“Será a realidade, tal como a conhecemos, resultado da perceção ou da distorção?” é a questão que se impõe em palco. Por entre uma luta de egos, limitada por linhas físicas e psicológicas, a mais recente criação de Pedro Sousa Loureiro, Online Distortion/Border Line(s), faz transbordar, de um diálogo e confronto com a realidade, aquilo que é insólito, como uma viagem atribulada, mas necessária, para o futuro.

Foi numa residência artística na Arménia, em setembro de 2019, que Pedro Sousa Loureiro observou os contrastes entre o rural e o urbano, a par com as vivências que absorveu das artistas feministas locais, Lilit Stepanyan e a Susana Guylamiryane. Da experiência no país e da viagem retirou aquela que, no presente, é a sua mais recente criação.

O espetáculo conta com Joana Cotrim, Marta Barahona Abreu, Pedro Sousa Loureiro, Susana Blazer, e Francisco Barahona

Com desenho e projeção de vídeo em tempo real, a peça Online Distortion/Border Line(s) revisita a excentricidade, o insólito e a feminidade, à luz de um guião adaptado e a partir de improvisações dos próprios performers. A cargo d’OS PATO BRAVO, grupo de teatro e intervenções site specific em espaços convencionais e não convencionais, e em co-produção com o Teatro Viriato, o espetáculo conta com Joana Cotrim, Marta Barahona Abreu, Pedro Sousa Loureiro e Susana Blazer, e o espaço sonoro da autoria de Francisco Barahona.

Em estreia no Teatro Viriato, em Viseu, ontem, dia 16 de julho, e no dia de hoje, pelas 21 horas, Online Distortion/Border Line(s) parte depois em digressão, de 21 de julho a 1 de agosto, na Casa do Capitão, em Lisboa. O Gerador conversou com Pedro Sousa Loureiro, dias antes da estreia, para desvendar a realidade e a viagem que somos convidados a fazer com esta criação.

A peça surgiu da residência artística na Arménia, que Pedro Sousa Loureiro frequentou em 2019

Gerador (G.) - Como surgiu a ideia para a criação Online Distortion/Border Line(s)?
Pedro Sousa Loureiro (P. L.) - A ideia desta criação partiu de uma residência artística que tive a possibilidade de fazer, na Arménia, em 2019, na ideia de filmar um documentário em duas regiões, Talin, que tinha cerca de oito mil habitantes, e Byurakan, com 300 habitantes. Passámos também pela capital, Yerevan, onde constatei as grandes diferenças entre o rural e o urbano, num outro país da região do Cáucaso, que é a Arménia. Depois surgiu o contacto com duas artistas feministas, a Lilit Stepanyan e a Susana Guylamiryane. A Susana, enquanto curadora de arte, foi também coordenadora do pavilhão da República da Arménia, na Bienal de Veneza, em 2019, e criou um livro que se chama Dialogs With Power, com várias artistas feministas, ou seja, várias artistas que estavam em diálogo com o poder e questionavam qual a nossa relação com o poder. Foi a partir desse contacto que a peça surgiu, e também tendo a Cindy Sherman como referência.

G. – De que forma essa inspiração, extraída do contacto com as artistas feministas e com a própria obra de Cindy, se relacionam com esta criação?
P. L. – A Online Distortion/Border Line(s) foi criada a partir do universo sinergético da Cindy, em específico de uma obra de 2003, cujo título é Untitled. A relação está em criar uma analogia entre isso e as figuras femininas que existem nos corpos da Susana Lázaro, da Marta Barahona e da Joana Cotrim, que interpretam a peça, mas também nas mulheres em que elas se desdobram, e que eu também me poderei desdobrar, neste espetáculo.

Daí a excentricidade, o insólito e a feminidade estarem tão presentes nos diálogos, que vão sendo bastante discutidos entre todos, porque há a procura por uma solução, no sentido de querermos viajar, viajar, e viajar para ter futuro. Como se a viagem fosse realmente este mote para continuarmos a ter futuro, mesmo perante todas as questões pandémicas, tendo sempre neste texto e diálogo o lado sombra e o lado luz, que vamos encontrando em cada uma das figuras e personagens.

A obra de Cindy Sherman é inspiração para todo o projeto

G. - O que é, no contexto do espetáculo, esta realidade percecionada ou distorcida?
P. L. - Depende da forma como a recebemos, se a recebemos a partir de telemóveis, se a vemos na realidade. Eu via sempre imagens da Arménia, de 2016 a 2019, em contacto permanente com a Lilit, mas não fazia ideia do que me esperava e foi fascinante quando lá cheguei e vi dois tempos energéticos. Por um lado, via carros do tempo da União Soviética e carros dos dias de hoje, a coabitarem o mesmo espaço físico. Isso era bastante interessante e daí também se criam os diálogos disrruptivos, como se vivêssemos em três realidades diferentes, uma realidade da Arménia, uma em Portugal e outra, sem ser pretensioso em relação à Cindy Sherman, uma realidade dos Estudos Unidos da América. A ideia é podermos pensar nestas diferentes realidades, pensar que temos noção do que acontece nos EUA através de um telemóvel, mas não sabemos o que é realmente estar lá, sem ser através desse telemóvel.  E isso torna a realidade completamente diferente. O mesmo acontece na Arménia e em Portugal.

G. – Falando em realidades diferentes, e após esse confronto entre contextos, rural e urbano, na Arménia, o que mais se diferencia da realidade portuguesa?
P. L. - Vejo que há um confronto possivelmente mais “maquilhado” cá em Portugal, mas as questões são um pouco as mesmas do que na Arménia. Uma das coisas que me fascinou lá foi o ensino artístico ser gratuito para todas as crianças, após eles saírem das aulas de ensino corrente. Há escolas de artes, escolas de dança e de música, tudo gratuito, e isso é fascinante. É a maneira que eles têm de se estimular artisticamente nas suas áreas e localidades, para além do que tinham no ensino corrente. É nesses espaços onde, a partir muitas vezes dos telemóveis, têm acesso a todo o mundo

O guião do espetáculo está sujeito a alterações semanais, que abre espaço à improvisação

G. - Nesta peça, como é encarada a questão do improviso e a adaptação dos performers? Que desafios traz para o espetáculo?
P. L. - Eu criei um guião, um texto antes dos ensaios que foi sendo alterado ao longo do tempo por várias vezes, tentando adaptá-lo e tentado, através do desafio destas camadas que encontrei na Arménia, criar, para além das instalações e dos diálogos disruptivos com os atores, a essência de um trabalho constante, em que questionamos, no fundo, como é que estas camadas comunicam. É como se entrássemos num ateliê e pudéssemos ir esculpindo, desenhando, fazendo colagens, tudo isto com corpos, vozes, partituras sonoras. Aqui o Francisco Barahona criou, ao longo de todo o processo de trabalho, a parte sonora que tem sido incrível. Conseguimos diariamente ir decifrando, uns com os outros, os estados de alma que vêm a partir do texto ou a partir das provocações que fazemos, tirando-nos o chão, mas sempre numa luta de egos, de relações hierárquicas, a questionar o pequeno e o grande poder.

G. – Que outras questões e mensagem encontramos na peça?
P. L. – Eu acho que, em Portugal, tudo é mais maquilhado, mesmo relativamente ao que são os pequenos e grandes poderes. E a verdade é que encontrei significado, na Lilit principalmente, que foi quem criou a residência rural na Arménia, no ato de viajar. O facto de ela viajar permanentemente foi onde ela arranjou o tempo para viver, para trabalhar, para produzir artisticamente. Por mais que o mundo esteja caótico, na vida de uma pessoa, ou na zona onde a pessoa habita, o ato viajar é poder construir e criar, é sinal de futuro. E nesse sentido acho que o espetáculo nos traz esse desafio de questionar se a viagem é uma fuga à realidade onde estamos, a viagem como território físico, ou se a viagem é uma fuga mental, que também referimos no texto.

Online Distortion/Border Line(s) performers

G. – Fale-nos sobre a estreia a 16 e 17 de julho, no Teatro Viriato, em Viseu.
P. L. – Espero que, entre nós e com os espetadores, consigamos atos de transformação, que as pessoas possam sair de lá e querer pesquisar mais sobre a obra de Cindy, sobre a Arménia e talvez isso lhes suscite a vontade de ir viajar. Na verdade, em Portugal, há pouco tempo, conheci uma pessoa que me dizia que, “vocês, portugueses, viajaram tanto por todo o mundo, durante séculos, e hoje em dia viajam tão pouco”, e isso é um facto, na generalidade. Afinal, viajar dá-nos futuro.

Texto de Ana Mendes
Fotografias de Francisco Sá

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