Mia Tomé, atriz, nasceu a 9 de maio de 1994 em Coimbra. Desde os quinze anos estuda representação, uma paixão que começou pelo seu fascínio pelo cinema. É licenciada em Teatro, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, e frequentou o mestrado em Educação Artística, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, em 2017. No final do mestrado foi-lhe atribuída a bolsa “Especialização e Valorização em Artes” pela Fundação Calouste Gulbenkian, para frequentar o The Lee Strasberg – Theatre and Film Institute, em Nova Iorque. Enquanto atriz, trabalha com alguns encenadores, nomeadamente João Pedro Mamede, Jorge Silva Melo ou António Simão. Em 2016, foi publicada a sua primeira peça, Pensão Glória no livro Laboratório de escrita para Teatro pelo Teatro Nacional D. Maria II. É um dos membros da companhia de teatro Os Possessos. Participou em filmes como Gelo (2016), Ramiro (2017), ou na curta-metragem Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (2018).


Aproveitando o bom tempo invernoso e o pretexto de a Mia ser uma bolseira da Gulbenkian, decidimos encontrar-nos nos jardins da Fundação, que a atriz revela conhecer muito bem. Enquanto procurávamos um banco para nos sentarmos, falámos de como estes jardins são importantes para ela, por já ter passado muito do seu tempo a passear por lá. Entretidas pela conversa, acabámos por nos sentar num banco. Jogo montado, ligo o gravador e quase me esqueço que é preciso explicar as regras do jogo. Depois de tudo devidamente explicado, a Mia lança o dado, que acaba por nos revelar o número um, levando-nos à primeira casa do tabuleiro onde nada acontece. Encarando o dado com mais seriedade, a Mia decide descruzar as pernas e voltar a lançá-lo. Avançamos quatro casas, indo parar a uma Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Conta-me o que faz do telhado da casa da tua avó em Vila Nova de Foz Coa o teu lugar favorito?

Mia Tomé (MT): Tenho uma costela do Alto Douro, outra da Beira Alta e ainda outra de Coimbra. Estou sempre a dizer que não sei escolher a minha costela favorita, porque são três lugares muito especiais. Mas o telhado da casa da minha avó é muito especial, porque eu cresci ali. Nunca morei lá, mas passava lá muito tempo. Era uma espécie de escape. Lembro-me de que ao fim da semana, depois das aulas, os meus pais pegavam no carro e íamos para lá. Quando és criança, imaginas mundos, não é? Então, era o sítio onde eu imaginava livremente. Como sou filha única era especial estar lá. Depois, tem uma vista inacreditável. Portanto, é por isso. Ohhh, agora vou ficar com muitas saudades! (risos)

Andreia Monteiro (AM): Gostava de ter um telhado onde pudesse subir. Tenho esse sonho, mas nunca vivi num sítio que mo permitisse.

MT: Aquilo é incrível. Com uma vista enorme com os montes do vale do Douro. Para além de ser lindo, tinha esse efeito em mim de poder imaginar mundos, estar lá sozinha e ter as minhas brincadeiras. Ainda hoje é o meu lugar favorito do mundo. Isso e o Caramulinho. Nunca consigo escolher (risos).

Envoltas por memórias e mundos imaginários evocados, é tempo de voltar a lançar o dado. Três casas à frente, damos de caras com outra Pergunta da Sorte.

AM: Ok, então vamos a Nova Iorque!

MT: Agora?

AM: Sim, sim. Tenho bilhetes e partimos agora. (risos)

MT: Que entre agora a surpresa! Isso era genial. (risos)

Pergunta da Sorte: Qual é a maior aprendizagem que trazes do The Lee Strasberg – Theatre and Film Institute em Nova Iorque?

MT: Estive oito anos seguidos a estudar, por isso quando cheguei ao Strasberg já me sentia um bocadinho exausta para estudar. Pelo menos, naquele formato de escola. Mas a lição é que conseguimos superar tudo. Digo isto, porque Nova Iorque foram quatro meses incríveis, mas foi muito duro para mim. Tinha aqui (em Portugal) as pessoas de quem gostava, estava a terminar a tese de mestrado. Portanto, vais para uma escola e ainda estás a terminar a tese de mestrado doutra escola, então é a loucura! A cidade por si só não é uma cidade fácil. É enorme. Sentia a pressão da escola, mesmo não querendo ficar lá para ser uma estrela da Broadway. Mas senti essa pressão. Portanto, a lição é: nós conseguimos superar tudo, tudo passa e tudo fica bem. É preciso é ter força de vontade.

AM: O método de Lee Strasberg não é difícil de gerir enquanto pessoa? Digo isto, porque o método faz com que recorras a memórias do teu passado para dares as emoções à personagem, não é?

MT: Sim. Acho que foi a cereja no topo do bolo para aquele estado muito ansioso em que eu estava. Estás em stress, estás a escrever uma tese, estás num país onde não se fala a tua língua, apesar de ser o inglês que é uma língua que todos falamos minimamente, mas não é a tua língua, e depois vais aprender um método que tem como base as emoções e sensações dos cinco sentidos. Portanto, o olfato, o paladar, o tato, a visão e a audição. São coisas que são muito físicas, também. E para serem físicas também são emocionais. Lembro-me de numa aula, em que percebi que se calhar depois daquilo ia ter de descansar um bocadinho, a minha professora me chamou para me sentar numa cadeira, um exercício recorrente para chegares até ti e às tuas memórias, e ela disse: “Vais fechar os olhos e hoje o teu exercício vai ser imaginar que estás a cheirar café. Vais trabalhar o olfato.” Curiosamente é um dos sentidos que é muito importante para mim. Por exemplo, uma vez lembrei-me do cheiro do perfume da minha mãe e fiquei desolada. Mas essa do café foi surreal. Mandou-me cheirar o café e quando o faço começo a chorar muito. Perguntou-me o que se passava. É que eu tinha deixado de beber café, e a única pessoa com quem ainda o bebia era com o meu namorado. Lembrei-me do café e lembrei-me dele e aquilo fez ali um curto-circuito qualquer. Isto para dizer que o método é, de facto, muito emocional, e é preciso levá-lo pelo caminho certo, porque se não dás cabo de ti e o objetivo não é esse. Eles defendem muito que uses as emoções, as tuas memórias afetivas, mas não deves trabalhar memórias que são feridas abertas, porque vais destruir-te se o fizeres. Então, é pensar nas memórias que já estão tratadas e curadas.

AM: Nesse sentido acho que a técnica de Meisner protege um bocadinho mais os atores.

MT: Sim, talvez. Não posso falar, porque não a estudei, apesar de ter amigos que estudaram isso. Talvez, porque tem mais que ver com o poder da tua imaginação. Isso é muito giro. Lá está, eu não estudei Meisner, mas às vezes quando estou a preparar alguma coisa penso que sou mais Meisner do que Strasberg. Isto porque me lembro das minhas memórias, mas depois começo a pensar – e se tivesse sido assim? De repente já está ali outra camada. Não defendo nenhum método em específico. Acho que as pessoas devem fazer aquilo que lhes faz melhor. Vais buscar coisinhas de cada escola. Mas a Strasberg foi muito importante para mim, apesar de toda a exaustão.

A Mia volta a pegar no dado e avançamos uma casa. Deparamo-nos com uma Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Filmes ou séries?

MT: Filmes! (risos) Claro!

AM: Tens alguma preferência entre teatro, televisão e cinema enquanto atriz?

MT: O cinema. Não posso mentir. Já tive esse preconceito de dizer que gosto de tudo. Claro que gosto! Mas tenho um carinho muito especial pelo cinema, porque foi graças aos filmes que quis ser atriz. Há essa ligação muito especial.

Curiosas por ver o que o jogo nos reserva, damos vida ao dado. Seis casas à frente, temos mais uma Pergunta Rápida.

Pergunta Rápida: Comédia ou terror?

MT: Comédia, claro! Terror? Ugh! Vou ao MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa – uma vez por ano e fico sempre em sofrimento.

AM: Nunca vi um filme de terror. Não consigo.

MT: Pois… eu faço esse esforço, porque tenho amigos lá no Festival. Mas tenho de me preparar.

AM: Na brincadeira, digo sempre a mesma coisa quando alguém me propõe ver um filme de terror – à noite vou para casa dormir sozinha, se vieres comigo está tudo bem, mas ficas lá cerca de uma semana até o susto me passar, visto que depois vou ficar um bom tempo sem conseguir dormir à noite.

MT: Isso é genial! (risos) Vou passar a dizer isso, se bem que pode soar mal num festival.

AM: Ah pois, só o digo a amigos chegados que sabem perfeitamente que o que estou de facto a dizer é que não vou ver um filme de terror.

Ainda a rir desta minha estratégia para me escapar aos filmes de terror, a Mia lança o dado que acaba por exibir o número cinco. É com festa que a Mia recebe a chegada à casa do Sê Criativo, que lança um desafio que a convidada tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o, e eu adivinho qual é.

A Mia começou por refletir sobre como poderia representar o seu maior defeito. Passei-lhe as canetas de cor, ao que ela reiterou que se fossem aguarelas seria rock n’roll. Adora aguarelas, embora ache que não tem jeito para a coisa, mas funciona como um exorcismo para ela. Partilha que começou a pintar aguarela efusivamente em Nova Iorque. Quando decidiu qual seria o seu maior defeito disse-me que era também a sua maior qualidade. É daquelas coisas que serve para os dois lados. Vê a obra-prima da Mia em baixo.

Desenho do maior defeito por Mia Tomé

AM: Vamos lá a ver se desvendo o teu maior defeito. A tua mente é muito dispersa, e isso leva-te a gostares de muitas coisas ao mesmo tempo e é difícil focares-te?

MT: Foste ver à Wikipédia? (risos) Ou sou ótima ilustradora?

AM: Não fui, não. (risos) Parece-me que tens aqui uma carreira alternativa.

MT: Sim, o defeito é querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

AM: Então, olha, é um defeito partilhado entre nós!

MT: Fixe! É isso. Acho que se a minha mãe visse isto (o desenho) ia mandar a piada de que os meninos do jardim de infância faziam melhor.

Desafio superado, o dado leva-nos a avançar três casas. Desta vez, vamos parar à casa do Pessoal, onde as cartas fazem perguntas sobre a vida pessoal da artista.

Pessoal: Qual é o teu talento escondido?

MT: Não sei se é um talento, mas é uma grande paixão. Se for um talento e uma paixão, melhor. É a música, porque adoro-a. É onde vou buscar a inspiração para as outras coisas que faço, o teatro, o cinema, para escrever. Todas as semanas, ou quase todas, tento ir a um concerto. Vou a muitos concertos e fico sempre a pensar: “Quem me dera que as pessoas sentissem o que eu sinto aqui (nos concertos) nas coisas que eu faço.” Quando se está num concerto, é uma sensação incrível. É algo tão poderoso o facto de estares a ouvir as canções que gostas e estares a cantar com eles. Isto é um momento supermágico. Adoro ir a concertos e cantar as músicas com eles. Então, não querendo ser convencida, acho que a música pode ser um talento escondido. Adoro compor! Tocar guitarra e compor cançõezinhas. Talvez um dia ganhe mais coragem do que aquela que já fui tendo. Já tive alguma coragem com algumas pessoas muito especiais, mas ainda é escondido.

AM: É-te mais difícil mostrares a tua música do que interpretares um papel no teatro, por exemplo?

MT: É, porque também tem que ver com a confiança. Como estudei teatro e como faço isso desde os doze anos, para mim é fácil fazê-lo, porque é o que eu faço. As pessoas podem gostar ou não, mas não vão questionar o facto de eu ser atriz. Agora se eu quisesse lançar um álbum, que também não é esse o objetivo, as pessoas, se calhar, podiam perguntar: “Então mas ela agora é da música?” Existe muito esse preconceito em Portugal – só podes ser uma coisa. E não, eu quero ser tudo menos ser uma só coisa, porque não sou uma pessoa plana. Quero fazer o que gosto e a música também está aí. Tenho aproveitado para, nos últimos espetáculos que fiz, compor algumas músicas. Devagarinho, estou a ir. Vamos ver. Um dia de cada vez.

AM: Normalmente sinto que expor a música é mais difícil. Para mim, tudo o que seja expor-me é antinatural. Mas é engraçado, porque embora isso aconteça, quando a exposição se concretiza acabo por gostar de desfrutar o momento e sinto essa libertação. Sentia muito isso quando fazia teatro. Os bastidores eram uma agonia, mas no palco estava bem. Não queria era regressar aos bastidores! Mas na música não consigo. Pedem-me para cantar ou tocar e fico paralisada. Acho que é por me sentir mais vulnerável. Nas outras coisas há uma personagem, ou uma piada atrás da qual te escondes, como é o caso do stand-up comedy. Mas na música sou eu e se não o for, está a ser muito mau porque não é sincero. E para mim a música é boa quando, acima de tudo, há verdade da parte de quem a faz. E se correr mal na música, sinto que sou eu que sou má. Falho duma forma que encaro como muito mais pessoal e íntima, ao invés de o ver como uma falha profissional.

MT: Também sinto isso. Não consigo escrever sobre coisas que não são minhas. Portanto, vou ao fundo do meu coração contar o que tenho para dizer e tem sido muito libertador, porque estes últimos meses precisei mesmo de fazer isso e a música tem sido um escape. Estar em casa com a guitarra a escrever aquilo que preciso de dizer e não consigo e que fica ali dentro daquelas quatro paredes.

Depois de uma dissertação musical iniciada pelo mote de um talento escondido, decidimos avançar. Mas antes, permitam-me que partilhe que a Mia tem uma linda voz. Embora só tenha ouvido uma música que compôs para um espetáculo, querido leitor, ela tem jeito! Espero que, um dia, possamos ouvir que histórias tem para nos contar fora da proteção de um espetáculo de teatro. Agora, sim, avançamos cinco casas desaguando no número vinte e oito, onde nada acontece. Voltamos a dar corda ao dado e não nos escapamos mal. Temos mais uma Pergunta da Sorte.

AM: Esta pergunta está gravidíssima.

MT: Gravidíssima?

AM: Sim. Está enorme, a pergunta. Basicamente vou ler-te um texto e depois respondes.

MT: OK, força!

Pergunta da Sorte: No espetáculo O fim do teatro, que foi apresentado no festival Exquisito, a tua personagem tinha um momento em que expressava a sua indignação em relação ao meio artístico, que facilmente se percebia ser autobiográfica. Falavas de paradigmas como o não se poder ser bonita e inteligente ao mesmo tempo, o não poderes interpretar papéis da tua idade por pareceres mais velha e de que o facto de teres um mestrado feito em Nova Iorque era apenas uma questão de uma garota armada ao pingarelho. Quais são as dificuldades que uma atriz encontra nesta profissão nos dias de hoje?

MT: Para começar, acho que depende muito de artista para artista, porque não somos todos iguais. Como temos características diferentes, isso vai causar-te dificuldades diferentes. Eu comecei muito novinha no teatro e ao longo do percurso senti que existe um certo preconceito. Se, por acaso, és uma mulher bonita, então só serves para fazer papéis de tontinha, ou a boazona e que paralelamente não podes ter uma carreira noutra coisa qualquer. És questionada. Não podes dar aulas, não podes escrever. Tu podes tudo! Felizmente, sinto que as coisas estão a ganhar outra textura. As coisas estão a mudar. As mulheres estão a ganhar muito mais voz do que alguma vez tiveram, e isso é superimportante, mas ainda assim há muito trabalho para fazer e a minha geração sente isso. O facto de ter vinte e quatro anos e já ter feito um mestrado, ter sido bolseira da Gulbenkian e ter estado lá fora (em Nova Iorque), às vezes sinto que a reação das pessoas é um “Ah, lá está ela!” Mas o que é que eu vou fazer? Calar-me? Isto aconteceu na minha vida. Já tive pessoas em entrevistas a questionarem-me. “Mas a sério? Como é que isso é possível?” Dos quinze aos vinte e quatro anos, não parei. Estive sempre a estudar e, se calhar, pus outras coisas de parte para fazer aquilo. São opções. Se calhar, em vez de sair todas as noites e de ter parado um ano para fazer uma viagem ao mundo, que se calhar ter-me-ia feito bem ou melhor, decidi ir pelo caminho da formação. Como estava tão revoltada, principalmente nessa altura em que comecei a construir a personagem Rosa desse espetáculo e tive a liberdade do encenador para dizer aquilo que sentia, aproveitei. Estas são as minhas inquietações. Porque tinha sido um ano muito complicado. Foi um ano em que não tive trabalho. Voltei de Nova Iorque e tive muito pouco trabalho. Felizmente, as coisas deram uma grande cambalhota e voltou tudo ao normal e está tudo bem. Mas tive uns meses muito complicados. Pensava: “Então, mas agora que tenho as ferramentas todas, que me sinto preparada e cheia de carga interior, é que não tenho trabalho?” Isso deixou-me muito descrente e triste, então percebi que tinha de deitar isso cá para fora para não deixar mágoas para que isso não me impedisse de criar ao ficar bloqueada. O que tinhas dito mais?

AM: Referi a questão de não te darem papéis de personagens com a tua idade.

MT: Pois, às vezes dizem-me isso. Estou num limbo muito complicado, porque pareço bastante mais velha do que sou. Dizem que tenho cara antiga, que parece que venho do século passado. Se as pessoas forem assim tão fechadas e acreditarem mesmo nisso, então só vou fazer papéis de época e não é só isso que eu quero fazer. É um meio que julga muito. Se és branquinha, é porque és muito pálida, se és gorda ou vestes um trinta e oito, é não sei o quê. As pessoas vão sempre pegar por alguma coisa. É um meio onde se julga, por isso aproveitei aquele monólogo para deitar cá para fora. E diverti-me muito! Muito honestamente, desde que o espetáculo foi feito que comecei a pensar muito menos nisso. As coisas andam para a frente e nós também. (risos)

Parece que a Mia ganhou o jeito para estes ganchos linguísticos. Pegamos na deixa dela e andamos para a frente! Duas casas à frente vamos parar ao número trinta e dois, onde nada acontece. Depois, o dado revela o número um. Temos direito a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Qual foi o último filme que viste e que te fez sentir que tinhas acabado de testemunhar um momento transcendente?

MT: Foi transcendente, talvez pelo lado político. O último filme do Spike Lee, BlacKkKlansman: O Infiltrado. Não é o filme mais genial que vi, não é filme que mais me fez arrepiar no sentido artístico. Mas é um filme que toca em questões políticas muito pertinentes nos dias de hoje e que temos de falar nelas urgentemente. O filme fala sobre as questões do racismo, que ouvimos falar desde miúdas e que achamos que estão resolvidas, mas olhas para o lado e não estão nada. Fala de questões do preconceito, da religião, como os extremos podem destruir o mundo não tarda nada. Temos de olhar para o que está a acontecer politicamente. E o filme termina com imagens reais de acontecimentos terroristas recentes. Vês imagens de atropelamentos, vês imagens de bombardeamentos. Aquilo é logo a seguir ao filme e pensas: “Isto não é o filme, são imagens reais que jornalistas captaram.” Nesse dia ficou um silêncio horrível na sala, porque as pessoas estavam a ver que são coisas que acontecem. Pessoas a serem atropeladas por questões que nem têm de ser um problema. Eu sou da religião que eu quiser, tu és da religião que quiseres. Acreditas no que quiseres. Lembro-me de ficar tão perturbada que chorei durante três minutos. Este é o mundo em que nós vivemos e não tomamos consciência. Portanto, acho que o Spike Lee esteve muito bem em querer fazer um filme como aquele. Um filme de alerta e que chama a atenção de toda a gente. Tenho a certeza de que as pessoas que saíram dali saíram a pensar naquilo, obviamente, porque ficou um silêncio gelado. Não é possível continuares a viver num mundo destes que é mesquinho, que julga a tua religião, a tua orientação sexual. A liberdade é a coisa mais importante do mundo, desde que a tua liberdade não impeça a liberdade do outro. Ainda acredito que é possível vivermos assim. Esse foi o último filme transcendente que eu vi pelo seu poder social naquela sala de cinema.

Ainda a recompor-se destas recordações, a Mia volta a lançar o dado. Duas casas à frente deparamo-nos com a casa da Carreira, onde as cartas revelam perguntas sobre a vida profissional da artista.

Carreira: Qual foi a maior peripécia que te aconteceu num dia de trabalho?

MT: Oh, tenho tantas! (risos) Estava a fazer um filme, o Gelo, que é um filme de ficção científica português do Luís e Gonçalo Galvão Teles. Fazia o papel de uma enfermeira da vida futura. Passei a tarde toda a filmar numa ambulância e comecei a ter dores nas costas e achei que eram dores normais. Pedi para me trazerem um Ben-U-Ron, tomei-o, mas não passou. Acabou o dia, eles cortaram cena, e eu estava a morrer. Fui a correr para a rulote de maquilhagem, deito-me no chão e desisto da vida e digo: “Ah, doem-me as costas! Quero quentinho!” Vieram ter comigo e perceberam que eu estava mal. Era uma cólica renal. Chamaram a ambulância e nesse momento tinha o Ivo Canelas ao meu lado a dar-me as mãos e a dizer-me: “Mia, usa isso, guarda isso, porque dizem que as dores de cólica renal são semelhantes às de uma gravidez. Estás a fazer a boca igual às grávidas. Usa isso para quando fizeres uma grávida num parto.” Tinha o Albano a esfregar-me os gémeos e a dizer: “Mia isso está tudo na respiração. Respira fundo que isso já passa.” E tinha do outro lado o Duarte Grilo a dar-me casacos para eu morder e a dizer para eu ter calma. Só queria que eles desaparecessem. Eles foram uns queridos, os três. Adoro-os, mas naquele dia com a cólica renal… Entretanto, chega a ambulância, entrei lá dentro e levei morfina, porque a dor estava insuportável. A enfermeira que estava lá sabia que eu vinha de uma rodagem, mas quando se mudou o turno a outra enfermeira já não sabia de onde eu vinha. Então olhou para a minha farda de enfermeira e perguntou: “Mas você trabalha em que hospital?” E eu respondi: “Eu trabalho no futuro.” E pronto, esta é a minha história favorita. (risos)

Depois da partilha desta peripécia única, voltamos ao jogo, cada vez mais próximas da reta final. Avançamos seis casas e vamos parar a outra Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Para além da representação, também escreves. Podes falar da primeira peça que escreveste, Pensão Glória, e da última, refletindo acerca da evolução que reconheces de uma para a outra?

MT: A primeira peça oficial e editada que escrevi foi a Pensão Glória. Foi muito especial para mim, porque também achava que não podia escrever. Tinha vinte ou dezanove anos. Foi no contexto do laboratório de escrita do Teatro Nacional. Para mim, foi um autosselo de aprovação. Ok, consegui fazer isto, por isso não há nada a temer. Posso continuar. A última que escrevi não está publicada e chama-se Monólogo debaixo da tua varanda. Curiosamente, as peças têm uma coisa em comum. Falam sobre acontecimentos pessoais marcantes. A evolução que sinto é que quando escrevi a Pensão Glória estava muito a medo e questionava muito cada palavrinha que punha. Nesta (Monólogo debaixo da tua varanda) escrevi sem pensar. Escrevi mesmo o que queria dizer na voz daquela personagem que está a fazer o monólogo. Acho que foi isso. Na primeira, estava mais tensa e agora perdi um bocado o medo e ‘bora escrever! É mais consciente, mais crescida e com um bocadinho de menos medo.

Ao aproximarmo-nos do fim do jogo, damos novamente corda ao dado. Uma casa à frente, temos uma pergunta sobre Carreira.

Carreira: O que menos gostas de fazer na tua profissão?

MT: As alturas em que fico sem trabalho, porque faz parte desta profissão ficar inquietantemente sem trabalho.

AM: O que se faz nessas alturas?

AM: Aí, recorres às tuas gavetas. Pegas nos textos que estás a escrever, pegas nos projetos que deixaste pendentes numa fase louca de trabalho, fazes outras coisas que podes fazer. Gosto muito de dar aulas. O meu mestrado está ligado à educação artística, portanto tento sempre, nessas alturas em que não estou a fazer teatro ou cinema, dar mais aulas. É uma coisa que também me alimenta criativamente. Aproveito para escrever, para pegar nas outras áreas e dar-lhes um bocadinho de mais atenção. E também estar com a família. É muito importante. A família é a coisa mais importante. Ainda bem que eles existem!

Seguimos jogo e avançamos três casas. Chegamos a uma pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual foi a coisa que te disseram que mais te marcou até hoje?

MT: Não sei de cor, mas tenho escrito.

AM: Uau! Marcou-te mesmo!

MT: Marcou. Deixa-me ir aos emails. Foi uma pessoa que ouviu uma canção minha, aliás deve ter sido a única pessoa que ouviu uma canção minha que é mesmo pessoal. Disse que tinha escrito esta canção, e essa pessoa insistiu que lha enviasse. É uma pessoa que admiro muito, mesmo. É um grande músico. Disse-lhe que não tinha coragem, mas depois lá enviei a canção. Ele disse-me: “Não te vou elogiar a coragem. Uma coisa tão bonita e tão acolhedora nunca devia precisar de coragem para ser partilhada. Prevejo grandes coisas para ti e não preciso de dotes proféticos.” Isso, para mim, foi muito especial. Marcou-me muito e deu-me muita coragem para continuar a fazer as coisas e ficar entusiasmada para pôr a outra perninha na música.

AM: É muito especial quando admiramos um artista, depois conhecêmo-lo, partilhamos algo nosso naquilo que é a sua arte e depois a resposta deles é no sentido de nos ajudar e valorizar. Há uns que não dão esse espaço até por uma questão de ego, mas depois há outros que para ti são as grandes referências e que abrem esse espaço de partilha. Fico muito emocionada com essas atitudes.

MT: Felizmente, tenho a sorte de nunca ter conhecido uma estrela dessas que não dão espaço. Tenho tido boas experiências e acabo por ter amizades. Esses egos repugnam-me um bocado. Não acredito nisso. Então, é uma pessoa que ficou minha amiga e só posso agradecer toda a inspiração que verte dela para isto, para escrever o que for.

Ainda com oportunidade para mais uma pergunta, o dado mostra-nos o número cinco. Temos tempo para mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Se te pedisse para me contares um episódio de uma millennial que vive no Bairro Alto o que me contarias?

MT: Contava-te um concerto incrível d’Os Pontos Negros que eu vi em dezembro. A millennial vai ver um concerto d’Os Pontos Negros, que já estava esgotado e quis levar a melhor amiga. A melhor amiga não tinha bilhete, mas à porta consegui um bilhete para ela! Foi muito divertido. Uma millennial se calhar nem ouve Os Pontos Negros. É uma banda que, quando tinha doze anos, estava imenso na moda, e aquele foi um concerto de reencontro de banda. Já nem foi um concerto oficial de percurso de turnê. Aquilo foi genial, estava superbem lá dentro. Quando tinha treze anos, e este é que é o episódio de uma millennial, eles foram a Viseu dar um concerto e a minha mãe não me deixou ir ver. Chorei baba e ranho. Dez anos depois, porque o destino é meu amigo, Os Pontos reuniram-se para darem um concerto e eu fui. Fui e consegui um bilhete para a minha melhor amiga. Encontrei-me lá dentro com amigos incríveis e tivemos uma noite muito divertida! Isto é um bom episódio. Finalmente, matei o mau carma de não conseguir ver Os Pontos Negros.

Ao lançar novamente o dado, vamos diretos à Casa Gerador, a casa final do jogo, onde a entrevistada irá responder a uma pergunta do convidado anterior e deixar uma pergunta para o próximo. Ainda se lembram da pergunta do Tiago Nacarato? “Se o mundo acabasse amanhã, qual seria a primeira coisa que fazias?” Podes rever a pergunta do Tiago aqui. Vê o vídeo em baixo para saberes qual a resposta da Mia Tomé e a pergunta que deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro

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