A Penumbra é uma associação cultural artística sem fins lucrativos, que teve origem em meados de 2020, em plena pandemia. Foi inaugurada a dia 26 de fevereiro, em Lisboa, pelos fundadores Paulo Robalo, de 57 anos, e Maria Barroco, de 28 anos. A associação Penumbra tem como objetivo promover o trabalho e a criação dos artistas em Portugal. A sua visão é baseada na fusão de culturas e expressões artísticas, tendo em conta a versatilidade. Como podemos melhorar o mundo e como podemos contribuir para a educação ao nível das artes, são questões levantas pelos fundadores da Penumbra. Poderá saber mais na página da Penumbra.
Paulo Robalo é pintor e professor na escola artística António Arroio.
Maria Barroco é artista visual e produtora. É mestre em Estética e Estudos Artísticos com especialização em Cinema e Fotografia.

Numa conversa por Zoom, Paulo Robalo e Maria Barroco falam-nos sobre os desafios das suas profissões e a beleza dos seus princípios.

Gerador (G.) — A Penumbra é um projeto recente, inaugurado a 26 de fevereiro, em plena pandemia, com a presença de vários convidados. Como surgiu esta ideia?

Maria Barroco (M. B.) — A Penumbra nasceu numa tarde, em 2020, quando eu e o Paulo decidimos que íamos criar este projeto. A partir daí, tivemos a ideia de criar uma colaboração em que produzimos eventos, performances e criações artísticas multidisciplinares.
Tínhamos a ambição de ter um espaço. A inauguração a dia 26 de fevereiro foi a concretização do projeto num espaço físico, onde podemos receber as pessoas e ter exposições. Contudo, não é o nosso objetivo único. É mais uma forma de juntar pessoas de várias áreas, que queiram criar em conjunto, e nós fazemos essa produção.

Paulo Robalo (P. R.) — Na realidade, vem de um objetivo pessoal, tanto meu como da Maria. Como intervenientes artísticos, desejamos ter uma plataforma de criação de projetos artísticos, onde nós também participamos e ajudamos. Criámos uma forma de colocar as várias coisas em desafios de reflexão e pensamentos, sobre caminhos artísticos de várias linguagens.
Esta ideia é consequência das nossas formações. No meu caso, sou artista plástico. No caso da Maria, existe na sua formação, e também, nos seus desígnios, a filosofia e o cinema.
De certa forma, já somos intervenientes culturais, uma vez que realizamos um trabalho dentro do território cultural. Também colaboramos com uma galeria [Passevite], da qual fui cofundador. Ganhámos alguma experiência no terreno. Foram sete anos a trabalhar numa galeria com o objetivo de criar um programa alternativo. Desejamos também que a Penumbra seja alternativa. De certa forma, já faz parte do nosso modus operandi.
Faltava conjugar o meu pensamento com o da Maria, e transformá-lo num pensamento que contaminasse outros criadores. O resultado seria construirmos um pensamento reflexivo sobre os caminhos artísticos contemporâneos.

G. — Sendo a associação vocacionada para a reflexão, criação e produção de conteúdos artísticos, como descrevem a sua identidade?

M. B. — É uma ótima questão. A nossa grande ambição e a nossa missão vêm de uma espécie de necessidade de cruzar vários artistas, de várias maneiras de pensar, com várias maneiras de fazer arte, de ver a arte e de pensar a arte. A partir daí, criar, não só um pensamento reflexivo, mas também objetos artísticos. É uma missão sem fim. Conhecemos vários artistas, e o que esperamos deles é vontade de trabalhar, pensadores que estejam abertos a novas perspetivas, porque nós também estamos. Procuramos artistas que tenham muita força para criar. Nós somos a plataforma que dá abertura e suporte. Essa é a nossa identidade.

P. R. — É uma identidade em construção. Obviamente está assente numa metodologia processual, laboratorial e de experimentação. Nós estamos a criar a nossa própria gramática, do ponto zero.
Um dos grandes objetivos da arte é exatamente o facto de não ter fim. O patamar que vamos sempre atingindo é um que e proporciona abrir outras portas e outros caminhos. Portanto, temos aqui uma missão sem fim, de criação de um território muito aberto, de conhecimento e de linguagens artísticas.

G. — Segundo o INE, a taxa de desemprego subiu para 5,6 %. Quando decidiram entrar nesta aventura, tiveste receio de começar um percurso que está socialmente associado à noção de instabilidade financeira? Como é que a vossa família encarou isso?

M. B. — Claro que sim. A precariedade é algo que está presente, não só na minha flor da idade, mas para toda a gente que trabalha nas artes e na cultura.
Quando criámos a Penumbra, em 2020, a cultura estava muito complicada. Contudo, agora está a voltar aos poucos. Tive receio, mas, felizmente, tenho uma família que sempre me apoiou nos meus desígnios. Desde cedo, decidi seguir artes e cinema. Ambos os caminhos, complicados a nível de estabilidade financeira.
Esta associação e este projeto vêm tentar colmatar ao máximo essa instabilidade. Ou seja, nós estamos a tentar criar uma plataforma, que possa, no futuro, ser uma estabilidade para vários artistas. Criámos um portefólio, que permita mostrar o trabalho, para que possamos concorrer a concursos. Os artistas têm sempre a necessidade de criar, quer tenham dinheiro ou não.
O que acontece, muitas vezes, é que o facto de os artistas estarem em constante trabalho de criação. As entidades pensam — “vamos ter sempre conteúdo, logo não precisamos de os ajudar”.
A plataforma dá a conhecer essa precariedade. Cabe-nos falar, criticar, mas a todo o tempo, sabendo como é que funcionam os mecanismos de financiamento e como é que se faz um orçamento.

Fotografia Cortesia Maria Barroco

G. — Paulo, és um dos fundadores, mas também és pintor e professor. A tua arte era algo que fazias para ti próprio e, depois, tornou-se pública, ou sempre quiseste mostrar as tuas criações aos outros?

P. R. — Não vou entrar naquele clichê de que desde pequenino queria ser artista. A arte, para mim, é como respirar. Não consigo sequer identificar o território da origem da minha relação com a arte. É uma necessidade intrínseca, uma necessidade sem limites e sem fim.
A arte é uma riqueza que nos permite crescer constantemente. Permite-nos introduzir questões, ir ao encontro de respostas, algumas delas difíceis de serem respondidas. Vai ao encontro das nossas ansiedades, inquietações, dos nossos desejos, das nossas ambições e da grande ideia do pilar editorial da Penumbra. Nós temos um grande desígnio, que é trabalhar sobre o universo da utopia, que está muito associada às artes. Existe uma tentativa de percurso, que vai ao encontro de todas estas questões, que todos nós temos existencialmente.
Este é o percurso que eu sempre tive a certeza de que vai ao encontro de tudo aquilo que eu desejo.
Na Penumbra, temos vários pilares de amigos que nos suportam. Como, por exemplo, o escritor Luís Robalo, o ator e encenador João Didelet, entre outros.
Eu e Maria tivemos a necessidade de estruturar a nossa associação com elementos de idades diferentes, e de vários níveis, tal como, de áreas criativas distintas.
A escola, desde sempre, me acompanhou. Inicialmente, como uma forma de sobrevivência, e mais tarde, até aos dias de hoje, como uma extensão daquilo que eu mais gosto de fazer, que é uma extensão de comunicar. Neste momento, não faço distinção entre o que é ensinar e pintar ou desenvolver projetos. Tudo isto faz parte do mesmo bolo que vai frutificando.

G. — “Pintar é estar doente dos olhos”, o que te leva a esta afirmação?

P. R. — Descreve a Penumbra. A Penumbra é um estágio na luz, que não conseguimos identificar cientificamente. É um espaço entre a claridade e obscuridade, entre a luz e a sombra. Pintar é uma enorme inquietação, devido à enorme necessidade de ver, que faz doer os olhos, porque é um enorme sofrimento interno.

G. — Sendo uma associação artística, lidam diariamente com vários criadores. Olhando para as várias formas de viver uma vida de artística, enquanto profissão, quais consideram serem as principais dificuldades e as vantagens?

M. B. — Nós trabalhamos com artistas que têm de ter outros empregos ao mesmo tempo.
Existe essa grande dificuldade diária, que é conciliar o trabalho com a vida artística. E porque é que isso acontece? Mais uma vez, voltamos à precariedade de ser artista como profissão.
Contudo, existe muito o sentimento de que o Paulo falava — “Para mim, pintar é viver.”
Portanto, o que é interessante ver é que por muito que se tenha um trabalho das nove às cinco, os artistas arranjam sempre tempo. Há uma grande necessidade de se juntarem a um projeto artístico, para conseguir viver. Há artistas muito bons, mas o que lhes traz o sustento, para depois poderem criar e fazer arte para viver, é o trabalho fora da sua área. É uma dualidade.

P. R. — Estamos a tocar nas grandes feridas da cultura do nosso país. Este país nunca acarinhou os artistas. Nunca foram uma prioridade, nunca foi a riqueza que se procurava.
Os artistas acompanharam sempre os grandes momentos da construção do país. Sempre se olhou para o artista como se representasse um papel de animação da vida. Como se a vida precisasse de figurinhas que, alegrando, vão avivando e dando algum glamour. Têm o papel de fazer rir e chorar, mas distanciadas da realidade, como uma espécie de embrulho geral. Não foi fomentada a cultura, como um bem de primeira necessidade para todos. O desenho e a música não são trabalhados no primeiro ano do ensino escolar. As crianças não têm acesso à cultura logo de forma natural, como, por exemplo, aprender a ler e escrever. Não se aprende a tocar música, não se aprende a desenhar, não se aprende a pintar, nem a dançar. A partir daqui, temos uma disparidade brutal entre aquilo que é, de facto, o grande sentido de desenvolvimento de linguagens artísticas, um grande sentido da cultura, num país que sempre teve de costas voltadas.
Crescemos sempre nesta dinâmica, de que a cultura é uma coisinha, que vem só acrescentar para abrilhantar “o cortar das fitas” e mais um leque de necessidades de que o país necessita.
A arte não está como pilar estruturante para o desenvolvimento, para a riqueza, para a memória e para a grandiosidade daquilo que são as artes.
Temos uma panóplia de criadores verdadeiramente excecionais, que ultrapassam todas essas adversidades diárias e constantes. Muitos deles vivem mal e não conseguem sobreviver. Põem em causa a sua dignidade pessoal em prol do sentido geral da cultura, que é universal. Esta questão é universal. Contagia o planeta onde vivemos.

Fotografia Cortesia Paulo Robalo

G. — Enquanto organização já desenvolveram vários projetos e eventos. Como tem sido a recetividade por parte do público?

M. B. — Tem sido muito bom. Todas as nossas expressões e performances têm tido uma boa recetividade do público. Na Holanda, a performance foi muito bem-recebida. A nossa inauguração foi um dia muito feliz. Contámos com 58 artistas que expuseram as suas obras na nossa galeria. O investimento deste trabalho abre caminhos para que os artistas consigam expor em outros locais.
Temos alguns projetos em vista. Nomeadamente na galeria na montra em Caxias, no Fundão e muitos outros projetos que ainda estamos a cozinhar.

P. R. — As iniciativas da Penumbra, que depois se materializam sob a forma de um evento cultural, têm um interesse para nós, porque fundimos várias línguas. Estamos a criar uma dramaturgia, que não é inovadora, mas que, de alguma maneira, também não é muito comum. Nós fundimos o texto com a representação e a música com o movimento. A pintura e o desenho é uma das géneses da dramaturgia. Os textos nascem em conjunto com a pintura e a pintura nasce em conjunto com os textos. Para além disso, temos a vertente audiovisual, que é a Maria que desenvolve. Todos estes ingredientes criam uma panóplia, que alargam os interesses do público, com uma mistura muito pouco usual. Nenhuma das obras que apresentamos, nunca as apresentamos como um projeto final. Apresentamos como uma obra em construção.
A performance que fizemos na Holanda, em breve, vai ser feita na adega no Cadaval. Terá como base uma encenação que experimentámos noutro lugar, mas agora vai ser redesenhada completamente para se adaptar à adega. O próprio espaço faz-nos repensar muitos dos elementos estruturantes e de comunicação das performances. Existe uma interação com o público, e não apenas uma representação.
Lançamos questões sobre inquietações, sobre as grandes dúvidas existenciais e até mesmo questões mais delicadas, relativamente a Deus, à criação e à imortalidade. Tentamos ir ao encontro de saberes, e sentimos sempre que o público está do nosso lado.
Ficamos todos juntos no final, com a companhia de um bom copo de vinho e a questionarmo-nos uns aos outros. Pensamos sobre respostas que nós próprios não temos na nossa performance.
Um dos caminhos mais interessantes da arte é não ter uma resposta fixa, nunca acabar, possibilita-nos que continuemos a viver.
A Penumbra deseja combater o elitismo que existe na arte. Fazemos convites muito abertos, porque não temos preferências. Independentemente se é um artista que comercialmente tem um valor de mercado, se está associado a uma galeria interessante ou não, se está associado a um curador de renome, isso não nos interessa. Interessa, sim, se estes intervenientes, os curadores, os colecionadores, as fundações e as galerias aportarem para este território, momentos que são enriquecedores na criação de um processo.

G. — A vossa associação realiza também formações, workshops e masterclasses que, de alguma forma, contribuem para o ensino. No que diz respeito a essa formação, consideram que têm alcançado os vossos objetivos? Qual é o balanço que fazem?
P. R. — Todo o caminho de formação é extraordinariamente importante, até para não ficarmos fechados em nós mesmos. A formação é, de facto, partilha e a Penumbra é uma partilha desde o início.
As formações artísticas têm quase sempre um problema, nem sempre são baratas e nem sempre são possíveis de serem partilhadas por todos os níveis sociais. Por exemplo, uma formação de edição de vídeo requer mais do que uma formação de pintura.
Temos desenvolvido sessões de design moderno, porque penso que o designer é o pilar de quase todas as artes, ou mesmo um elemento altamente estruturante de todas as artes visuais.
Achamos que é uma ação de formação muito interessante. As formações vão acontecendo conforme a possibilidade das pessoas para cobrirem os custos. Tudo isto exige recursos.

G. — Enquanto fundadores, prezam pela criação de oportunidades para artistas, pouco ou nada conhecidos. Com que tipo de apoios têm contado para que estas oportunidades se concretizem?

M. B. — Tivemos dois apoios da DGARTES, um deles em 2021. Foram, e têm sido, muito importantes para nós. Gerimos ao máximo esse orçamento que nos permite arranjar algum material. Para além disso, temos o apoio de alguns artistas.

Fotografia Cortesia Penumbra

G. — Qual é a situação atual da Penumbra no que se refere a modelos de financiamento, qual é a vossa relação com o Ministério da Cultura ou outras instituições públicas?

P. R. — Neste momento, estamos a semear. Realmente, a organização necessita, mas não queremos, de maneira nenhuma, que exista só esta relação de apoio.
Efetivamente a cultura tem de ter mecanismos e tem de descobrir os caminhos de autossobrevivência. Os nossos parceiros têm sido muito generosos. Há sempre uma troca, e essa troca é bastante saudável. Vamos introduzindo aquilo que sabemos fazer, nos lugares para onde vamos com um sentido de partilha. É um facto que o financiamento requer uma base que é fundamental e que tem de ser construída. De que forma se constrói essa base neste país? Para que a cultura possa coexistir com os demais, a Penumbra está aqui para rasgar esse caminho em conjunto.

G. — Estando no meio das artes, que políticas públicas acham que deveriam ser adotadas para que as artes, em Portugal, ganhem um maior alcance?

P. R. — Até hoje, nenhum dos intervenientes artísticos foi pago. Nem o músico, nem o técnico de luz, nem a produtora, nem eu próprio.

M. B. — Parece que não há uma noção de quanto é que custa hoje em dia um projeto, uma vez que os apoios são muito baixos. É problemático. Existe a ideia de que temos de estar muito agradecidos aos nossos apoios, no entanto, esses apoios são mínimos.
E são mínimos porquê? Não é porque não apresentamos trabalho. Não é porque não preenchemos bem os formulários exaustivos de candidaturas às entidades. São formulários exaustivos, e eu penso o seguinte — se nós não tivéssemos alguma experiência em preencher formulários, em ter os documentos certos, não conseguiríamos. Imaginamos que será assim com todas as outras associações, que têm também muita vontade de criar e interesse, mas que ficam pelo caminho porque não o sabem fazer.
Um artista não tem de obrigatoriamente saber como é que funciona toda a burocracia, todo o mecanismo para concorrer a um apoio. Um apoio que é minúsculo, que fica muito aquém de um projeto com princípio, meio e fim. Nós, artistas, pomos em causa os nossos honorários, para conseguir pôr de pé aquilo que desejamos. É o nosso nome, a nossa visão e a nossa criação que está em causa.
O orçamento não está feito para haver criação, em que o artista possa apenas viver disso enquanto profissional. Existe muito aquela visão romântica de que o artista está em casa e apenas cria algumas coisas.
A pandemia veio pôr a olho nu muitos dos problemas que têm vindo a ser arrastados. Temos artistas que pagam a produção do seu próprio espetáculo para locais públicos. Isto não pode acontecer. Mais nenhuma profissão paga o seu próprio ordenado para ir trabalhar. Isto traz uma espécie de péssima autoestima ao artista, que, quando recebe algo, até fica espantado porque não é normal.
É necessário educar desde cedo as crianças a usufruírem e a perceberem a linguagem da arte e da cultura. Dessa forma, teremos um público que se interessa, apercebendo-se de que a economia deve ter um orçamento mensal para gastar em cultura. É um ciclo favorável a toda a gente.

P. R. — Existe a ideia de que vamos ao teatro, a um espetáculo de dança gratuitamente. Está enraizado todo esse passado de que a arte não custa dinheiro.
Teria de haver um investimento muito grande, e não é só uma injeção de dinheiro, mas também de criação, começando por passar a ser um desígnio nacional, cuidando dos nossos bens, cuidarmos do restauro da história, cuidarmos dos nossos artistas vivos, cuidarmos de uma forma mais aguerrida e mais introduzida. O Estado tem o dever de preservar a sua memória e a sua riqueza cultural. Portanto, o investimento tem de passar a ser um investimento de prioridade, e não um investimento de caridade.
É evidente que isto tem de ser regrado. A cultura é uma fonte de captação de financiamento enorme. Nos países desenvolvidos, ganha-se muito dinheiro com a cultura.

G. — Sentem que os eventos culturais têm pouca adesão por parte do público?

M. B. — Sim, eu acho que provavelmente as pessoas têm mais dificuldade em pagar sete euros ou oito euros para ir a um teatro, porém pagam 80 euros para ir a um festival de música.
Tem que ver com o preconceito que existe em relação a determinadas áreas.
Por vezes dizem: “Eu vou ver aquele concerto mais pequeno, que é o de um músico português e não gostar.” Existe esse preconceito.
A minha geração está a mudar aos poucos. Eu dou aulas a crianças e vejo tem de existir uma motivação para aquilo que é diferente. A geração mais nova está habituada ao consumo rápido, que não precisa ser pensado. Estão habituados a conteúdo de entretenimento. Não tenho nada contra o entretenimento, mas não pode ser só isso. Neste momento, toda a economia está voltada para o entreter rápido.

P. R. — Eu venho de uma geração que já usufruiu das primeiras grandes companhias de teatro alternativas, mas que agora se extinguiram completamente. Houve uma regressão enorme. Neste momento, quase ninguém vai ao teatro. Há uma pequena elite, uma ínfima família que vai.
O Estado tem a responsabilidade. O Estado tem de pensar em todos os artistas.

G. — Recentemente, organizaram o primeiro evento internacional da Penumbra, uma residência artística em Marrocos. Qual foi a motivação?

P. R. — Nós temos o objetivo de criar um grande encontro mundial, a partir da temática da utopia. Estamos a trabalhar nesse sentido. Estamos a fazer crescer e enriquecer o conceito dos objetivos e do modus operandi. Estamos a criar eventos satélite, que se conjugam para ajudar a construir este evento de maior dimensão.
A residência artística é em Marraquexe, num lugar extraordinário. É a primeira residência artística internacional criada por um pintor do Magrebe. Desenvolve um espaço de criação e de acolhimento de artistas e de escolas único, numa região muito pobre.
A Penumbra coincide dentro destes princípios e levámos 12 artistas para a residência em Marraquexe. É um lugar verdadeiramente brilhante para a conjugação de todo o projeto.
Em todos os eventos e todos os momentos que criamos, pretendemos que se tenha alguma unidade. Não fazemos algo disperso, retalhado ou fragmentado.
Esta residência vai ajudar-nos a preparar e a construir as bases da futura bienal.

G. — Se tivessem todos os recursos humanos e materiais ao vosso dispor, para concretizar algum projeto, qual seria?

M. B. — Seria a bienal à volta do tema utopia, porque aí converge tudo aquilo que nós achamos que é a arte. Convergem vários artistas, de vários países, várias áreas das artes, baseando-se numa reflexão sobre a atividade de cada um para melhorar o mundo. Só é possível melhorar o mundo observando. Parar para observar, criticar, refletir, tendo em conta as várias perspetivas.
Para nós, as opiniões ou ideias fixas são perigosas porque demonstram inflexibilidade na arte como em tudo, em todas as áreas, na política social, em tudo.
O que acontece, hoje em dia, é que os artistas estão num lado, os políticos estão noutro, os filósofos estão na academia e as pessoas estão na vida delas. Mas isto está tudo relacionado. A Penumbra quer convergir para se tornar um evento único.

G. — Se pudessem viajar no tempo e privar com algum artista, quem é que escolheriam?

M. B. — Eu escolheria três artistas: o Nietzsche, o Dostoiévski e Tarkovsky. Tenho uma grande admiração.

P. R. — Eu escolheria o William Turner, o Francis Bacon e o [Fernando] Pessoa.

Fotografia Cortesia Penumbra
Texto de Vanessa Lopes
Fotografia Cortesia Associação Penumbra