Estávamos em 2019 quando a precariedade no setor dos DJs nacionais já pairava no ar. Contudo, há males que vêm por bem. A chegada da covid-19 foi um desses casos para este setor da cultura. Com os sucessivos confinamentos e cancelamentos de espetáculos, nas casas noturnas, houve um movimento anónimo que se ergueu para reivindicar direitos e fazer frente à realidade pré-covid: O Movimento Piso Justo

Sem nenhuma entidade, associação ou financiamento envolvido, o Movimento Piso Justo pretende assumir-se como um espaço de debate, online. A ideia passa por, juntos, fazerem um mapeamento sobre quem é DJ em Portugal e descobrir, acima de tudo, em que condições trabalham estes profissionais. Condições essas, de acordo com um elemento deste movimento, “surreais”. O primeiro passo visou a aplicação de um questionário. O segundo passo passará pela alteração da “lei legislativa”.

O Gerador esteve à conversa com o Movimento Piso Justo para tentar perceber melhor a realidade precária destes profissionais. Ao longo desta, debatemos sobre a história do movimento, sobre a realidade pré-covid e sobre possíveis soluções para o setor, refletindo, ainda, sobre o novo plano de desconfinamento.

Gerador (G.) – No Facebook do PisoJusto lê-se o seguinte: “Somos uma força coletiva anónima e autónoma unida pela iniciativa de encabeçar a luta sem nenhuma entidade, associação ou financiamento envolvido”. Gostava que me começasses por contar como é que surgiu este movimento? Porquê a opção do anonimato?

Piso Justo (P.J.) – Isto começou de uma inquietação já de há anos. Há anos que, trabalhando no cenário, em Lisboa, ouvia uma troca de inquietações, de descontentamento.

Então, já era uma vontade do cenário se juntar, não como uma associação, mas para repensar quem nós somos como um todo. Essas inquietações recaem com a não oficialização da profissão. Por exemplo, quando nós pensamos numa casa noturna e em todas as pessoas que lá trabalham, achamos que está tudo afixado e assegurado, em termos de salários. Mesmo que à noite corra mal, toda a gente sai com o salário combinado porque são trabalhos calculados por hora. No entanto, os DJs, e as apresentações artísticas, no geral, são submetidos a dinheiros aleatórios e variáveis. Com isto, juntamos um grupo para questionar quem nós somos, como um todo, enquanto posição em Portugal e como poderíamos mudar a situação. A opção pelo anonimato é não querermos usar isso para alavancar a nossa imagem.

(G.) – Que objetivos gostavam de alcançar com este movimento? Neste seguimento, de que forma as pessoas se podem juntar a vocês? Qualquer indivíduo pode integrar o grupo?

(P.J.) – Nós temos um grupo virtual em que vamos debatendo coisas. Para o grupo funcionar, temos pessoas responsáveis por diferentes funções dentro dele. Há uma que está responsável pela parte técnica, outra pelo texto, outra por estatísticas… Ultimamente, até temos recebido muitas mensagens positivas e a dizer que nos gostariam de ajudar. Mas também recebemos gente que nos coloca críticas em relação às perguntas. Mas qualquer pessoa pode debater.

O nosso intuito é juntar uma massa que se conecte, quase como a ideia de ninguém solta a mão de ninguém.

Ao início, a ideia passava por fazer um questionário, ao nível de Portugal, para ver quem somos, como somos, quantos somos, como é que atuamos, como é que trabalhamos. Pensar quem somos, enquanto pessoas marginalizadas, pensar quantas somos mulheres, quantos somos homens, etc. O que nós queremos é fazer este levantamento.

Depois, vamos fazer toda uma base de estatística para entender quanto seria o nosso piso justo para começarmos a cobrar fixo. Quanto é que nós deveríamos ganhar enquanto trabalhador. Começar a exigir aos espaços que nos deem esse piso. Então, é uma iniciativa, na verdade, para empoderar os DJs e saber conectar com uma força coletiva.

Além disso, vamos ter um pdf a explicar tudo o que já foi feito e um possível estatuto de como deveríamos ser tratados, como um todo, como uma questão de conduta. Acho que pode ser interessante para motivarmos as casas noturnas a apoiarem-nos. É uma campanha para evoluirmos juntos.

(G.) – Ainda no Facebook lê-se que o “Piso Justo é o levantar do braço pelo mínimo de respeito, para quando não voltarmos exatamente ao que era antes pois o normal não nos era suficiente.” Podes falar mais um pouco sobre esta realidade pré-covid?

(P.J.) – A vida pré-covid era a única para podermos viver. A covid só veio criar uma ilusão de que é possível os DJs tocarem e as pessoas ficarem sentadas a bater palmas. Aliás, o questionário é sobre a realidade de 2019, em que não tínhamos nenhum piso. Agora, que já estamos quase nas 100 respostas, já começamos a ter uma ideia do panorama geral. Tivemos pessoas que referiam que recebiam 20 euros para tocar durante horas e outras pessoas que já chegaram a receber 400/500 euros.

Não temos uma estrutura, nem um parâmetro do preço que as casas praticam. É frustrante ter de ouvir, de diferentes casas, diferentes valores, e ameaças do género - se não quiseres, podes ir embora que nós arranjamos outro. Era sempre isso. Nós éramos obrigados a aceitar e não podíamos propor o nosso próprio salário. O nosso grupo é baseado em mudar a realidade pré-covid que não estava bem. Lembro-me de várias pessoas me perguntarem se estava ansiosa para voltar à realidade em que estávamos e a verdade é que não. Como haveria de estar? A realidade nunca esteve boa. Nós não queremos voltar ao mesmo… Nós queremos, sim, rever e melhorar tudo para revolucionar a realidade.

(G.) – No seguimento do que me contavas, sentes, então, que da panóplia de categorias que a cultura engloba, este setor, em específico, é um dos mais desvalorizados?

(P.J.) – Somos, sem dúvida, um dos mais desvalorizados. Poucas vezes nos são entregues recibos, por exemplo. Os teatros, por exemplo, são considerados órgãos, nós não. Claro que também vivem numa precariedade extrema… Também trabalho nessa área e sei bem as dificuldades que o setor enfrenta. Se pensarmos até na base, acho que ninguém está melhor que ninguém. Está tudo na precariedade.

Mas, pensando na vida noturna, essa ainda é mais desvalorizada porque muitas vezes é vista como entretenimento. As pessoas têm de entender que somos mais do que um adereço ou um anexo.

(G.) – Numa entrevista à Cabine afirmavas que “o projeto tem como missão combater a ‘precariedade atípica’ destes profissionais e lutar por um ‘cenário profissional mais justo para esta classe de artistas’. Na tua opinião, que passos, além da fixação de preços, deveriam ser dados para alcançar este cenário mais igualitário?

(P.J.) – Acho que o primeiro passo da fixação de preços é importante já que é uma mobilização dos próprios DJs. É quase como uma falta de força coletiva. Eu dou-te um exemplo, eu tinha uma fila de DJs que me ligavam dizendo que iam aceitar valores para espetáculos, como se tudo isto fosse um hobbie

Quanto aos próximos passos vai ser, sem dúvida, levar isso até ao sistema legislativo enquanto lei trabalhista. Isso pode ajudar a nossa força. Tal como pode ajudar as casas noturnas com trabalhadores mais regulamentados.

Mas sabes, eu até acho que este ano foi importante para vermos como funciona a segurança social, as finanças, como se trabalham os apoios… Mas vamos a ver! Eu tenho fé, mas sempre com um pezinho atrás.

(G.) – Recentemente, e como já me referiste, lançaram um questionário intitulado de “Campanha Piso Justo”. Os resultados deste estudo serão apresentados de forma totalmente transparente no verão de 2021, seguindo-se uma ação de consciencialização que procurará debater um cenário profissional mais justo para esta classe de artistas. Em que consistirá esta ação de consciencialização? Onde a pretendem aplicar?

(P.J.) – Vai ser uma consciencialização bastante online. Quer dizer, agora se as casas abrirem, provavelmente vamos apostar em cartazes, pedir às casas para divulgarem… Mas a ideia inicial é iniciar uma campanha online com um hashtag que vamos divulgar. A nossa ideia é mesmo que as pessoas nos procurem e se questionem quem nós somos.

(G:) – De acordo com o plano de desconfinamento anunciado pelo governo a partir de 3 de maio, serão permitidos grandes eventos exteriores e interiores, o que pode vir a incluir festivais. Sabendo que todos estes locais constituem grandes palcos para a atuação dos DJs, concordaram com a decisão de reabertura mais tardia?

(P.J.) – Concordar… A gente tem é de se conformar. Eu não tenho grandes críticas como o achatamento da curva está a ser feito. Aliás, eu até estou a achar interessante. Mas, sim, pensando na realidade em que podemos ter missa ao invés de teatros abertos é muito surreal. É literalmente interrogarmo-nos o que é a religião face à cultura? A não aglomeração é OK, o desconfinamento é OK. O que não deveria estar a acontecer eram os voos, as missas e os outros títulos que foram libertados antes.

Mas vamos para a reabertura.  Eu não consigo ver as pessoas sentadas, por isso de pé, de preferência.

(G.) – Enquanto essa reabertura não chega o online pode ser uma opção em vista?

(P.J.) – O online foi uma tentativa… Foi uma escapatória para dizer que continuamos aqui e que estamos a produzir coisas. Pensa assim, se nós já ganhávamos pouco na realidade, no online era mesmo irreal…

Texto de Isabel Marques
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