Os meus tios e a minha avó materna viviam no Paquitequete, um bairro de pescadores, onde a areia da praia era também o chão das ruas. Enfiava-se entre os dedos logo de manhãzinha, assim que pusesse o pé fora da varanda da minha avó. Era o meu destino de férias preferido. Nos dias mais quentes, saltitava descalço de sombra em sombra, com medo de queimar os calcanhares. Usar chinelos estava fora de questão, pois nenhuma das outras crianças usava, a não ser em ocasiões especiais, como ir à cidade ou à escola. Vagueavam pelos quintais, passando os recados das mães, ou vendendo o peixe dos pais. Ao pôr do sol, juntavam-se em frente à casa da minha avó para longos minutos de jogos, gargalhadas e cambalhotas. Sempre descalças. E eu não me atrevia a ser diferente. Seguia-as para onde fossem. Fazia o que elas fizessem. Falava como elas falassem. Esforçava-me para arranhar o Kimwani, ou o Makhuwa. Fingia que percebia tudo. Envergonhava-me com orgulho. Elas riam. Eu ria também.

À hora do jantar, voltava para casa da minha avó e reencontrava os meus tios e tias. Comíamos no quintal, onde havia espaço para todos. Aos poucos, iam chegando os vizinhos, já jantados, prontos para ver a novela das nove. Um dos meus tios trazia o televisor para o alpendre e subia o volume ao máximo. Em poucos minutos, o quintal enchia-se de gente. A trama intensa de O Clone fazia as maravilhas do bairro. Giovanna Antonelli era Jade. Murilo Benício era Lucas, Diogo e Leo. O fim inesperado de um episódio gerava discussões acesas. A morte do Diogo foi mesmo um acidente? Mas afinal o Leo era filho de quem? Para os mais obcecados, o assunto continuava noite fora.

Depois da novela, seguia os meus tios até outros quintais, onde outros televisores eram montados. Havia cinema todas as noites, com dose dupla aos fins de semana. Do cartaz constavam sobretudo filmes de ação norte americanos e romances de Bollywood. A caixa do VHS, pendurada no portão, anunciava o título da noite. Foi assim que conheci os saltos impossíveis de Jackie Chan e a espargata de Jean-Claude Van Damme. Também foi assim que me apaixonei por Sridevi Kapoor e Sigourney Weaver. Nenhum dos filmes exibidos era para a minha idade, mas sempre achei que as férias eram a altura perfeita para as crianças fazerem coisas de adultos.

Adormecia quase sempre ao colo de um dos meus tios. Com a metralhadora de Arnold Schwarzenegger ao fundo, ou a voz torta de Sylvester Stallone, sentia os olhos fechar lentamente. Era um miúdo feliz. Estava de férias. E descalço.

É assim que me lembro de Pemba. De quando as crianças podiam ser crianças.

Hoje, essas crianças são adultos assustados. Abandonaram o gosto pela pesca, pelas novelas, pelos pés descalços. Correm pela vida. Fogem do fogo e do combustível. Lutam como podem lutar. Morrem como não deviam morrer.

E nós vemos, ouvimos, sabemos, com a triste consciência de que tudo o que fizermos será pouco.

Do fundo da minha impotência, resta-me a saudade.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
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