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Pelo fim da romantização de estar ocupada

Chego ao final de mais uma semana com a sensação de que não fiz tudo o que queria. Não enviei todos os e-mails, não consegui fazer todas as tarefas que me comprometi a fazer, não li uma página do livro que queria ter começado a ler. No telemóvel, tenho 11 notificações no Messenger, 25 no Telegram, 16 407 e-mails por ler — grande parte destes e-mails são publicidade que quis evitar quando criei esta conta, mas que foram surgindo cada vez que aceitava dar os meus dados a uma marca. Já me habituei a viver com números que assustam as pessoas que, por algum motivo, olham para o meu telemóvel. Acho que me resignei à ideia de que algum dia vou conseguir ler e responder a tudo, até porque algumas das mensagens que deixei perdidas são de pessoas amigas, de quem me lembro diariamente mas a quem deixo de responder por não ter tempo. 

Quando a vida passou a ser confinada, comecei a perder os limites do tempo. O trabalho e o lazer começaram a viver no mesmo espaço, mais as aulas do mestrado, o estudo para o exame de código, tudo e mais alguma coisa cabia num só espaço. Sem que me apercebesse, comecei a dizer a frase que sempre ouvi os adultos dizerem e que me parecia irracional: “não tenho tempo para nada”. Cafés e almoços com amigues começaram a ser adiados, remarcados, adiados de novo. As mensagens começaram a ficar perdidas algures entre tarefas e, sem que me apercebesse, comecei a fechar-me numa bolha onde entrava pouco mais do que trabalho. Quando o nosso trabalho se começa a fundir com a nossa vida, é fácil perdermos o controlo. 

Nos encontros adiados, tanto da minha parte como da de amigues, é comum ler-se “tenho estado super ocupada”, “tem sido uma loucura”, “não tenho tido tempo para nada”. Estar ocupada é o normal, é o que se espera até. Fica-nos bem mostrar que trabalhamos muito, que produzimos muito, que passamos muitas horas ao computador. Não nos fica mal porque é assim que encaixamos numa grande máquina que nos diz que temos de ser produtivos, que é tudo uma questão de organização. Portanto, mesmo que não estejamos, de facto, super ocupades, é melhor dizermos que sim. Afinal, é o que se espera de nós. 

Às vezes ponho-me a pensar no quão diferentes somos, nos nosses corpos, nas nossas histórias, na forma como nos relacionamos, como vemos o que está à nossa volta condicionados por tudo isso. Como vivemos condicionados por tudo o que somos. Mas no momento de trabalhar, é expectável que todes sejamos iguais. Não há espaço para dias maus — é preguiça. Não há espaço para dizer que não — com boa vontade, tudo se faz. Não há espaço para adiar — o trabalho é inadiável, a vida é que não. Passam-se dias, meses, subitamente anos. E quando queremos muito dar um boost à nossa carreira, o tempo nunca parece suficiente, nada parece suficiente. Tornamo-nos nas pessoas que não têm tempo para nada, aqueles adultes que não queríamos ser. 

Será que há volta a dar? Ainda vou a tempo?

Não me consigo lembrar da primeira vez em que me queixei de não ter tempo para nada. Mesmo que faça um esforço, para efeitos de terapia, sinto que foi algo que sempre fez parte de mim. Uma espécie de frase-condição-apêndice. No final do primeiro ano de pandemia, o meu corpo começou a pedir-me para parar. Não me apetecia levantar, chegava a meio do dia com uma sensação de cansaço extremo, sentia-me triste, sem vontade de fazer nada, sem paciência para corresponder ao que era suposto eu ser. Seria outra vez uma anemia? As análises mostraram que não. Seria só cansaço? Algo me dizia que não podia ser. Era uma Tiroidite de Hashimoto, vim a perceber mais tarde. Já que eu não parei, a minha tiróide obrigou-me a parar. O meu metabolismo passou a ser mais lento e o meu corpo começou a precisar de mexer-se fora do computador. 

Deixou de haver espaço para desculpas para impor os meus limites, mas não é fácil mantê-los quando toda a gente parece fazer tanta coisa e só ser bem sucedida dessa forma. Ainda assim, continuo a tentar. 

Na fase de entrevistas da reportagem “Saúde Mental: os desafios de se ser jovem e viver para além dos estigmas”, que escrevi com a Andreia Monteiro para a última revista do Gerador, houve uma conversa que me tocou particularmente. Quando perguntei a João Costa Ribeiro, psiquiatra no Hospital Beatriz Ângelo e no Manicómio, quais eram os grandes desafios da saúde mental hoje, respondeu-me que era sobreviver na cultura do trabalho. Porque mesmo quando não estamos bem, é suposto parecer que estamos para não deixar cair a máscara. “The glorification of Busy” [a glorificação de estar ocupado], chamou ao sintoma de que a sociedade padece. 

No mundo do trabalho como ele existe hoje, não há espaço para a falha. Fazer pouco não é opção. Se alguém diz não aguentar mais, o problema é seu. A máquina continua a funcionar sem si. 

É provável que algum dia a máquina continue a funcionar sem mim, algures. É assim que as coisas funcionam. Mas por cá continuo numa luta interior pelo fim da romantização de estar ocupada. 

-Sobre Carolina Franco-

A Carolina Franco é jornalista no Gerador. Nascida no Porto, em 1997, aprofundou o seu interesse e conhecimento na cultura e na arte enquanto estudou na Escola Artística de Soares dos Reis. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto, viveu quatro meses em Ljubljana, na Eslovénia, onde teve a oportunidade de ser envolvida pela cultura pós-jugoslava e estudar Ciências Sociais. Entre 2018 e 2019 frequentou a pós-graduação em Curadoria de Arte da Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Graças a estas experiências, tornou-se mais interessada no papel da cultura na sociedade em geral e nas comunidades locais – uma relação que procura aprofundar cívica e profissionalmente.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carolina Franco
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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