Pedro Segundo, baterista, percussionista e timpaneiro, nasceu em Lisboa, em 1988, e começou a tocar bateria aos oito anos. Conhecido pela sua energia e entusiasmo contagiantes quando pisa o palco, independentemente do estilo musical, já tocou com nomes como Dennis Rollins, Ross Stanley, Kansas Smitty’s House Band, Judith Owen, Joshua Bell, Júlio Resende, entre outros. Em 2015, estreou o seu projeto, Solo Segundo, integrado na programação do London Jazz Festival. Vive em Londres, mas não esconde o seu amor pela cidade de Lisboa e pelo seu sol único. Sempre de sorriso no rosto, energético e cumprimentando cada pessoa que por si passa, revela-se disponível para ouvir e conhecer o próximo, uma capacidade que considera importante para o encontro da sua linguagem musical.


O ponteiro do relógio marcava poucos minutos após as cinco e um quarto da tarde. Entrei na cafetaria da Gulbenkian, onde tínhamos combinado encontrar-nos. Enquanto o procurava com um olhar atento pelas mesas, recordei-me da última vez que o vi em palco, no concerto com a Judith Owen, uma semana atrás, na Fábrica do Braço de Prata – um dos melhores concertos a que já assisti e onde conheci o Pedro. No palco, a sua energia é contagiante e o sorriso constante. Tem a capacidade de tornar um concerto num momento inesquecível e de dar luminosidade a qualquer corpo cansado após um dia de trabalho. Foi por entre estas incursões de memórias que encontrei o Pedro, acabado de chegar de Londres, carregando os pratos da bateria numa bolsa preta, afinal iria dar um concerto nessa noite na Fábrica do Braço de Prata com o contrabaixista André Rosinha e o pianista Óscar Graça. Para aproveitarmos o sol primaveril, decidimos seguir pela esplanada e sentarmo-nos na relva, como tantos outros jovens aproveitaram para fazer nessa tarde.

Durante o processo de montagem do jogo, o Pedro não se inibia de mostrar o seu agrado por este sol que, como o próprio disse, só existe em Lisboa. Antes de lançarmos o dado, fizemos um teste de som para garantir que o gravador estava operacional e foi aí que o Pedro me confessou que a Gulbenkian era o seu sítio favorito e que, antes de ir viver para Londres, era percussionista convidado da Orquestra da Gulbenkian, projeto para o qual, ocasionalmente, ainda é chamado. Falámos ainda com entusiasmo sobre o concerto que aí vem, no dia 4 de maio, no Centro Cultural de Belém (CCB), em que o Pedro se juntará a Ross Stanley para a apresentação do Hammond Organ Duo. Tabuleiro montado, expliquei as regras do jogo e, sem mais demoras, lá ingressámos nesta viagem da sorte. O dado rola e avançamos duas casas. Começamos o jogo em beleza com uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Qual é a diferença entre um baterista e um percussionista?

Pedro Segundo (PS): Considero-me um baterista e percussionista. A resposta fácil acerca da diferença entre os dois é que a bateria tem apenas cento e poucos anos. Do século XIX para o século XX, foi criado o sistema de bateria. Tinhas, de repente, uma pessoa a fazer tudo: o bombo, o prato de choques e a tarola. Portanto, quando tenho alunos que me perguntam qual é a diferença, tento explicar que a percussão vem antes da bateria. Ou seja, tudo o que vem até à bateria era percussão e a percussão continua. A bateria nada mais é do que uma orquestra de percussão. Não sei se é claro, mas é a forma mais fácil de explicar. Há diferenças, mas é tudo da mesma família. A bateria é um grupo de instrumentos de percussão e que se consagrou como instrumento no século XX com o jazz. Em Chicago, começaram a fazer o sistema Ludovic de pedais, que foi uma inovação. Até lá, em Nova Orleães tinhas um sistema em que tinhas o gajo que tocava bombo, o que tocava tarola e o que tocava pratos. E isso ainda existe. Quando lá vou, vejo a perceção histórica. Era assim que nós, bateristas, tocávamos antes. Portanto, o sistema de bateria vem ajudar-nos a ser mais independentes. Em vez de levar três pessoas, vou só eu. Agora podíamos ficar aqui horas a falar sobre a evolução da bateria em si. A bateria, no século XX, evoluiu do jazz, para a big band, para o rock, pop, para o progressivo e para o metal. A percussão tem várias ramificações: a clássica, world music e a cena tradicional com o folclore.

Andreia Monteiro (AM): Quando uma pessoa olha para um palco em que vais atuar, não vê só uma bateria. Normalmente, é isso que se espera. Se é um baterista, há uma bateria. Mas tens lá mil e um instrumentos. Explica-me o que é o teu espaço no palco.

PS: O meu espaço no palco? Grande questão, adoro essa questão! Lindo, lindo, lindo. Eu penso em cor. Quando falas em muitos instrumentos, nada mais é do que o sacrifício de eu os ter de carregar ao longo de duzentos, trezentos, quatrocentos quilómetros e as pessoas pensam – “mas achas que vale a pena?” E eu digo que vale, porque vai ser aquela nota que é aquela cor. Não há mais nada que possa fazer essa cor! Portanto, tem de ser. Um percussionista dá-se ao luxo de, em diferentes situações, pintar. Por exemplo, no concerto que viste com a Judith nada mais é do que a função de baterista, mas no set up de percussão. Ou seja, não estou a tocar bateria, mas estou a tocar percussão como se fosse uma bateria. O approach é baterístico, mas é som percussivo. A textura é tudo. O meu espaço no palco enquanto percussionista é ser um criador de emoção rítmica e com cor. Para além disso, é saber ouvir. Acho que isso é atributo principal de ser músico. É saber ouvir e como fazer o cantor, ou artista em questão, soar o melhor que pode. Quando estou a tocar para outras pessoas, a alegria que me dá é saber qual é a sonoridade desse artista. Com o Júlio Resende, é a bateria, porque é a visão dele. Com a Judith é percussão porque ela estava cansada de bateristas. Já tocamos há uns seis anos. Comecei só com um carron, e agora já tenho mais cor, mais peças, porque ela dá-me carta-branca para explorar, desde que vá ao encontro da música dela. Acabo por fazer composições escritas para as músicas dela. Tenho partes da percussão e acaba por ser sempre improvisado também, porque há sempre espontaneidade, o momento e aquela nota, ou aquele prato que hoje não me apetece que esteja ali. A percussão é infinita. Por exemplo, se eu agora quiser fazer um sample desta relva, é percussão.

AM: OK! É um mundo bem mais complexo do que pensava.

Depois de viajarmos pelo mundo da percussão e bateria, voltamos a lançar o dado. Avançamos três casas, indo desaguar noutra Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Como é que surgiu o projeto do Hammond Organ Duo, com o Ross Stanley, e o que vais levar a palco no CCB?

PS: O projeto do Hammond Organ com o Ross Stanley nasceu em 2015, mas conheço o Ross já desde 2009, ou seja, há dez anos. Temos muita estrada juntos, porque o músico Dennis Rollins, que é um trombonista de jazz do Reino Unido, me chamou aos dezanove/vinte anos para pertencer à banda dele. Portanto, estava em Londres e ele disse-me para fazermos um ensaio, porque já tinha ouvido falar de mim. “As pessoas em Londres estão a falar de um jovem português e disseram-me que devia chamá-lo”, disse-me o Dennis. E, pronto, chamou-me, fizemos um ensaio, correu bem e tornou-se no projeto Velocity Trio. Temos um projeto que está ativo, a trio. Fizemos anos de tours, um primeiro álbum e um segundo.

“Ujamma” do projeto Velocity Trio, em concerto no King’s Place, em junho de 2011, com Dennis Rollins, Ross Stanley e Pedro Segundo

Em 2015, estava num bar chamado Kansas Smitty’s, em que sou cofundador dessa banda. É uma banda que tem o seu próprio bar em east London, Hackney, e houve uma oportunidade de concerto. O líder disse-me para trazer a minha cena e liguei ao Ross. Perguntei-lhe se queria tocar em duo para ver o que acontecia. Tocámos em duo, já tínhamos aquela quilometragem juntos, e foi supernatural. Acabámos por criar coisas diferentes. Falando do concerto em Portugal, o Hammond Organ não é muito visto, ou tocado, porque a malta tem muito medo. Os pianistas sabem logo qual é a dificuldade porque não é só piano. Tens pedais. Para quem nunca tenha ouvido ou visto ao vivo um Hammond Organ, vale a pena só por isso. Nem precisam de mim. Só para ver o Ross é incrível. A nossa junção é esta simbiose em que estamos um à frente do outro e criamos no momento. Vamos celebrar reportório original, tradicional português, o cancioneiro de jazz, ou seja, vamos tocar temas inspirados em organistas, como o Larry Young, e a cena mais avant-garde. Vai ser uma panóplia interessante. Foi assim que nasceu em 2015. Desde então, gravámos um álbum no Kansas Smitty’s – claro que teve de ser lá! E agora estamos a apresentar, pela primeira vez, no pequeno auditório do CCB. É a primeira vez que toco lá em nome próprio e estou muito grato ao CCB por ter feito o convite.

Pedro Segundo & Ross Stanley, com Hammond Organ Duo, no Hot Clube em 2017

AM: Estou cada vez mais curiosa com este concerto. Já vi uns vídeos e estou expectante!

PS: Nós temos um reportório certo, mas depois deixo o Ross completamente à solta. Ele enche completamente a sala, e eu faço a percussão. É de ver, ouvir e sentir.

Em contagem decrescente até ao dia 4 de maio, vamos somando casas neste jogo. Avançamos mais uma casa e deparamo-nos com uma Pergunta Rápida, em que temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Copo meio cheio ou meio vazio?

PS: Meio cheio! Em Portugal, em termos de sentimento como é que se traduz esta expressão? Copo meio cheio é alguém mais positivo?

AM: Sim, é alguém mais otimista e meio vazio é mais pessimista.

PS: Sabes qual é a expressão da Judith? É o meio partido! (risos) Não é um nem outro. I’m half broken. Eu sou meio cheio, porque quanto mais viajo, mais abro os horizontes e consigo perceber que o nosso tempo é muito curto. Temos a nossa cena que estamos aqui a fazer. Sabemos que começámos, mas não sabemos onde acabamos. A minha forma de estar na vida é tentar ser otimista, tentar ver as coisas boas e procurar a solução e não o problema.

AM: Também acho que isso faz todo o sentido.

Voltamos a lançar o dado e, cinco casas à frente, temos a oportunidade de ver respondida mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Quantos copos e outros utensílios partiste à tua mãe até descobrires qual era a tua voz na percussão?

PS: Muitos! Dezenas. Meu Deus, lembro-me tão bem de estar em Carnide, onde vivia com os meus pais, irmã e avó, e ao jantar era sempre a mesma história. Não parava e estava sempre a partir copos. Adorava o som, a vibração dos pratos. O prato meio vazio e o prato meio cheio tinham um som diferente. Já era muito curioso para a sonoridade. Portanto, parti dezenas de pratos e, aliás, ainda tenho um garfo e uma faca dessa altura com que gosto de andar sempre. Há situações em que não há bateria nem nada e um garfo e uma faca podem solucionar muita coisa musicalmente.

Com a descoberta de que um simples garfo e uma faca podem servir para lá do propósito mais comum, seguimos jogo. Desta vez, o dado exibe o número dois. Ficamos a conhecer a casa Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal do artista.

Pessoal: Qual é o teu talento escondido?

 PS: Eu diria a cozinha. Isso e fisioterapia. Desde os meus catorze/quinze anos, estava no conservatório a tocar marimba. Quando estás a aprender a tocar marimba, tens duas baquetas em cada mão. Como não tinha a marimba em casa, porque era impossível, ia para as costas da minha irmã, a Carolina Segundo que também é música – canta e toca não profissionalmente, mas tem uma escola de música – e tentava fazer ritmos nas costas dela. Era muito relaxante. Depois comecei a usar as minhas mãos. Sendo percussionista, o meu veículo são as mãos. Acho que, de alguma forma, sentia este contacto de perceber o que se passa e a minha mãe perguntou-me se queria ir para Alcoitão. Sim, mas a música canta mais alto! Adoro tocar, estar no palco e fazer as pessoas sentir o que sentiste na semana passada (no concerto com a Judith Owen).

Pedro Segundo e Judith Owen em concerto na Fábrica do Braço de Prata no dia 5 de abril de 2019

Portanto, não deu. Agora brinco com as pessoas e digo que vou fazer um sabático aos quarenta, tiro um ano ou dois, e aprendo fisioterapia. Depois, em tour, posso massajar a malta. Em tour já faço isso, quando me dizem que estão todos partidos, dou uma massagem e relaxo. Tenho essa capacidade e sei que não é toda a gente que a tem. Peço ao meu pai e é terrível. Peço uma massagem e ele esfrega. (risos) A cozinha é uma coisa que surge porque, há dois/três anos, comecei a sentir mais apetite e mais vontade de criar na cozinha. É um espaço social também. Mas é o criar. Do nada, crias, comes e sabe-te bem e sentes o amor que pões na comida. Isso também te faz um melhor consumidor. Como cozinho, também sei apreciar melhor o que se anda para aí a comer.

AM: Tens de te juntar ao André Rosinha. Ele disse-me que o talento escondido dele também era cozinhar. Têm de se juntar para cozinhar.

PS: Adorava!

De água na boca, mantemo-nos fortes e seguimos jogo. Três casas à frente, calhamos numa Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Tens um projeto a solo, o Solo Segundo. Para um público que, em geral, não está tão habituado a consumir música instrumental, sentes uma dificuldade extra em captar a sua atenção quando falas num concerto de um baterista a solo?

Solo Segundo

PS: Esse projeto a solo veio da minha influência clássica e dos doze/quinze anos a estudar percussão. Estudei no conservatório dos oito aos dezoito. Estive na Orquestra Sinfónica Juvenil, fiz imensos workshops de percussão clássica, marimba, tímpanos. Portanto, o Solo Segundo foi feito para celebrar isso. Agora, em termos de experiência para o público, tem muito que ver com o sítio em que tocas e com o nível de produção, mas o concerto que fiz em Londres foi um sucesso porque consegui ter um storytelling que começou na mesa do prato, portanto, estar à mesa e do nada fazeres música, depois a percussão africana, que é superimportante para todos nós enquanto músicos e percussionistas. Houve certas peças mais conceptuais e mais difíceis de conseguir conectar, mas fiz um balanço. Foi essa do prato, a percussão africana inspirada na música de Gana e Moçambique, os meus pais nasceram e viveram lá, e depois a celebração de compositores como Xenakis. Outra grande influência minha foi o Pedro Carneiro, que é um percussionista de nível de topo. Era a minha referência. Depois, fiz um tributo aos bateristas de jazz, como o Papa Jo Jones. Ele fazia sapateado, portanto na sua forma de tocar sentes que é tudo jive, tudo cá em cima. Toquei uma peça de vibrafone, também. Ou seja, não é fácil, mas tive pessoas a virem ter comigo e a dizerem que nunca tinham visto nada assim e que não sabiam que era possível fazerem isto com estes instrumentos. Há um lado positivo. Para mim foi muito difícil logisticamente por causa dos instrumentos. Então em Londres… se consegues fazer aquilo em Londres, então consegues ir para qualquer lado. É tão difícil ensaiares com os instrumentos, teres de alugar e pagas imenso dinheiro de ensaio, tudo é muito caro. Ser criativo nesse ambiente não é fácil, mas consegui e estou muito feliz com esse projeto. A parte mais rica do Solo Segundo, se tiver pernas para andar, porque está pronto e pode seguir a qualquer altura, é a vertente educacional. Gosto de ir a uma universidade ou conservatório fazer o meu set up, a minha apresentação, mas depois ouvir as peças dos alunos e trabalhar. Noto que, em alunos de música, há dificuldade em sentir o tempo, saber estar no tempo, como interpretar o tempo. Só isso sozinho é muito trabalho. E gosto muito disso. Por exemplo, este fim de semana vou estar a fazer o estágio de jazz da Orquestra Gerajazz. Voltando à questão do Solo Segundo, acho que o resultado foi feliz, embora quanto mais fazes, melhor fica. Não o posso fazer todos os dias, porque não tenho hipótese de ter os instrumentos todos disponíveis.

É altura de voltar a lançar o dado, que nos leva, uma casa à frente, à casa da Carreira, em que as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional do artista.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

PS: Muito fácil! Esperar no aeroporto e passar a segurança. Acho que é para isso que sou pago, na verdade. Não sou pago para tocar. Sou pago para viajar. Quando chego ao destino, tenho um espírito muito aventureiro e gosto de conhecer os locais. Depois de cinco anos na estrada já consigo dizer às pessoas os sítios onde devem ir e onde se come bem. Mas o que menos gosto é a parte da segurança e dos aeroportos. Gosto de estar no ar, mas os aeroportos e segurança detesto.

Já livre do aeroporto, podemos continuar a fazer-nos à estrada da Pergunta da Sorte. Três casas à frente vamos parar ao Sê Criativo, que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu número da sorte. Sem falar, conta-nos uma história em x passos.

O Pedro decidiu que nos ia contar uma história através de um desenho. Mal viu a folha à sua frente, disse-me que era muito fácil e que iria descobrir logo. Numa questão de segundos, temos o nosso desenho feito.

Desenho de uma história em dois passos, por Pedro Segundo

AM: Acho que isso é um sol e o símbolo do infinito. Gostavas que fosse sempre dia e não gostas da noite?

PS: Estou sempre à procura de luz infinita. Essa é a minha história. É muito curta, pode ser?

AM: Sim.

PS: É o que me vem à cabeça neste momento, porque é como me sinto agora.

AM: Tens encontrado a luz infinita?

PS: Não, não encontras sempre. Mas estás sempre à procura e consegues chegar lá perto através das pessoas com quem te rodeias e pelo tipo de pensamentos que queres ter. É tudo na tua cabeça. Se todos temos momentos mais baixos e difíceis de lidar, acho que o importante é o ambiente que nos rodeia e lembrares-te que é tudo na tua cabeça, os teus pensamentos. Tens é que te agarrar às coisas boas e aos pensamentos positivos, e é isso que te vai permitir criar. As coisas más também são boas. Mas nas más, conseguires passar essa fase e chegares a um momento bom, é lindo. Falo de luz, porque estou em Lisboa e estou aqui a levar com o sol na cabeça e sabe mesmo bem. Também tem este paralelo da história, porque adoro chegar a Lisboa e sentir esta luz, a luz que não há em mais lado nenhum, esta luz de Lisboa.

Finda a obra-prima do Pedro, avançamos mais uma casa. Segue-se uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Começaste a tocar bateria com 8 anos. Consegues lembrar-te da primeira vez em que te sentaste em frente a uma bateria e experimentaste tocar?

PS: Sim. Deve ter sido, quase de certeza, num domingo na igreja local de Benfica, em que vi a bateria e não estava lá ninguém. Lembro-me de estar já lá em cima, não chegava aos pedais e tentar tocar porque tinha ouvido durante a manhã toda. Acho que essa foi a primeira vez. Mas lembro-me muito bem de chatear o meu pai a dizer que queria tocar e para ele ir dizer ao senhor da música que eu queria tocar, o senhor António Pedro. E, pronto, ia lá sempre depois da sessão e comecei a tocar, depois, oficialmente todos os domingos desde os dez anos. Foi uma grande escola.

Com a sorte do meu lado, quando voltamos a lançar o dado, vamos parar a uma Pergunta da Sorte, quatro casas à frente.

Pergunta da Sorte: Ainda te lembras de alguma música que tenhas tocado no teu primeiro concerto, em 1996?

PS: Ah! Foi o “Dunas” dos GNR na audição final da Escola Valentim de Carvalho. E salvo erro, no mesmo dia ou no ano a seguir, toquei a “Missão Impossível”, em cinco por quatro, e toquei o “Easy Lover” do Phil Collins. A ironia é que toco com o baixista do Phil Collins agora. Mas a primeira vez foi o “Dunas”. Obrigado, professor Rui Serra e Moura da Valentim de Carvalho!

Agradecimentos feitos, seguimos caminho. Voltando a lançar o dado, este pede-nos que avancemos duas casas. Temos outra pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual foi o momento mais embaraçoso que viveste?

PS: Não sei, não me consigo lembrar.

AM: Queres que te conte o meu?

PS: Sim.

AM: Acho que passo vergonhas todos os dias, mas costumo contar sempre a mesma história. Estava a fazer um curso de inglês em Londres. Como sou e era muito baixinha, para não estar sempre a olhar para cima para ver as pessoas, muitas vezes decoro formas de andar, partes do corpo ou a roupa das pessoas para as identificar ao nível dos meus olhos. Nesse dia, estava com uma amiga que tinha uma camisola vermelha vestida. Tinha acabado de sair da casa de banho, estava no corredor da escola, e vi a tal camisola vermelha. Sem olhar para a cara dela, porque era mais alta, encostei-me a ela e comecei a cantar aquela música da Nelly Furtado, a que diz “como uma força”. Essa minha amiga mal reagiu e começou a afastar-se de mim. Então, para a provocar aumentei o volume da minha cantoria e comecei a saltitar contra ela para ver se ela se juntava a mim. De repente, oiço essa mesma amiga a gritar do outro lado do corredor, “Andreia, o que estás a fazer?” Percebi logo que estava a cantar e a ir contra uma estranha. Desatei a correr cheia de vergonha e, pelo caminho, ainda fui contra um rapaz que estava a sair da casa de banho. Até hoje não sei qual era a cara da tal rapariga que teve de levar comigo, porque em nenhuma altura olhei para ela.

PS: Ai, ai, ai. Estás a fazer-me lembrar a situação mais recente em que me senti mesmo embaraçado. Foi na semana passada na Fábrica do Braço de Prata. Sabes quando estás focado, acabaste de chegar de viagem, e a Judith está em Lisboa pela primeira vez? Senti-me embaraçado por duas questões. Quando fomos à Fnac, ela pediu-me para introduzir o concerto em português, mas ninguém me disse uma coisa muito importante. Senti-me embaraçado porque chegámos ao fim e falei de tudo, dos concertos, das próximas datas, e ela chega ao final e diz-me que não disse que íamos vender CD. Não quis sequer justificar, mas senti-me embaraçado. Depois, no dia da Fábrica do Braço de Prata, estivemos com o nosso grande percussionista e amigo Iúri Oliveira, e passei a tarde toda a chamar-lhe Leo. À terceira, ele lá me disse que se chamava Iúri e pedi logo desculpa. Naquele dia, estava mesmo a ver Leo na cara dele!

Por entre risos, o Pedro volta a lançar o dado. Avançamos cinco casas, o que nos leva ao número 32, onde nada acontece. Voltamos a dar corda ao dado e, mais duas casas à frente, calhamos no número 34. Estamos sem sorte. Convencidos de que à terceira é de vez avançamos três casas e temos direito a mais um divertido desafio com um Sê Criativo.

Sê Criativo: Um amigo teu está triste, porque partiu uma unha. Que playlist lhe recomendarias? (Sugere, no mínimo, cinco músicas)

PS: Recomendava o “Don’t Give Up” do Peter Gabriel, o “Balance” da Sara Tavares para puxar para cima, o “Beijinhos” dos Kansas Smitty’s em que eu toco, sugeria o “Swingin affair” do Frank Sinatra, qualquer tema do álbum, e acabava com “O Coro das Meninas” do Mário Laginha.

Com um amigo bem mais animado após tais escolhas musicais, continuamos caminho. Três casas à frente, vemos respondida uma pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual foi a última pessoa a quem disseste “obrigado” e porquê?

PS: Disse à hospedeira da TAP, porque estava a fazer um trabalho incrível a manter as tropas unidas. Gosto de dizer obrigado muitas vezes, mesmo em situações em que as pessoas olham para mim e ficam sem perceber o porquê de eu estar a dizer obrigado. Especialmente, hoje em dia, em que é tudo automatizado e transformamo-nos em robôs, esquecemo-nos um bocado do lado humano. Ao dizer obrigado, às vezes, podes mudar o dia de uma pessoa. Por isso, disse obrigado à senhora da TAP, porque o voo atrasou três horas, tivemos duas horas em plantão em Faro, e a senhora não podia fazer nada sem ser estar ali a dar conversa. Então um simples obrigado fazia sentido. Também disse obrigado ao meu pai por me ter ido buscar ao aeroporto. Estou sempre a responder duplamente, desculpa.

AM: Não faz mal. (risos) É porque ao par é melhor.

Cada vez mais perto da reta final, o dado abranda o passo. Uma casa à frente há a oportunidade de voltar a fazer uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Acho que todos os grupos com que se trabalha, e no jazz é muito comum haver várias formações em que um músico participa, dão algo de diferente aos músicos. O que é que os grupos em que trabalhas neste momento te dão de diferente?

PS: Um dos grupos com o qual estou mais envolvido neste momento é o Júlio Resende, com a Cinderella Cyborg. Aí o meu papel é trazer humanidade, ou seja, sou a bateria e faço o contraste com o eletrónico. O eletrónico é totalmente métrico, é computorizado, e eu sou o elemento orgânico. Sou o chão, a terra. Dá-me gozo fazer isso e, de repente, fazer um switch e ser muito mecânico, completamente agarrado à estrutura eletrónica. Com a Judith, é a cor de percussão e o drive rítmico que podes atingir com muito pouco. Não precisas de muito set up para fazer a festa. Que outros projetos tens aí?

AM: Tenho aqui Ronnie Scott, Dennis Rollins, Kansas Smitty’s e Solo Segundo.

PS: O Kansas Smitty’s dá-me um gosto enorme por ser a tradição. Fez-me explorar a música de Nova Orleães, de Kansas City, anos 30/40, antes do bepop, o swing, e eu adoro swing. Se falarem de jazz, o período de que mais gosto é esse. A malta, naquela altura, estava a viver na pós-depressão, então bora lá curtir. Com o Dennis Rollins, é mais a tradição com o som do hammond e do trombone em jazz e é avant-garde também. O Ronnie Scott All Stars foi onde aprendi tudo na vida em jazz, especialmente tocar em trio, piano trio. Deu-me muita escola. Fui residente no Ronnie Scott durante quatro anos. Fazia sete concertos por semana e aprendi imenso a tocar e a ouvir. Deu-me muita escola a tocar em trio. É por isso que gosto muito de tocar com o Júlio, em que é esse formato. É como vais ver hoje na Fábrica. Hoje, por acaso, o Júlio não vai. Aprendo sempre com diferentes projetos e tenho sempre um set up diferente para os projetos. É por isso que, às vezes, é difícil organizares-te em termos logísticos. Cada vez que viajo de Londres, tenho sempre de pensar se vou precisar daquele shaker, ou o outro mais pesado. Será que já tenho em Lisboa aquele prato de que preciso?

Sem problemas logísticos, avançamos quatro casas, indo parar à casa do Pessoal.

Pessoal: Conta-me uma coisa que ainda não tenhas revelado publicamente.

PS: Sou Benfiquista! (risos)

AM: Também eu!

PS: Talvez nunca tenha revelado isso publicamente.

À esquina da última linha do jogo, voltamos a depositar a sorte no dado. Quando para de girar, mostra-nos o número seis. Parece que ainda temos tempo para mais um Sê Criativo.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora, desenha-o, e eu adivinho qual é.

Estendo mais uma folha ao Pedro, enquanto ele pensa no defeito que deve ilustrar. Sem grandes hesitações, começa por desenhar uma pessoa, seguindo-se vários balões. Podes ver o desenho do Pedro em baixo.

Desenho do maior defeito por Pedro Segundo

AM: Se for o que eu estou a pensar, partilhamos o defeito. Gostas de muitas áreas na tua vida e, por isso, é-te difícil escolher aquela a que te vais dedicar.

PS: Exatamente. Saber escolher o que quero fazer. Às vezes, quero estar em todo o lado e não estou em lado nenhum. É aquela cena do Variações, não é? Reconheço o defeito, mas trabalho nele. Saber estar presente. Como vivo tão intensamente, gosto de não perder nada. Às vezes, tenho de perceber que não posso estar em todo o lado ao mesmo tempo. Estou e faço por estar ativo e presente. O meu defeito é querer fazer tudo. A nível pessoal, nem é na música. Por exemplo, quando saio à noite gosto de ir sozinho, porque tenho a minha dinâmica. Se não está a puxar ali, vou a outro lado. Gosto de fluir naturalmente. Quando vais com a tropa toda é mais difícil, mas também gosto e respeito. Se estou com amigos, não me posso baldar e ir simplesmente onde quero. Mas pronto, tenho imensas coisas que adoro e, às vezes, tenho dificuldade em conseguir escolher o que quero. É um dos meus defeitos, entre muitos. É um exercício muito bom, saber identificar os nossos defeitos. É o primeiro passo para qualquer tipo de evolução enquanto pessoa.

Ainda com esperança de vermos respondida mais uma pergunta, o Pedro volta a lançar o dado, que revela o número cinco. Chegamos à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde o entrevistado irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Salvador Sobral? “Jantas antes ou depois do teu concerto/peça/performance ou qualquer arte que seja a tua?”. Podes rever a pergunta do Salvador aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta do Pedro Segundo e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Esta Pergunta da Sorte chega ao fim, mas o convívio continua com um passeio por Lisboa e que culmina, apenas, no concerto em que se juntou ao André Rosinha e ao Óscar Graça, nessa noite, na Fábrica do Braço de Prata. Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

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