Uma figura que se desviava da humana e se aproximava, a cada minuto da performance, de uma presença animalesca, a de um cão, encontrava-se presa por uma corda elástica a um poste em frente à Esquina da Capela, em Telheiras. O seu rosto estava revestido de amarras e exibia um focinho preto e umas orelhas empinadas e salientes. O tronco nu exibia purpurinas azuis e restos de papel verde, em que se tinha rebolado há instantes. O público rodeava-o e afastava-se de cada vez que esta figura se aproximava numa corrida ofegante, sendo imediatamente puxado para trás pela força da corda. Quando o operador de camara se mete atrás dele para o filmar, junto a uma janela, o seu foco redireciona-se. Aproxima-se dele, baixa-se e começa a despir as calças ao operador, para de seguida brincar com o umbigo do mesmo. Mais tarde, e já de volta ao centro, um homem aproxima-se e oferece-lhe um abraço que parece acalmar o seu arfar pesado. Porém, ao pedir-lhe colo, o homem afasta-se. Depois, é a vez de uma senhora no público se aproximar ao ver esta espécie de cão a brincar com um saco de esferovite, entrando na brincadeira. De repente, ao longe, ouve-se um cão ladrar. Ele ladra-lhe de volta e ali ficam numa conversa que mais ninguém percebe, mas que se reconhece de qualquer troca de impressões entre dois cães. Por fim, arranca as orelhas de monstro, tornando-se humano. Ergue as mãos em direção à cara, tapando o rosto, e começa a falar, sem que seja percetível aquilo que nos tenta dizer. Aumenta o volume das palavras proferidas, mas estando amordaçado pelas suas próprias mãos, todos continuam sem entender o que urge em nos dizer. A performance termina com um aplauso caloroso do público.

Rui Paixão em “Leach”

O último dia da primeira edição do Festival Exquisito abriu com esta performance e instalação de Rui Paixão, no Largo da Rua José Pedro Machado. “Leach” foi a proposta do autor para uma metamorfose que lhe permitisse alcançar um estado de desbloqueio mental e físico. Durante 45 minutos, Rui, preso a uma trela, movia-se num jogo entre a raiva e o confronto com o espetador. Assim, o autor apresentou o seu protesto à arte que se prende com a necessidade de dar respostas políticas e comerciais, indo contra a sua liberdade enquanto criador e à sua própria liberdade artística.

Seguindo esta abertura, deu-se início à terceira conversa exquisita do festival, desta vez sobre “Depois das Certezas Absolutas nas artes performativas”. No pátio da Biblioteca as pessoas foram-se sentando na instalação de madeira dos Depois enquanto se discutia para onde vamos nas artes performativas e quais são as fronteiras da criação artística. A conversa contou com Sérgio Coragem, Luísa Amorim, Rosana Ribeiro, Rui Paixão, João Cachola e Isabel Costa, com moderação de Pedro Saavedra.

Público a assistir à conversa na instalação de madeira dos Depois

O primeiro desafio desta conversa foi definir o termo performance. Para Isabel, trata-se de uma “arte muito atual que responde imediatamente ao aqui e agora” e que pode ser feita em sítios que não são os esperados, como por exemplo a rua. Rui, que acabara de nos presentear com a sua performance, junta-se à conversa dizendo que tem uma relação muito próxima com a rua e, por isso, é desse meio que irá falar. Definindo o seu trabalho como art in public space, acrescenta que o “teatro acaba por ser o zoo e a rua, a selva”, ou por outras palavras, que a “rua se torna numa nova religião do caos”. Sérgio contribui para o pensamento desta definição dizendo, nomeadamente, que o teatro não se pode confinar a um edifício que tem o nome de teatro, pois também existem espetáculos de teatro que saem à rua. Luísa, considera que vale a pena distinguir o que é uma performance para que o público possa perceber. Vivendo e trabalhando em Londres, confessa achar que “aqui (em Portugal) os termos são mais indefinidos, o que torna o resultado mais interessante. Como em Londres é tudo muito engavetado, acho que se perde”. Contribui ainda com uma noção que lhe permite fazer uma distinção mais fácil: revela que nas performances o artista interpreta uma persona, enquanto no teatro interpreta uma personagem. Rosana colmata esta ideia ao dizer que a “performance tem a ver com o que é real”.

Sérgio Coragem, Luísa Amorim, Rosana Ribeiro, Rui Paixão, João Cachola e Isabel Costa em “Depois das Certezas Absolutas nas artes performativas”

Pedro Saavedra perguntou ainda aos convidados quais os temas que lhes interessava tratar. Rosana revela que ainda está à descoberta desses temas, mas que lhe interessa algo que tenha um lado político e um statement, assim como encontrar este movimento em palco. Luísa partilha que geralmente trabalha autobiograficamente, ou seja, que “o meu tema favorito sou eu”. Esclarece ainda que este é o seu tema favorito pois, por ser uma mulher emigrante, mãe solteira e com a vida parca de artista, os seus espetáculos acabam sempre por abordar temas sociais, o que lhe permite trazer o público para os seus espetáculos. Sérgio conta que nos auéééu-Teatro, companhia de que faz parte, os temas surgem sem que percebam a sua origem. “O tema terá sempre esse condão de ser algo com que nos divertimos, que provoca riso e alegria, sem pensar muito nas consequências da coisa” (porque falar de criação, ao invés de ‘coisa’, era entrar noutro sarilho). Já Rui admite que não parte da ideia de intervir politicamente, mas que lhe interessa “não falar, mas que falemos, pois estamos sempre a falar de uma ação coletiva que vai ser fragmentada pelo pensamento dos outros”. João, um dos membros fundadores da companhia de teatro As Crianças Loucas, decide falar do segundo espetáculo que a companhia está a preparar e que leva, em jeito de leitura encenada, para o festival Exquisito. Mas para saber mais sobre isso, vamos esperar cerca de um parágrafo.

Terminada a conversa, as pessoas começaram a agrupar-se em frente à porta que daria acesso ao Subpalco do auditório da Biblioteca, onde a companhia de teatro As Crianças Loucas, iam apresentar Lisboawood. As Crianças Loucas são uma companhia fundada por João Cachola e Vicente Wallenstein em 2017 que anda a preparar o seu segundo espetáculo – Lisboawood. Embora o espetáculo só tenha estreia marcada para o próximo ano, decidiram trazer até ao Exquisito a leitura encenada do que andam a preparar.

As Crianças Loucas e Zarco na leitura encenada de Lisboawood

À medida que as pessoas iam chegando ao Subpalco, iam-se sentando nas esponjas coloridas no chão, fitando seis jovens rapazes – os cinco elementos da banda Zarco que vieram enriquecer musicalmente esta leitura e João Cachola, que ia recebendo as pessoas, “preparem-se para o calor e abram aquele botão maroto”. Embora a companhia conte com vinte e três atores, apenas dezanove puderam estar presentes na leitura no Exquisito. Lisboawood é um espetáculo, escrito pelo João, que fala sobre as dificuldades que os lisboetas enfrentam todos os dias na cidade. “As dificuldades de pagar a renda, trabalhar com condições, estar continuamente a andar pela cidade e ver sítios a aparecerem e outros a desaparecerem”, esclarece João. Nesta leitura, não só estão presentes indicações cénicas para os atores, como para o público. Ao longo da leitura somos presenteados com músicas e com deixas que fazem todos rir, como “és atraente, tens ideias. Mas não sabes como é fácil deixares-te levar”, com reflexões sobre dívidas, o amor, as opiniões que mudam de segundo para segundo ou as resoluções de última hora. João aponta, aquando da conversa exquisita, que este é um espetáculo que “procura questionar a mudança”.

Após esta leitura, que nos revela que tudo tem um valor e uma finalidade, Luísa Amorim e Rosana Ribeiro ocupavam, pela 3ª vez neste festival, a Escola Psicossocial de Lisboa com a sua versão da Tabacaria de Fernando Pessoa. Esta performance revelava uma viagem por vários campos das artes, nomeadamente a dança, performance e literatura. Luísa define esta performance como uma encenação em tempo real em que trazem o público para o espetáculo. Para ela é importante “ver onde é que eu estou nos outros. Achamos também que é sobre a crise do artista – a necessidade de criar”. Rosana revela que a experiência tem sido muito boa, porque todos os espetáculos são diferentes, uma vez que dependem da participação do público que aparece em cada dia. Trata-se, então, de um jogo, como a vida o é, onde há uma leitura a várias línguas e que é dançada.

“Da janela do meu quarto” com Luísa Amorim e Rosana Ribeiro

Luísa começa por receber o público dizendo que têm o sonho de fazer a Tabacaria connosco. Para tal, começa por chamar três pessoas do público a palco. Uma que saiba ler inglês, outra francês e, por fim, espanhol, esclarecendo que não precisa de saber falar ou perceber, apenas precisa de saber ler nessas línguas. Depois, é tempo das apresentações, “eu sou eu” – apresenta-se Luísa – “e o corpo”, diz enquanto aponta para Rosana. As regras do jogo são apresentadas. Cada membro do público que se junta à performance tem um papel onde constam apenas as suas falas/ versos e cada um fica a saber qual o seu sinal para começar a ler. O inglês deve começar com o som de uma palma, o espanhol com o bater de pé e o francês com o estalido de língua. Com um salto, todos devem ler ao mesmo tempo, incluindo Luísa, que lê em português. A viagem pelos versos da Tabacaria começa, com ritmos surpreendentes que são acompanhados pela respiração de Rosana, línguas diversas e pelas sombras de Rosana enaltecidas pelo candeeiro de pé, a cada movimento. Mais tarde, todo o público ganha um papel ativo na performance ao repetir três versos indicados por Luísa. “Mais alto, mais alto, mais alto!”. Com um sinal de mãos, silêncio. É tempo de prosseguir com o texto. No final da performance, e à medida que as pessoas abandonavam a sala, Luísa diz ainda que “foi a noite das melhores pronúncias”.

Num lagar antigo, onde o chão fora revestido com relva sintética, as pessoas vão-se sentando ora em pufs, ora na própria relva, à espera da próxima performance. Apenas a eletrónica está iluminada com uma luz rosada. Por fim, ela aparece usando um macacão preto. A noite arranca com o concerto de EOSIN, que usou discos, gira-discos e uma mesa de mistura para combinar diversas sonoridades. O primeiro som que invade a sala faz lembrar o motor dos carros, depois o som de ondas movimentadas, de seguida os passarinhos. Eis que EOSIN ergue uma pandeireta e a faz soar junto ao microfone. A voz cantada passa a fazer parte dos sons que enchem a sala, assim como os estalinhos que se ouvem numa superfície que está ao fogo. EOSIN sopra, agora, para o microfone. Primeiro, é um som quase impercetível, depois identifica-se. Ouve-se aquilo que parece ser um ataque de animais, música tribal, maracas e o som da ventania. Consequences é o nome dado a esta performance, que nos leva numa viagem sensorial e revelou ser o resultado de uma obra exquisita construída por uma pessoa com muitas apropriações.

EOSIN no Lagar empunhando a pandeireta

Findo o concerto é hora de dar uma corridinha até à Sala Principal do Auditório da Biblioteca onde estreia “O fim do teatro”, escrito e encenado por Pedro Saavedra. À medida que as pessoas vão enchendo a sala, apercebem-se que existem três lugares vedados e, embora estranhando, vão ocupando os lugares à volta. Um senhor vira-se para a sua esposa e pergunta:

– Mas é um problema técnico ali, é?

– Não, deve ser alguma coisa que os atores vão usar.

Será? Vamos ter de esperar para descobrir. A sala enche e “O fim do teatro” começa, mas não se esqueçam destes lugares – vão ser importantes!

Este é um espetáculo que começa, desde logo, por nos sugerir a brincadeira de colocar um teatro dentro de um teatro, apresentando, com o abrir da cortina vermelha, outra cortina num vermelho mais vivo. Começamos por conhecer uma grande atriz que parece uma estrela de cinema reformada no ano passado, Dona Amélia, e que ganha vida através da interpretação de Sofia de Portugal e um diretor de teatro, interpretado por Mário Redondo. O diretor inicia um aparte em que reflete acerca do teatro e das condições para o fazer, revelando um certo pesar no olhar. Surgem questões do que as pessoas querem ver, do tipo de teatro que servirá o público, da falta de apoios à cultura, da sua condição de eterno estudante e dos vários tempos que existem – “Sou de facto de outro tempo”- sempre com um tom humorístico, mas crítico, na escrita de Pedro Saavedra, que desencadeia múltiplos risos na plateia. O palco surge como o sítio onde tudo é legítimo, pelo que o diretor ainda nos interroga – “Onde está a realidade? No que eu digo ou naquilo que o autor escreveu para eu dizer?”.

Diretor de teatro, interpretado por Mário Redondo

Juntam-se um aspirante a ator, André (Miguel Ponte), e uma rapariga com cara de criada velha, Rosa (Mia Tomé). Dos vários momentos que partilham em palco, destaco aquele em que numa discussão de porquês impossíveis de resolver e onde a vitória do eu sobre nós condena o diálogo, ambos se sentam à borda do palco e iniciam dois monólogos que proferem ao mesmo tempo. André avança com a descrição do seu currículo e preocupações, mas é Rosa que prende a atenção do público com a sua indignação devido ao meio artístico em que não se pode ser bonita e inteligente ao mesmo tempo, em que não pode interpretar um papel da sua idade, porque parece mais velha, embora considere que desempenhe muito bem esse papel no seu dia-a-dia, em que ter um mestrado feito em Nova Iorque, sendo nova, é só uma questão de uma garota armada ao pingarelho… e à medida que a sua indignação aumentava o público aplaudia em concordância. Por fim, Rosa cala-se e ouve-se André perguntar como será possível ser artista com uma porcaria de currículo, como o dele.

Há ainda lugar para mais um ator estreante, Rui Miguel, que se aventura no papel de técnico do teatro e que vai aparecendo para enriquecer a narrativa, embora diga ao público que costuma ser aquele que ninguém conhece, que anda pelas sombras do teatro, e que se aparece em cena é porque algo correu mal.

Este slideshow necessita de JavaScript.

E quanto aos lugares selados? Esses serviram o intervalo, em que o técnico do teatro montou uma secretária para o diretor do teatro trabalhar, pedindo ao público na fila de baixo para dar um jeitinho. “Meus caros, por decisão do autor acontece aqui um intervalo de quinze minutos, mais coisa menos coisa. São livres de irem lá fora à casa de banho ou até de fumarem um cigarro, é convosco”. Surpreendendo o público, o intervalo encenado prossegue e há direito a ver a apresentação de uma proposta de cena, por André e Rosa, que deixa o diretor perplexo e não pelos melhores motivos. Depois do intervalo entra-se na segunda parte que termina com a última cena, “Sabem o que isso quer dizer, não sabem? A seguir não há mais nenhuma cena”, esclarece o diretor. O espetáculo termina e o auditório é invadido por aplausos e uma ovação que obrigam os atores a vir agradecer a palco três vezes.

A terminar a noite do último dia do Exquisito, que decorreu nos dias 13, 14 e 15 de setembro, em Telheiras, houve um concerto enérgico e experimental no Lagar da Quinta de São Vicente que juntou Sturqen a MMMOOONNNOOO. Sob uma luz avermelhada MMMOOONNNOOO presenteava-nos com as batidas mais épicas e Sturqen com um trepidar envolvente. Durante a performance musical víamo-los apontar para um cartão. No final fomos lá espreitar e tinha sete secções escritas – sai tu, trocar, eu saio, acabar, dar silêncio, terror e calmo. Saltitando por estas sete indicações, juntos construíram um momento sonoro improvisado revelando o melhor da composição eletrónica com elementos dos universos do noise, power electronics e sound design.

Sturqen a MMMOOONNNOOO a encerrar a primeira edição do Festival Exquisito

Durante os três dias de festival houve ainda sete exposições em permanência. Tomás Hipólito apresentou-nos “2018 set_03”, uma instalação site-specific numa antiga cozinha em que recriou um possível laboratório onde o elemento central de estudo é a água. Esta exposição foi ativada pelo artista no segundo dia do festival, com elementos surpreendentes. “6 Personagens à procura de um filme” foi a interpretação, por Rita Rocha Silva, do álbum 6 músicas à procura de filme de Cristóvão Campos. Esta performance, incluía seis momentos diferentes em que se refletia sobre o real e o ficcionado, a noção de identidade e de artificial. Em “Antília”, de Carolina Pimenta, as suas fotografias apresentadas em grande escala no pátio da biblioteca remetiam para a sua pesquisa durante uma viagem a São Miguel, nos Açores. Estas imagens contam a história de um amor impossível, mas que apresentam uma certa esperança, pois se forem vistas da esquerda para a direita o casal fica junto, e da direita para a esquerda separam-se. Em “Meanwhile, here”, Clara Imbert apresentou uma instalação site-specific em que recorreu a objetos visuais e instrumentos de exploração espacial. Em “Desarvorar”, Francisco Pinheiro e Paulo Morais, brindaram-nos com uma série de trabalhos sonoros que atendiam à singularidade sonora de cada espécie de ave. A “Exposição instantânea” apresentava os trabalhos de 10 instagramers revelação convidados, que propunha trazer para material físico os trabalhos que normalmente ficam reservados às redes sociais. Também habitando o percurso que vai da Biblioteca Orlando Ribeiro ao metro de Telheiras estiveram expostos trabalhos de vários artistas – ABCC, Bárbara Bulhão, Diogo Bolota, David Oliveira, João Viotti, Mariana Dias Coutinho e Xana Sousa.

Este slideshow necessita de JavaScript.

A primeira edição deste Festival teve como tema “Depois das Certezas Absolutas”, procurando refletir sobre o que se segue quando acontece tudo aquilo que imaginávamos ser impossível de acontecer. No entanto, para quem tem como única certeza a criação, não interessam certezas absolutas. O Exquisito lançou assim o manifesto que diz “possuir como única certeza a sabedoria da incerteza, como diz Milan Kundera, é manter aberta a porta da transcendência. A arte cria dissonância justamente porque escapa ao senso comum, porque expande os nossos processos de apreensão da realidade”. Feito o balanço final destes três dias, de facto, o resultado foi exquisito, balanceando entre o refinado, precioso e único, por um lado, e fora do comum, impertinente e provocador, por outro.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografias de Matilde Cunha
O Exquisito é uma ideia e iniciativa do Gerador

Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal clica aqui.