O mundo inteiro detrás de uma máscara. Elemento doravante obrigatório, simulacro do medo, superfície acutilante que nos separa, inexoravelmente do outro, impedindo a simbiose e a partilha.

Boca e nariz ausentes truncam a identidade, sublinhando o olhar como dispositivo de vigilância e foco de toda a angústia.

Acontece, deste modo, a redução do que temos de mais singular – a uma homogeneidade orwelliana. Por outro lado, todavia, a máscara protetora projeta na superfície do rosto, sem subterfúgios ou artifícios sociais e de circunstância, a realidade dura e objetiva que testemunhamos.

Mais de que um mecanismo de dissimulação, como culturalmente nos habituámos a considerar, a máscara converte-se no símbolo assumido de, por um lado o expurgar da alteridade em nós, erigindo um muro, limitando a expressão, dificultando o diálogo, esse constructo tão caro ao desenvolvimento da cultura ocidental; por outro, da afirmação de um repli sur soi, de uma escuta interior que subitamente se impõe ao “ensurdecedor ruído do mundo”.

Neste sentido, à realidade pandémica, sanitária, eminentemente orgânica corresponde uma simultânea e paradoxal afirmação e apagamento do eu, numa asfixia atual defendida em nome de uma libertação futura.

Que marcas deixará no seio de uma cultura construída sobre e através da palavra? Que brechas abrirá no edifício milenar do logos? Que novas realidades imporá aos comportamentos, aos corpos e ao espaço social?

É facto que a máscara foi utilizada com diversos fins desde os primórdios da história humana, mesmo em situações sanitárias semelhantes, mas talvez seja inédita a consciência planetária da sua utilização e, sobretudo, a sofisticação no seu uso como elemento, a um tempo, sanitário e confinante.

Estaremos acaso testemunhando uma segunda derrocada de Babel? À lenta, mas certeira e progressiva anulação da diversidade? À inexorável imposição de uma voz única, surda e dissecada dos seus cambiantes singulares, retóricos, afetivos?

Certo é, porém, que a máscara, a sua existência ou inexistência, o radical absoluto que transporta, têm, curiosamente, precipitado a queda de muitas máscaras, desde a sobrevivência de um sistema económico que se reputava gloriosamente eterno, à hipocrisia e venalidade de um sistema democrático doente revelando a sua impotência quanto ao controlo do potencial destrutivo desse mesmo sistema.

Será, então, a máscara nesta definitiva entrada no segundo Milénio da nossa era, um símbolo de redenção ou de renovação? De simples sobrevivência ou de afirmação da vida?

Que máscara escolheremos doravante: a do “mundo onde já não existe rosto” ou, em oposição, a que substitui a velha pela nova realidade?

Os papéis que, até agora, representámos diante dos outros, já não bastam para, uma vez mais, dominarmos o terror da morte!  

Homem de Shurupak, filho de Ubaru-tutu, destrói a tua casa, constrói um navio. Abandona tuas riquezas, despreza os haveres, salva a vida! Transporta para a nave toda a sorte de semente de vida!

(da Epopeia de Gilgamesh)

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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