Salvador Sobral, cantor e compositor, ficou amplamente conhecido quando, em 2017, foi o primeiro português a ganhar a Eurovisão, mas a sua caminhada musical havia começado muito tempo antes. Deixou o curso de Psicologia quando percebeu que era na música que via o seu futuro. Depois de ter passado pelos Estados Unidos e de ter estudado jazz em Barcelona, durante 4 anos, lançou o seu primeiro disco – Excuse Me (2016). Ao desafio da sua banda, junta outros projetos musicais, como é o caso de Noko Woi, Alexander Search, Mutrama ou Alma Nuestra. Inquieto, curioso, sem papas na língua e altamente motivado por desafios, prepara-se para lançar um novo disco, Paris, Lisboa, já no próximo dia 29 de março.


Na parede branca, sobressaía a inscrição 4B. Aquele que costumava ser um armazém de material de guerra, estava agora iluminado revelando a cozinha de Luísa Villar. Não pode ser descrita como um restaurante, e também não pode ser vista, na sua plenitude, como uma casa. Talvez seja uma sala de refeições familiar, ou um reservatório de histórias onde Luísa brinda quem a visita com os seus deliciosos cozinhados. Estamos a falar da Mesaluisa. Foi lá que marcámos encontro. Toco à campainha e é a Patrícia Batista, da empresa de agenciamento Fado in a Box, que me abre a porta. Ao entrar, vejo o Salvador sentado num cadeirão com o portátil ao colo. Levanta o olhar e diz: “Olá, Andreia! Estás boa?” Depois de o cumprimentar, dirijo-me à cozinha onde Luísa, mãe do Salvador, estava entretida com os seus afazeres.

Como se estivéssemos todos em casa, juntos à mesa depois de um belo almoço, cada um de nós ocupava-se da sua função. Enquanto o Salvador terminava o que estava a fazer, fui montando o tabuleiro de jogo. Por fim, estávamos sentados à mesa – eu, o Salvador e a Patrícia. Luísa continuava na sua demanda, de um lado para o outro, usando sempre um sorriso na cara. Começo por explicar as regras do jogo ao Salvador, que fica imediatamente entusiasmado e, sem demoras ou receios, lança o dado iniciando-nos nesta viagem que não é mais do que a procura de respostas que nos satisfaçam a curiosidade, ainda para mais com a saída do novo disco do Salvador, Paris, Lisboa, à espreita. A primeira fala do dado dita que andemos cinco casas, começando o jogo em beleza com uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: No início do filme Paris, Texas do Wim Wenders, as personagens dizem que muito pode acontecer em 4 anos. Foi, em 2016, que lançaste o Excuse Me, ou seja, há 4 anos. Durante este período de tempo, fala-me do primeiro momento que te vier à cabeça em que te tenhas sentido 100 % feliz.

Salvador Sobral (SS): Acho que foi o concerto nos Açores, depois da operação. Estar outra vez com os meus amigos na estrada. Acho que é a memória mais feliz que tenho e já de saúde, não é?

Andreia Monteiro (AM): Sim!

Voltando a lançar o dado, este revela-nos o número quatro. Vamos parar à casa da Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Fá ou Dó?

SS: Fá.

AM: Todos escolhem essa. (risos)

SS: É o fá, porque tem um si bemol e eu gosto do si bemol. E porque o “Amar Pelos Dois” está em fá, o “Mano a Mano” está em fá. Há imensas canções que eu canto que estão em fá. É estranho, mas é assim. Portanto, fá!

AM: Mas tu não cantas na tonalidade de sol?

SS: Qual? O “Amar Pelos Dois”?

AM: Não, não. Em geral.

SS: Canto o “Anda Estragar-me Os Planos” em sol.

AM: Estava a dizer isso por causa do “Tempo”. Quando entrevistei o Tiago Nacarato, ele disse-me que estava em sol? Já não tenho bem a certeza.

SS: Ah! O “Tempo” está em mi menor.

AM: É isso! Vou explicar a minha confusão. Na Internet, a cifra está em sol, depois na música está meio-tom abaixo, ou seja, em mi menor, mas o Nacarato disse-me que para ele ainda teria de ser mais meio-tom abaixo. Era uma coisa assim.

SS: Ah, OK, OK. Então é isso. Mas tenho muitas músicas em fá. E muitos standarts que canto são em fá, também.

Sem mais confusões de meios-tons para cima e para baixo, seguimos viagem. Duas casas à frente temos mais uma Pergunta da Sorte, o que faz o Salvador dizer que estou com sorte por já ser a segunda vez em que calhamos numa das minhas perguntas. Sigamos para uma teoria prestes a ser posta à prova!

Pergunta da Sorte: Vamos falar sobre a primeira música que vai estar no Paris, Lisboa. Como ainda não a ouvi, desenvolvi uma teoria. No concerto que deste no CCB em 2017, cantaste uma música que se chamava “180 Dias”, e que falava de alguém que estava no hospital em estado vegetativo, há 180 dias, num “descanso horizontal” e que já me pareceu ser um momento com um dramatismo cénico diferente em relação às outras músicas. Numa entrevista na Suécia, disseste que escreveste a primeira música do teu novo disco, “180, 181”, depois de saíres do hospital e que essa é uma música muito diferente das outras e que tem que ver com a catarse que fizeste. Há alguma relação de evolução de uma música para a outra? Ou seja, na primeira tinhas “180 Dias”, como que pedindo uma volta de 180 graus na tua vida, e, quando ficas saudável, ganhas mais um dia, simbolicamente falando e, por isso, temos a música “180, 181”?

SS: Tens toda a razão!

AM: Yeah! (e os meus braços subiram em celebração como se o meu clube de futebol tivesse acabado de marcar golo)

SS: Tens, toda, toda a razão. Ainda por cima, a própria letra sofreu umas alterações. Antes era “180 Dias” e agora é “180, 181”, porque ganhei esse dia, e está tudo certo! Quem me dera que as pessoas ouvissem o disco como tu.

AM: Mas eu ainda não o ouvi! (risos)

SS: Não ouviste, mas que percebessem as coisas como tu.

Luísa Villar (LV): Leu! (gritou a Luísa da cozinha)

SS: Leu, exato! Leu e informou-se!

Se até então não tinha ouvido o novo disco do Salvador, Paris, Lisboa, isso foi algo que se alterou no próprio dia da entrevista. A Patrícia levantou-se e estendeu-me o novo disco do Salvador. Como ainda faltam uns dias para o disco estar disponível em todas as plataformas, digo apenas que adorei todas as músicas. Mas é apenas a minha opinião, leitor. Dia 29 de março, digam de vossa justiça!

Capa do disco Paris, Lisboa de Salvador Sobral, disponível a partir de 29 de março

SS: E mudei essa música, porque a “180 Dias” era sobre um gajo qualquer. Depois, para tornar aquilo um bocadinho mais ambíguo, mudei algumas palavras do poema.

AM: Fui a esse concerto no CCB e foi o primeiro concerto ao vivo que vi teu. Quando cantaste esta música dos “180 Dias”, fiquei completamente agarrada, porque era tão diferente e tão boa! Ainda para mais, tinhas aquela carga dramática toda. Havia um foco de luz em ti. Estava tudo às escuras e só tu estavas iluminado e aguachado.

SS: Se calhar, vais ficar desiludida, porque ao vivo é ao vivo.

AM: Não vou, não. É impossível! (sim, leitor, sou uma fã declarada, como aliás já deu para perceber em muitas Perguntas da Sorte anteriores)

SS: Mas o André (Rosinha) faz um solo de arco, portanto está-se bem.

AM: Ah, então vai ser ainda melhor!

SS: Ya. (risos)

Aprovada a teoria, é altura de regressarmos ao diálogo com o dado. Avançamos uma casa e somos apresentados à Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional do artista.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

SS: Quando se tem de acordar cedo para apanhar alguma coisa.

Veremos que casa apanhamos, já de seguida. Sendo estas semanas marcadas pelo advento de Paris, Lisboa, o nosso dado não poderia fazer outra coisa senão levar-nos, cinco casas à frente, até outra pergunta sobre Carreira.

Carreira: O que podemos esperar do projeto em que estás a trabalhar agora?

AM: Portanto, o CD.

SS: Exato! Olha, é um CD honesto. É aquilo que somos enquanto banda a tentar chegar, o mais possível, ao que é o concerto. O meu esforço é sempre tentar emular o que acontece nos concertos para o disco. Nunca vou conseguir fazê-lo, mas é sempre uma tentativa. Tentar comunicar como comunicamos ao vivo, no disco, também. Mas acho que é um disco um bocadinho mais maduro, mais seguro, mas sempre de procura, não é? Também a minha voz ainda não estava, como ainda não está, no ponto. É engraçado, porque a minha irmã (Luísa Sobral), no último disco que fez (Rosa), também estava com a voz rouca, porque ficou rouca na gravidez. A minha voz também está um bocadinho em recuperação depois disto tudo. Acho que isto também é engraçado e também nos une.

AM: Qual é a tua relação com o filme Paris, Texas? Porque é que ele é tão importante para ti?

SS: Com o cinema, tenho uma relação superleiga e descomprometida. Adoro cinema e não percebo absolutamente nada. Ainda bem! Não quero nunca perceber. Quando vejo imagens bonitas, e o Paris, Texas tem tantas imagens tão bonitas… E tem também uma exploração enorme das poucas personagens que aparecem. A própria personagem e a maneira como vai mudando ao longo do filme. O que também gosto nos filmes do Wenders é isso. As personagens, a forma como vão mudando, a exploração e procura interior. O disco também é uma espécie de procura, por isso fica aí. Mas adoro o filme por causa disso. A mulher do personagem também é francesa, por isso há sempre uma conexão.

Conectados com o jogo, vamos em busca da próxima casa. Uma casa à frente, vamos parar ao número 18, onde nada acontece, pelo que o Salvador reage com um “oh” tristonho. De certo, o jogo ainda nos reserva boas surpresas. Desta vez, andamos seis casas e vamos parar ao Sê Criativo, que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o, e eu adivinho qual é.

SS: Mas eu não tenho. (risos)

AM: Não tens defeitos? Acho que o encontraste agora! (risos)

SS: Exato, exato. (risos) Sabes qual é o meu maior defeito, mi madre? Não podes dizer, mas estou só a perguntar se sabes qual é.

LV: Não, são tantos. (risos)

Com tal premissa, o Salvador abraça esta missão. Começa por me perguntar se pode escrever, mas ambos concluímos que não. Ao fundo, ouve-se Luísa a dizer que acha saber qual é o maior defeito do Salvador. Começa por desenhar várias pessoas, para depois as rodear de balões de fala. Enquanto cumpre o desafio, confessa-me que desenha pessimamente e conta a história em como o seu professor da primária achava que ele era atrasado mental, chegando a ir dizer isso a Luísa. Disse-lhe que achava que o seu filho tinha um atraso, porque não conseguia desenhar a figura humana com seis anos. Claramente, não se tratava disso, mas o Salvador concluiu que isso só mostra que o seu talento para o desenho é escasso. A Patrícia confessa que também nunca foi boa com as proporções do corpo humano aquando de fazer um desenho. Contribuo para a conversa dizendo que, para evitar que as partes do corpo fiquem desproporcionais, devem começar a desenhar a partir do centro do corpo e não pela cabeça, ou pés. E é por entre estas partilhas que o Salvador termina o seu desenho e mo estende para ver se adivinho de que defeito se trata.

Desenho do maior defeito por Salvador Sobral

AM: Tens dificuldade em dizer não às pessoas e aceitas tudo. Portanto, depois acabas por ficar soterrado em coisas para fazer.

SS: Bolas!

Patrícia Batista (PB): Espetacular! Ela olhou e disse logo!

SS: Também já estava a ver antes. Como é que é possível?

AM: Sou bruxinha.

LV: Então, o que se passou? (perguntou Luísa após um pausa em que foi falar com um casal que havia batido à porta)

SS: Fiz um desenho e ela descobriu logo! Vê lá.

Terminadas as incredulidades e percebendo que o Salvador não desenha assim tão mal, voltamos a lançar o dado, que revela o número dois, pretexto que o Salvador usa para me dizer que devíamos jogar os dois, ao invés de ser só ele a responder a perguntas. Segue-se mais uma pergunta sobre a Carreira.

Carreira: Qual foi a maior peripécia que te aconteceu num dia de trabalho?

SS: A maior peripécia foi num concerto em Vilar de Mouros, em que o médico não queria que eu fosse. Quando fui a Vilar de Mouros, estava a tremer todo, pensava que ia morrer no palco. Isso é uma peripécia bastante grave. Estava assim e tinha de ir cantar. Tinha o coração a mil. Foi uma peripécia importante. Supostamente era para ser uma peripécia engraçada, não é? Mas pronto, fica assim.

AM: Como correu bem… (risos)

SS: Exato, como acabou por correr bem…

Muito bem está também a correr este jogo, que chega, agora, sensivelmente a meio. O dado manda-nos avançar seis casas levando-nos até ao número 32, onde nada acontece. Voltamos a lançar o dado, e ele volta a insistir no número seis. Porém, o Salvador, vendo que já não temos muito tabuleiro por percorrer, diz que se enganou e volta a lançar o dado em busca de um número inferior. Agora sim, falamos como deve de ser, senhor dado. Avançamos uma casa, indo parar a uma Pergunta da Sorte.

SS: Se não o jogo acaba logo. Não dá! (risos)

Pergunta da Sorte: Vamos para uma série de três suposições:

1. É de noite, por volta da hora de jantar, estás em casa e não te apetece estar sozinho. O que farias se a missão fosse tornar aquela noite numa coleção de perfeições efémeras?

SS: É a história da minha vida, eu nunca quero estar sozinho. Fazia uma festa lá em casa. Convidava a malta toda do jazz, o Zambujo, o Nacarato, o Henrique (Janeiro). Fica sempre uma noite gira de música, não é? Ou aqui! Fazia aqui na minha mãe (na Mesaluisa) que é mais giro! Fazia aqui, ela cozinhava, e eu ficava a noite toda a tocar. Adoro isso.

2.Estamos neste momento no último concerto que vais dar, já tens cerca de 250 anos, que é mais ou menos a idade com que vais morrer certamente, qual era a última música que cantavas?

SS: O “Amar Pelos Dois”. Tem de ser, não é? É a música que mais marcou a minha vida. Com ela me despediria também.

“Amar Pelos Dois” em concerto transmitido pela RTP

3.O mundo acaba amanhã. O que farias hoje, ou o que sabes que não podes deixar sem ser feito antes do final do mundo?

SS: Oh, tinha de ir ter com a Jenna. Tinha de ir a Paris. (risos)

Com a mente a deambular entre Paris e Lisboa, seguimos viagem. Avançamos três casas e voltamos a deparar-nos com uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Quando um perde aquilo que tem e o outro não chega a ter, onde é que o encontro é possível?

SS: No tormento, não é?

AM: Sim. Mas achas que é igual para os dois lados?

SS: Não chegar a ter e perder. Não. Acho que é pior perder do que nunca chegar a ter, não achas?

AM: Acho.

SS: Pelo menos, não conheceste essa parte boa do ter. Por isso é que é tão triste a decadência da malta dos famosos. Foram estrelas incríveis e depois já ninguém lhes liga. Já ninguém quer saber, já ninguém os chama. Muito melhor é para as pessoas que nunca foram famosas e que não sabem como é. Há tantos miúdos em África que nunca viram um iPad e são tão felizes, porque é a realidade que conhecem.

PB: São felizes com pouco. Às vezes, é importante termos essa noção.

Voltando a dar corda ao dado, este faz-nos avançar três casas, indo parar a uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Copo meio cheio ou meio vazio?

SS: Meio cheio. Se não, não tinha chegado até aqui.

Continua a jornada para, uma casa à frente, sermos apresentados uma casa diferente do jogo da Pergunta da Sorte – Pessoal –, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal do artista.

Pessoal: O que mais repudias numa pessoa e o que mais gostas?

SS: O que mais repudio é o divismo. As divas, pá. Não suporto as divas! (risos) O que mais gosto nas pessoas é a verdade, as pessoas verdadeiras, genuínas. As pessoas que estão ali de verdade.

De atenções voltadas novamente para o dado, este mostra o número seis.

SS: Mas está sempre no seis? Ela quer acabar isto rápido.

AM: Eu não quero!

Mas são seis casas que avançamos ao encontro de uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Rápido ou devagar?

SS: Devagar. Gostava que fosse sempre devagar.

Vamos esperar que o dado nos deixe andar devagar ao longo da última linha do jogo. Duas casas à frente, temos oportunidade de ver respondida mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: “No corpo e na alma estava o coração”. Porque achas que ainda é tão difícil as pessoas olharem para a diferença sem serem capazes de abolir o julgamento?

SS: Acho que é uma questão de as pessoas não gostarem da mudança, nunca. As pessoas não lidam bem com a mudança. É algo muito difícil de incutir ao ser humano. Qualquer tipo de mudança, seja ela uma canção na Eurovisão, ou uma sexualidade diferente. Acho que é isso. O ser humano tem muita dificuldade em mudar as coisas. No outro dia, no curso de sueco, o professor ficou doente e veio outro. Começámos logo a embirrar com o gajo. Não há hipótese. (risos) Ah, este não é como ele. Pensei logo, fogo, o ser humano é mesmo adverso à mudança, não gosta. E havia uma aluna americana a dizer: “Desculpe, professor, não pode ler e depois nós repetimos? É que é assim que fazemos com o outro professor.” Pensei: “Ai coitado, fica logo supernervoso.”

LV: É uma questão de segurança, sabes?

PB: E as pessoas não se conseguem logo adaptar, têm medo.

LV: Têm medo. É mais seguro fazer como já se fez e já sabe que faz bem.

Sem medos, continuamos a desbravar caminho neste jogo. Chegamos, uma casa à frente, a outra pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual foi a coisa que te disseram que mais te marcou até hoje?

SS: Esta é difícil! Acho que é uma coisa que até me dizem várias vezes, que eu trago alegria às pessoas. Gosto disso. Não é aos fãs, é às pessoas que me são próximas. Que a minha presença traz alegria e não é de estar a cantar. Só de estar com as pessoas, elas ficam felizes. Adoro isso! O que há de melhor do que trazer alegria às pessoas?

AM: Mas olha que para os fãs também trazes muita alegria. Estando eu nessa qualidade, posso garantir-te tal coisa. (risos)

SS: Se calhar há coisas mais bonitas, mas agora é o que me lembro.

Seguimos jogo, agradados com o passo demorado que o dado adotou, e, uma casa à frente, calhamos numa Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Fala-me dum momento em que te tenhas sentido completamente deslocado em relação ao que se estava a passar à tua volta e sentiste o ímpeto de mudança.

SS: A Eurovisão! Ia naquela missão superprepotente de mudar aquilo tudo. Claro que depois não aconteceu, mas mudei naquele ano. Às vezes desatava a chorar, porque odiava estar ali, e a minha irmã dizia-me que estávamos ali pela missão. E era isso.

AM: Eu acho que mudaste. Talvez não tenhas mudado a Eurovisão, mas levaste as pessoas a reparar noutros tipos de música.

Voltamos a lançar o dado e sai o número quatro, que nos leva à Casa Gerador, a última do jogo. No entanto, como ainda tenho mais uns minutos a Patrícia e o Salvador deixam-me fazer mais algumas. Sigamos, então, para a seleção de algumas das perguntas que tinha comigo e que ainda gostava de fazer nesta entrevista, misturadas com uma série de conversas paralelas que ficarão na gaveta.

Pergunta da Sorte: Para ti, foi sempre fácil subires a palco e cantares com a liberdade com que o fazes?

SS: Acho que não. Principalmente na altura em que comecei a estudar jazz, senti-me superinseguro, porque percebi que não sabia nada. Sabes quando aprendes uma língua e sabes um bocado e, então, estás na boa a falar e depois percebes que afinal não sabes nada? Com a música é igual. Quando comecei a estudar jazz em Barcelona, fiquei tão inseguro que cantava um standart muito normal e não queria chamar à atenção. Quando me comecei a sentir com mais segurança, comecei a sentir-me confiante para fazer loucuras. Cada vez faço mais loucuras a cantar. Às vezes, até é demasiado. No outro dia, tinha o meu amigo Omar, que foi ver o meu concerto a Maiorca, com as mil e uma loucuras que acontecem durante os concertos, e depois pus uma canção do disco novo e ele disse: “Ah, que bom, aqui estás só a cantar.” Ui! Ele tem razão, estás a ver? Agora estou a esquecer-me do principal, que é a música, para, em vez disso, fazer rap, ou gritar. Para fazer as minhas performances, estou a esquecer-me do que é principal – a música.

AM: Também senti isso quando tive a minha primeira aula de piano jazz. Perguntei-me logo se sabia sequer o que era um piano, porque não me parecia conhecer o instrumento, de todo.

SS: Mecanicamente?

AM: Também, mas não é só isso.

SS: Já ouvi falar de primeiras aulas em que te contam como é o piano e as mecânicas.

AM: Ah, isso nunca me fizeram. Mas logo na primeira aula de jazz, senti que era uma linguagem tão diferente quando se fala em improviso, em que não tens tudo escrito numa pauta, que pensei que estava a olhar para um piano pela primeira vez.

Pergunta da Sorte: Se o amor quando se revela não se sabe revelar, como é que se descobre o que dizer?

“Presságio” em concerto transmitido pela RTP

SS: Acho que é com o teu instinto. O teu instinto é que te vai dizer o que tens de dizer. O teu instinto mais selvagem dos instintos. Não achas? Se tu sentes, tens de ir falar, tens de ir dizer. Também não percebo nada do amor.

AM: Estás casado! (risos)

SS: Sim, mas é sempre pelo instinto. Nesse dia, senti um instinto. Pensei, se não vou falar com aquela miúda, não vou dormir nada esta noite. E tenho de dormir, não é? Tenho de dormir, de descansar. Foi o meu instinto que disse que tinha de revelar. Eu já a amava naquele momento, eu acho. Tinha de revelar logo ali.

Pergunta da Sorte: Quem é que te troca o passo e te faz o favor de te vir estragar os planos?

Vídeo oficial de “Anda Estragar-me Os Planos”

SS: Eh, pá, fogo. A Jenna (Thiam) está-me sempre a trocar o passo e a estragar-me os planos. Tenho sempre que ir lá visitá-la e depois afinal não dá, depois afinal os voos estão caros. O Júlio (Resende) também gosta de fazer isso! Também gosta de estragar os planos. De dizer, não, não agora vamos tocar isto. Sempre fez isso. Uma vez, começámos a tocar o “Nem Eu” e eu estava obcecado com o Zambujo nessa fase. Tocámos um bocadinho, e ele vira-se e pergunta-me, “Vamos tentar sem ser o Zambujo a cantar?” O gajo não tem pudor. Era porque estava a cantar igual ao Zambujo, e ele me estava a incentivar a experimentar outra coisa. O gajo desafia-me sempre, por acaso. Ele sabe que eu vou, então ele puxa. Artisticamente é uma relação ótima.

Sem tempo para mais perguntas extra e deambulações que fogem à entrevista, regressamos à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde o entrevistado irá responder a uma pergunta da convidada anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta da Beatriz Pessoa? “Para quem é que fazes a tua arte?” Podes rever a pergunta da Beatriz aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta do Salvador Sobral e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

Se queres ler mais crónicas da Pergunta da Sorte, clica aqui.