Luísa Sobral, cantora e compositora, deu-se a conhecer ao mundo da música com 16 anos no programa Ídolos. De seguida, foi para os Estados Unidos estudar na Berklee College of Music. Desde então, a cantora de jazz apaixonada por canções editou cinco discos. “Rosa” foi o último disco com que Luísa nos presenteou, este mês, onde todas as canções foram gravadas como se fossem tocadas ao vivo, aproveitando as imperfeições como parte da emoção. Este foi o primeiro disco editado pela cantora após a vitória histórica do Festival da Canção, com “Amar Pelos Dois”.


O relógio marcava 14h quando, sentada no sofá amarelo da editora Universal Music Portugal, vejo a Luísa Sobral subir as escadas brancas, vinda do almoço e com um sorriso no rosto. Sem demoras apresentamo-nos e a Luísa pousa a sua guitarra junto a um cadeirão. Puxamos uma mesa preta e redonda para junto de nós para pousarmos o tabuleiro da Pergunta da Sorte. Sentamo-nos e explico-lhe as regras do jogo. Sem hesitações, a Luísa lança o dado e avançamos 1 casa indo parar ao número 1, onde nada acontece. De seguida, o dado manda-nos avançar 4 casas até uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Que coisas descobriste musicalmente com a gravação do “Rosa”, ainda grávida da tua filha?

Luísa Sobral (LS): Descobri todo um novo caminho sonoro, porque comecei a explorar uma parte diferente da minha voz. E descobri também toda uma outra liberdade.

Andreia Monteiro (AM): E não sabes ser sem teres essa voz que conhecias?

LS: Sim, por acaso foi a inspiração dessa canção (“Não Sei Ser“). Foi o não saber ser sem a minha voz, exatamente. Que engraçado! Normalmente as pessoas não sabem sobre o que é a música.

Mas o nosso dado sabe sempre para onde quer ir. A Luísa volta a dar-lhe corda e avançamos 3 casas, desaguando em mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Parece-me que o grande tema do teu disco (“Rosa”) seja o amor, quer seja o parental, ou romântico. Escrevemos sempre sobre amor? Ou seja, é tudo uma questão de amor?

LS: Depois há a canção da “Nádia“, que é uma refugiada. Mas sim, também fala do amor dela e da razão dela sair: ela e os seus filhos. Acho sempre que a razão pela qual nós vivemos é o amor, quer seja de amizade, amor entre pais e filhos ou amor romântico. Sinceramente, acho que é a razão para estarmos aqui. Nem vejo outra. Mesmo o amor que pomos no nosso trabalho. Tudo isso é amor.

AM: O amor é sempre um tema muito vulnerável, seja ele de que tipo for. Não há uma preocupação com o que os outros pensam quando se fala de temáticas tão sensíveis como o amor?

LS: Não, porque as pessoas nunca sabem o que é meu e o que não é. Só em canções como “O Melhor Presente” talvez saibam. De resto, não sabem que canção é realmente pessoal. A minha ideia é que quando as pessoas ouvem, o façam sem tentarem perceber se é minha, mas sim que as oiçam e as tornem suas.

Embalado pela partilha de histórias e canções, o dado faz-nos avançar 5 casas, levando-nos à casa do Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal da artista.

Pessoal: Qual foi a coisa que te disseram que mais te marcou até hoje?

LS: Dizem-me algumas vezes, mas marca-me sempre. Quando os meus pais me dizem que têm orgulho em mim. Acho que vivo sempre para eles terem orgulho em mim. Não naquele sentido de trauma, porque eles sempre me disseram isso. Mas é uma das coisas que me deixa mais feliz, quando eu sinto que eles estão orgulhosos. Os meus pais e neste momento a minha família, também. Do meu filho ainda não consigo perceber isso, mas pelo menos do meu marido.

É novamente altura de lançar o dado. 5 casas à frente vamos parar ao número 18, onde nada acontece. Com o desejo de melhor sorte, voltamos a fazer rolar o dado e, 6 casas à frente, defrontamo-nos com um Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o e eu adivinho qual é.

LS: Sou a pior pessoa a desenhar no mundo, por isso se tu adivinhares é incrível!

Com a impressão de que a Luísa não seria, por certo, a pior pessoa a desenhar no mundo estendo-lhe a caixa das canetas para que possa escolher uma cor. Escolheu a caneta de cor vermelho indiano. Pega numa revista cuja capa tinha o Diogo Piçarra para servir de base à sua obra-prima – “Vou escrever em cima do Diogo Piçarra” (risos). O facto de não haver um tempo delimitado para a elaboração do desenho é algo que a tranquiliza. Ao começar a desenhar o cérebro numa cara diz que a forma não é bem aquela e tenta corrigi-la. Vê o desenho feito pela Luísa em baixo.

Desenho do maior defeito por Luísa Sobral

LS: Não?

AM: És muito teimosa? Pensativa?

LS: Não (risos).

A Luísa volta para o desenho empenhada em ilustrar o seu defeito de forma a que o conseguisse adivinhar. É então que esboça um móvel com várias gavetas e exemplifica as formas que cada uma poderia conter, com um género uniforme.

AM: És muito organizada.

LS: Mas… (e desenha a seta que tem origem no conteúdo das gavetas e cessa no cérebro)

AM: A desorganização tira-te do sério, portanto não és tão permissiva com as pessoas que não deixam tudo arranjadinho.

LS: Mas não é espacial. Sou demasiado cerebral. Tem de estar sempre tudo muito certinho e, às vezes, não sou muito espontânea.

AM: Mas em palco és!

LS: Em palco sou cada vez mais, mas tenho apreendido a deixar-me ir mais. Sou mesmo muito cerebral e organizada. Parece que sei tudo o que quero para a minha vida e não deixo muito espaço para o improviso. Mas tenho estado muito melhor, até porque quando se tem filhos é quase impossível não haver improviso.

Improviso ou não, o dado continua a sua jornada e avançamos 2 casas. Chegamos à casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

LS: Eventos privados, normalmente. Tocar para empresas quando ninguém te está a ouvir. Às vezes convidam-nos, porque é bonito dizerem que têm lá a Luísa Sobral, mas depois as pessoas estão na delas. O que é normal em jantares de empresa, porque as pessoas estão a conviver, e nós estamos ali a tocar e ninguém está a ouvir. É um bocadinho frustrante. Às vezes há esses jantares de empresas e as pessoas estão a ouvir, mas quando não o fazem é um bocadinho frustrante.

AM: Fazes muitas vezes esse tipo de eventos?

LS: Bastantes. Financeiramente é bom. Depois tenho dinheiro para investir em coisas minhas, mas às vezes estou ali a pensar que estou a fazer aquilo para depois fazer as coisas que eu gosto. No Natal, por exemplo, há alturas em que isso acontece muito.

AM: Não fazia ideia! Pensava que fazias muito mais o concerto tradicional, porque já tens muitos discos cá fora e uma carreira estabelecida.

LS: Até o Paul Mccartney faz isto. Todos os músicos do mundo fazem eventos privados, porque no fundo todos os músicos têm um preço (risos). A verdade é essa. Por exemplo, para a semana vou ter um com o Zambujo para a Heineken. Pode acontecer não estarem a ouvir-nos, mas acho que, sendo uma coisa com os dois, talvez tenha gente a ouvir. Mas nunca sabemos. Ou seja, temos sempre de ir preparados. Isso dá-me alguma bagagem. Acho que dá alguma humildade às pessoas. Também me deixa experimentar. Já que as pessoas não estão a ouvir vou experimentando. Mas é um bocadinho frustrante quando estamos a tocar a nossa música, coisas que nós gostamos de dizer, e de repente ninguém nos está a ouvir do outro lado. Mas há pessoas que têm muitos privados.

Avizinha-se a hora de voltar a lançar o dado. 3 casas à frente chegamos a uma nova casa, a da  Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Fá ou Dó?

LS: Dó.

AM: És a segunda a dar-me essa resposta. Normalmente preferem o Fá.

LS: Ai sim? Eu gosto sempre do Dó.

Parece que o Dó tem cada vez mais amigos. Agora o dado leva-nos, 3 casas à frente, até ao número 32, onde nada acontece. Voltamos a tentar a nossa sorte e avançamos mais 2 casas. O azar está do nosso lado e vamos parar ao número 34 onde, mais uma vez, nada acontece. Será que é desta? Agora o dado revela o número 2. Chegamos a uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Se te mostrar este quadro do Miró, no que é que ele te faz pensar?

Figure à la bougie (1925) de Joan Miró © Pedro Ribeiro Simões, disponível via Flickr

LS: Parece-me uma vista de cima de uma mesa, mas ao mesmo tempo isto parece um cigarro, uma folha. Não sei se é suposto nós percebermos o que é. Normalmente neste tipo de pintura não é bem suposto perceber-se alguma coisa. Mas estás a perguntar o que me faz sentir?

AM: Sim!

LS: Remete-me para uma casa de campo. Se calhar é uma casa onde também há crianças. Foram brincar de manhã, apanharam assim umas coisas e depois deixou-se tudo em cima da mesa. Entretanto, está tudo a dormir a sesta. É isto que me faz pensar.

AM: Perguntei-te isto, porque numa entrevista disseste que tinhas ido a uma exposição do Miró em Barcelona.

LS: Ah! Já fui algumas vezes até.

AM: Nessa altura referiste que no início da exposição se viam coisas que até se percebia o que eram e no final eram quadros só com um traço.

LS: Exatamente.

AM: E disseste que isso te fez pensar acerca da simplicidade.

LS: Sim, sim! Que engraçado teres lido isso. É verdade, mas não conheço este quadro. Que giro.

AM: Como é que essa simplicidade te influencia na música? Acho que compões muito com base nisso.

LS: Acho que há muitos artistas, o Miró, o Picasso, muitos artistas mesmo, que acabam mais à frente nas suas carreiras por procurar o menos e não o mais. Senti isso neste disco. Espero que não seja o fim da minha carreira (risos). Mas quis procurar o menos, no sentido de ter menos distração e ser mais direta à canção, à melodia e letra. Mesmo a essência das coisas. Como é que elas nasceram? Ainda há pouco estava a dar uma entrevista e o jornalista estava a dizer que no disco quase parece que estamos em contacto com a maneira como eu criei as canções em casa. Acho isso incrível! Gostava que as pessoas percebessem de onde é que aquilo nasceu e que aquela canção tivesse quase a sua versão original. É aí que eu falo em simplicidade, o despir de tudo o resto e deixar só o caroço das coisas.

Quando a Luísa pega no dado para o voltar a lançar confessa estar a adorar o jogo. Já somos duas. Desta feita andamos 4 casas e vamos parar à casa do Pessoal.

Pessoal: Qual é o teu talento escondido?

LS: Acho que tenho mais ou menos o talento para a culinária, mas não é assim tão escondido. Falo imensas vezes sobre ele (risos). Mas pronto, é este! Ou a fotografia. Pode ser um dos dois.

Agora o dado parece tomar o gosto à velocidade de cruzeiro enquanto vamos percorrendo as últimas casas do jogo. 1 casa à frente temos direito a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Achas que muitas vezes passamos por dilemas e até dores por falta de comunicação e medo de deixarmos que cheguem perto de nós? E agora, se me permites a brincadeira: preferimos evitar, no nosso canto ficar, é melhor assim?

LS: Nunca tive muito isso, porque sempre falei com a minha família sobre as minhas coisas todas. Ficar num canto nunca aconteceu tanto assim. Sempre partilhei as minhas coisas todas e quando as dores são partilhadas são muito mais fáceis, não é? Quando aconteceu ter dores familiares tinha o meu marido para as partilhar. Ou seja, quando tinha dores que tinham a ver com mãe ou pai. Sempre partilhei a minha dor sem medo de dar peso ao outro. Sempre senti que o podia fazer. Por isso, essa coisa de no canto ficar é muito raro, felizmente. Acho que isso é das coisas que toda a gente deve aprender a fazer – a partilhar a sua dor.

AM: Adoro esta música. É uma das minha favoritas no disco.

LS: É a do “Só Um Beijo”, não é?

AM: Sim! Gosto mesmo muito, até devido a uma forma muito particular que tenho de me apropriar de algumas músicas e esta foi um exemplo disso. Por acaso tenho um hábito desde que me conheço como gente. Não acho que seja uma pessoa que partilha muito o que vai cá dentro, mas há fases da vida em que temos um problema ou questão na cabeça e só consigo resolver isso quando encontro uma música.

LS: Ai que giro! Mas uma que tenha que ver com isso ou uma música que pode não ter que ver com isso, mas que desbloqueia?

AM: Normalmente fala sobre aquilo de alguma forma, mas tem de ser a música que é capaz de me desbloquear, ao mesmo tempo. Não é qualquer música que fale sobre o tema que o consegue fazer. Tem de ser A música.

LS: Que giro!

AM: Por exemplo, há uma música do Salvador Sobral e que, por acaso, foste tu que a escreveste. Foi um ponto de viragem gigante na minha vida. Estava há um ano a tentar resolver algumas coisas, ouvi aquela música e ok! Resolvido até hoje.

LS: Que giro! E que bom!

AM: Esta música também foi um conforto. Tornei-a minha, de alguma forma.

LS: Claro, claro.

AM: Às vezes pode não ter a ver com superar, mas até ser só perceber as situações.

LS: Acho que também passa por te sentires compreendido. A partir do momento em que vês uma coisa escrita que é o que sentes, vês que não estás sozinha nisso, sentes-te compreendida e passas para outra coisa. É como se alguém escrevesse por ti as palavras que queres escrever, ou coisa assim. Dou aulas de composição e digo muitas vezes isso às minhas alunas. ‘Vocês não sabem que esta ferramenta de escrever canções é muito melhor que ir ao psicólogo’. Ao pormos a música cá para fora, ao escrevermos sobre isso e ao cantarmos a outras pessoas ajuda. É incrível perceber que ajuda só por ouvir essas coisas. Ah, isso é muito especial! Fico muito contente.

AM: Por acaso essa música de que te falei foi mesmo importante para mim, porque me fez tomar uma decisão. E sempre que pensava em voltar atrás dizia, ‘ Vai ouvir o Salvador’.

LS: Ai que giro! Olha o dinheiro que poupas em psicólogo, estás a ver? (risos)

AM: Acho que há qualquer coisa de especial nas músicas que compões e ele canta e que muitas vezes também cantas.

LS: Há uma agora que se chama “Prometo Não Prometer”.

AM: Adoro! Quero tanto ter isso num CD!

LS: Pois… aliás vamos gravar isso esta semana, os dois. Ele vai por essa no próximo disco.

AM: Estou muito ansiosa por ter essa música!

LS: Estou ansiosa pelo disco! (risos)

Voltamos a lançar o dado e sai um número grande. 6 casas à frente vamos parar ao número 47, onde nada acontece. É com alguma tristeza que a Luísa me diz que assim vamos acabar o jogo rápido. Já perto da reta final, não podemos perder a esperança. Há que aguardar pelo que o jogo nos reserva. Voltamos a um período de calmia, com o dado a mostrar o número 1. É tempo de outra Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: “Não fiques triste se eu pareço desligada. Isso não quer dizer que não esteja apaixonada. (…) Porque este amor, apesar de grande, é também envergonhado.” As coisas não são o que parecem ser e os padrões não podem ser regra?

LS: Claro que sim. Isso foi mesmo pessoal e foi escrito há imenso tempo. Esse poema foi engraçado, porque o escrevi há cinco anos. Tentei musicá-lo e nunca gostei. Normalmente escrevo tudo ao mesmo tempo e nesse caso não. Escrevi primeiro o poema. Pelos vistos, inscrevi-o na Sociedade Portuguesa de Autores e nem me lembrava. Às tantas pedi à minha advogada que trata dessas coisas para me registar outra canção e ela disse-me que já havia um poema com esse nome. ‘Como assim já existe um poema com esse nome?’ (risos). Ela enviou-me este poema (Envergonhado) e eu, ‘ah, eu adoro este poema! Não me lembrava que tinha isto.’ Então, decidi musicá-lo para este disco. É engraçado, porque as duas coisas vêm de alturas completamente diferentes. O poema é de há cinco anos e a música é de agora. Como sempre me expressei muito como compositora, expresso-me muito nas minhas composições, mas não sou uma pessoa muito de expressar os meus sentimentos. Desde que sou mãe que sou muito mais. Mas nunca fui uma pessoa muito carinhosa e de abraços. Sempre tive alguns problemas com essa demonstração de afeto, então escrevi este poema sobre isso. Eu sinto, mas baixinho. Isto sem ser na música, no meu dia-a-dia. Acho que há muita gente assim, porque é tímida, por exemplo. É aquilo que tu dizes. As pessoas não têm de ser todas iguais e mostrar as coisas todas da mesma maneira para as coisas serem verdadeiras. Foi por isso que o escrevi. Sentia-me dessa forma e era um bocadinho frustrante tentar explicar que isso não queria dizer nada. Simplesmente sou assim.

AM: Acho muita piada a isso, porque sou muito tímida, embora agora tente contrariar isso. Às vezes quanto mais gosto da pessoas, mais..

LS: Retraída ficas.

AM: Exato. Piora a timidez. Depois, há pessoas de quem fico muito amiga e que me dizem que quando nos conhecemos achavam que as odiava. Fico perplexa. Como é que é possível? Porque sempre admirei imenso essas pessoas.

LS: Pois, porque não transpareces a mesma coisa que sentes, não é? Isso às vezes é complicado. As pessoas tímidas, às vezes, têm esse problema. As maneiras que têm de combater a timidez podem ser prejudiciais para elas. Não faço ideia do que é ser tímida. Nunca fui tímida, nem perto. Desde miúda que fazíamos peças de teatro no palco e toda a gente saía e eu queria ficar lá. Mas tinha amigas muito tímidas e lembro-me. Muitas vezes parecia que estavam no flirt e não era nada positivo para elas. Ou seja, a maneira que elas tinham de combater a timidez muitas vezes transparecia outra coisa, como estás a dizer. Não deve ser nada fácil ser uma pessoa tímida, porque uma pessoa está quase sempre a ir contra a sua natureza para poder estar bem nas situações.

AM: E na minha profissão nem fazes ideia da dificuldade que é. Mas já foi bem pior.

LS: Então estás sempre numa luta? Não deve ser muito fácil. Então, chegas a um sítio e pensas, ‘ok, tenho de ir falar com as pessoas’. Estás sempre a ir mais ou menos contra a tua personalidade. Isso não é fácil.

AM: É mais ou menos isso. Por exemplo, vou a concertos e cruzo-me com o artista de quem tanto gosto. Se não tiver um compromisso profissional e for só para pedir um autógrafo ou dizer que gostei do concerto, não o consigo fazer na maioria das vezes.

LS: E depois ficas frustrada contigo por não conseguires fazer uma coisa por causa da timidez. Já experimentaste fazer aulas de teatro?

AM: Adoro fazer teatro! Em palco não sou assim (risos).

LS: Acho que o teatro ajuda muito as pessoas tímidas. Que engraçado. É porque tens um personagem e aí já não faz mal, porque já não és tu?

AM: Exatamente. Sofro um bocadinho nos bastidores, mas depois em palco é uma quase revelação e esqueço-me de mim e da minha timidez.

LS: Imagino o difícil que é, porque uma pessoa está sempre a ir contra a sua natureza. Por exemplo, fui viver para Paris durante dois meses, porque estava na lista de coisas que queria fazer durante a minha vida. Quando fui para lá viver não conhecia ninguém. Fiz anos passado dez ou quinze dias de lá estar e tinha a casa cheia. Ia falando com pessoas e tinha montes de amigos, porque não sei o que é ser tímida e não me sentir à vontade num sítio. Sofro um bocado pelas pessoas que se sentem assim, porque não é fácil.

AM: E no âmbito da música, não consigo tocar ou mostrar isso às pessoas.

LS: Porque é teu. Mas se calhar se trabalhares nessa parte depois o resto é mais fácil, porque quando uma pessoa se expõe dessa forma o resto já não é uma exposição assim tão grande. Com as minhas alunas de composição digo imensas vezes para escreverem coisas sobre elas. Quando uma pessoa consegue criar esse canal aberto de escrever coisas sobre si é tudo mais fácil. Se consegues cantar essas canções, então depois o aparecer no dia-a-dia é mais fácil. A coisa boa da canção é que a pessoa não sabe se é sobre ti ou não. Pode haver imensa veracidade no que dizes e não ser sobre ti. Por isso, também não tens de ter esse medo.

AM: Até acho isso muito divertido, a diferença entre o que é a minha realidade e o que as pessoas acham. É giro ver como as histórias ganham vida.

LS: Eu não digo que não, se as pessoas acham que é aquilo, então é! (risos) Por acaso conto muito a história das canções nos concertos, o que me fez escrever aquilo. Agora que ensino composição tenho cada vez menos vontade de o fazer, ou então fazê-lo depois de cantar a canção. É estranho que as pessoas estejam condicionadas à partida. Por exemplo, o “Não Sei Ser”. Quem o ouve acha que aquilo é sobre uma relação e em como não sei ser sem aquela pessoa. Mas sabendo que é sobre a voz já só a ouvem dessa forma. Nem dá abertura para se puderem identificar. Isso chateia-me um bocadinho. Por isso, estou a pensar fazer isso de contar a seguir, porque se a pessoa já sentiu aquilo pode voltar a fazê-lo nas restantes vezes.

Voltamos ao nada tímido dado que nos manda avançar 3 casas. Ainda temos direito a mais um Sê Criativo.

Sê Criativo: Faz o trecho de uma música com as 5 palavras que te vou dizer.

LS: Com a guitarra?

AM: Tanto melhor!

LS: Posso improvisar?

AM: Adorava que o fizesses!

Chegou o momento de escolher as palavras para a Luísa improvisar o trecho de uma música. A primeira palavra que me surge é óbvia – Rosa. De seguida pergunto à Luísa se ela tem uma cor favorita, ao que ela me diz que não faz ideia. Mas acaba por escolher a cor vermelha. De seguida, escolho palavra, música e analógica (visto que a Luísa queria gravar este último disco em analógico). Quando acabo de escrever as palavras começo a partilhá-las com a Luísa, ao que ela diz de imediato não precisar porque quer mesmo improvisar e, por isso, apenas quer ver cada palavra no decorrer da música. Espreita o vídeo em baixo para descobrires a improvisação da Luísa.

A testar a amizade que o dado nos tem ainda o lançamos mais uma vez. Porém, vamos diretas à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Tatanka? “Se tivesses que abdicar de algum dos 5 sentidos, qual deles seria?”. Podes rever a pergunta do Tatanka aqui.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta da Luísa e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

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