Nuno Gama, designer de moda, é conhecido por ser o estilista que mais transparece a nacionalidade e cultura portuguesas nas suas criações. Participa regularmente no Portugal Fashion e na Moda Lisboa, mas já participou em feiras internacionais como o Nouvel Espace, em Paris, e o Gaudí, em Barcelona, tendo começado a vender para todo o mundo. Para além de peças de vestuário, o estilista já lançou linhas de calçado, de malas e carteiras e de artigos de viagem, uma linha de sportswear destinada aos mais jovens, à qual deu o nome de “Nuno por Nuno Gama”, e joalharia. De olhar calmo e ouvido atento, considera-se privilegiado pela família que teve e prossegue na luta à procura de um ideal em que acredita.


Às dez horas em ponto, tal como combinado, apareço à porta da Maison Nuno Gama, na Rua Nova da Trindade 1B, em Lisboa. As portas ainda estão fechadas, e o chão brilha, ou não tivesse sido acabado de lavar. É então que me dizem que posso entrar e esperar junto a uma cortina, ao fundo da loja. Eis que, por detrás da cortina, surge o Nuno Gama, que me cumprimenta, convidando-me para entrar no seu escritório. Diz-me que me posso sentar numa cadeira que exibe um casaco Nuno Gama, que o estilista acaba por guardar noutro lado. Enquanto monto o jogo na sua secretária, reparo nos rolos de tecido de tons azuis e pretos encostados à parede, e pergunto-me se esses serão alguns dos tecidos usados na coleção que Nuno irá apresentar na Moda Lisboa, que acontecerá entre os dias 7 e 10 de março. Após explicar ao Nuno as regras do jogo, sento-me na cadeira e distraio-me a ouvir a música de fundo da loja, que faz lembrar as músicas que ouvimos nos desfiles. O Nuno diz-me que podemos começar. Mote lançado, é hora de iniciar o jogo com o lançamento do dado. Avançamos seis casas, indo parar a uma Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Cão ou gato?

Nuno Gama (NG): Cão.

Andreia Monteiro (AM): Quantos cães tens agora?

NG: Neste momento, estou só com três.

AM: Todos galgos, não é?

NG: Sim, são galgos whippet. Tenho a Maria, que é a avó Maria já com catorze anos, o Big com cinco e a Noa, a mulher do Big, que tem quatro.

AM: Também tive uma cadela, que faleceu o ano passado, mas era uma labradora. São uma companhia incrível.

NG: Não me fales disso, que eu, de cada vez que tenho um problema com a Maria, fico em pânico a olhar para ela e sempre com medo que aconteça alguma coisa. Uma ligação de catorze anos, seja ela com o que for, é sempre muito longa. E os animais têm uma capacidade incondicional de amor, que é uma coisa incrível, não é? Mas, pronto, um dia acontecerá.

AM: É muito complicado.

Seguimos o jogo com o desejo de encontrar temas mais felizes. O dado revela, mais uma vez, o número seis, levando-nos até à casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional do artista.

Carreira: Qual foi a maior peripécia que te aconteceu num dia de trabalho?

NG: Sei lá, são tantas! Mas recordo uma em que tinha um assistente, quando ainda estava a viver no Porto, que era teimoso como sei lá o quê. Veio mais cedo para baixo para a Moda Lisboa e resolveu trazer parte das coisas com ele. Disse-lhe que era melhor vir tudo junto, que era mais seguro. Mas ele disse que levava logo. “Ok, levas tudo?” “Levo tudo, está descansado.” “Mas confirmaste tudo?” ‘”Eu já disse que confirmei tudo!” (risos) Pronto, e eu pensei logo – não me batas que eu não insisto mais. Quando começámos a montar o desfile, no dia, ele tinha-se esquecido das calças dos fatos todos numa caixa no Porto. Ficou muito aflito. Meteu-se a caminho do Porto de carro para vir buscar as calças, mas não dava tempo para isso. Estávamos a quatro horas do desfile e tivemos de fazer tudo com um look com jeans e outras calças, e não propriamente com os fatos completos. Foi uma peripécia que aconteceu.

AM: É um daqueles momentos em que apetece dizer: “Eu bem te avisei!” (risos)

NG: Pois, mas as pessoas às vezes levam a mal, sei lá.

Voltando a lançar o dado, sai o número dois, que nos leva ao número 14, onde nada acontece. Entretidos com a conversa, o Nuno volta a lançar o dado sem que o silêncio preencha o seu escritório. Uma casa à frente deparamo-nos com mais uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Colorido ou preto e branco?

NG: Colorido!

Colorido é também o tabuleiro da nossa Pergunta da Sorte por onde o nosso dado volta a deslizar. Assumindo uma marcha lenta, avançamos mais uma casa, que nos apresenta uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: De que forma procuras transparecer a nossa nacionalidade e cultura através das tuas criações?

NG: É uma coisa inata, Andreia. Repara, isso não é uma coisa que se procure. Ou melhor, se calhar há uma predestinação minha em procurar histórias portuguesas. Depois, quando as coisas me chegam, automaticamente converto essa informação naquilo que eu acho que é a minha forma de ver as coisas. Às vezes, quando digo que me inspirei n’Os Lusíadas, as pessoas ficam com a expectativa de ver um guarda-roupa à época d’Os Lusíadas. A ideia nunca foi essa. A ideia é sempre perceber como é que aquilo funciona em mim, o que eu acho, como vejo as coisas e como depois vou dar isso aos outros. Isso é o que eu acho ser um jogo interessante. Não é repetir o que já foi feito, mas sim uma reinterpretação em que acabo por ser um filtro dessa informação que depois vos passo enquanto recetores.

AM: Mas isso é feito de uma forma muito criativa. Fui à Moda Lisboa, há dois anos se não estou em erro, e vi o desfile em que os teus modelos estavam a jogar futebol. Achei isso incrível e, na altura, até escrevi sobre o assunto. Nunca tinha visto uma coisa assim. De repente, o futebol que é uma área afastada da moda, mas que é um desporto muito popular em Portugal, estava na passerelle.

NG: Nada do que acontece por ali é por acaso. Tudo tem um sentido. Nessa coleção, o simbolismo do futebol, que se calhar se perdeu um bocado nos últimos anos, é exatamente o passar a bola, jogar em conjunto. Esse sentido de união e de que juntos somos mais fortes era um bocado o simbolismo que isso tinha com o jogo de futebol, entre aspas, que houve durante o desfile. Fazia todo o sentido, porque os dois eram jogadores de futebol de alguma forma, um mais conhecido do que o outro, mas os dois estavam ligados ao futebol e adoraram essa ideia. Ter essa carga simbólica de quase representar as relações que existem entre nós. Portanto, o caminho é feito a passar a bola para atingir um objetivo.

AM: Achas que no meio da moda não existem individualismos? Os designers trabalham em conjunto, ou é um processo mais individual?

NG: Não. Tenho uma relação estritamente profissional com os meus colegas. Às vezes, coincide, através de amigos comuns, relacionarmo-nos, mas não tenho uma relação direta com os meus colegas. Aliás, se me disserem que tenho dois jantares – imagina que esta é uma Pergunta Rápida –, um com enfermeiros e outro com gente da moda, prefiro os enfermeiros. Para mim, é mais enriquecedora a experiência dos outros do que uma experiência parecida, ou comum, à que já tenho. E pior, quando chegamos à minha área, já tenho trinta e não sei quantos anos disto, portanto é difícil. Não é que a opinião dos outros não seja válida, porque é, mas a minha experiência é muito grande. A minha posição em relação aos temas da moda é sempre refletida em cinquenta e três anos de experiência. Isso torna os trabalhos superinteressantes. Às vezes, sofremos dum mal em Portugal que é aquela coisa de sermos uns mais do que os outros. Acho que o mais importante não é sermos mais do que os outros. O mais importante é sermos bons naquilo que sabemos fazer, gostamos de fazer e temos para dar aos outros. Acho que isso é fundamental para mim. A mim não me interessa o que os meus colegas estão a fazer neste momento. Interessa-me que os meus colegas tenham mais para fazerem o melhor, que eles possam fazer o melhor possível. Ficava muito contente se todos nós tivéssemos lojas fantásticas e estivéssemos a vender imenso para o mundo inteiro. Isso era absolutamente genial. É o grande sonho da minha vida.

De volta ao fado que o dado nos reserva, percorremos mais cinco casas, desaguando noutra Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: De que forma é que histórias como a do teu tio Sebastião que comprou um ramo de flores à tua tia, mas chegou até ela sem nada, porque ia dando uma flor às pessoas por quem passou no trajeto, te influencia?

NG: Essa influência tem duas vertentes. Duma forma indireta, influencia toda a família. A forma como nos relacionamos com os outros, a forma como criamos, ou não, expectativas em relação aos outros e a forma como os aceitamos. Acho que isso é uma coisa familiar omnipresente, porque toda a família o entendeu através do tio Sebastião e dessas atitudes que ele tinha. Acho que ele nos ajudou muito. O tio Sebastião era uma pessoa muito despida das coisas que nós temos como dados adquiridos e regras. Era movido quase a 100 % pelo seu coração, e isso é uma coisa que se cultivou na família. Não éramos ET, nem freaks, éramos todos normais, com os defeitos e qualidades de todas as outras pessoas, mas tínhamos esse carinho, respeito e atenção por essa área. Ou seja, privilegiar esse nosso lado de alguma forma. Acho que isso é uma coisa que tem que ver com este núcleo duro dos tios, da Arrábida, com uma série de pessoas que se calhar são vinte ou trinta personagens. Infelizmente, há pouco tempo perdi os meus pais e já perdi esses tios todos. Restam muito poucos, ou quase nenhuns, e às vezes tenho a sensação de que cresci como se estivesse num Pártenon, sabes? Num templo gigantesco de coisas fundamentais da vida, em que cada um deles era uma coluna que suportava aquele telhado. Aos poucos, eles foram desaparecendo. Uns foram esticando mais os braços e as pernas para aguentarem o telhado, à espera de que outros viessem para o segurar e, se calhar, cabe-me continuar esse telhado de alguma forma para os que vêm a seguir. Esta família já é bastante alargada aos laços sanguíneos, bastante extra aos laços sanguíneos até. Aquilo que vi como exemplo, aquilo que me foi dado nas múltiplas vertentes da minha infância, acho que me marcou profundamente. Se calhar, não me apercebi disso durante muitos anos, se calhar fui a todo o mundo e voltei, e se calhar é mesmo preciso haver esse sentimento de perda para se sentir a saudade, saudosismo e aquela coisa profunda de perceber o que é realmente aquela pessoa para nós. Cada um deles acaba por ser, no jogo de xadrez da minha vida, uma peça fundamental. Com cheiros, caras diferentes, uns mais zangados e outros mais alegres. Não interessa. Acho que há uma coisa genial na vida: às vezes, temos milhões de segundos de coisas que aconteceram que são extremamente importantes e às quais damos imensa importância, só que depois vamos para a nossa casa, a nossa caminha, dormimos, no dia seguinte acordamos, e muitas delas dissipam-se, anulam-se. São muito mais as coisas que se diluem. Há muitas coisas que valorizamos e que, passados uns anos, pensamos que já nem nos lembramos bem da pessoa ou de como foi, porque não era importante. Aquilo que realmente é fundamental fica dentro de nós e, pior, extravasa. É como se fosse uma coisa que cria raízes, fecunda, cresce e que evolui de alguma forma. Os ramos de flores (do tio Sebastião) é um bocadinho isso. É o sairmos de nós. É o deixarmos de achar que o mundo gira à nossa volta e percebermos quão ínfimos somos e quão importantes somos nessa infinidade. Cada um de nós é extremamente poderoso na diferença que pode criar com um sorriso, com a forma como falamos e interagimos a todos os níveis. O tio Sebastião era exatamente isso – o exemplo de amor incondicional permanente com todas as coisas, desde o vento, a chuva, o cheiro, a serra, o mar, as pessoas.

AM: Uau! Essa foi uma das melhores respostas que já me deram até hoje. Achas que estas peças fundamentais que foste tendo ao longo da tua vida foram as que te permitiram saber olhar as coisas com olhos de ver? Algo que é muito importante para o teu trabalho.

NG: Aprendi muito graças à escola familiar, ao tio Sebastião diretamente e indiretamente. Aprendi a ouvir todas as coisas muito cedo, sabes, Andreia? Imagina, se eu colocar aqui uma garrafa de água, destas típicas águas que hoje consumimos e que são plastificadas e perfeitamente cancerígenas, a forma como a vou colocar pode ter interpretações diferentes. Uma pessoa pode dizer que é da marca x e outra dizer que é apenas uma garrafa. Estamos a falar do mesmo objeto, mas as duas pessoas não podem não ter a mesma perceção das coisas. A vida é assim. Não temos sempre a perceção das coisas duma forma global. Existe sempre muito mais histórias e elementos por detrás daquilo que é visível aos nossos olhos e acho que na nossa sociedade, hoje em dia, temos uma péssima tendência para tentar avaliar e recriminar tudo em dois segundos. Acho que nos precipitamos na maioria das vezes, e isso depois corre menos bem. Acho que é aí que é importante escutarmos as coisas e pessoas. Às vezes não tenho tempo, mas quando posso adoro parar e ouvir, percebes? Porque todas as pessoas têm um lado absolutamente fascinante, de beleza de vida, riqueza de experiência, de família, histórias, de sabores e cheiros. Acho que isso é absolutamente genial e enriquecedor. De certa maneira, é isso que me inspira na maioria das vezes. São as pequenas coisas que passam, que chegam à minha vida, e que eu oiço, vejo ou a que presto atenção. Leva-me à procura de fazer mais e melhor, de querer uma certa ambição ou loucura… já me chamaram tanta coisa. (risos) Acho que isso é uma coisa boa. Os velhos do Restelo e os céticos ficam sempre sentados na cadeira a assistir. São os dois velhos dos marretas. Podemos chamar-lhes imensas coisas, mas a atitude é sempre a mesma. Mas depois há os outros que fazem girar o mundo, que são os que fazem parte desta viajem. É uma aventura fabulosa. Na vida, por mais percalços que nos possa trazer, é sempre genial a forma como conseguimos dar a volta às coisas, e acho que é absolutamente fascinante os que aplaudem, acarinham, protegem e que querem ir a favor das novas correntes e das mudanças das coisas no bom sentido. Que não se ficam porque têm medo, ou porque lhes disseram que só se veste azul e que não se veste cor-de-rosa. Sei lá. Isso não existe. São coisas criadas para nos atemorizar, refrear e afastar daquilo que é a realidade da vida.

Sem refreios ou temores, desbravamos caminho nesta Pergunta da Sorte. Desta vez, o dado faz-nos avançar quatro casas, insistindo na casa que dá nome a este jogo – Pergunta da Sorte.

NG: Tens direito a mais uma. Afinal, quem está a jogar és tu, não sou eu. (risos)

AM: Pois, parece que sim!

Pergunta da Sorte: Um dos maiores prémios da tua vida são os meninos, hoje homens, que apadrinhaste. Qual foi a aprendizagem mais importante que eles te deram?

NG: O deixá-los crescer. Algures na minha vida houve um momento em que haveria a hipótese da adoção. Por coincidência, num oceano gigantesco de milhões de crianças abandonadas, a criança que me tinha escolhido e à qual eu tinha aceitado essa escolha…

AM: O Agostinho!

NG: Sim. Ele iria ser adotado por um casal português. Genial! Porquê? Por aquilo que me foi dado como informação, as pessoas em questão tinham uma capacidade económica grande e, além do mais, iam trazer o irmão também. O Agostinho nasceu no Gana. Os pais morreram ambos com SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida), e o Agostinho foi reencaminhado para os avós que não conhecia, que viviam em São Tomé e Príncipe numa minicasa. Ainda por cima, os avós já tinham bastante idade, o que não era fácil. Portanto, tirar da terra novamente aquela planta era uma coisa que me fazia ficar em pânico. Como é que isto vai correr? Como é que este ser vai reagir a tanta mudança? Nós, que às vezes ficamos tristes, zangados ou desiludidos porque o vizinho do lado nos virou a cara, então quando são estas coisas muito mais basilares, que interferência é que isso tem na nossa vida? As coisas deram muitas voltas. Penso que a família em questão não achou muita piada em ter o Nuno Gama no meio da questão. Felizmente, conheci a ministra da Justiça na altura em São Tomé e Príncipe e, numa das vezes em que a Cristina (a ministra) veio a Portugal, perguntei-lhe como é que estava o processo do Agostinho. Ela disse-me que, se o Agostinho ainda não tivesse vindo, devia estar a vir a qualquer instante, porque a mãe já tinha dado autorização para ele vir. “A mãe? Mas a mãe morreu, Cristina.” “Não, a mãe foi assinar.” Imagina, eles, para agilizarem a situação, pagaram a uma mãe qualquer para se fazer passar pela mãe do Agostinho, assinar documentos, e o menino passar mais uma vez por uma história em que, de repente, aparece uma mãe que não é mãe. Imagino que isso lhe causasse imensa impressão e, no meio disto tudo, o Agostinho acabou por ficar em São Tomé. Cumpriu o serviço militar. Hoje é um adulto e está a tentar reorganizar a sua vida de alguma forma enquanto tal. Não é fácil. Estamos a falar de um país que a nível de desenvolvimento é um bocadinho deficitário, às vezes. Aquilo que a vida reserva ao Agostinho é uma incógnita para todos nós, mas de alguma forma está na sua terra, na sua natureza. Houve uma vez em que fomos a um jantar e estava um grupo grande de gente conhecida da nossa praça e perguntei ao Agostinho o que é que ele queria. Disse-lhe: “Olha Agostinho, gostava de te oferecer uma coisa. O que gostavas de ter? Uma coisa que te faça falta e de que precises.” Ele respondeu-me: “Ó Nuno, a coisa que eu mais gostava de ter era uma bicicleta para ir a São Tomé e voltar para a minha avó num instante.” Então, fomos comprar-lhe uma bicicleta, e o miúdo nesse dia em que íamos ao tal jantar ficou no quarto dele com a bicicleta. Quando me despachei e fui ter com ele, ainda não estava pronto. Tinha adormecido agarrado à bicicleta, deitadinho na cama com a cabeça encostada ao selim. Achei aquilo lindo. Depois acordei-o e disse-lhe que se tinha de despachar, para ir tomar banho. De repente, não ouvia água, o Agostinho não aparecia e perguntei-lhe o que se passava. Entro na casa de banho e estava ele na banheira, sentado com a cortina corrida, encolhidito com frio, porque não sabia tomar banho. Tomou banho toda a vida no mar ou com um balde de água, certamente, mas não sabia mexer nas coisas. Isto preocupava-me. Como é que seria a adaptação a uma civilização com tanto carro, tanta gente, com tanta informação, tanto vício, com tudo e mais alguma coisa. Como é que se sai do oito para o oitenta? Pronto, acabou por ficar lá. Sinto necessidade de voltar, quanto antes, a São Tomé, mas gostava que antes disso ele conseguisse organizar a sua vida para eu não ser o padrinho, o banco… para eu ser o Nuno, pelo qual ele terá algum carinho, mas sem haver uma relação de dependência de espécie alguma, ou de agradecimento ou retribuição. Da minha parte, todos estes exercícios de que falámos aqui foram vividos passo a passo e foram fundamentais para aquilo que sou hoje em dia, a maneira como vejo as coisas e a importância que têm na minha vida, ou não. Acho que é uma ligação grande.

AM: Acho que é muito especial teres mantido essa relação estes anos todos, apesar da distância.

Sensivelmente a meio do jogo, avançamos uma casa indo parar a mais uma pergunta sobre Carreira.

Carreira: O que podemos esperar do projeto em que estás a trabalhar agora?

NG: O que podem esperar? Acaba por ser um bocadinho mais do mesmo. As histórias não são iguais, mas acaba por ser um bocado a evolução do trabalho. Como é que o vestuário masculino evoluiu, em que sentido, e numa história, que é uma coisa que eu tento sempre que seja contemporânea de alguma forma, mas futura. Não é o contemporâneo de ontem, mas o contemporâneo que está a acontecer, que está a transformar e que vai continuar a fazê-lo dando origem a algumas transformações sociais da evolução permanente que estamos sempre a fazer. É engraçado pela conversa que estamos a ter, porque vamos falar dalguma forma sobre isto. Chama-se “Mutantes”.

AM: É a que vais levar à Moda Lisboa?

NG: Sim. Falamos exatamente disto. O que é que altera o nosso caráter? Que influência tem? O que é que vamos levar, como, quando, o que vai acontecer? Isto depois é simbolicamente representado nas peças. Há um tema da coleção em que todas as peças têm uma mochila agregada à peça de roupa. O casaco é um casaco-mochila e uma mochila-casaco, percebes?

AM: Sim.

NG: Depois, há outro tema em que não se tem botões e as peças fecham e abrem, o que tem a ver com malas, alças, presilhas e essas coisas que estão todas inter-relacionadas de alguma forma.

Seguimos jogo e avançamos cinco casas, o que nos leva à casa do Sê Criativo, que lança um desafio que a convidada tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o, e eu adivinho qual é.

Dei uma folha ao Nuno, e ele agarrou, desde logo, uma esferográfica azul que tinha na secretária. Perguntou-se qual seria o seu maior defeito, visto que não vive pelo seu lado negativo. Embalados pela música ambiente da loja, começou a dar forma ao desenho. Findo o processo criativo, é tempo de adivinhar o maior defeito do Nuno.

Desenho do maior defeito por Nuno Gama

AM: Tens o coração nas mãos. Portanto, és muito emocional.

NG: Sim. Não sei se isto é um defeito ou uma qualidade.

AM: Mas é algo que te faz sofrer, de alguma forma.

NG: Sim, acho que às vezes as pessoas à minha volta fazem contas, põem-nas à frente do resto e não as vejo serem mais felizes por isso. Cada vez a sacarem mais de todas as situações e mais algumas. Acho que, se calhar, isto até é uma grande qualidade. Não sei. Ainda não tenho bem a certeza. (risos)

AM: Ok! (risos)

Sem pressa para encontrar respostas a todas as perguntas, avançamos no jogo. Quatro casas à frente, segue-se mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Infelicidades como o incêndio que sofreste no Porto levantam a pergunta do que realmente é importante na vida. O que é que é realmente importante para ti?

NG: Continuar cá, continuar a acreditar, continuar a lutar por aquilo em que acredito, não desistir nunca daquilo que são os meus ideais e das coisas que a experiência da minha vida se encarregou de me ensinar que são importantes. Embora às vezes te puxem, porque te querem desviar para a direita, às vezes puxam-te para a esquerda porque acham que é melhor que a direita, às vezes puxam-te para baixo porque te querem derrubar, às vezes passam-te uma rasteira porque te querem destruir, e tu tens de te manter, respirar fundo e saber continuar aquilo que é o teu caminho.

AM: Nunca te aconteceu ires atrás dum desses lados para onde te puxavam e depois perceberes que não era o certo para ti?

NG: Com certeza que sim. Há encantadores de serpentes e tocadores de flauta mágica por todos os lados. Estas pessoas que perturbam a nossa vida não vêm de pistola na mão. Vêm muitas vezes, falsamente, de braços abertos, com um sorriso na cara e fazem de tudo para nos conquistar. Depois de nos conquistarem é que nos fazem entrar na porta do Inferno. É um bocado por aí, eu acho.

AM: E depois quando se tem o defeito/qualidade de que falámos há pouco, isso destrói-nos um bocadinho.

NG: Pois. Quando se é assim é complicado, porque as pessoas acham que somos parvos, que não temos inteligência, que não sabemos ler. E pior! Acho que o nosso coração é a única coisa que nunca nos engana. Às vezes temos aquele ímpeto de dizer que o outro fez alguma coisa, e ele diz que não e tu sentes logo que não acreditas. Acho que essa é que é a grande dificuldade que temos. Lá está, é como dizia o tio Sebastião – o segredo é mesmo amar. Aprender a amar as coisas e aprender a perdoar, de alguma forma. Sairmos da mediocridade do saco de boxe do mundo. Paciência, não tenho hoje, tenho amanhã. Mas é importante fazer esse caminho, porque temos alguma coisa para aprender. Temos de tentar aprender sempre com as situações todas e tentar fazer disso uma evolução e não uma derrota, ou o que seja. É como o senhor Newton das lâmpadas que teve de partir muitas até conseguir ligar a eletricidade.

Cada vez mais perto da parte do final do jogo, o dado leva-nos a avançar cinco casas. Temos uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Quem era o Nuno Gama com treze anos e o que é que o Nuno Gama de hoje ainda guarda dele?

NG: Olha, acho que o Nuno de treze anos é o mesmo Nuno dos cinquenta e três, de alguma forma. É apenas maior, com mais experiências, mas há toda uma essência que vai ficando. É como se fôssemos um recipiente onde vamos acumulando todos os pozinhos da nossa vida de alguma forma. Durante anos, fui para o Porto, mas achava que a vida era muito mais não sei o quê. Andei, andei, andei até que, de repente, percebi que a procura que estava a fazer à minha volta, tinha de a fazer dentro de mim. Então, recentrei as minhas agulhas e fui à procura de mim próprio. Acabei por encontrar a minha essência, que acaba por ser a parte mais poderosa que tenho e me foi dada ao ter o privilégio de ter a família que tive.

De agulhas recentradas, o dado exibe o número cinco, dando voz a uma Pergunta Rápida.

Pergunta rápida: Doce ou salgado?

NG: Salgado.

AM: Também estou numa fase mais salgada. (risos)

NG: Não sou muito guloso.

Sem gulosice, tenho oportunidade para fazer mais uma Pergunta da Sorte, quatro casas à frente. Como o jogo se aproxima do fim e o Nuno ainda não calhou em nenhuma casa Pessoal, dei-lhe a escolher entre virar uma dessas cartas ou fazer mais uma pergunta das minhas. Disse-me que era como eu preferisse. Decidi jogar pelo seguro e dar-lhe a oportunidade de passar por todas as experiências deste jogo. Segue uma pergunta Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal do artista.

Pessoal: O que mais repudias numa pessoa e o que mais gostas?

NG: O que mais gosto e me apaixona nas pessoas é o seu coração e autenticidade, independentemente de ser mais pobre, rico ou o que quer que seja. Acho que a autenticidade das coisas é sempre linda. Deixares que se veja o que és, o teu mundo e não teres esse preconceito de te esconderes na perspetiva de que o outro é mais rico ou pobre do que quer que seja. A beleza de cada um de nós é a nossa verdade. O que eu mais repudio é o inverso disto. (risos) É a falsidade e a falta destas coisas todas. O que as pessoas desviam, camuflam, desculpam…

AM: E a síndrome da mediocridade, não é?

NG: Essa, já aprendi a lidar com ela. Dá-me imensa força e energia. Há um momento do nosso amadurecimento em que as outras pessoas são extremamente importantes, mais no meu caso em que tenho um negócio e aquilo que faço tenho de vender, porque, se não o vender, não consigo andar para a frente. Mas há um momento em que nos libertamos, de alguma forma, dessa mediocridade. Imagina, fase da dúvida: vais para a direita ou vais para a esquerda; tens razão, o que pensas está correto, ou os outros têm mais razão do que tu? Até que descobres que, às vezes, as razões dos outros não têm assim tanto fundamento quanto isso e, sobretudo, raramente se adaptam a ti. A experiência deles e o seu ponto de vista é em função do que experienciaram, o que não é diretamente proporcional à tua experiência. Portanto, o melhor é ires por ti próprio e descobrires de alguma forma. Acho que se aprende aí a dizer, “Eh, pá, fala, diz, que eu vou continuar o meu caminho. É isto que eu acho que devo fazer. Desculpa se incomodei ou magoei alguém, não é intencional.” Mas teres esse cuidado, sabes? Fazeres as coisas sem ires pela cabeça dos outros.

AM: Sim, acho que faz todo o sentido!

Perto, pertíssimo da casa final lançamos o dado mais uma vez. E porque a vida é irónica, temos direito a mais uma pergunta e adivinhem a que casa fomos parar? À casa do Pessoal. Bem, ‘bora lá seguir para mais uma voltinha!

Pessoal: Se amanhã pudesses largar tudo sem quaisquer problemas, o que farias?

NG: Se fosse profissionalmente, acho que iria para uma cozinha trabalhar. Ia cozinhar ou jardinar, uma das duas. Acho que ambas conseguem reciclar bem o meu ciclo energético de bem-estar e de plenitude. Se fosse uma coisa mais viajante, iria até Moçambique para matar saudades. Passava em São Tomé para dar um abraço ao Agostinho e mais meia dúzia que lá deixei. Acho que, se um dia quando morrer me perguntarem se quero ficar em Portugal, digo que sim. Mas se me perguntarem se quero ir para Moçambique, não vou saber responder. Se calhar foi o paraíso, o sítio onde me senti mais despido de tudo. Naquelas praias maravilhosas, aquelas ilhas, aquele mar, naquela ligação connosco e com o lado positivo e negativo das coisas. Acho que seria por aí.

Ao lançar novamente o dado, vamos parar à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde o entrevistado irá responder a uma pergunta da convidada anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta da Mia Tomé? “Qual foi o último livro que leste?” Podes rever a pergunta da Mia aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta do Nuno Gama e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

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