Nas sociedades ocidentais modernas fazem-se revoluções descafeinadas. Não resultam de um momento único no calendário, antes demoram gerações a terem efeito. Os temas combustíveis das revoluções parecem frágeis e artificialmente ligados à máquina para sobreviverem à exigente opinião pública.

É natural assim numa democracia plena, como são estas das sociedades ocidentais modernas. A lentidão é amiga da democracia porque permite todos ouvir e valoriza a soma dos pequenos gestos à brutidão de um soco no nariz. Esta morosidade deixa muitos de nós exasperados, principalmente aqueles que são vítimas efectivas das ausências de mudança. Mas faz com que as revoluções sejam entranhadas e, por isso, mais facilmente aceites.

Há várias décadas que estamos a participar numa dessas ondas revolucionárias. E como habitualmente nas democracias, ela não tem apenas um nome, é feita de dispersão e de um conjunto de assuntos que, à partida, até podem ser vistos de forma autónoma entre eles, tão relevantes que são por si próprios. Vamos a alguns deles.

O politicamente correcto. A ideia de que há frases, atitudes e comportamentos que hoje devem ser evitados, apesar de terem sido comuns há uns tempos atrás. A sensação de culpa pelo uso de uma palavra que os nossos pais usavam no dia-a-dia.

A consciência da discriminação. A clareza de sermos, enquanto sociedade e enquanto pessoas, discriminatórios perante outros. E de que isto ocorre em vários níveis, no género, na orientação sexual, na etnia, na desigualdade económica e em muitas outras dimensões.

O mito do colonialismo suave. O conceito de existir uma suposta aura positiva sobre o colonialismo português, mais respeitador sobre as suas conquistas do que outras nações imperialistas. A confrontação com a realidade que nos lembra que só há negatividade.

O património consequente. O facto de o património, quer seja arquitectural, funcional ou artístico, projectar mensagens, positivas ou negativas. Quer através da forma (estátua do Padre António Vieira, em Lisboa), quer da essência (Brasões na Praça do Império, em Belém), quer da nomenclatura (Ponte Salazar).

A religião é feita por homens. Independentemente dos credos de cada um, perceber que as religiões são protagonizadas por nós e não por deuses. E por isso, são recheadas de falhas, de erros grosseiros, de más interpretações, de injustiças e, até, de crimes.

A educação para a cidadania. O caminho da valorização da educação institucional neutra em oposição à educação condicionada pelo contexto individual de cada um. A certeza de que há determinadas áreas que devem ser ensinadas para conseguirmos cidadãos mais ativos e conscientes.

O me too. A convicção de que as mulheres têm sido constantemente oprimidas nos locais de trabalho, nas suas atividades de lazer ou, mesmo, nas suas relações pessoais e amorosas. A forma como é legítimo comunicar essa opressão sem sofrerem duplamente.

Tudo o que aqui mencionei tem estado, com menor ou maior duração, na crista desta tal onda revolucionária. É difícil que todos estes assuntos progridam com rapidez. Eles são dolorosos para a sociedade. É duro assumir o fardo do erro, reconhecer que não são apenas eles que procedem incorrectamente, que eu também o faço.

Há, no entanto, uma palavra que embrulha todos estes movimentos: o poder.

Nestes temas há sempre uma relação entre quem exerce o poder (os homens, os impérios, os brancos, os ricos, as igrejas) e quem sobre eles o poder é exercido (as mulheres, as colónias, as outras etnias, os pobres, os crentes).

Estes poderes estão presentes na humanidade há séculos e só podem ser combatidos pelas democracias. Mas as democracias são invenções recentes. Em 1900 existiam pouco mais de 10 democracias no mundo. Apesar de recentemente se sublinhar com abundância as fragilidades e desafios das democracias, quase que favorecendo a discussão sobre a sua utilidade, não há modelo político que tenha crescido tanto nos últimos 100 anos. Em Portugal, convém lembrar, somos uma democracia jovem, com pouco mais de 45 anos.

A boa notícia é esta: apesar destas revoluções serem morosas, elas são imparáveis. Quanto mais dias são percorridos em democracia, mais estes assuntos são irreversíveis. Temos que ser pacientes, que aguardar que as gerações conservadoras de poder se extingam, que a educação floresça e que a desigualdade se dissipe.

Mas precisamos de continuar vigilantes, de voltar a olhar para a história, que nos tem sido contada por quem tem supremacia, e de insistir em todas estas batalhas, cientes da demora. Ao longo desta determinação vamos descobrir outros movimentos que estão enraizados e que dependem desta relação de poder entre as pessoas.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo