Sofia de Portugal, atriz, cantora e encenadora, já conta com uma carreira que ultrapassa os 20 anos com vários projetos em televisão, teatro e cinema, não nos deixando dúvidas de que é um bicho de palco. Paralelamente à atividade de atriz, também é diretora de atores e leciona a disciplina de Teatro há 18 anos, tendo vindo a desenvolver o seu sistema de ensino.


Com ponto de encontro marcado na Gulbenkian, seguimos caminho pelos seus jardins. A Sofia aproveita a caminhada para me contar que este espaço lhe é muito querido, nomeadamente por causa do seu avô. Passou grande parte da sua infância com ele a assistir a espetáculos na Gulbenkian, sendo este o seu primeiro contacto com as artes. Vamos ter ao auditório, que a Sofia diz ser um local especial para ela, e sentamo-nos nos bancos de pedra. Depois de montar o tabuleiro de jogo, explico-lhe as regras da Pergunta da Sorte. A Sofia lança o dado e avançamos 3 casas indo parar à casa do Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal da artista.

Pessoal: Qual foi a coisa que te disseram que mais te marcou até hoje?

Sofia de Portugal (SP): Tive vários professores que me disseram a mesma coisa, mas de formas diferentes. Lembro-me de uma professora minha de conservatório me dizer que eu era um bicho de palco e isso marcou-me muito. Lembro-me do meu primeiro professor de teatro, quando eu tinha 14 anos, me dizer que eu era um animal de palco e isso também me marcou muito. Diria que isso me marcou profissionalmente. É uma espécie de porta, de validação.

Andreia Monteiro (AM): Muito bem, então podemos seguir!

Voltando a dar corda ao dado este manda-nos avançar 1 casa e vamos parar a um Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o e eu adivinho qual é.

Ao ler a carta que revelava o desafio a Sofia ficou bem animada, começando, desde logo, por  dar uso ao seu riso maléfico em tom de desafio para ver se eu conseguiria adivinhar o defeito. Podes ver o desenho da Sofia em baixo.

Desenho do maior defeito por Sofia de Portugal

AM: Como é um elefante, que normalmente associamos à memória, e sendo este desafio sobre um defeito, eu diria que tens má memória. Mas o resto dos elementos não ligam com essa ideia. És mais emocional do que racional?

SP: Certo, mas espera.

Foi então que a Sofia disse que lhe faltava uma caneta vermelha e acrescentou o coração a ser atravessado por uma espada.

AM: Levas as coisas muito a peito? Não consegues perdoar as coisas com facilidade.

SP: E não me esqueço.

AM: Bem, perdoar e esquecer são coisas diferentes. Uma pessoa pode perdoar, mas não esquecer.

SP: Eu não me esqueço. A minha memória em miúda, a comparar com hoje, era extraordinária. Com a idade e com três filhos a memória vai ficando um bocadinho gasta. Ela é funcional, já não é extraordinária. Mas eu não me esqueço nem das coisas boas, nem das más. Perdoo, mas fico a remoer. É uma qualidade, mas também é um grande defeito. Se eu pudesse apagava algumas coisas da minha memória.

Depois de nos revelar aquele que considera ser o seu maior defeito a Sofia acrescenta ainda que esta é uma informação bastante pessoal, ao contrário do que possa parecer. Disso não tenho dúvidas. Por entre risadas voltamos a lançar o dado e avançamos 6 casas. Vamos parar ao número 10, onde nada acontece. Lançando de novo o dado, andamos alegremente 2 casas e vamos parar à casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: Qual foi a maior peripécia que te aconteceu num dia de trabalho?

SP: Já me aconteceram milhares de coisas. Já me aconteceu estar a fazer três espetáculos no mesmo dia, e não foi há muito tempo. Estava a fazer um espetáculo de manhã na Igreja de São Roque, depois ia lá para baixo para a Pensão Amor e no fim vinha para o Trindade. Já me aconteceu vir a despir personagens pelo caminho. Mas talvez a que conte mais vezes, porque me marcou, foi uma branca grande que tive num monólogo! Que é a pior situação para se ter uma branca, porque não tens ninguém a enxotar-te o texto. No desespero tentei aplicar aquilo que ensino aos meus alunos que é, em caso de desespero agarra-te à técnica. Em vez de panicar, tentar relaxar. Concentra-te, respira, relaxa e faz alguma ação física. Então, atribui uma ação física à personagem. Tinha cigarros e um copo de água. Enchi o copo de água, bebi água, acendi um cigarro com tranquilidade. A personagem também podia estar à procura das palavras, portanto se lhe deres uma ação física à partida já galgaste a primeira dificuldade que é vencer o pânico e ela já está a fazer qualquer coisa no espaço e o público já está a ler. Eu tenho um vício completamente estúpido – tenho memória visual a rever o texto de trás para a frente. Ora, eu estava no início do monólogo, por isso demorei muito tempo a conseguir chegar à primeira página. Tentei fumar o cigarro muito devagarinho enquanto revia as páginas na minha cabeça, até que cheguei mais ou menos a meio da página onde me tinha esquecido do texto. Apaguei tranquilamente o cigarro e segui daí. E vou-te dizer uma coisa, o público que viu o espetáculo nesse dia disse coisas extraordinárias como, ‘Sofia, aquela pausa… extraordinário! Nunca vi uma pausa assim em teatro’. Essa foi uma grande peripécia.

AM: Sem dúvida! (risos)

SP: Também me aconteceu uma vez no Trindade sentir-me tão mal que achei que ia morrer e continuei. Pensei que se era para morrer mais valia morrer no palco. O que é estranho também, não é? Um colega meu muito querido, o Rogério Vieira, foi buscar qualquer coisa fora de cena. Percebeu que me estava a sentir mal e que não ia parar, porque sou desta gente antiga. Nós aprendíamos que em teatro não se para a não ser que estejas a morrer e, portanto, levei o espetáculo até ao final e ele trouxe-me água e uns comprimidos a cena. Também já enfiei um copo de vidro num joelho a meio de um espetáculo e não parei. Agarrei assim na perna e arranquei o copo de vidro e aquilo esguichou sangue, mas como eu na peça vomitava e fazia de tudo o público achou normal. Percebi que era qualquer coisa grave, porque a cara dos meus colegas estava completamente branca. Foi por isso que olhei para o joelho e vi lá o copo enfiado, porque senão nem tinha reparado. Em cena ficas tão noutra zona de ti… e no final, mal se fechou pano, depois dos agradecimentos, pegaram em mim ao colo e fui direita para o hospital.

Depois de tantas peripécias surpreendentes e perigosas, voltamos a dar voz ao dado. 6 casas à frente vamos parar a mais um Sê Criativo.

Sê Criativo: Faz o trecho de uma música com as 5 palavras que te vou dizer.

Inspirando-me no ambiente em que se desenrolou este jogo escolhi as seguintes palavras: Tai Chi (uma vez que a Sofia pratica e ao ver, ao longe, alguém a praticar ficou encantada), auditório, vermelho (a cor do nosso dado), teatro e memória. Antes de nos cantar a sua melodiosa composição, a Sofia escrevinhou a sua letra:

Letra da música escrita pela Sofia de Portugal

Podes ouvi-la aqui:

Prova superada, é tempo de voltar a lançar o dado. Desta vez, avançamos 5 casas e vamos parar a uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: É possível encarnar tanto um personagem que até começas a notar alterações físicas em ti? Isso aconteceu-te com a Laidinha das Chiquititas, não foi?

SP: Aconteceu e é incrível, porque eu também não sabia que tinha esse potencial (risos). Tinha uma caracterizadora extraordinária nas Chiquititas, que era um projeto televisivo que rodamos durante muito tempo o que significa que todos os dias estás com a mesma personagem, que era a Magali Santana. Ela inventou uma caracterização para mim em que juntava as sobrancelhas, tipo Frida Kahlo, fazia-me um buço… eu era uma espécie de monstro e adorava fazer aquilo. Ainda é uma espécie de alter-ego meu e quando estou zangada expresso-me através dele, porque é muito livre. Habituei-me todos os dias a ver-me com aqueles pelos, mas nem me apercebi. Um dia a Magali é que me disse, ‘oh Sofia! És mesmo maluca! Então agora o teu corpo já está a fazer pelos onde eu costumo pintar?’. Portanto, como eu me via como aquele monstro, começou a pôr pelos nesse sítio onde eu não costumava ter. E realmente nessa altura tive mais pelos nessa zona do que era costume. Por isso, nós podemos mudar a configuração do nosso corpo se nos virmos assim, se acreditarmos que somos aquilo. Temos imenso potencial por explorar.

AM: Isso é super incrível!

SP: É super incrível. Nós podemos modificar a nossa forma e podemos aceder a coisas incríveis. Nós andamos a explorar tudo do mundo cá fora e não exploramos um potencial gigante que é o nosso software. Eu sou fascinada pelo nosso software e surpreende-me. Às vezes acontece-me qualquer coisa na vida e percebo que isto é consequência daquilo. Eu vi-me assim, por isso o meu corpo transformou-se. Eu transformo-me nas personagens, tenho muito essa coisa. Como sou atriz há muitos anos talvez o meu instrumento esteja muito oleado e pratico com regularidade. Mas se eu posso toda a gente pode! Repara, este é o meu software a funcionar. Nós temos potenciais incríveis.

AM: Tens noção do que é que fazes que te permita chegar a esse ponto da transformação?

SP: Seguramente tem a ver com o tempo, ou seja, não acontece porque digo que agora sou isto e sou logo isso. Eu preciso de algum tempo. Pelo facto de todos os dias praticar a personagem, ela começa a instalar-se de uma forma muito consistente e depois, seguramente é eu ser. Não é eu acreditar, porque se for eu acreditar já tenho uma palavra a separar. É eu sou a personagem! E sou mesmo, compreendes? E o facto de eu ser muda tudo, compreendes? (risos)

AM: Sim! (risos) Deve ser difícil chegar à parte em que se é efetivamente essa personagem.

SP: Lembro-me do realizador argentino com quem trabalhávamos um dia me chamar e me dizer que não era humana, porque saltei de uns beliches altos e depois voltei a saltar lá para cima. Estava a fazer a cena e não pensei, improvisei. O que eu sabia é que eu era um bicho atrás deles. Então, saltei lá para baixo e depois voltei a saltar lá para cima. Eu via-me como uma espécie de cão e o cão consegue saltar mais alto que nós. Depois, vi a imagem e realmente parece que tenho molas nos pés e isso acontece simplesmente porque eu estava a brincar àquilo. O artista tem de ter essa loucura. Não estou a dizer para se magoar. Eu nem achei que fosse perigoso aquilo que fiz. Fiz de instinto. Mas é uma zona de mergulho em que não sabes muito bem o que vai acontecer, simplesmente estás a divertir-te a ser aquilo e as coisas acontecem. Não é previsível, não é projetado. Tu és surpreendido pelo potencial da tua personagem. Acho que em todas as áreas isto tem de acontecer. Quando projetas muito, quando é tudo desenhado, não deixas espaço para encontrares esta espécie de milagres dentro da tua função. Só acontece quando não estás preocupado com a forma final. Simplesmente estás a ser, agora. Isso é um milagre da personagem.

AM: Acho que o ser humano tem um grande vício que é ser muito autocentrado. Estamos sempre muito preocupados com o eu, o nosso ego.

SP: Exatamente! E não dás espaço para que a personagem seja dentro de ti. Porque a personagem não és tu. A personagem está no meu corpo, mas eu represento a personagem. Estou no lugar dela. Ao estar no lugar dela, se não lhe impuser limitações, se me esquecer disso, tenho um potencial muito grande. Se eu for a personagem realmente, tenho um potencial muito maior.

AM: Fizeste-me lembrar uma coisa que me disseram há pouco tempo. Estou a fazer um minicurso de desenho de modelo e o professor está sempre a dizer-nos que os melhores artistas surgem quando o ego fica apagado. E dá o exemplo dele que, quando era jovem e estava nas aulas de desenho, como tinha muita aptidão para desenhar e tinha colegas que não tinham tanta assim, estava ali a desenhar com muito ego. Um dia a professora chegou-se ao pé dele e disse-lhe precisamente isso. Que estava com muito ego e que isso não o estava a permitir crescer no desenho, ao passo que os outros já o começavam a ultrapassar, porque não tinham esse ego no caminho. Ele diz que só se consegue realmente desenhar o corpo humano, o seu movimento e expressões quando não há ego da parte do artista.

SP: Oh… é a mesma coisa! É tão certo.

AM: Eu comecei a sentir isso. Nas primeiras aulas toda a gente estava preocupada com a representação e com o que sabemos ser as formas do corpo humano. E, de repente, surge um conceito novo que é o desenho do gesto, em que não importa propriamente a representação, mas sim o que sentimos que fluí no corpo. Na última aula senti um click, porque comecei a ver linhas que entravam, onde sabemos que não entram, mas que têm a ver com a tridimensionalidade do corpo. Foi aí que percebi que naquele momento foi quando me consegui afastar do pensamento de que tinha de fazer uma coisa bonita, ou que tinha de ser artista. Não. Estava simplesmente a observar, completamente despegada da razão, e a desenhar. Aí percebi perfeitamente o que ele tinha dito sobre abandonar o ego.

SP: Percebeste? E percebeste esquecer?

AM: Sim! E aquela ansiedade que temos de querer fazer…

SP: Deixa de existir.

AM: Sim!

SP: E passa a existir só o prazer de fazer. Isso está em tudo e aí é que entras na arte. A partir desse momento entras numa zona artística dentro de ti. Até lá não o é.

AM: E isso transforma-nos, eu acho. É um ganho gigante.

SP: Transforma-nos e é por isso que aquilo que fazes nesse ponto também transforma quem vê. E só nesse ponto é que é arte. Ou seja, por exemplo relativamente ao teatro que é a arte que mais domino, embora a música seja a minha primeira paixão, eu digo que o teatro só acontece para o espetador, e tem de acontecer com espetador senão não é teatro, quando algo se transformou em cada espetador. Ele tem de sair diferente. Pode ser uma coisa pequenina, mas ele sai modificado com a obra de arte. Aí o teatro aconteceu. Se isso não aconteceu, não é uma obra de arte. E vou mais longe e digo que não é teatro. Por isso, a maior parte do teatro que se faz não é teatro. É só a exibição de egos.

AM: Por acaso uma vez fui ver um espetáculo de teatro e senti que mudou a minha vida.

SP: Vês? Pode ser uma coisa pequenina. Quando acorda a tua sensibilidade, o teu nervo. Quando sais dali e estás super sensível e parece que o ar é diferente e as cores estão mais vivas? Aí é arte à séria! Há peças, ou filmes, ou concertos que têm essa capacidade de acordar. Em que sais dali e parece que a tua sensibilidade está à flor da pele e isso é uma obra de arte. Alguém a cantar de uma forma que te toca e arrepia e sais dali e sentes o cheiro de uma forma diferente? Isso é uma obra de arte.

AM: Sem dúvida!

SP: Se não for assim é exibição de egos, é exibição técnica. É uma coisa que tem o seu lugarzito, mas é o seu lugarzito. Não é um lugar na arte. E atualmente, infelizmente, a arte está cheia de ego. O poder económico tomou conta de muitas artes. Mas em todos os tempos deve ter sido assim. Agora é muito evidente. Quando o poder económico está muito sobreposto aos valores artísticos, o que o move são só coisas que não transformam as pessoas positivamente. O valor económico, do comércio, dos modelos americanos que nos empobrece muitíssimo.

AM: Acho que isso também se liga muito ao que vivemos hoje, que é o culto das imagens, muito presente nas redes sociais. Que não é ser, é mostrar.

SP: Mostrar, exatamente! E tu fazes uma belíssima distinção. Não é ser. E quando não é, não tem qualquer validade. É só vender a embalagem, é só publicidade.

AM: É uma representação e não o que realmente é.

SP: Exatamente, porque a própria representação tem de ser.

AM: Gosto muito do René Magritte e lembro-me sempre dum quadro dele que é o “Ceci n’est pas une pipe”. Para mim é isso. Aquilo não é um cachimbo, mas sim a sua representação.

SP: Sim… e que diferente esse quadro! Já vi esse quadro ao vivo.

AM: A sério? Queria tanto!

SP: Essa exposição claro que me modificou. Sais dali e apetece-te fazer arte daquele género. Ele modifica-te. Mistura-te conceitos. Ele não pinta o evidente.

AM: E ao mesmo tempo é tão simples o que ele pinta.

SP: Tão simples, mas a mensagem está lá toda. É muito significante e transformador. Há uns que te irritam, porque te expõem de alguma maneira. Belíssimo exemplo. (risos)

AM: Pronto, esta foi a pergunta mais longa da história!

SP: Mas ótimo, estamos a ter um encontro. Isto é que vale a pena.

E se valeu a pena! Mas já é mais que tempo de voltar a dar uso ao dado. Avançamos 2 casas e vamos novamente parar à casa do Pessoal.

Pessoal: O que mais repudias numa pessoa e o que mais gostas?

SP: O que mais repudio numa pessoa é a ignorância. É o pior pecado que existe. A maldade também é uma coisa que não gosto. Mas é uma coisa que todos temos, uns mais, outros menos. Agora a ignorância é uma coisa que podes escolher. Alguém dizer que não sabia. Abomino, tira-me do sério. Imagina alguém que está a desempenhar uma função e faz mal qualquer coisa porque não sabia. Não pode! Se está naquela função tem de saber tudo o que se relaciona com aquela função. Não pode alegar que não sabia. A ignorância para mim é o pior pecado capital, não é um estado de direito. Nós vivemos numa época de mediocridade em que as pessoas alegam a ignorância como estado de direito, ‘ah eu não sabia, por isso não tenho culpa’. Não é verdade. A ignorância não é um estado de direito, toda a gente tem a obrigação de saber e se não sabe vai informar-se. O que mais gosto é a compaixão, generosidade, a ajuda genuína. Hoje atrasei-me porque ajudei dois senhores, mas é uma alegria para mim ajudar dois senhores. E talvez seja até um bocadinho egoísta, porque me dá prazer ajudar e sinto-me bem com isso. Mas também adoro quando alguém me ajuda. E acho que vivemos num tempo em que estes laços, estas pontes que nos unem estão muito diluídas. As pessoas usam headphones e não criam laços como estamos a fazer agora. Eu adoro quando as pessoas estabelecem laços, principalmente amorosos, não necessariamente paixão, mais a compaixão transversal. Aquela que é genuína. Amo ver a generosidade sem querer nada em troca. Amo isso! Acho que é das qualidades mais bonitas do ser humano e que a temos de regar, fomentar e desenvolver.

Testando a generosidade do dado, este acaba por nos fazer avançar 5 casas, levando-nos ao número 32, onde nada acontece. Parece que não está muito generoso hoje. De seguida, avançamos 6 casas e vamos calhar ao número 38. De novo sem sorte! Vamos ver se é desta. O dado rola e, 6 casas à frente, é altura de dar resposta a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: É preciso desconstruirmo-nos para conseguir deixar os nossos vícios e preconceitos de lado e conseguir interpretar as personagens? Esse é um processo perigoso?

SP: É perigoso numa fase inicial. Diria que a fase inicial do ator é de autoconhecimento e de auto cura. É um psicólogo, quase. Não podes começar a exercer sem primeiro te conheceres a ti próprio. Vais estar sempre a injetar-te a ti e aos teus problemas nas tuas personagens. É normal e até desejável numa primeira fase. Quando começas a ganhar mais consciência, ou seja, quando te tornas num ator mais maduro já tens mais possibilidade de escolha. Se vais trabalhar sobre as tuas feridas, as tuas sombras, ou não. Já consegues ser outro sem injetares as tuas coisas. Se tiveres um trabalho de consciência grande consegues, apesar das tuas feridas, trabalhar sem ser com elas. Trabalhar noutras fantasias. Mas a identidade é, de facto, uma coisa discutível e muito pouco pensada. E para o ator é muito importante pensar quem sou eu e quem é o outro. Numa fase inicial do ator é frequente tornares-te um bocadinho na personagem e ficares viciado nela. Dou-te pequenos exemplos. Comecei a fazer teatro muito nova e todas as noites eu chorava ou gritava naquela altura. Nos dias em que não o fazia, o meu corpo tinha necessidade de o fazer e eu apercebi-me disso. Nós somos um animal de hábitos e, portanto, àquela hora estivesse com quem estivesse provavelmente ia provocar uma discussão. É uma forma inconsciente. Aprendi isso observando-me. Ninguém me disse que ia ser assim. Ficas escravo das consequências da tua personagem de algum forma e o comportamento dela também vem contigo. Vais à procura dela, ela vem à tua procura. Há um momento em que tudo se funde. Tu e a personagem serem a mesma coisa é inevitável, se tu quiseres ser. E é desejável que seja. Sabes como é que sei que a personagem está em mim? Tenho os sonhos da personagem, ou seja, significa que estou a desejar o que a personagem deseja e sonho com as personagens da vida da personagem, não da minha. Tenho um grau de fusão consciente e inconsciente. É uma fusão muito profunda e é assim que as gosto de trabalhar. Imagina que agora estou a construir uma personagem. Ela podia andar comigo e já andava aqui a praticar a minha diva, mas a técnica e prática dos anos faz com que consigas entrar e sair do sistema e consegues fazer isto muito rápido. Comecei a praticar esse entrar e sair, que é também um bocadinho a minha especialidade como professora, e inventei-a para mim. Ninguém me ensinou. Comecei a perceber como podia deixar a personagem no rés-do-chão e subir no elevador para a minha casa e devagarinho fui percebendo como deixar a personagem. Até que atualmente aciono-a antes de entrar no palco e deixo-a lá. Tens de trabalhar em duas frentes, com ferramentas de construção de personagem com portas de entrada e saída e ter muita consciência de quem és.

Cada vez mais perto do final do jogo, o lado manda-nos avançar 6 casas. Segue mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Recua à altura em que estudavas teatro. Qual foi a aula que para ti foi mais difícil e porquê?

SP: Quando um professor punha um desafio, era a primeira a ir. E não é propriamente por coragem. É por ter muito medo que tenho muita coragem. Não gosto que o medo fique muito tempo dentro de mim. Se é para resolver, resolvo já. Portanto, tenho dificuldade em perceber, porque não deixo que o medo se dilate. Confronto de imediato as minhas dificuldades. O que mais me choca é a ignorância de algumas pessoas que lá estavam. Sempre fui muito contestatária e tive grandes discussões com professores. Não pelo desafio que me foi colocado. Isto vai parecer muito cagão, mas era pelo meu lado contestatário e eu sinto que perdi muitas coisas por ser tão frontal. Confrontava os professores e dizia que não fazia sentido nenhum, que não é técnico. Comecei muito cedo a viajar e estudar com outros professores e então era muito contestatária. Aliás fui apelidada dessa forma, posta de parte e apelidada como revolucionária. Isso tirou-me muito trabalho, perdi muitas oportunidades na vida pelo meu mau feitio (risos).

A testar a amizade que o dado nos tem ainda o lançamos mais uma vez. E não é que nos manda avançar 4 casas, a conta certa para calharmos na Casa Gerador, a casa final do jogo, onde a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Janeiro? “Qual foi a última peça de arte que te deixou a transbordar de felicidade e que te transformou? ”. Podes rever a pergunta do Janeiro aqui.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta da Sofia e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro