“Também se diz que o jejum desperta o cérebro e lhe dá asas — desde que, claro, não se prolongue até onde as asas (que são máquinas de voar) já não aguentam o voo.”, José Saramago em “A vida suspensa”, Deste Mundo e do Outro (1971)

De cada vez que se avizinha a escrita de um texto, principalmente um que se apresenta com tema livre, parto de um lugar de ausência – O que farei com esta crónica? (E a similaridade da interrogação com o título de José Saramago não será uma coincidência). De súbito, esgotam-se-me os temas, as opiniões ou a pertinência do discurso. Ter um lugar de fala amplificado, independentemente da sua projeção, é uma responsabilidade que me arrepia. O que terei eu para dizer? Que contributo posso trazer a quem se cruze com o meu texto? Partindo da consciência de que pouco sei, em confronto com o que há para ser sabido, o que posso ir afirmando saber?

Partindo desse lugar de ausência, mergulho no mundo encantado das perguntas. Desde pequenina que me dizem que tenho língua de perguntadora. É como se, de cada afirmação que ouço ou leio, brotasse um sem fim de perguntas. Talvez por isso tenha encontrado uma paragem no jornalismo. À medida que fui crescendo, e com a formação nessa área, a minha atenção deixou de parte o colecionismo de perguntas e focou-se na procura por aquelas que importam. Mas o que define a pertinência? Não serão todas as perguntas importantes e uma perda aquelas que decidimos não fazer perpetuando o desconhecimento?

O que escreverei, de seguida, não é uma novidade. Os últimos meses, mais marcados pelo silêncio, por reduzidos contactos cara a cara e por menos viagens, voltaram a acentuar a necessidade de perceber que no fim de cada afirmação, e antes que nasça uma pergunta, existe um ponto final. Há uma pausa que se impõe. Sempre tive uma boa relação com o silêncio. Preciso dele, tanto quanto ele precisa de mim. Mas estes tempos de mudança deram-me novos silêncios, nem sempre escolhidos, por vezes impostos. Foi nesse lugar que redescobri as perguntas às quais, levianamente e na aceleração do dia a dia, fui dizendo não ter tempo para formular, quando, na verdade, estava apenas a fugir da liberdade de escolher a quietude que nada espera. Lembrei-me de que em cada pergunta mais imediata ­­— e, por vezes, polvilhada com expectativas— que foca o outro, se esconde outra sobre mim. E de que uma pergunta, mais do que uma resposta ou a sua procura, nos traz um ponto de encontro connosco que materializa uma oportunidade de crescimento.

Há uns tempos partilharam comigo um livro no qual, desde então, tenho decidido parar, de vez a vez: O pequeno caminho das grandes perguntas, de José Tolentino Mendonça. Nele tenho encontrado um espelho das minhas fugas e um confronto com esta arte de formular perguntas. Uma faculdade que nos une, porque todos as temos inscritas na condição de ser humano. Nele, leio: “Há um momento em que percebemos que as perguntas nos deixam mais perto do sentido, da abertura do sentido, do que as respostas”. Reparo que, ao encontrar mais e mais perguntas, se esgota a necessidade de obter algumas respostas, porque são descobertas numa análise profunda de quem somos e de onde estamos, e é nesse lugar íntimo que encontramos um repositório de respostas que já possuímos, mas a que fomos escolhendo não aceder.

O caminho para as grandes perguntas talvez seja, então, o caminho do amor próprio, que conduz ao amor comum. A esse propósito, no mesmo livro, encontro: “É NECESSÁRIO DECIDIR ENTRE O AMOR ILUSÓRIO À VIDA, que nos faz adiá-la permanentemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos”. Quantas das feridas que exibimos ou escondemos residem numa decisão? Quantas mágoas e mal-entendidos resultam de perguntas às quais respondemos com uma fuga? Há uns dias, tive uma conversa com alguém que não conhecia em profundidade que me desafiou com perguntas constantes e, achei eu, repetitivas. Não tardei a perceber que essas perguntas apenas continuavam a surgir, porque lhes fugia com toda a perícia com que o amor ilusório que dava à vida me tinha nutrido. Nesse dia, escolhi a espera e descobri esse amor real pelos pequenos instantes que compõem a sinfonia da vida. Permiti que as perguntas mergulhassem em mim de forma a, posteriormente, partilhar respostas sem máscaras e, assim, comecei o meu luto pela “irresolúvel carência” em nome de uma felicidade que é sonhada.

Tenho descoberto, nesses momentos em que me imponho a espera e o desconforto de quebrar com o imediatismo, que muitas das afirmações em que carrego dor e desconchego não são mais do que um espelho de inseguranças próprias ou até o berço de preconceitos incrustados e que merecem uma nova refleção para os resinificar.

Olhando para alguns dos acontecimentos que marcam a atualidade (embora alguns não sejam atuais, mas sim continuados), como as desigualdades ou o destratamento do outro, pergunto-me se não será esse um sintoma de não se parar para encontrar as perguntas que realmente importam — aquelas que noutras se escondem — e fugirmos da necessidade do conhecimento polifónico. É como se existissem perguntas-cebola. À superfície deparamo-nos com uma, mas à medida que a vamos descascando descobrimos níveis de interrogação cada vez mais densos e próximos da nossa verdade. Então, talvez a melhor forma de traçar um impacto positivo no mundo seja darmo-nos o tempo de encontrar essas perguntas e deixarmo-las atuar, porque nos concretizam na missão de sermos uma versão melhorada de nós mesmos a cada dia, tanto para connosco como para com o outro.  

Como nada sei e não se esgotam as perguntas que tenho feito e recebido, tal como Clarice Lispector, vou continuar a ser uma pergunta e, assim, escolher o amor real pelo incontornável embaciamento das vidas imperfeitas.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
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