Ana Vidigal, pintora, frequentou o curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Desde então, muitas foram as exposições em que as suas obras tiveram protagonismo. Em 1995 e 2002, foi a artista escolhida pelo Metropolitano de Lisboa para a execução de painéis de azulejos para as estações de Alvalade e Alfornelos. Não gosta de imprimir uma intenção panfletária nas suas obras, mas acha engraçadas as leituras feitas das mesmas à posteriori. Exemplo disso é a leitura feminista da obra Menina Limpa, Menina Suja, que esteve em exposição na Fundação Calouste Gulbenkian em 2010.


Num dia em que o frio decidiu partilhar as atenções com o sol, encontrei-me com a pintora Ana Vidigal junto ao Centro Cultural de Belém (CCB). Dado o sol bem acordado, decidimos ir para o Jardim da Praça do Império. Foi num banco de pedra, iluminado com vista para o lago central, que optámos por nos sentar. Enquanto montava o jogo, a Ana estava entretidíssima com um senhor que empunhava uma rede para cuidar da manutenção do lago, quase como se ali estivesse a pescar. Após esse momento de curiosidade, as atenções viraram-se para o jogo da Pergunta da Sorte. Expliquei-lhe as regras do jogo. Sem hesitações, a Ana lança o dado, que acaba por nos revelar o número 5 e que nos leva numa viagem até uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Que relação pensas existir entre o ego e a obra que um artista produz?

Ana Vidigal (AV): O ideal era não haver relação nenhuma. Mas o ego, muitas vezes, é um bocadinho ditador. O ideal era não haver nenhuma relação entre a obra e o ego, porque tem de se estar preparado para se ser humilde, ou seja, para aceitar críticas, para perceber que se errou e que, portanto, há que refazer as coisas. Digo isto, mas também detesto aquelas pessoas que têm uma modéstia falsa, sabes? Acho que tem de haver um equilíbrio. Não nos deixarmos ir abaixo com críticas que não são construtivas nem boas para evoluirmos, mas também não acharmos, o que é uma coisa que acontece muito quando somos novos, que somos os melhores do mundo. Não somos de maneira nenhuma! (risos) Tem de se ter a humildade suficiente para aceitar esse tipo de coisas. Há que ser recetivo a confrontos com o trabalho que fazemos.

Andreia Monteiro (AM): Um ego grande pode chegar a ser impeditivo do desenvolvimento do trabalho artístico?

AV: Ai, não! Pessoas com um ego muito grande mais vale estarem quietas, porque, mais tarde ou mais cedo, o ego rebenta.

AM: Conheci um artista plástico que partilhou uma história de quando era mais novo e de como o facto de achar que tinha mais jeito para o desenho o acabou por atrasar em relação aos colegas que, à partida, não tinham essa aptidão natural.

AV: Sim, claro. É a tal coisa de acharmos que somos os melhores. Não somos nada! Há sempre alguém que faça melhor, ou que tenha feito primeiro, e há que saber lidar com isso. Não podemos ter egos feridos. Uma pessoa que tem esta profissão não pode melindrar-se com isto ou com aquilo, não pode. E também não pode achar que é o melhor do mudo quando não o é, e isso é uma coisa que a vida também nos ensina. Não é que a gente não o pense quando tem a tua idade (risos), mas, para mim, o ideal seria que não houvesse nenhuma relação entre o trabalho e o ego. O ego do artista não deve ser alimentado. Claro que existe o brio, mas isso é outra coisa. Agora, um ego exacerbado é horrível e pode até dar azo a conflitos entre colegas e amigos. Espero que o meu não seja muito complicado e que nunca tenha chateado ninguém por causa disso. (risos)

É altura de dar corda ao dado uma segunda vez e, num passo demorado, acabamos por avançar apenas uma casa, indo parar a uma Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Rápido ou devagar?

AV: Devagar.

AM: Que é uma coisa que agora consegues fazer no ateliê, não é? Pintar devagar?

AV: Sim, é. (risos)

Cheias de vontade de descobrir para onde o jogo nos leva a seguir, voltamos a lançar o dado. Avançamos 3 casas e damos de caras com outra Pergunta Rápida. Parece que esta casa ficou fã da Ana.

Pergunta Rápida: Rir ou sorrir?

AV: Rir.

Sem pausas que nos permitam quebrar o ritmo, o dado desacelera a passada e avançamos uma casa. Vamos parar ao número 10, em que nada acontece. Voltando a lançar o dado, vamos parar à casa da Carreira, duas casas à frente, em que as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

AV: Ah! Sei lá. (risos) Isto parece muito fácil, mas quando se tem cinquenta e oito anos é um bocado difícil, porque a fasquia está muito alta. Gostava de recuperar todos os meus vídeos do Facebook que apaguei sem querer! (risos) A sério, juro-te! Estou para fazer isso há séculos, porque parece que as coisas ficam lá registadas e basta escreveres para eles. Houve uma altura em que fazia imensos vídeos e gosto desse trabalho, mas apaguei-os sem querer. Então era uma coisa que eu gostava de fazer: conseguir compilar todos e fazer uma curta com isso. Mas talvez haja uma preguiça de tentar recuperá-los.

AM: Olha que giro! Muito bem, então vamos continuar.

Sem espaço para preguiças, o nosso dado apresenta-se ao serviço. Avançamos seis casas, e o azar bate-nos, uma vez mais, à porta. Damos com a casa do número 18, onde nada acontece. A Ana ri-se do nosso azar e diz-me que é a sorte dela! Voltamos a lançar o dado. Quatro casas à frente, vamos parar ao número 22. Isto não está fácil.

AV: Não é a minha sorte? (risos)

AM: E o nosso grande azar.

Desejando que o dado seja mais nosso amigo, voltamos a dar-lhe ordem de soltura. Avançamos duas casas e vamos parar à casa do Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o, e eu adivinho qual é.

Fui buscar uma folha e canetas coloridas para a Ana, que se ria maleficamente. Avisou-me de que ia fazer o desenho todo a azul. Começou por desenhar aquilo que me parecia ser um babete. A partir daí, mais linhas foram surgindo, por entre gargalhadas da Ana, resultando nesta obra-prima:

Desenho do maior defeito por Ana Vidigal

AV: Ainda não chegaste lá?

AM: Acho que tem alguma coisa que ver com comida.

AV: Qual é que achas que é o meu maior defeito?

AM: És comilona? (risos)

AV: Sim, é a gula! (risos)

AM: Que giro ficou este desenho!

Parando de admirar o desenho, avançamos mais cinco casas e reencontramos um amor antigo, uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Copo meio cheio ou meio vazio?

AV: Meio cheio.

É com otimismo que voltamos a lançar o dado, mas não nos valeu de muito. Três casas à frente espera-nos o número 32 e nada há que fazer, a não ser lançar o dado novamente.

AM: Isto está mesmo…

AV: Se quiseres fazemos outra vez! (risos)

Talvez fosse melhor, mas vamos dar mais oportunidades à sorte. Lançando novamente o dado, este revela o número seis, que nos leva à casa do número 38. Ora esta!

AM: Que chatice! (risos)

AV: Se quiseres faço mais, sem problema nenhum. Mas até acho graça.

Perdidas de riso com este fado, não desistimos do dado e avançamos cinco casas. Conseguem adivinhar onde fomos parar? Outra casa numeral. Olá, número 43!

AM: Como é que isto é possível?

AV: Acho é que podes fazer o jogo da Pergunta da Sorte duas vezes, porque desta vez só respondi a duas coisas. (risos)

AM: E das poucas que respondeste, a maior parte foram das perguntas rápidas!

Já no cruzamento para a última linha de casas do tabuleiro, este é o nosso horizonte: estamos a quatro casas do número 47 e depois temos seis casas temáticas preparadas para conhecer a Ana. Será possível calharmos em todos os números do jogo? A Ana lança o dado. Faço figas. Sai o número três. Finalmente uma casa temática! Mas também não fiques muito animado, leitor, pois… é mais uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Responder ou perguntar?

AV: Perguntar. Agora só faltava sair o número 1!

Relembro que estamos a uma casa do número 47. A Ana lança o dado e parece que se ajuizou. Avançamos 5 casas indo parar a mais um Sê Criativo.

Sê Criativo: Tens aqui 8 formas. Podes usá-las e repeti-las da maneira que quiseres e não tens de as usar todas. Em dois minutos, cria uma imagem artística.

Dou uma folha branca à nossa convidada para que lhe possa servir de fundo. Para responder a este desafio, a Ana opta por escolher apenas uma forma, a do coração. Contamos dois minutos para que a obra seja concluída. Ainda antes de usar a forma, a Ana faz um desenho rápido. Coloca o coração ao centro e voilá!

Desenho com uma forma por Ana Vidigal

AV: É um ás de copas! Acho que não me enganei.

AM: Gostas de jogar às cartas?

AV: Não, mas gosto das cartas como objeto.

Ao lançar novamente o dado, vamos diretos à Casa Gerador – a casa final do jogo –, em que a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Mas isto soube a pouco, ou não? A sorte não esteve do nosso lado e, por isso, pergunto à Ana se lhe posso fazer mais algumas perguntas das minhas. Tanto ficou por falar. A Ana concorda. Vamos então a uma série de Perguntas da Sorte ainda antes de darmos por terminado o jogo.

Pergunta da Sorte: De que forma procuras trabalhar a temática do feminismo nas tuas obras? Podemos, por exemplo, pensar na Menina Limpa, Menina Suja, que esteve em exposição na Fundação Calouste Gulbenkian.

AV: É completamente instintivo. Quando faço isso, não penso que estou a fazer uma coisa feminista. Se eu pensar assim, as coisas podem tornar-se panfletárias. Sendo uma coisa completamente instantânea, que é o que me acontece, se houver posteriormente uma leitura sob esse prisma, não me importo nada. Até acho curioso, porque eu sou feminista. Mas não é uma coisa que eu faça, do género ‘agora vou fazer um trabalho feminista’. Não. É uma coisa instintiva. Quanto mais inconsciente isso é, melhor, porque não fica panfletário.

AM: Mas a Menina Limpa e a Menina Suja trabalham de forma diferente, ou não?

AV: Ah, sim, mas é só porque uma é mais porca do que a outra. (risos)

AM: Mas achas que nos trabalhos que fazes há essas duas vertentes? É algo que consegues identificar?

AV: Não. Quer dizer, hoje em dia, isso já não acontece. Aconteceu numa certa altura em que essa metáfora me surgiu. Estava a desenhar uma figura de uma boneca, que é a Narizinho dos livros do Monteiro Lobato do Sítio do Picapau Amarelo, e uma correu-me mal. Limpei-a toda. Estava a desenhar em cima de plástico e, quando a limpei, ela desapareceu, mas ficou suja, porque a caneta de feltro permanente nunca se consegue limpar bem. Depois desenhei a outra, que ficou muito limpinha. Imediatamente me surgiu esta imagem. Ao lado de uma Menina Suja, há sempre uma Menina Limpa. A partir daí, usei isso. Como, nessa época, tinha um trabalho mais conceptual e de ateliê, mais pictórico (com mais tintas), usámos muito essa dualidade quando a Isabel Carlos organizou essa exposição da Gulbenkian. Mas isso aconteceu-me no trabalho. Até estar a desenhar essas imagens nunca me tinha lembrado se havia Meninas Limpas ou Meninas Sujas. Foi uma coisa que apareceu mesmo à minha frente. Uma tela estava suja, e outra estava limpa. Achei engraçada esta dualidade, o jogo entre o limpo e o sujo. Como esse foi o título da exposição, depois adaptámos os trabalhos, porque uns eram realmente mais limpos em termos formais do que outros, e usámos isso. A diferença é que uma a trabalhar é mesmo mais porca do que a outra. Mas, em termos mentais, são as duas péssimas, eu acho. (risos)

Pergunta da Sorte: Sacrificar algo pelo teu trabalho é algo que não queres fazer, mesmo nos tempos que correm?

AV: Acho que não. Acho que só mesmo em caso de vida ou de morte.

AM: Quando tomaste essa posição de pôr a tua carreira na pintura em primeiro lugar, como é que eram as reações que recebias?

AV: Nem era a carreira, era o trabalho. Ou seja, gosto muito de trabalhar. Gosto muito de estar no ateliê, de procurar, encontrar. Às vezes, até podem ser coisas que as pessoas não identificam como trabalho de ateliê, mas que tem que ver com os trabalhos que cada um faz. Por exemplo, ir às lojas procurar revistas, ir à Feira da Ladra. Vou a Madrid na próxima semana e, como não apanho um domingo, os meus galeristas espanhóis conseguiram uma loja que vai abrir a uma quinta-feira para eu ir escolher material. É esse tipo de coisas. Gosto de fazer isso e de estar sempre, mais ou menos, a pensar em trabalho. Mas, em caso de vida ou de morte…, e só tive uma situação assim, parei de trabalhar durante uns meses, porque era uma situação muito grave. O trabalho era uma coisa que eu poderia recuperar. Ou seja, o trabalho não desaparece. Pode ser um bocado chato estares parada, porque quando recomeças é como andar de bicicleta. Sabes sempre, mas tens de te equilibrar outra vez. Estive parada para aí uns seis meses, porque tinha de aproveitar esse tempo com essa pessoa que tinha uma previsão de uma morte rápida. Tive de decidir entre estar disponível ou não, e o estar disponível significava que não podia estar disponível para o trabalho. Achei que não devia estar disponível para o trabalho. Mas isso são situações extremas. Felizmente, nunca mais tive de me deparar com isso. Todas as situações mais complicadas que tenho atravessado, tenho conseguido organizar-me. Mas quando isso me aconteceu, não tive problema nenhum. Sabia perfeitamente que parava de trabalhar e depois voltava. Até sabia dalguns casos de pessoas que tinham deixado de trabalhar e depois voltaram e que isso não as prejudicara minimamente em termos de trabalho. A mim, aconteceu o mesmo. Acho que as pessoas nem se aperceberam que estive seis meses parada. Costumo dizer que, quando trabalho, faço-o a 110 % e, portanto, tenho uma boa capacidade de resolução e execução que me permite recuperar rapidamente o que tenho em atraso. Acho que há situações-limite. Dizemos que o trabalho está sempre primeiro até ao dia em que percebemos que temos mesmo de fazer uma opção. E quando isso acontece geralmente é por uma situação tão grave que depois a pessoa, nas coisas menores, já nem põe essas questões. Consegue conciliar, não há problema.

Pergunta da Sorte: Vou fazer aqui uma brincadeira com uma obra tua, o Où va-t’-on, 2014 (detalhe). Quando estamos feridos, afastamo-nos silenciosamente?

AV: Era a sala do veado! Sim, acho que sim. Mas esses textos, na sua maior parte não são meus. São bocados doutras coisas. Das três uma, essa frase ou é da Sónia Baptista, porque é o único texto de autor que eu recolhi e foi feito para essa exposição, ou são frases que depois estão identificadas com o nome do autor e aí é mais difícil eu dizer-te agora, porque foram várias, ou é mesmo da história do Bambi. Extraí imensas coisas dessa história. O livro chamava-se Os Filhos de Bambi, com a história e ilustrações do Walt Disney e utilizei algumas frases. Mas se a utilizei é porque me identificava com ela. Geralmente, não meto coisas com as quais não me identifico.

Pergunta da Sorte: Achas que a coisa que mais te define é aquilo que fazes? Seres pintora?

AV: Acho que sim.

AM: Mas é um trabalho que pode ser muito solitário?

AV: É completamente solitário. Quando alguém me vai visitar ao ateliê, eu não posso estar a pintar, porque isso me desconcentra. Para estar a dar atenção à pessoa, não consigo estar a fazer coisas ao mesmo tempo. Nesse momento, lavo os pincéis, ou paro mesmo, e vamos conversar, lanchar. Trabalhar para mim é completamente solitário e silencioso, mas é um método. É como aquelas pessoas que gostam de estudar em casa num sítio sem barulho ou pessoas que gostam de estudar em cafés, que era uma coisa que na minha geração acontecia muito. Nunca consegui estudar num café, porque só de passar uma mosca distraía-me. Depois isso, refletiu-se no meu método de trabalho. Por exemplo, há pintores que gostam de pintar com música, mas eu trabalho completamente em silêncio. Depende das pessoas. Eu gosto de trabalhar em silêncio e sem ninguém. As pessoas podem perfeitamente ir ao meu ateliê e não tenho problema nenhum em que vejam aquilo em que estou a trabalhar. Não me apanham é a trabalhar. Não gosto de estar distraída com outra coisa ou de ter observadores externos. (risos)

Findas as perguntas-bónus, voltamos então à Casa Gerador. Ainda se lembram da pergunta do António Raminhos? “Quantas vezes é que já duvidaste do teu talento?” Podes rever a pergunta do Raminhos aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta da Ana e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

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