Há quase 11 anos, em abril de 2010, Alborosie, músico de reggae italiano, enchia o Teatro Sá da Bandeira. No mesmo ano, Gentleman, Matisyau e Groundation eram os principais nomes no cartaz do Sumol Summer Fest e uma maré de espectadores entoava as suas músicas em uníssono. O reggae ouvia-se um pouco por toda a parte, sobretudo nas gerações mais novas, e Portugal via crescer nomes como Richie Campbell, Bezegol e Xibata, e trazia a consagração de clássicos como a One Love Family. No ano seguinte, Nas e Damian Marley enchiam, também, o (na altura) Pavilhão Atlântico. 

Com o tempo, a febre jamaicana esmoreceu, mas deixou ficar aqueles que, de facto, se queriam manter ligados — e os que já antes estavam. Com a continuidade do Musa, festival que decorre em Cascais desde 1999, houve sempre um ponto de encontro, além das festas que continuaram a acontecer, mesmo que em mais pequena escala, e onde iam surgindo novos sounds [soundsystems]. 

Henrique Coutinho, co-fundador de Lion of Judah Radio e selecta (o nome para DJ na cultura jamaicana) de Lion of Judah Sound, que criou com o seu irmão Guilherme Coutinho em 2012 e 2016, respetivamente, foi passando por diferentes fases da expressão da cultura jamaicana em Portugal. Hoje com 23 anos, cresceu a sentir “uma ligação inexplicável” com os valores que via serem transmitidos nas músicas que ouvia, e encontrou a sua comunidade; o lugar onde se sentia bem. Em 2017, Joana Ferreira, bailarina de dancehall, juntou-se ao projeto como produtora executiva e, daí em diante, Lion of Judah ganhou novas camadas, identificando-se como um projeto de promoção da cultura jamaicana em Portugal. 

É nesse sentido que Lion of Judah organiza, pela primeira vez, um fórum de debate que se pretende debruçar sobre as “Perspetivas Portuguesas da Cultura Jamaicana”. Na mesa de debate digital juntam-se Henrique Coutinho e Joana Ferreira, enquanto moderadores, e Nuno Florencio, fundador e produtor Da Lion Music, o músico Jimi Jah, a bailarina e promotora Dyana Dua, e o selecta Don Andre. A conversa está marcada para o dia 16 de janeiro às 18h00, através de um direto no Facebook, a partir do evento.

Henrique Coutinho e Guilherme Coutinho são os fundadores de Lion of Judah

Uma reflexão de dentro para fora — e de dentro para dentro

Henrique e Joana têm organizado, recorrentemente, festas e outro tipo de encontros em que a música e a dança se podem juntar. A ideia de, pela primeira vez, organizarem um encontro que privilegia a reflexão surge “da instabilidade em que estamos atualmente”, que “não nos traz certezas de nada”, como conta Joana. À semelhança do que tem acontecido com outras áreas artísticas, os concertos, festas e outro tipo de eventos de reggae foram sendo cancelados ou passado para o online, e não tem sido uma fase fácil. Além disso, os tempos que viveram desde março de 2020, devido à pandemia da covid-19, trouxeram novas questões para Lion of Judah: “o que é que vamos fazer agora? Como é que podemos ajudar a criar alguma mudança para o futuro?”.

Dentro das ideias para o futuro, que começa já em janeiro de 2021, Joana e Henrique têm em mente a consciencialização para a criação de novos públicos e, quem sabe, a recuperação dos antigos. “[A cultura jamaicana] é muito completa, e a ideia do fórum surgiu da vontade de criarmos um elo de ligação de todas as vertentes que estão envolvidas e dar um pouco a conhecer as dificuldades que sentiram, ao mesmo tempo reviver coisas que já viveram, e que hoje não é possível”, conta Henrique. Joana acrescenta que esta é uma oportunidade para ouvir “seis pessoas diferentes”, mas também de “incentivar quem vai ouvir a ir pesquisar mais sobre o assunto”. 

Este fórum é, portanto, uma oportunidade de transmitir informação a quem está de fora, mas também de fortalecer a comunicação entre quem está por dentro. “É importante as pessoas olharem-se e falarem umas com as outras no sentido de se conhecerem. Conhecerem o trabalho umas das outras dentro da sua área; e ter noção daquilo que aquelas pessoas já conseguiram mudar ou iniciar o caminho da mudança”, diz Joana.

Henrique alerta para o facto de grande parte das pessoas que integram o movimento da cultura jamaicana em Portugal serem “apenas transmissores”. “Eu não nasci na Jamaica, os meus pais não são jamaicanos, não sou eu que vou guiar a cultura naquele sentido. Eu simplesmente quero pegar no que está a acontecer lá e trazer para cá”, comenta. 

Joana, para quem a música e a dança sempre foram “elementos essenciais” à sua vida, relembra que é importante, se não fundamental, “saber de onde é que as coisas vêm”. “Há muitas pessoas que sabem executar, mas não sabem a origem. Não sabem como é que aquilo começou a ser executado, qual foi a ideia por detrás do que está a executar, e que sentimento é que a pessoa que criou o que estás a executar queria transmitir. Isso, para mim, é uma lacuna que irá ser corrigida quando estes debates continuarem a acontecer e o dancehall também continuar a contagiar mais pessoas”, acrescenta.

Joana Ferreira, bailarina de dancehall, juntou-se a Lion of Judah em 2017

Para Joana, “é importante estar-se informado” sobretudo porque não se está “a falar do nosso país nem da nossa cultura”, “não é algo com que nascemos”. “Isso traz uma responsabilidade acrescida. Se queremos fazer algo com isto, temos de ser responsáveis e respeitar o que não é nosso mas que, por acaso, temos a oportunidade de promover da melhor forma que conseguimos.”

Uma “cultura que vive de vibrações inexplicáveis”

Neste período de pandemia, Henrique e Joana, tal como grande parte dos profissionais da cultura, tentaram adaptar-se às circunstâncias — ainda que com cancelamentos que se refletiram em prejuízos. As festas online têm sido a forma possível de juntar a comunidade, e Henrique confessa que “tem consumido muito”, porque é a “única forma” de se “manter ligado”. “Esta cultura vive muito de sensações, de vibrações inexplicáveis que acontecem sem uma razão; simplesmente sente-se”. Enquanto selecta, conta que, inevitavelmente, “o facto de não ter o público à frente faz com que nem sempre consiga ter essas sensações e a sinergia que ao vivo conseguiria”. 

“Esta cultura vive muito do entretenimento e das relações entre as pessoas. Quando tu estás numa festa ou num evento e tens quase todas as componentes que envolvem esta cultura, a tua energia é algo dentro de ‘eu estou aqui num sítio a viver uma coisa completamente diferente’, e tu mergulhas. É uma energia muito contagiante”, partilha Joana Ferreira. 

Dentro do contexto português, existe uma comunidade, “embora pequena”, que tem em comum o facto de seguir a cultura jamaicana — das expressões artísticas ao modo de estar. Ainda assim, Henrique sente que “as partes integrantes não estão nada unidas e é cada um por si”. “Há sítios pelo Mundo, inclusive na Europa, em que vejo pessoas de diferentes sounds [soundsystems] a fazerem coisas juntas, sounds a convidarem novos artistas, e, em Portugal, não acontece isso. Há singers que não se apoiam nos sounds de Portugal para os lançarem, o que na Jamaica, por exemplo, acontece. Por isso, acho que a cultura aqui não está a ir no sentido certo e há questões que são completamente desnecessárias, por exemplo alguém fazer uma festa ou lançar um som e pensa ‘não vou mandar isto para aquela pessoa porque é minha rival’, enquanto a cultura promove a partilha, a paz e o amor.” E é também para lembrar que “juntos vamos mais longe” que o Fórum vai acontecer.

No encontro que estão a preparar para o dia 16 de janeiro, Joana e Henrique procuraram reunir valências e perspetivas, mas também trazer testemunhos de vitalidade e resistência. “A Dyana, que é promotora e bailarina em Portugal, escolhemos por ser a única pessoa a desenvolver um evento de pequena-média dimensão só da cultura jamaicana, e por o fazer com a devida dimensão, tornando-o um evento necessário para a comunidade portuguesa que segue esta cultura. O DJ Don André convidámos por ser selecta, e também porque ele promove um evento que reúne o dancehall e outros estilos, na cidade de Lisboa, e vai ser muito importante ter a visão dele sobre o que se tem passado com a pandemia”, começa por explicar Joana. Henrique completa com informações sobre os restantes convidados do painel: “o Jimi Jah, que irá estar a representar os singers, foi escolhido porque tem uma visão muito própria e sempre apoiou esta cultura da forma certa. O Nuno Florêncio (Da Lion), que irá estar a representar os produtores de som, quisemos trazer por ser, neste momento, um dos produtores mais respeitados em Portugal, e que tem trabalhado com vários artistas de norte a sul do país, mas também com grandes referências internacionais.”

O que querem, daqui para a frente, é também ocupar os lugares menos óbvios. “Transformar isto num festival de 10 dias em Portugal, transformar isto a estar de alguma forma num teatro, na maior arena em Portugal. Falta crescer e começarmos a ocupar um bocadinho esses espaços, e, aí sim, eu acho que as pessoas vão voltar”, sugere Joana. 

“É preciso instruir e informar as pessoas da melhor forma para que se desmontem estereótipos e também consigamos, mais tarde, colher frutos e encher as salas que já estiveram cheias para ouvir reggae ou dancehall”, conclui Henrique. Abrir a discussão é um primeiro passo. 

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Texto de Carolina Franco
Fotografias de Catarina Teixeira

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