] como que eu a posso transformar para que ela hoje me represente a mim como artista, como designer e cidadão.

Peça Rope Play. Fotografia da cortesia de Pedro Lobo.
G. – Quais são os teus planos para o futuro? Já consegues imaginar quais os próximos passos depois da conclusão do mestrado?

P. L. – Tenho um ateliê aqui nas Caldas, onde produzo as minhas peças. Gostava de o manter, continuar a produzir e tentar divulgá-lo mais. No meio disto, quem sabe tirar um doutoramento. Gostava muito de ser professor.

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