“Reflectir sobre a actividade criadora do homem é sempre uma tarefa urgente. De facto, criar é provocar conscientemente o acontecimento de um novo fenómeno ou o aparecimento de um novo objecto perceptível pelo homem. (…) Novo é tudo o que se coloca numa situação tal que obrigue o sujeito a uma operação de revisão e reajuste das imagens da memória e das respostas já elaboradas. Passando do nível do indivíduo para o nível da sociedade, a novidade poderá entender-se como o que provoca uma necessária revisão das estruturas dos conjuntos de factos em que vem a inserir-se”*.

Nestas palavras escritas por E. M. de Melo e Castro, em 1967, para o Diário de Lisboa [1], reside a convicção por parte do autor de que o “novo” na ocupação do seu devido espaço terá um impacto nas estruturas de conhecimento já estabelecidas. Em consequência, esse “novo” – seja acontecimento ou objeto – pode colocar em causa as chamadas “torres de marfim”, em que muitos se resguardam num pensamento canonizado, desvinculado das restantes temáticas em discussão. A implicação de tal fenómeno, quando aplicada ao universo da cultura, levanta no entanto uma nova questão sobre a necessidade de certa postura (política) nas diferentes expressões artísticas e na forma como se representam: deve a arte proporcionar uma visão crítica sobre a realidade que nos rodeia, saindo dessa torre de marfim?

Num artigo de 2019 da New Yorker, intitulado What Can We Learn from the Germans About Confronting Our History?, a autora Lizzie Widdicombe traz para cima da mesa a importância de uma velha máxima: não podemos todos aprender com a História? Neste caso concreto, a jornalista destaca a forma como a Alemanha tem lidado, ao longo de décadas, com o nazismo e as atrocidades feitas no contexto desse mesmo regime. Nesse “working off the past” não está em causa a existência de racismo e antissemitismo na Alemanha, que continua a existir, mas o profundo conhecimento que o país tem, nas diferentes esferas, do que representa esse período negro da história do século XX. Em paralelismo, o artigo aborda a falta dessa mesma profundidade de conhecimento com que os Estados Unidos da América lidam com a sua própria Guerra Civil, o supremacismo branco que se perpetua (simbolicamente mas também diferentes esferas) e os problemas de racismo que se arrastam até à atualidade.

Para o leitor desta crónica pode parecer desfasado trazer as palavras de Melo e Castro, sobre o que é “novidade”, para falar de um tema, infelizmente, recorrente e antigo. Porém, estou convencido de que aquilo que o poeta português nos diz pode aplicar-se sobre o mesmo princípio. Pensar sobre racismo, colonialismo, esclavagismo e outras formas de opressão deve sempre implicar um pensamento renovado. Mesmo não sendo novidade, deve motivar uma reflexão que salte para fora dos domínios das torres de marfim que apenas preconizam um determinado status quo e um determinado quadro de valores. Mas podemos ir mais longe: em pleno século XXI é ainda preciso darmo-nos conta de que a História do mundo, tal como a conhecemos, está essencialmente relatada pelos seus vencedores. Vamos a outro ponto? De que a grande maioria das instituições culturais – nomeadamente museus de História – ignoram completamente uma qualquer visão para além daquela que tentam disseminar desde o dia em que abriram portas.

Qualquer pessoa que já tenha entrado no British Museum, em Londres, poderá ter sentido o mesmo que senti quando ali entrei pela primeira vez: aqui estou num local onde se agregam séculos de roubo e violência de uma narrativa imperial, onde não existe sequer explicação para tais factos. Não é por acaso que, derivado de toda a onda de manifestações a que se tem assistido, o próprio diretor do British Museum, Hartwig Fischer, tenha emitido uma declaração expressando a solidariedade da instituição com a comunidade negra e afro-americana, na tentativa de se poder alinhar com o movimento Black Lives Matter. Em resultado, a atitude foi amplamente criticada, reforçando, em última instância, o pedido que muitos países de diferentes continentes – nomeadamente europeus – têm feito para que o museu restitua à sua origem objetos de património cultural retirados desses locais em diferentes épocas.

E quem pensa que este problema não é português, engana-se. Mesmo para aqueles que possam ignorar tal facto, é importante relembrar que as narrativas do colonialismo português se mantêm fechadas em si mesmas – com muitas dimensões ainda por estudar –, impregnadas numa visão desse passado tido como exceção no contexto europeu, alegadamente assente em perspetivas humanistas e universais. E se tudo isso não chegar, é importante destacar um facto bastante presente: se há coisas que podemos aprender com esta pandemia é que estas temáticas ultrapassam a lógicas das fronteiras terrestres. Não se trata de um problema deste ou daquele país, mas sim de algo que pertence a todos e que carrega consequências socialmente transversais no quotidiano das diferentes populações.

Acredito que o país, não tendo uma outra postura crítica sobre esse passado, incorre no mesmo erro que outros cometem, ao não olhar criticamente para a sua História colonial, provocando clivagens que se arrastam no tempo. Em Portugal, esse trabalho deve começar no ensino e nas instituições culturais, a quem cabe a tarefa de pensar e propor um olhar mais crítico e mais aprofundado sobre estas temáticas. Como bem escrevem os autores do ensaio O padre António Vieira no país dos cordiais, publicado recentemente no jornal Público, essa análise crítica que podem produzir “destina-se precisamente a assinalar a distância que o presente reconhece em relação aos valores do passado”, mas também “o desejo de marcar uma ruptura informada com esses valores”. E, felizmente, existem hoje abordagens bastante criativas para se fazer essa devida contextualização.

Como nos escreve Isabel Costa, na crónica aqui publicada, intitulada O que Pode Uma Estátua, estamos a “iniciar um processo longo de descolonização do pensamento sobre a nossa história”. Este processo de que fala deve preocupar decisores políticos na forma como preparam manuais escolares, deve preocupar museus e outras instituições culturais na forma como apresentam certas obras e deve preocupar cada um de nós, enquanto indivíduos, confrontando a História que nos é apresentada acriticamente. Esse exercício implica algo mais do que somente deslocar estátuas, retirar filmes de catálogos, impedir a publicação de certos livros ou fechar portas de museus. Implica recusar uma visão puritana da História e convocar vozes que nos entreguem uma análise mais heterogénea, mais crítica e também mais capaz de nos educar fora de um pensamento tantas vezes enviesado e comprometido.

*Excerto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
[1] Castro, E. M. de Melo e (1977) In-Novar, Lisboa: Plátano Editora

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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