Um filme. Seis amigos afrodescendentes. Uma viagem da periferia ao centro. Uma história de pertença com vitalidade. Foi assim que a tela do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) foi colorida no passado dia 4 de julho: seis projeções do filme Pele escura — da periferia para o centro, que convida toda a gente para a reflexão sobre o racismo e pós-colonialismo nos dias de hoje. Entre projeções, houve oportunidade para se ouvir, no Pequeno Auditório do CCB, cinco conversas que tinham como objetivo debater sob várias perspetivas e abordagens as temáticas que o filme aborda.

O filme, que “representa a viagem da periferia ao centro de seis amigos afrodescendentes, inscrevendo-se na paisagem branca e nas suas marcas exteriores de prosperidade”, partiu duma ideia de Kalaf Epalanga e contou com a realização de Graça Castanheira. A assistência de realização ficou nas mãos de Teresa Pinto, e a assistência de produção com Miguel Aido, Mariana Mendes, Francisco Canhoto e Rui Lino. O casting foi feito por Patrícia Delgado com assistência de Luciano Mpemba, a montagem por Graça Castanheira e Rui Carvalheira, fotografia de João Ribeiro, som de Pedro Freitas, música de Gerilson Insrael, Africana e Nayela Simões (no genérico), guarda-roupa por Joana Cardoso, produção de Maria João Mayer, direção de atores por Meirinho Mendes e argumento de Graça Castanheira e Meirinho Mendes. A interpretação ficou a cargo de Wilson André (José), Ruben Rosário (Milton), Nayela Simões (Xissola), Karina Silva (Amara), Nilsa Pires (Savana) e Paulo Pascoal (Julião). O filme contou ainda com apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e do CCB.

Paulo Pascoal e Meirinho Mendes na rodagem do filme

Para as conversas que se seguiram às projeções do filme de 15 minutos, foram convidados oradores de várias áreas: o urbanista e investigador no ISCTE-IUL António Brito Guterres, o arquiteto Ricardo Bak Gordon, a diretora artística, atriz e encenadora Zia Soares, a música Selma Uamusse, a socióloga e diretora executiva da TI Portugal Karina Carvalho, a jornalista Paula Cardoso, o sociólogo e fundador da plataforma de Reflexão Angola Manuel Dias dos Santos, o professor e historiador Diogo Ramada Curto, a realizadora Graça Castanheira e o encenador e diretor de atores deste filme Meirinho Mendes. A moderação das conversas ficou a cargo de Angella Graça, presidente da direção do INMUNE — Instituto da Mulher Negra em Portugal.

O Gerador esteve à conversa com Graça Castanheira via zoom antes da estreia e partiu rumo a Belém, no dia 4 de julho, para conhecer a realizadora em pessoa e acompanhar as cinco conversas, de forma a partilhar contigo alguns momentos-chave deste dia que ficou marcado por linhas de uma luta coletiva e uma plateia tão diversa quanto a diversidade de que a nossa sociedade realmente é feita.

A ideia

O filme conta a história de seis amigos negros provenientes de Porto Brandão e Cacém (periferia de Lisboa) que se decidem deslocar até ao CCB para assistir a um espetáculo. Vendo o trajeto de carro pela Ponte 25 de Abril de uns, e o trajeto de comboio de outros, vamos acompanhando alguns pensamentos e sentimentos sobre a relação entre centro e periferia, negros e brancos, racismo e inclusão — sempre com bom sentido de humor e quebrando com a narrativa comum de violência proveniente do racismo que ora retrata negros como heróis ora como excluídos — até chegarem a Lisboa, ou “Lisa”, como lhe chamam.

Para dar início a este projeto, Graça Castanheira, que segue e admira o trabalho de Kalaf Epalanga há muito tempo, achou que este seria a pessoa certa para “nos ajudar — a nós, brancos — a olhar para as questões da negritude. Pareceu-me sempre que ele o fazia com muita pedagogia e muita curiosidade, portanto aceitei de bom grado tudo aquilo que ele me foi dizendo”. Foi numa altura em que Kalaf se encontrava de férias no Algarve que Graça se encontrou com ele — “Expus as minhas dúvidas, perplexidades, como é que havia de ser, o que faria sentido e numa conversa de 3/4 horas chegámos a esta ideia.” “A primeira coisa que ele disse na conversa foi: periferia – centro. É a coisa mais cinematográfica e ilustrativa da condição e da separação entre brancos e negros, e entre pobres e ricos, também”, acrescenta a realizadora em entrevista ao Gerador.

Graça Castanheira na rodagem do filme junto a Wilson André (José) e Ruben Rosário (Milton), à esquerda

Sendo uma pessoa de pele branca, Graça partilha que abordar temas relativos à comunidade negra “não foi simples”. “Acho que é muito normal que os negros, neste momento, se sintam safarizados quando há um branco a tentar fazer alguma coisa contra o racismo. Portanto, eu, branca, vou armar-me em heroína, pegar numa data pessoas, e dizer que elas não são livres. E estou a fazê-lo no interior do meu privilégio, da minha vantagem. E, muitas vezes, os brancos, depois, glorificam os seus atos e o facto de terem sido eles a pôr a questão do racismo. Convertem-se, não só, no explorador, no escravagista, mas também no salvador. Acho que isso deve ser profundamente irritante e tive alguma resistência de pessoas que achavam que eu estava a fazer precisamente isso e que deviam ser eles a fazer”, explica.

No entanto, Graça define-se como pragmática e não essencialista. Não concordando com a forma como os negros são representados no audiovisual, e não gostando de criticar sem oferecer alternativas, vendo-se na oportunidade de realizar este projeto, achou que a devia aproveitar “com a consciência de que não sou eu que o devo fazer em permanência ou no futuro”. “É preciso empoderar as pessoas para serem elas a ter as ferramentas, o know-how, para fazerem filmes sobre a sua realidade e sobre outras realidades. Interessar-me-ia imenso começar a ver filmes de negros sem ser sobre o racismo. Ser sobre o que for, uma história, um dramalhão. Mas que não tivessem a obrigação de estarem a falar sobre a sua condição. No dia em que houver negros que possam fazer filmes de ação, ou perseguições de carros, nós vamos ser todos muito mais felizes”, ilustra.

Para ultrapassar as barreiras de resistência que encontrou em algumas pessoas, a realizadora explicou-lhes o seu ponto de vista e a oportunidade que existia. “Acima de tudo, encarei sempre este filme como um ponto de partida para uma conversa. Portanto, não é um filme nesse sentido safarizado, é um filme que é um pretexto para se discutir a questão do racismo, para deixarmos de estar neste estado de negação, que é absolutamente lamentável. É lamentável, porque Portugal fica mal na fotografia, mas é, acima de tudo, lamentável porque as pessoas negras continuam a sofrer duma forma persistente de abusos do racismo”, completa.

Depois de ver o filme, Diogo Ramada Curto teceu uma crítica ao mesmo em que apontava, nomeadamente, que embora o documentário tivesse “propostas pedagógicas”, existem riscos em “estetizar grupos subalternos” e que “o documentário reporta a uma economia moral dos subalternos”, deixando de parte o espaço para se retratar a violência exercida sobre os mesmos. No entanto, Graça explica-nos as suas escolhas do que incluir, ou não, no seu filme:

“Vou ver estas pessoas de carne e osso, completas, vivas, hoje, na cidade. O único conflito que existe no filme é entre eles [os protagonistas] e a cidade. Não há propriamente ninguém que os multa ou maltrata ou que faz as microagressões de que o racismo é feito hoje em dia. Não, basta isto: estas pessoas, na cidade. […] E fazer um filme em que os negros não são nem escravos, nem estão forçosamente debaixo do tema do racismo. […] Estão na vida e não estão só ali na sua condição de negros. Não estão ali para representar o negro, por exemplo. É um filme sobre eles, e acho que isso tem de começar a existir mais. Comecem a fazer outras narrativas em que não seja preciso ver-se outra vez um negro a fazer de escravo. Os negros foram absolutamente violentados pela chegada dos europeus e, portanto, é preciso começar a representá-los na sua humanidade e não quando estavam em baixo. Portanto, acho que esta é uma primeira tentativa minha de representar estas pessoas por inteiro, sem estarem debaixo. São relações inteiras e complexas e foi isso que me motivou muito a fazer o filme.”

A riqueza de elementos presente num filme de 15 minutos

Um filme curto, descomplicado, mas que levanta tantas questões do quotidiano. É assim que podemos resumir Pele escura — da periferia para o centro, ou, como disse Selma Uamusse, “falar sobre assuntos difíceis de uma forma simples é uma arte”.

Na sua reflexão sobre o filme, Diogo Ramada Curto aponta três principais denúncias deixadas no filme: questões relacionadas com os meios de transporte; a necessidade de se deslocar a Lisboa para ver um evento cultural; e a representação dos “tugas” pelo Padrão dos Descobrimentos.

De facto, uma das nuances mais importantes de destacar, para Graça, é a necessidade de revisitarmos o passado, atentando no que realmente se passou. “Acho que é uma história de violência muito grande que é preciso começar a ser vista e contada. Nas escolas, as crianças têm de ser confrontadas com isso também”, defende. Por outro lado, era importante trazer a “questão da representatividade”. “[No filme], não há uma única interação com um branco, apenas se vê brancos pobres no comboio para indicar, também, que há aqui uma questão de classe, mas eles estão sozinhos na cidade, e eu vou ver como eles são entre eles”, não ignorando que vivem o tema do racismo, mas, acima de tudo, realçando que “estão ao mesmo tempo na vida”.

Na conversa que integrou no CCB, a realizadora explicou ainda, perante a denominação de documentário para se referirem ao seu projeto por parte de alguns oradores, que não se trata de um documentário, pois existe um guião e atores. No entanto, o filme tem também o seu lado documental no sentido em que, por um lado, é o género cinematográfico com que a realizadora trabalha e, por outro, por não se encontrar, durante estes 15 minutos, nenhum elemento da habitual trama ficcional, como, por exemplo, o conflito ou clímax. O lado documental deste projeto surge, então, por mostrar “pessoas que não estão num sistema de representação dos brancos, na ficção.”

Relação entre o património material e imaterial e a história

Pensar na forma como o património material e imaterial e a história se relacionam é questionarmo-nos sobre a forma como uma cidade comunica. António Brito Guterres defende, desde logo, que “Lisboa se tornou numa cidade colonial após o 25 de Abril”, explicando que tudo o que não é a cidade parece constituir uma extensão em que não existe o direito a sonhar, passando a mensagem de que a cidade não é para todos. Esta visão pode ser fundamentada a partir de vários factos, incluindo a nomenclatura de algumas infraestruturas ou as questões de mobilidade.

Nesse sentido, Graça afirma que “ler a gramática da cidade, ter alguém a falar sobre o que é Lisboa, que sinais imperiais é que não reviu” é fundamental. “Como diz o Paulo Pascoal no filme — ‘esta praça chama-se mesmo Praça do Império. Conseguiram mudar o nome dessa ponte. A ponte deixou de ser de Salazar, mas a praça continuou a ser do império’. Portanto, a luta era contra uma parte do fascismo. A parte da violência colonial não ficou endereçada. Claro que era fundamental, mais não seja para entender o fascismo em toda a sua extensão, corrigir o nome da Praça do Império. Monumento das Descobertas, Padrão dos Descobrimentos? Estamos a brincar? Não é um Padrão dos Descobrimentos, é um Padrão que representa uma violência muito grande. Aqueles pulas [termo africano que designa pessoas de pele branca] quando saltavam dos barcos, não era bonito. São todos homens que não faziam mais nada senão violar mulheres. Não havia casamentos homossexuais, eles não casavam uns com os outros. Eles violavam mulheres negras. Portanto, aqueles barcos cheios de homens, cada um mais nobre do que o outro, são a promessa de uma grande violência para as populações indígenas”, ilustra Graça.

Teaser de Pele Escura — a cena do Padrão dos Descobrimentos

No filme, vemos uma cena em que os seis amigos se encontram em frente ao Padrão dos Descobrimentos dizendo que é melhor irem embora dali antes que aquelas pessoas saltem das estátuas. Em relação ao debate a que temos assistido na esfera pública sobre a existência de determinados monumentos, Graça não considera que “seja preciso deitar abaixo o Padrão dos Descobrimentos”. “Acho que quase bastaria que, nas escolas, o Padrão fosse enquadrado no seu tempo e fosse lido com todo o seu drama, porque neste momento é lido em todo o seu esplendor. É o esplendor de Portugal. […] Interessa pôr duas histórias ao lado uma da outra. Interessa deixar de simplificar tudo para só haver glória. Portanto, tornar as coisas mais densas, com mais leituras, é mais real. Acho que muitas das pessoas que são negacionistas em relação ao racismo precisam mais de ajuda do que de outra coisa. Precisam de complexificar a realidade para terem outro tipo de discurso. E são as políticas públicas, no fundo, que são responsáveis por maior ou menor esclarecimento da parte das pessoas. É preciso fazer uma espécie de pedagogia de tudo isto.” A realizadora não deixa ainda de relembrar a exigência por parte da comunidade negra em termos um Museu do Colonialismo, da Escravatura ou da Resistência Negra, ao invés de um “Museu da Descoberta”, “Museu dos Descobrimentos”, “Museu da Interculturalidade” ou “Museu da Viagem”.

Virando a atenção para as questões de mobilidade, também neste filme podemos assistir a um diálogo em que duas personagens brincam em como se tem de dar um desconto por o evento ser no CCB, porque eles [os brancos] não podiam a apanhar o comboio. “Nós descentralizamos pouco e, sobretudo, forçamos sempre as pessoas da periferia ou da ruralidade a virem a Lisboa. Há uma espécie de centralidade da cultura, também. Acho que é sempre interessante descentralizar, por um lado, e, por outro, ter em atenção que fazer espetáculos, objetos sobre comunidades no centro as obriga a deslocarem-se ao centro duma forma que, às vezes, não é propriamente barata. Portanto, isso denota falta de sensibilidade, eventualmente”, denuncia Graça.

Teaser de Pele Escura — cena sobre mobilidade

A este propósito, Karina Carvalho realça que o rio que deveria servir para aproximar, nos afasta, defendendo ainda o absurdo de ser impossível passar a Ponte 25 de Abril a pé, porque isso exige, desde logo, a existência de determinados meios económicos para se ter um carro, chamar um táxi ou comprar um bilhete de comboio. Paula Cardoso também aborda a questão da mobilidade, não só referindo esta dificuldade de chegar à cidade, mas também incitando à reflexão sobre os horários dos transportes públicos que, defende, “reforçam a segregação”. A jornalista explica que de manhã existem muitos transportes para que possam ir trabalhar para o centro, mas que, à noite, eles deixam de existir — uma altura que se dedica ao lazer, em que as pessoas poderiam desfrutar da cidade e divertirem-se.

Teaser Pele Escura - cena da Ponte 25 de Abril

Na forma de se olhar para a cidade, Ricardo Bak Gordon considera que estamos num momento de transição e que, embora existam as questões enumeradas anteriormente, a ponte veio unir a cidade a uma zona que era rural. Por outro lado, defende que a cidade não é um centro, mas sim que existem vários centros. Ou seja, não se trata de Lisboa como centro, mas sim da área metropolitana. A existir um centro, Ricardo defende que o rio é o centro da área metropolitana, visando desconstruir a centralidade de Lisboa.

Embora concorde com essa visão, António Brito Guterres afirma que “politicamente, Lisboa é o centro, não o estuário” e realça que “o otimismo também se constrói politicamente”. Embora a mudança seja lenta, ela começa a ver-se aos poucos e um exemplo que António nos dá é vermos Francisca Van Dunem como ministra da Justiça, em Portugal.

O papel da história na construção da identidade

Para iniciar o debate sobre este tema, Manuel Dias dos Santos começa por afirmar que “a história constrói a imagem de qualquer grupo social”, para além de ser “um elemento de poder”. Como tal, sustenta que a construção do racismo é histórica: “ninguém descobre o que já existe, por isso o choque com o que já existe é que leva a uma relação hierarquizada em que o ‘meu’ é melhor do que o ‘teu’”. Como resultado, identifica uma “sociedade portuguesa fortemente estratificada na cor da pele”. Manuel reproduz ainda um dos argumentos mais comuns de se ouvir quando se aborda o tema do racismo e do período colonialista que, ainda hoje, continua a ser visto como o período dos Descobrimentos para uma maioria: “os franceses, os ingleses foram piores”. A isto, Manuel responde de forma sucinta, inspirado pelo dito de um amigo seu: “Eu não entro em concursos de estupidez!” — o auditório preenche-se de gargalhadas.

Ao falar de construção de identidade, Selma Uamusse destaca ainda um fator muito importante de se ter em consideração ao falar da comunidade negra: “Temos preocupações de corpos negros muito distintas.” A música explica que a sua experiência enquanto negra não será igual à de Zia Soares, nem à de Angella Graça, que dividiram o painel de discussão consigo, assim como a qualquer outra pessoa negra. Todas as pessoas têm as suas características, histórias, origens e contextos, e tudo isso vai moldar as preocupações inerentes a cada corpo negro. Corroborando essa visão, Karina Carvalho defende que “temos de nos aliar a toda a gente, porque também somos diversas”.

Como já enunciado anteriormente nesta reportagem, o papel da educação é visto como um dos pontos mais importantes para a evolução do pensamento e forma de olhar para a história — “a história precisa de ser contada de forma diferente nos planos curriculares”, defende também Selma Uamusse. A este propósito, Graça Castanheira partilha que tem “imensas narrativas de miúdos negros que chegam à parte [da matéria] dos Descobrimentos e ficam em choque com aquilo que têm de aprender.”

A presença do Padrão dos Descobrimentos em Pele Escura, Nilsa Pires (Savana) à esquerda e Nayela Simões (Xissola) à direita

No entanto, Manuel defende que a educação não vai salvar tudo nem acabar com a necessidade de “fazer prova de vida”. O sociólogo defende que existe a necessidade de se problematizar de forma crítica, mas também de promover uma responsabilidade coletiva.

Cultura e arte, do centro à periferia

No relatório Fórum Cultura: Representatividade Negras nas Artes Performativas, que decorreu a 16 de janeiro de 2021, lemos a seguinte autoanálise por pessoas negras profissionais da cultura:

“Existe uma recorrente descredibilização da arte produzida por pessoas negras por parte das instituições estatais e estruturas artísticas, que implica o questionamento do imaginário colonial coletivo, do ideal da meritocracia, dos mecanismos da tokenização e do sistema de privilégios que sustém e constitui a normatividade da branquitude, reconhecendo que essa dinâmica fecha as portas a pessoas negras profissionais do setor que ficam condicionadas a construir percursos alternativos e muitas vezes condenadas a uma condição de amadorismo não financiável, com poucos recursos que não geram sobrevivência e reconhecimento e nem contribuem para quebrar os ciclos geracionais de desigualdade racial.”

A este respeito, e relacionando com o que vemos no filme, este acaba por ser, na opinião de Paula Cardoso, uma “afirmação dos atores que participaram”. Levantando, de seguida, a questão: “Que espaço há para atores negros?” Da mesma forma, acaba por ser uma afirmação pelo facto de partir de uma ideia de Kalaf Epalanga.

Ruben Rosário (Milton), Wilson André (José), Karina Silva (Amara) e Nayela Simões (Xissola), da esquerda para a direita

Também a este respeito, Zia Soares aponta que “filmar as pessoas negras ainda é muito difícil” e que existe a tentativa de “clarear” os atores na edição de imagem, denunciando um “medo de mostrar o negro” — algo que confessa não ter encontrado no filme de Graça Castanheira, o que a deixou muito agradada. “Há um respeito pela pele dos atores que me parece maravilhoso”.

Por outro lado, Zia expande o conceito de periferia para além dos contornos geográficos ao dar um exemplo prático. “Isto é ser periférico”, diz enquanto aponta para o microfone de lapela que tem encostado à sua bochecha realçando que, ao invés de ele se fundir com a sua cor de pele, ele sobressai pois estão feitos para se fundirem com a pele de pessoas brancas. Este é só um dos exemplos que enuncia para demonstrar como “há uma falta de acesso simbólico ao qual as pessoas negras estão destinadas”, quer vivam, ou não, em Lisboa.

A falta de acesso existe também ao nível da informação e espaço para outras culturas. Karina Carvalho exemplifica-o com a sua experiência, tendo crescido em Coimbra sem qualquer ligação à cultura presente nas suas origens: “Acho dramático ter tido de sair de Portugal para perceber a minha afrodescendência.”

Selma, que cresceu no centro, partilha que “sempre me fizeram chegar elogios que me faziam sentir incomodada”. Refere-se aos “falsos elogios”, que carregam preconceito, como: “és muito bonita, não és como os outros negros” ou “cheiras bem, ao contrário dos outros negros”. Por outro lado, aponta também para o seu trabalho e os temas que decide abordar nas suas músicas — “eu não canto canções de amor”. No seu lugar, procura temas que espelhem aquilo que vê na sociedade que a rodeia e os seus vícios, pois, como a mesma enuncia, “sou um corpo com algo para dizer”.

Como se pode, então, inverter este quadro? Graça refere que encara o seu filme “como um pequeníssimo gesto que tenta alertar para a necessidade de grandes gestos políticos. Isto corrige-se com políticas públicas — com bolsas de estudo para comunidades desfavorecidas, com a política de habitação diferente”. Zia enumera mais algumas medidas que seriam urgentes: a implementação de quotas no ensino superior e nos serviços públicos, a atualização dos planos curriculares ou incluir estudos etnográficos nos Censos. Para além disso, reitera que “o centro somos cada um de nós, cada um com a sua periferia” e, por isso, “há uma implicação ativa que cada um de nós, que somos centro, temos de cumprir”. “Não podemos estar à espera de que o mundo se organize de acordo com as nossas necessidades, é preciso intervir”. Também Karina Carvalho defende que “a nossa atitude não pode ser passiva” e que “temos de ser nós a criar espaços de afirmação”. “Existir um Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação é bom, mas este tem de ser monitorizado na prática e temos de perceber quem o faz”, acrescenta. Para tal, considera determinante a existência de espaços de produção política pública em que se contamine os decisores com as preocupações já enunciadas, mas também através da ocupação de espaços de decisão por pessoas negras.

De facto, “é no terreno que esta necessidade tem de ser implementada e quanto mais gente houver a fazer este trabalho, mais poderemos ser ouvidos. São mudanças estruturais, políticas. Não deve, sequer, depender da boa vontade”, defende Graça. Ao não se verem implementadas este tipo de medidas, a realizadora entende que estamos a “perpetuar um fosso cultural, económico, que é muito violento e pode vir a tornar-se muitíssimo violento. Isto até podia ser uma questão de os brancos quererem viver bem e, nesse sentido, afastarem tudo o que não é branco. Mas já sabemos que há um sofrimento grande de quem maltrata. Maltratar não é um ato inconsequente. Maltratamos, e isso pesa-nos, portanto, somos nós brancos, com todo o nosso privilégio, que estamos em franca perda”. Uma perda existencial, mas também de vitalidade. Uma perda de criatividade e inteligência, pois “qualquer fechamento implica uma perda.” “Não nos passa pela cabeça que estejamos em franca perda quando não convivemos com negros. Do ponto de vista de muitos brancos, os negros estão lá no seu primitivismo e nós estamos aqui na nossa sofisticação. Quando se abre os olhos percebe-se que talvez seja um bocadinho ao contrário. Estamos no nosso fechamento e eles estão na sua abertura”, conclui.

Linguagem e imagem como elementos de identificação social

Quando questionada sobre este tema por Angella Graça em relação ao filme de Graça Castanheira, Paula Cardoso destaca, desde logo, a existência pouco habitual de seis protagonistas negros, mas também a incomum partida de um lugar de pertença das personagens que se verifica, desde logo, pelos diálogos que integram o calão angolano. Destacando, no entanto, que em Lisboa as personagens usam menos calão — talvez por sentirem menos pertença.

Wilson André (José), Ruben Rosário (Milton), Graça Castanheira e Nayela Simões (Xissola), à esquerda, e Nilsa Pires (Savana) e Paulo Pascoal (Julião), à direita

A este respeito, Graça partilha, na conversa no CCB, que tinha escrito o guião em português corretíssimo de Portugal e que, no produto final, “não há uma única palavra dos diálogos que tenha ficado como a escrevi”. Para a ajudar na escrita do guião, surgiu Meirinho Mendes que, na mesma conversa, expressa o seu desejo de que o filme fosse todo feito em calão ao invés de apenas incluir algumas expressões. “Eu queria fazer tudo em calão para que nenhum branco percebesse. Púnhamos legendas ou então ele tinha de perguntar ao preto do lado o que tinha sido dito”, diz em tom brincalhão provocando gargalhadas encorpadas na audiência.

Em entrevista ao Gerador, Graça levou esta reflexão acerca da linguagem ainda mais longe, partilhando um tópico de conversa recente. “Há pouco tempo falava com um amigo sobre como o Acordo Ortográfico impediu que, havendo o português e português do Brasil, não houve, depois, o português de Angola, da Guiné, de Cabo-Verde. Tudo isso, depois, são grandes desvios, são incorreções relativamente a uma matriz original. Nós estamos em perda também por isso. Hoje em dia, depois de muito tempo a conviver com pessoas não brancas, às vezes digo palavras como “desconseguir”, “vamos bazar”, “vamos descair” — coisas que são apropriações. Não chego ao ponto de dizer coisas como “kamba” [camarada], porque, de facto, tenho uma palavra para isso e não me surge, mas novas invenções, desvios e desconstruções do português são muito expressivas e nós estamos aqui todos muito certinhos, com as vogais todas fechadas, verbos muito bem conjugados e não estamos sequer a ter abertura e a conviver com este português, que é real, que é o português que os negros falam entre si. E que é corretíssimo, não é parecido com o português do manual, mas o do Brasil também não o é e não é preciso que seja.”

“A mensagem é simples: é preciso continuar” (Graça Castanheira)

Chegados à última conversa da tarde, vemos o palco ocupado por Angella Graça na moderação, Graça Castanheira e Meirinho Mendes. A primeira intervenção é feita por Graça que, antes de endereçar a primeira questão feita por Angella, pede para ler uma mensagem que lhe foi enviada por Kalaf Epalanga que, vivendo em Berlim, se viu impossibilitado de estar no CCB no dia 4 de julho. A sua mensagem começava com a frase: “Cor é política”, explicando, mais à frente, que “em todas as culturas as pessoas com peles mais escuras sofrem mais”.

Graça explica, de seguida, que, para si, não importa que o seu filme seja considerado “uma porcaria” ou se “errei aqui ou ali”. Para si, o importante é ver aquele auditório não apenas com pessoas brancas, mas também com muitas pessoas negras — “é um ato político estarmos aqui todos a falar”. O auditório deixa-se ocupar por aplausos demorados.

Meirinho volta a focar que “nós próprios criamos o centro que queremos ser”, sem se esquecer de reforçar que se considera um ser cultural e que considera que fazer “um filme, acima de tudo é um ato cultural, para além de político”.

Ainda antes de se dar por terminada a sessão, Graça partilha uma história do seu confinamento. Conta que, durante o confinamento, foi várias vezes fotografar a cidade deserta de Lisboa e chegou a ir, inclusive, andar de metro às quatro horas da manhã. O que encontrou? “Todas as pessoas acordadas às quatro da manhã eram negras. Ninguém fala disto. Não estamos a falar do racismo sistémico.” Este episódio leva-a a questionar: “O que é que nós, pessoas progressistas, estamos dispostas a fazer? Até que ponto somos progressistas ou antirracistas?” Alertando, logo de seguida, para o hábito de, perante um debate sobre racismo, imediatamente nos tentarmos demarcar dizendo — “eu não sou racista” —, “mas, na verdade, todos o somos”.

“O caminho é simples: é preciso continuar”, defende Graça, apelando ao progresso também após a pandemia e reconhecendo que a sua “tentativa foi participar num caminho que já estava a ser feito.”

“Estamos em franca perda se não convivermos”, remata Graça. Num auditório repleto de diversidade, onde imperou o respeito pelas várias presenças e opiniões, onde não se abafaram experiências e vimos vários rostos concordantes com as reflexões que iam surgindo, todos contribuíram e saíram de lá mais perto da meta pela igualdade de direitos. É verdadeiramente comovente assistir à beleza deste convívio, desta união, desta luta, que é de todos, pelo direito à cidadania, no fundo, pelo direito a ser.

Paulo Pascoal (Julião), Ruben Rosário (Milton), Nayela Simões (Xissola), Karina Silva (Amara) e Nilsa Pires (Savana)

Como defende Meirinho numa nota final, “temos de deixar de ser cúmplices” e perceber que “o papel da cultura é fundamental para unificar os povos e as pessoas”. Num projeto que envolveu várias pessoas com um papel altamente ativo e participativo, deixando de parte o protagonismo normalmente dado a pessoas brancas, o coletivo limitou-se a ousar fazer para desinibir a riqueza da humanidade.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografias da cortesia da equipa do filme

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