Beatriz Pessoa, cantora, tem 23 anos, mas começou a estudar canto por volta dos 14 anos no Hot Clube, seguindo para a Escola Superior de Música de Lisboa. Foi quando estava em Erasmus, em Paris, que se atreveu a escrever as suas primeiras canções. Daí a pouco tempo viu nascer o seu primeiro EP, Insects, que conta com os temas “Disguise”, “Insects” e “You Know” Em 2018, lançou o EP II, onde aparecem temas como “Feminina” e “Vento”. Descrita pelo jornal Público como “a voz que a pop roubou ao jazz”, ela é também do vento, é quem quer ser e quem às vezes não convém.


Numa manhã soalheira, vou até ao Edifício Diogo Cão, Loja Norma Jean, onde estava sediada a agência Arruada. Quando chego, dizem-me que tive sorte por ainda vir àquele edifício. Estavam em mudanças. Poucos minutos depois, chega a Beatriz Pessoa, com um sorriso de orelha a orelha. Somos encaminhadas para uma sala de reuniões para podermos jogar à vontade. Enquanto monto o jogo, falo com a Beatriz sobre a proximidade do Festival MIL, em que vai dar um concerto, no dia 29 de março, pelas 21h, no Estúdio Time Out. Jogo preparado, é hora de seguir viagem com o lançamento do dado. Avançamos três casas, indo parar a uma pergunta Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal da artista.

Pessoal: Qual foi a última pessoa a quem disseste “obrigado” e porquê?

Beatriz Pessoa (BP): Foi à minha colega de casa, porque ela ontem comprou pizza e perguntou se eu queria. Eu disse, ‘não, obrigada!’. (risos)

Andreia Monteiro (AM): Portanto, foi um ‘obrigada’ para, ainda por cima, dizer que não. (risos)

BP: Exato!

Continuando caminho, o dado indica-nos que devemos avançar cinco casas. Eis que temos a primeira Pergunta da Sorte deste jogo, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Fala-me da história em como uma conversa numa viagem de comboio com o contrabaixista João Hasselberg te fez decidir sentar ao piano e compor músicas para poderes formar uma banda.

BP: Nós íamos tocar com a banda do André Santos, ao Porto. À época, ele estava a lançar, salvo erro, o segundo disco dele e eu cantava em duas músicas. Fui com o Hassel para o Porto de comboio e estávamos a falar sobre o que íamos fazer. Eu estava quase a ir para Erasmus em Paris, e ele perguntou-me quais eram os meus planos, porque estava a frequentar o último ano na Escola Superior de Música de Lisboa. Estava a dizer-lhe que ainda não sabia muito bem o que queria fazer, e ele perguntou-me porque é que eu não escrevia música, porque é que não começava a compor. Realmente, nunca tinha pensado muito sobre isso. Lembro-me que aquilo ficou aqui dentro a rebobinar e, em Paris, comecei a compor e foi muito por ele me ter dito que isso era possível. Acho que isso não me tinha passado pela cabeça.

AM: Mas a tua experiência em Paris não foi muito estimulante, pois não?

BP: A nível académico, não. Eles não tinham professora de voz, mas nem foi tanto por aí. Foi porque não senti que as aulas estivessem bem organizadas, era tudo um bocado disperso. Mas depois a escola era um sítio incrível. Tinha pianos por todo o lado, era uma escola mesmo de artes, portanto, nos corredores cruzávamo-nos com os alunos de bailado e do teatro. Era uma mistura artística. Depois, adorei a cidade em si e a oferta de concertos e jam sessions. Agora, em Lisboa, já há mais esse tipo de sítios para se estar musicalmente, mas na altura não havia tanto. Em Paris, de repente, era uma imensidão desse tipo de coisas. Também houve a questão da liberdade. Foi a primeira vez que saí de casa e estava sozinha numa cidade, portanto foi uma altura superestimulante em mil e um aspetos, mas realmente academicamente não adorei andar lá na escola, tirando o facto de andar misturada com alunos doutros cursos. O meu curso em si, não achei muito interessante.

AM: Já que falaste nas jam sessions e nos espaços que existem em Lisboa, vou aproveitar para fazer uma pergunta que não sei se vai ser um tiro no pé, mas sinto que poderá haver aí uma história. O que é que o Café Tati, que fechou no final do ano passado, significou para ti?

BP: Olha, eu comecei a cantar no Tati. Quando o Tati fechou, foi superduro ver um sítio, onde comecei a cantar nas jam sessions, fechar. Entrei no Hot Clube quando tinha 14 anos e, na altura, as jam sessions que haviam eram no Hot Clube, havia o Vinil… mas eram tudo sítios em que tudo acontecia à noite, por isso a maior parte eu não podia ir, porque eu era pequenina e os meus pais não me deixavam. Eram sempre os músicos de jazz profissionais que tocavam, então era muito intimidante, de repente, ir perguntar se podia cantar uma música. Depois, o Gonçalo Marques abriu esta jam session. Primeiro, era ao domingo à tarde, portanto, eu podia ir. Depois, era uma jam session que convidava e estava muito disponível para os alunos de jazz. Era esse mesmo o intuito. Tanto que as pessoas que estavam a abrir a jam, para além do Gonçalo Marques, que é um trompetista, e o Bruno Santos, que é um guitarrista e o diretor pedagógico da escola do Hot Clube, eram dois putos, na altura meus colegas e grandes amigos – o Romeu Tristão e o João Lopes Pereira. Portanto, a jam incluía, já à partida pelo seu grupo de abertura, malta da minha idade que também estava a aprender. Aquilo tornou-se uma rotina que quase fazia parte da escola. Todos os domingos, durante não sei quantos anos, estava religiosamente no Café Tati. Foi lá que comecei a cantar ao vivo e realmente agora quando fechou foi uma grande emoção. É muito triste, principalmente quando pensamos nas razões. É uma daquelas coisas de sempre: compraram o prédio para fazer um hotel. Realmente é um sítio que foi superemblemático em Lisboa na música, especialmente no jazz e na sua aprendizagem. Mas, pronto, a vida é mesmo assim e agora há uma nova jam, que é ao lado, também ao domingo à tarde – a jam do Palheta. Também é bonito ver que as coisas acabam por continuar.

AM: Perguntei-te isto, porque fui lá no último dia e vi-te a cantar.

BP: Ah! Tu foste no último dia? Que giro!

AM: Sim, porque já tinha lá ido e gostado muito. Quando soube que ia ser o último dia, não quis acreditar, mas decidi que tinha de ir até lá. Foi a primeira vez que te ouvi cantar e, quando acabaste, vi-te muito emocionada.

BP: Sim, estava a chorar!

AM: Sim. Pensei logo que havia aí uma história.

Depois de nos distrairmos à conversa logo à segunda pergunta, decidimos avançar. Quatro casas à frente temos uma Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Doce ou salgado?

 BP: Doce! Sou uma pessoa muito gulosa.

Sem demoras, damos corda ao dado. Voltamos a avançar quatro casas, onde temos mais uma pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual é a primeira coisa que fazes ao acordar? E a última ao deitar?

BP: Quando acordo, abro o estore. Tenho umas pantufas que são uns coelhinhos. Ponho as pantufas e abro o estore. A última coisa que faço ao deitar… isto pode ser o que faço ultimamente?

AM: Sim.

BP: Tenho estado a trabalhar no meu disco. Durante o dia, estou no estúdio, ou passo a manhã no estúdio, e depois de sair do estúdio, o Pedro, que é a pessoa com quem estou a trabalhar, normalmente envia-me as coisas. Normalmente, adormeço a ouvir isso para, no dia seguinte quando acordar e for para o estúdio, já ter a música na cabeça.

Seguimos jogo e, quatro casas à frente, somos apresentadas à casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: O que gostavas de fazer que ainda não tiveste oportunidade de concretizar?

BP: Gravar um disco! E lançá-lo. Acho que esse é o meu maior sonho. Acho que os EP é uma preparação, mas um primeiro disco dum artista é uma coisa supermarcante e algo que quero desde sempre – ter um disco meu. Espero conseguir concretizar isso agora.

AM: Acho que te vou fazer uma pergunta muito básica. Qual é a diferença entre um EP e um disco?

BP: Um disco é um LP, ou seja, um long play. Um EP é um minidisco, portanto, tem menos faixas. Por ter menos faixas, normalmente também tem menos visibilidade. Imagina que se trata de um portefólio. É a diferença entre entregares um portefólio inteiro, ou apresentares só um desenho, ou um projeto à parte, que é o que acontece com o EP. Mas para mim foi uma questão de preparação. Comecei muito nova a cantar e a escrever músicas. Foi tudo muito rápido. Comecei a compor e, passados uns meses, fiz um concerto. De repente, tinha uma agência e queriam gravar qualquer coisa. Como ainda não tinha a certeza do que queria fazer e não sabia bem qual era o caminho, preferi ir devagarinho. Não queria estar a lançar um disco com o qual não estivesse segura e o qual não conseguisse defender. Estou a crescer ainda. Não me descobri totalmente. Preferi fazer as coisas mais devagar, daí os EP.

Depois de finalmente ter percebido a diferença entre os dois formatos, que, verdade seja dita, também ainda não tinha feito o esforço de procurar saber, a Beatriz voltou a lançar o dado que nos revelou o número um. Fomos parar à casa com o número 18, onde nada acontece. Redirecionamos a nossa atenção para o dado. Desta vez, faz-nos avançar cinco casas e vamos parar à casa onde a Beatriz parece ter mais tendência para ir parar – Pessoal.

Pessoal: Qual o primeiro sonho que te lembras de ter tido?

BP: Quando era mais pequenina, queria ser bailarina. Era o meu sonho. Acho que sempre tive um bocado o sonho do palco. O meu pai é encenador, portanto sempre vivi nesse mundo mais artístico, nos ensaios e espetáculos. Acho que sempre me fascinou imenso a questão do palco. Não sei se já fizeste alguma coisa em palco.

AM: Já.

BP: Estás a ver quando tens aquela sensação em palco em que não vês as pessoas, mas sabes que elas estão lá?

AM: Sim.

BP: Acho que isso me fascina de alguma forma. Essa liberdade de eu saber que estou a falar para alguém, ou a cantar para alguém. Ou seja, que estou a dizer alguma coisa a alguém, que essas pessoas me estão a ver, mas eu não as vejo. É uma liberdade no desconhecido. Gosto dessa ideia, e isso sempre me fascinou desde miúda. Mas não era tanto pela atenção. Fico desconfortável, às vezes, com a atenção. É mais por essa coisa da partilha sem veres imediatamente o efeito que estás a ter na pessoa. Acho que o meu sonho sempre foi essa linguagem assim meio abstrata.

AM: Quando cantas as músicas que compões, que escreves, e que por isso muitas vezes devem estar ligadas à tua história pessoal, o teu percurso, as tuas emoções que gostas que sejam privadas e, de repente, estás num palco a expor essas emoções todas, não só para os que te conhecem e, se calhar, conseguem perceber sobre o que estás a falar, como partilhas com muitos desconhecidos, não é difícil estar assim vulnerável? Como é que isso se faz?

BP: Há uma coisa muito bonita na interpretação, e acho que aprendi isso quando comecei a dar aulas e quando comecei a falar com os meus alunos sobre interpretação. Ninguém tem a mesma interpretação sobre o mesmo assunto e da mesma forma. Portanto, mesmo que agora ficássemos superamigas e te explicasse que determinada música era sobre uma separação que eu tive, ou uma angústia que tive, mesmo que te dissesse o assunto, a forma como irias interpretar a minha visão sobre esse assunto, ou as palavras que eu disse, ia ser sempre diferente. Então, na verdade, é uma vulnerabilidade um bocado disfarçada. A partir do momento em que me dizes a tua interpretação, também estás a ser vulnerável. A partir do momento em que tu ouves uma música e me dizes a tua interpretação, seja ela qual for, também me estás a dar essa vulnerabilidade. Então, sinto que é mais uma partilha. Depois, acho que o bonito em escrever letras é que podes falar das coisas, usar a poesia e outros nomes para as coisas, e isso também te protege. É o jogo entre perceberes o que estás disposto a dar e o que não queres dar. Na verdade, sempre fui supertransparente. Mesmo que tivesse uma profissão em que a parte artística não estava tão à mostra, acho que sou uma pessoa que fala das coisas com muita naturalidade e expressar-me, na verdade, é o que faz resolver-me. Portanto, essa questão só me assusta quando quem ouve as músicas está com má intenção, mas isso nunca me aconteceu. Sempre que canto e alguém chora, ou ri, ou se emociona, ou eu choro, riu, ou me emociono, não me sinto vulnerável, porque as outras pessoas também ficaram. Acho que é uma partilha. Não sei se respondi à pergunta.

AM: Olha, obrigada. Faço esta pergunta muitas vezes, porque é uma resposta que ando à procura. Há uma coisa que disseste em relação às pessoas estarem vulneráveis que ligo muito a uma coisa que costumo dizer. Quando faço alguma coisa e as pessoas me perguntam sobre o que é, já tenho uma atitude diferente. Quando era mais nova, contava imediatamente sobre o que era o que tinha escrito, desenhado, ou o que fosse. Agora já não digo. Não é que não queria partilhar. Posso fazê-lo, mas faço questão que a pessoa primeiro me diga sobre o que é que acha que é. Acho que quando estás a pintar um quadro, escrever uma música, ou seja o que for, aquilo é teu e são as tuas histórias, os teus sentimentos, ou a história de alguém que conheceste e te tocou, mas acaba sempre por se relacionar contigo. Mas, a partir do momento em que fecho essa criação e a entrego ao público, deixa de ser meu. Há uma coisa que a Luísa Sobral costuma dizer que é algo do género como o perceber como as outras pessoas se apoderam do que criaste. As pessoas vão relacionar-se com uma obra de acordo com a sua história e experiência. Sempre pensei desta forma. O que nunca percebi, e que me mostraste agora, é que se as outras pessoas se vão relacionar com a história que é contada, vão-se sentir vulneráveis e, portanto, somos dois nesse papel.

BP: Exato! É exatamente isso que tu disseste. Crias uma coisa, se eu nunca a partilhar, então isso vai ser só meu, e a vulnerabilidade está toda em mim, mas também acaba por não estar porque não a partilhei. Mas é isso que dizes. A partir do momento em que lanças uma música, pões um quadro numa exposição, ou fazes um espetáculo, tu própria estás à procura do que as pessoas sentem em relação ao que fizeste, e essa procura é uma partilha. Se eu escrever sobre o amor, uma separação, ou uma angústia, uma mágoa minha, e tu ouvires, posso despertar em ti uma mágoa doutra coisa qualquer, e aquela palavra que eu disse vai fazer sentido. Por exemplo, eu acho superbonito quando oiço uma música e, de repente… olha, isso aconteceu-me com o último disto do Tim Bernardes, o Recomeçar. Ele é muito cru a escrever, é muito direto, não usa a metáfora e, às vezes, estava a ouvir as músicas dele e pensava que ele estava a falar sobre aquela tarde em que estive com a minha amiga. Acho isso superbonito. Quando o artista consegue entrar, com a interpretação de um acontecimento, que tu não sabes qual foi, na tua vida. Se há elogio que eu gosto de receber é quando alguém ouve uma música minha e me diz que parecia que eu estava a falar sobre um momento da sua vida, porque, de repente, eu passei a fazer parte de um momento na vida daquela pessoa. Isso é um privilégio gigante enquanto artista. Acho que é a melhor coisa. De repente, fazeres parte da vida dos outros sem saberes, nem estares lá. Não precisas, porque são partes de ti que estão no teu trabalho. Acho isso superbonito.

AM: Isso acontece-me imenso com a música. Mas, para mim, a música é mais sensível que as outras coisas. Se calhar, é porque tive talento para complicar a questão da música na minha cabeça. Se calhar, é tão simples como em qualquer área artística. Acho é que, por exemplo, no teatro, pode ser difícil pela exposição, mas tens uma personagem que te protege. Em stand up comedy, já acho mais sensível, mas mesmo assim estás protegida por ser uma piada. Mas na música e, mais uma vez, é a forma como o vejo, acho que só consegues ser um bom músico se fores cem por cento verdadeiro naquilo que estás a fazer. Senti isso quando vi o Salvador Sobral cantar pela primeira vez. Aí percebi que havia uma diferença. Acho que se fores para o palco cantar uma música com máscaras, a vestir uma personagem, não vai ser genuíno e, por isso, não vais passar o que a música tinha o potencial de transmitir através de ti. Isso sempre me assustou muito. Porque pensar numa subida ao palco, em que se começa a cantar, mas depois o público não gosta, não é a personagem que falhou. Nesse caso, fui eu a falhar e fi-lo sendo eu, sem máscaras.

BP: Concordo com o que disseste, só não vejo tanto as coisas assim, porque sinto que tu podes ser ator na tua música, e isso não quer dizer que não sejas genuíno. Acho que na arte podes falar de ti e partilhares isso com os outros, mas também podes falar dos outros e partilhar isso através de ti. Acho que isso não deixa de ser genuíno. Imagina que escrevo uma música sobre algo pelo qual nunca passei, por exemplo, ter um filho. Nunca tive um filho, mas enquanto artista e pessoa que observa, porque muito da arte vem da observação, se observar alguém que é mãe e associar o carinho, a luta, ou o medo de perder, e escrever sobre isso, cantar sobre isso e, enquanto estiver a cantar me estiver a meter no papel da outra pessoa, isso não deixa de ser genuíno.

AM: Sim. Acho é que nessas situações continuas a levar bocadinhos de ti, porque te pões no papel do outro.

BP: Mas o ator também mete sempre um bocadinho de si.

AM: Sim, sem dúvida. Estava mais a referir-me àquelas pessoas que parece que não estão a sentir nada do que estão a dizer, ou a cantar. Pode acontecer porque alguém lhes entregou a canção e estão só a debitá-la, não sei. Até podem estar tecnicamente perfeitos, mas é só isso.

BP: Percebo o que estás a dizer, mas não sei se já vi algum artista nesse sentido. Há artistas que são intérpretes. Por exemplo, o Salvador, na maior parte das músicas que ele canta não é ele que as escreve. Quando há um cantor, que se está a expor a uma música, custa-me não ver um genuíno nisso. Mas, se calhar, tens razão, e é só uma utopia minha.

AM: Não sei. Enquanto espectadora, às vezes, sinto que há pessoas que deixam tudo em palco, e isso é visível. Até podes nem te identificar com a mensagem, mas vês que a pessoa está despida de artifícios, supervulnerável em palco. Enquanto há outras que pisam o palco, cantam as suas canções e vão para casa. Não te transformou. Foi bonito, mas não tocou.

BP: Mas achas que é necessário ser sempre transformador?

AM: Não sei se é necessário. Por acaso, quando fiz a Pergunta da Sorte com a Sofia de Portugal, discutimos o que era a arte, e ela disse-me uma coisa que acho fazer sentido. Que só é arte quando transforma o espectador. Isto não quer dizer que precisas de sair dum concerto com vontade de mudar a tua vida. Pode ser uma coisa tão simples como estares triste antes do concerto e depois saíres feliz. É porque transformou alguma coisa em ti. Quando vais e sais igual… aí é que me interrogo.

BP: Acho é que voltamos sempre àquela questão da interpretação. Se nós as duas estivermos numa sala com mais quarenta pessoas a ver um concerto e, se nós as duas sairmos e acharmos que não sentimos nada, acho que isso já é alguma coisa. E não sabes o que as outras quarenta pessoas sentiram. Acho que a discussão sobre arte é superimportante, mas a única conclusão possível é que não há conclusão. Tudo é arte e nada é arte. Adoro conversar sobre isso especialmente com miúdos, porque, aí sim, há um genuíno intrínseco, porque para eles é tudo imediato. Para eles é o óbvio. Acho que as discussões sobre arte são superimportantes, mas também é importante voltar à questão de ser muito relativo. Gostei disso que disseste de que a arte tem de transformar alguma coisa em ti para o ser, mas o não transformar nada, só por si, há de ser uma transformação qualquer, não é? Tu seres imune já é uma reação. Acho que agora podíamos ficar a discutir isto durante horas.

AM: Sim, até porque também é uma questão de contexto. Quantas vezes não ouvi uma música que não me marcou de forma especial e, passado um ano, volto a ouvi-la e ela transforma-me? Às vezes também temos de estar preparados para receber.

BP: Exato, ou nunca passaste por aquilo e, de repente, percebes o que a música quer dizer, ou reparas que há uma guitarra que nunca tinhas reparado que havia. Nisso acho que é mais fácil as pessoas se ligarem à música, porque ela está sempre lá. Vês uma peça de teatro, e é um momento isolado que aconteceu na tua vida. Na música, podes sempre revisitá-la e retirar conclusões diferentes. Isso é bom, ou então não. (risos)

É altura de voltar a desbravar caminho no tabuleiro da Pergunta da Sorte. Cinco casas à frente, vamos parar ao número 22, onde nada acontece. Andamos mais duas casas e temos um Sê Criativo, que lança um desafio que a convidada tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Faz o trecho de uma música com as 5 palavras que te vou dizer.

Toda contente por a Beatriz ter virado esta carta, começo a apontar num papel as palavras que me vieram à cabeça no momento. Máscara, feminina, vento, cantar e medo foram as palavras escolhidas. Passei o papel à Beatriz, que se dedicou de imediato a escrevinhar uns versos. Depois de escrever um primeiro rascunho, focou-se novamente no que tinha escrito até que, por entre uma gargalhada, me confessou que já estava a ser perfecionista. Decidiu, então, deixar os versos como estavam e disse-me que a melodia sairia no momento. Espreita o vídeo em baixo para descobrires a os versos que a Beatriz improvisou nesta Pergunta da Sorte.

Voltamos a lançar o dado, que nos manda avançar duas casas, indo parar à casa da Carreira.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

BP: Não gosto muito daquela ideia de perfeição, sabes? O termos de estar sempre impecáveis e bem-dispostos. Sempre que faço uma música, ou um vídeo, sinto que tenho a responsabilidade de saber explicar e defender. Não sou, de todo, grande no sentido em que não sou uma pessoa que os outros reconheçam assim com tanta frequência na rua, ou que apareça em mil revistas. Ainda não tenho esse tipo de vida, que acho que deve ser muito difícil de gerir. Mas já sinto essa sensação de não haver espaço para falhar e de sentir uma responsabilidade enorme sempre que falo, ou faço um vídeo. Acho que isso acresce bastante por ser mulher e por ser nova. Acho que cada vez se fala mais nisso e, cada vez mais, o público gosta de sentir genuinidade, o sermos quem somos. Está-se a abrir espaço para isso. Mas durante muito tempo, e isso ainda acontece, houve essa questão de termos de estar sempre impecáveis. Somos pessoas, e as pessoas não estão sempre impecáveis. Ou o estar bonita. O que é estar bonita? Isso cansa-me um bocado, mas como não ligo assim tanto a isso, acho que ajuda a descontrair nesse sentido. Mas acho que isso na minha profissão é uma imposição que me chateia um bocado. De resto, não considero assim tanto uma profissão, porque normalmente as pessoas associam o trabalho a uma coisa chata que tens de fazer, e eu, felizmente, não sinto isso. É realmente o meu trabalho, porque é com isto que eu vivo e pago a renda, mas como gosto tanto disto e não saberia fazer outra coisa, ou existir doutra maneira, acaba por não ser aquela coisa pesada do trabalho.

AM: Sentes que é difícil ser mulher na música?

BP: Sim. Acho que ainda é difícil ser mulher em todo o lado. Tenho a certeza de que no teu meio do jornalismo também deves sentir, às vezes, um bocado isso. Acho que é difícil ser mulher em todo o lado e não tem propriamente que ver com a área em que trabalhas. Na área artística, como eu estava a dizer, é mais difícil só porque, para além de tudo o que acontece já em mil e uma áreas, ainda temos de ser bonitas, falar bem, ser sexys, mas não ser muito sexy, porque se não somos outra coisa. A questão da sexualidade e de sermos um objeto nesse sentido é supercansativa. Acho que nos é imposto muito mais do que música, que, na verdade, é o que seria importante. Acho que, às vezes, é preciso esmiuçar um assunto para que ele se torne o novo normal. Acho que isso tem acontecido e é só positivo que esteja a acontecer. É uma coisa que está tão imposta na sociedade que às vezes nem reparas. Se me perguntares sobre a minha experiência, ninguém é mal-educado para mim, mas há pormenores que sentes, ou às vezes nem sentes por já estares habituada. Mas é uma coisa que abrange o mundo inteiro e todas as áreas. Na música, não há de ser assim tão diferente.

Agora, é vez de o dado dizer de sua justiça. Pede-nos que avancemos duas casas e temos mais um Sê Criativo.

Sê Criativo: Um amigo teu está triste, porque partiu uma unha. Que playlist lhe recomendarias? (sugere, no mínimo, 5 músicas. )

BP: Partiu uma unha? Ó pá, ia gozar um bocado com ele, não é? (risos) Está triste porque partiu uma unha? Mas magoou-se mesmo?

AM: Não. Era uma unha importante.

BP: Ah, OK. Então olha, o “Recomeçar” do Tim Bernardes, para simbolizar o recomeço de uma unha. O “Sozinho” do Caetano Veloso, o “Wonderful” da Liane La Havas. Acho que, se uma pessoa está triste, é preciso respeitar e, portanto, se precisas de libertar qualquer coisa, ouve músicas tristes para ver se isso sai. Adoro Erik Satie e as suas Gymnopédie, portanto, diria esse também. Depois, o contrário. Quando passas a fase em que já choraste tudo e precisas de animar. Pode ser aqueles discos do Nat King Cole em que ele está a falar em espanhol, que são ótimos, mas é muito engraçado ouvi-lo falar em espanhol, e já está! (risos)

Com um amigo que ficaria, certamente, satisfeito com tal seleção musical, seguimos jogo. Duas casas à frente temos uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Colorido ou a preto e branco?

BP: Colorido. (dito com voz fofinha, caro leitor!)

Sem demoras, e vendo o trajeto do tabuleiro do jogo a aproximar-se do fim, lançamos o dado. Avançamos cinco casas e temos uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Estou a pensar na tua música “Vento”. O que é que, sendo do vento, queres ver?

BP: Essa música é muito sobre ser jovem, e a liberdade que isso normalmente traz. É uma liberdade diferente da de ser criança. Acho que, nas diferentes idades, tens liberdades diferentes. Mas seres jovem traz uma liberdade, especialmente da cabeça. Acho que ser do vento é isso. É ires com o vento, deixares-te levar pelas coisas e, ao mesmo tempo, levares coisas contigo ou aos outros. Na música, falo também duma falsa paz, duma instabilidade e do jogo do engate. Eu olho para ti, sei que olhas para mim, não somos de ninguém, somos de marfim, no sentido em que somos preciosos. Acho que o que quero ver dentro da minha liberdade, ou do que estou a viver agora, é respeitar a liberdade do outro. Acho que precisamos todos de olhar para dentro para olharmos para fora com mais compaixão e compreensão. Era isso que queria dizer com essa música. Ser do vento, ver o que quero ver e, se calhar, deixar os outros verem o que querem ver, também. A minha imagem do vento é essa. Se és o vento, levas e trazes, e despenteias e chateias, mas ao mesmo tempo és refrescante. É deixares-te levar pelo vento e aceitares também o vento dos outros. Acho que na idade em que estamos as duas, depois da adolescência e de começares a ser adulta, cada pessoa à sua maneira começa a perceber o que é, o que gosta, o que quer e não quer. Acho que é importante fazeres esse processo para depois também compreenderes o outro melhor. Acho que ser do vento é um bocado isso.

Ao sabor do vento, volta o nosso dado a viajar. Saltitamos quatro casas e somos brindadas com mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: O que acontece quando temos fé em algo que não vemos?

BP: Isso está numa música minha? (risos)

AM: Mais ou menos. Está numa explicação tua sobre uma música tua.

BP: OK, OK. Agora estava a pensar, ‘boa Bia!’ (risos) Acho que a fé pressupõe, à partida, uma coisa que não é visível ou palpável. Então se falarmos em religião, é muito isso. É uma coisa que não vês, sentes. Para mim, fé é isso. Não sou religiosa, não sigo nenhuma religião. O Deus em que acredito é energia que existe no mundo entre pessoas, animais, mesas e cadeiras, porque tudo é matéria e energia. Acredito muito nessa energia e que a transferimos uns para os outros. Lembro-me de que, quando era pequenina, adormecia muito facilmente com pessoas a falar e isso ficou. Hoje em dia, ainda sou muito assim. Gosto muito do meu espaço sozinha e acho muito bonita a solidão. Mas preciso imenso dos outros e da energia dos outros. Apercebi-me, desde muito nova, que somos todos supersensíveis à energia do outro e a energia não precisa de ser transmitida através do toque ou da palavra. Pode ser transmitida através dessa fé a que estou a chamar energia. Só de passarmos uns pelos outros na rua e de nos sentirmos dados ao outro, acho que o outro acaba sempre por sentir isso, uma disponibilidade. Acho que se fores para um metro numa grande cidade, há um conforto em estares no meio de uma multidão, ao mesmo tempo que é assustador. Mas há esse conforto em saberes que estás rodeado de pessoas, mesmo que essas pessoas não estejam a olhar para ti, ou a contactar contigo. Acho que essa é a maior fé que não se vê: a fé nos outros, nos objetos, no sol, nos materiais. Essa energia que está sempre à nossa volta é a fé que não se vê. Respondi? Sinto que dispersei.

AM: Sim. Liguei esta pergunta à música “You Know”.

BP: Essa é a música mais política que escrevi.

AM: A sério?

BP: Sim, porque foi na altura em que estava em Paris. Estive lá na altura dos atentados. Estava muito incomodada com aquilo, mas pelos dois lados, sabes? Por não perceber a manipulação que existia e a forma preconceituosa como as pessoas olhavam para os dois lados. De repente, os criminosos claro que foram aqueles que entraram com armas e mataram pessoas que estavam a beber café ou a ouvir um concerto, mas também é criminosa a forma como se fala nisso e se apresenta o que fez essas pessoas chegarem ao extremismo. Acho que o extremismo está nos dois lados e escrevi essa música um bocado a pensar nisso. Não interessa muito o que vais dizer, ou o que vais fazer. A partir do momento em que não ouves o outro e em que passas uma imagem de uma coisa que tu próprio não fazes… é aquela questão de as tuas mãos dizerem muito o que tu fazes e se estiveres sempre a usar luvas no teu trabalho é porque queres esconder alguma coisa. Senti muito isso quando lá estive. Ainda é uma coisa que me chateia. Essa coisa do preconceito e da manipulação que existe na política e na forma como a informação nos chega e acho que essa música que escrevi foi sobre isso.

Mesmo, mesmo na reta final, voltamos a lançar o dado e avançamos quatro casas, o que ainda nos dá direito a uma pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual é a tua melhor memória dos tempos de criança?

BP: Ui! Isso é superdifícil por causa dos vídeos. Nunca sabes o que são memórias, ou o que são vídeos. Uma memória que tenho muito presente que sei que não vem dos vídeos, porque não há vídeos sobre isso, é de a minha mãe acordar-me de manhã. Ela acordava mais cedo para me fazer o pequeno-almoço, e eu comia-o no carro, já em andamento. A minha casa era longe da escola, então tinha de acordar muito cedo e, para não ter de acordar ainda mais cedo, tomava o pequeno-almoço no carro. Tenho aí uma memória que adoro, porque é supersensorial. Lembro-me dos cheiros e dos sabores. Esta é a memória de comer uma torrada com manteiga, ainda quentinha, mas com sabor a prata do alumínio. A minha mãe enrolava aquilo no alumínio. Não sei explicar porquê, mas associo isso a conforto, a casa e a amor. O cuidado que ela tinha a enrolar a torrada e aquilo saber-me a alumínio, mas isso não ser chato. Era uma parte do meu dia a dia. É uma das memórias mais incríveis que tenho, porque envolve montes de coisas.

Ao lançar novamente o dado vamos parar à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Nuno Gama? “Qual foi a sensação da última vez que deste o teu melhor? Como é que foi?”. Podes rever a pergunta do Nuno aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta da Beatriz Pessoa e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

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