O Plano Nacional de Leitura (PNL), lançado em 2006, é uma estratégia nacional de elevação dos níveis de literacia da população portuguesa, considerando-a uma prioridade política.

Depois de 10 anos de intervenção, dividida em duas fases, com foco particular na população escolar, apesar da “evolução sustentada” das prácticas de leitura, “é, ainda assim, amplamente reconhecida a necessidade de um maior investimento”, lê-se no Diário da República (1.ª série, n.º 65, de 31 de Março de 2017). Desta forma, a nova etapa do PNL para 2017-2027 (PNL2027), sob a comissão de Teresa Calçada e Elsa Conde, visa, através de uma abordagem mais holística, “apoiar e fomentar programas especialmente vocacionados para o favorecimento e a integração social através da leitura, em diferentes suportes; a formação dos diferentes segmentos da população — crianças, jovens e adultos; a inclusão de pessoas com necessidades específicas; o desenvolvimento articulado de uma cultura científica, literária e artística; e, ainda, o acesso ao saber e à cultura com recurso às tecnologias de informação e comunicação”, lê-se na apresentação.

A sua concretização convoca o trabalho em rede, entre “as escolas, as bibliotecas, as instituições do ensino superior, os centros de formação, de reconhecimento, validação e qualificação, as unidades de investigação, as instituições de cultura, ciência e tecnologia e as autarquias locais”, assim como das famílias, continua.

O prazer da leitura

No princípio da palavra está o prazer. A acção do PNL2027 orienta-se a partir de dez objectivos, um dos quais é a promoção do gosto pela leitura, que é, na verdade, o seu impulso. O gosto é da ordem do particular, e a sua descoberta, que, no fundo, é uma auto-descoberta, é um caminho individual e íntimo, uma vez que se trata de um envolvimento afectivo. Porém, enquanto código exige uma aprendizagem que, para ser fecunda, deve ser prazerosa.

“A leitura não é um modo de estar que venha naturalmente no pacote, connosco. É alguma coisa que tem de se acrescentar ao pacote dos humanos. Portanto, exige aprendizagem e, nesse sentido, não deve ser escamoteado que há um código de aprendizagem da leitura e da escrita que tem de ser, esforçadamente, metodologicamente, aprendido. Eu costumo dizer (é velho não inventei nada) que não se nasce leitor. Os leitores têm de se fazer. Agora, temos de os fazer bem feitos e, por isso, é que a aproximação que não seja igual para todos é uma forma de fazer leitores”, refere Teresa Calçada. Não há que esperar pela escola para que as ferramentas para esta exploração de si e do mundo, que a leitura e a escrita permitem, sejam adquiridas. A casa é o lugar dos inícios.

Segundo o estudo “O que leem os nossos filhos”, publicado a 2 de Abril de 2020, sobre os hábitos de leitura das famílias portuguesas, promovido pela parceria entre o PNL2017, a McDonald’s Portugal e o Expresso, realizado a partir de uma sondagem da GFK, com uma amostra de 1004 pais e mães, com filhos e filhas com idade compreendida entre os 5 e os 15 anos, verifica-se uma relação de influência da primeira população sobre a segunda. 49% dos pais e das mães referem ter o hábito de ler livros, sendo que 67% destes e destas assumem que lhes liam, quando eram crianças, e 48% afirmam que tal gosto foi desenvolvido antes dos 10 anos de idade. 71% dos filhos e das filhas dos pais e das mães que têm hábitos de leitura, também os têm. 90% dos inquiridos e das inquiridas tem ou teve o hábito de ler para os seus filhos e filhas, sobretudo ao deitar. 68% destes últimos e destas últimas, lê regularmente.

De acordo com o mesmo estudo, há uma relação entre a leitura e a classe social, que, por sua vez, está relacionado com o nível de formação. Os pais e as mães com status social mais elevado leem com maior frequência. Perante as condições desiguais de partida, a escola pode ser uma plataforma de transformação social, de construção e defesa da democracia. “A nossa escola é uma escola que tem muitas diferenças nos alunos, que não são mais do que as diferenças da própria sociedade, e a nossa sociedade é uma sociedade muito diferente, socialmente. Infelizmente, para todos nós, nos últimos anos, algumas dessas diferenças não diminuem, mas acentuam-se. Então, a escola tem de ser inclusiva e, se não for a escola a dar essa dimensão humanista, se não for a escola a valorizar a questão do património literário, muitas vezes, as nossas famílias, por si só, não podem fazê-lo,” nota Teresa Calçada.

Pensando na importância da leitura “em trânsito” nos vários lugares do quotidiano, sobretudo na sua passagem para o interior da casa, o PNL retomou os programas “Leitura em Vai e Vem” — o qual “pretende consolidar e enriquecer práticas de leitura regular na Educação Pré-Escolar, convidando educadores e famílias a ler diariamente 10 minutos com as crianças”, às quais são distribuídas mochilas para o transporte de livros —, “Já Sei Ler” — semelhante ao anterior, mas destinado a crianças do 1º ciclo do Ensino Básico —, “Ler+ Dá Saúde” — que trabalha a relação entre a literacia e a saúde, envolvendo os profissionais desta última “na promoção de práticas e hábitos de leitura familiar”, em agregados com elemento(s) da faixa etária dos 0 aos 6 anos, “pela proximidade que têm com as famílias e pelo seu papel de promoção de comportamentos saudáveis, contribuindo para a tomada de consciência” destas últimas, “de que são o principal contexto de estimulação das crianças e que o seu envolvimento precoce com a leitura favorece o percurso escolar de sucesso e a maior qualidade de vida dos seus filhos”, lê-se no Relatório de Actividades de 2019.

Ana Cristina Luís, educadora de infância, confirma que, geralmente, existe uma maior proximidade com os livros, por parte das crianças, cujas famílias promovem este tipo de interacção em casa. Todos os dias, a educadora lê um livro em voz alta, e este momento é chamado a “Hora do Conto”. Ao mesmo tempo que lê, mostra as ilustrações às crianças, sendo esta uma forma de manter a atenção das mesmas. Seguidamente, abre-se uma conversa sobre a história, a qual também pode ser recontada, verbal ou graficamente, pela criança. A sala está dividida por áreas lúdicas. Cada criança pode escolher aquela a que se vai dedicar durante um determinado período de tempo. Dentro destas, há o “Cantinho da Leitura”, cujos livros são mudados semanalmente, muitas vezes, de acordo com a época do ano, ou mesmo, datas assinaláveis, o que também permite uma maior abrangência de conteúdos. Apesar de não saberem ler, “manuseiam os livros, recontam a história uns aos outros, imitando-me. Muitas vezes, é a repetição da história que li de manhã”, repara Ana Cristina.

Porém, consoante o/a jovem vai avançando nos anos de escolaridade, outras condicionantes se impõem, as quais têm implicação na sua relação com a leitura. Como é que é possível abrir espaço para esta procura pessoal, no modelo actual de ensino, em turmas com um número de alunos e alunas elevado, com um programa extenso para cumprir, que obriga a uma abordagem universal, sob um tempo rigidamente cronometrado? Maria Celina Caldeira, professora de Português e Literatura Portuguesa, do ensino secundário, identifica, precisamente, este problema. “Quando um aluno chega aos 14, 15, 16 anos, em princípio, em termos de leituras, já está desperto, e, não estando, será muito difícil, nesta altura, consegui-lo.” Reconhece que, o facto da disciplina que lecciona implicar leituras obrigatórias, não concorre para o entusiasmo na leitura. “Além da obrigatoriedade do programa, o Português é sujeito a avaliação externa, portanto a exame. É evidente que faço um esforço para atender à especificidade de cada um e tento, na medida do possível, auscultar os gostos deles. Todos os anos podem apresentar um livro, e, nesse aspecto, o meu papel é conduzi-los em função dos gostos.”

Para tal, o Plano Nacional de Leitura tem um catálogo de livros que recomenda, o qual é resultado de uma selecção criteriosa, que passa, numa primeira fase, pela escolha de editores, que se registam no Sistema de Informação (SIPNL) inserindo, no respetivo formulário, os títulos para apreciação e enviam dois exemplares de cada um, os quais serão analisados por especialistas, cujos nomes não são divulgados. Não o são “por razões de não serem incomodados e nós assumirmos que, a partir do momento em que os divulgamos, somos os responsáveis”, esclarece Teresa Calçada. Deste processo resultam duas listas, divididas semestralmente, estabelecidas de acordo com as idades e com o nível leitor. “Atenção, não são um cânone. Desejamos que seja, realmente, um instrumento que ajude a adequar livros ao leitor em causa, tentando, exatamente, não tomar todos como iguais. Sublinho muito, aqui, esta questão do nível de leitura, porque, às vezes, as pessoas e, nomeadamente, as famílias, não percebem isso, ou não percebem que isso é importante. Dás um livro de difícil leitura a um miúdo que tem um nível baixo de leitura, embora tenha a idade, e, claro, encontra tantos obstáculos… o que é que faz? Desiste.”

Para além de procurar olhar com os alunos e as alunas para os diversos caminhos de leitura de escolha livre, Maria Celina Caldeira costuma levá-los/as “à biblioteca e deixá-los conversar com os livros. ‘Peguem nos livros, folheiem-nos, cheirem-nos, sintam-nos, se acham que há ali qualquer coisa que vos atrai.’ Se não, podem sempre retomar outro. Digamos que, nesse aspecto, não sou rígida, precisamente porque percebo que o despertar do gosto pela leitura tem de partir de dentro. Às vezes, resulta com leitores muito bons. Mesmo que uma pessoa imponha, reagem muito bem. Mas, para a maioria, não é assim que funciona. É preciso entrar no coração deles. É preciso ter algum afecto e alguma emoção também.”

O tempo da leitura

Um outro adversário ao nascimento e cultivo do prazer é o tempo, o que também nos diz que o sucesso nos hábitos de leitura não se prende apenas com as famílias, nem com as escolas, mas com o próprio sistema. 61% dos pais que não têm hábito de leitura, em que um universo de 51% indica que o tempo é o principal factor desta realidade, e dos pais que o têm, 45% realiza-o com maior frequência nas férias. “Claro que a leitura, hoje, encontra muitos obstáculos, e aqueles que são mediadores da leitura e que têm a consciência do seu valor sabem isso. É mais difícil, porque a natureza da leitura envolve um tempo lento que não é o tempo do nosso tempo, envolve uma aprendizagem mais esforçada que não é premiada ad continuum. Vivemos um tempo muito rápido, em que cada estímulo exige como que um prémio, e só vamos para o estímulo seguinte se tivermos estrelas ou piquinhos ou uma dopamina. A leitura, pela natureza do objeto, não é igual a isto. É por isso que, muitas vezes, escrever, por exemplo, pode ser um estímulo para ajudar à permanência da leitura. Pode haver formas encontradas numa linguagem multimédia, que ajudem a não desistir de uma leitura continuada, porque o objetivo de fazer leitores (é disso que estamos a falar, não é de juntar letras) é compreender o sentido das palavras do texto. Essa compreensão leitora, que é o que faz o leitor, demora tempo, exige treino contínuo e crescente uso dessa capacitação. Parte do pequeno para o maior, do mais simples para o mais complexo, do linear para as metaleituras. Portanto, é um crescendo, que também não é diferente de qualquer atividade formativa, mas[AM1] mais lento e, nesse sentido, a leitura exige muito esforço dos professores, das famílias, dos que trabalham com esta, porque encontra, realmente, muitos obstáculos, muitos estímulos mais fáceis, mais aditivos, nos primeiros momentos. Este gosto, este prazer de ler, não é autoevidente para quem começa a ler. Depois, quando se ganha esse gosto, ele torna-se tão aditivo como outras actividades.”

Reflectindo sobre a realidade dos adultos, que parece passar quase exclusivamente pelas suas condições laborais, Teresa Calçada continua: “As condições de vida são duras. Sabemos que trabalhamos muitas horas. Não discuto, agora, a produtividade. E, o trabalhar muitas horas, envolve, aqui, horas de transportes, as horas de uma vida urbana agressiva, em particular para as mulheres, como é consabido por vários relatórios. Portanto, esta vida traz muitas exigências no quotidiano. É realmente falta de tempo, naquele sentido em que falta tempo, disposição e paciência. Essa noção de trabalhar muito, essa impaciência e este modo como a vida profissional entra pela nossa casa adentro é um perigo para as nossas vidas.”

Por outro lado, a comissária também chama a atenção para a forma como as famílias escolhem viver o tempo livre. “Muitas das nossas famílias não têm hábitos leitores, como os próprios inquéritos também demonstram e, portanto, não são exemplares. As próprias famílias não dão esse exemplo e, muitas vezes, não sabem como fazê-lo, nem se dão conta de que não estão a fazê-lo. Planeia-se uma ida verde a um jardim, ao museu, a um concerto, mas, muitas vezes, não se pensa que ir a uma biblioteca pode ser um plano cultural bom em família. Não se pensa em desligar os sons de uma casa e fazer um exercício de leitura coletiva, seja cada um com o seu livro, seja, até, ler em voz alta. E não precisam ser os pequeninos. Podemos, às vezes, ser nós. Portanto, está sempre relacionado com o tempo, com as tipologias sociais e com algumas modas e alguns algoritmos, que nos dizem como é que é bom gastar o tempo, o que é ‘coo’. E eu fico ali no meu meio, naquela aldeia que os algoritmos criaram para mim. Esqueço-me, ou ninguém me lembra, que há outros ambientes, alguns que vão ficando fora destas influências, destes influenciadores. Nesse sentido, a leitura é vítima, e, alguns de nós, temos de nos meter nesse mundo, para colocar, na hora certa, a leitura como uma forma de convivência, de aprender, de ser feliz, de estar com os outros, de nos conhecermos e de termos uma companhia, que está sempre presente, e ser capaz de dialogar com ela e de conhecermos o outro. Essa mensagem não é fácil, mas é urgente.”

No que diz respeito aos jovens e às jovens, Maria Celina Caldeira nota que o digital imprime uma experiência muito acelerada do tempo, que, na sua opinião, justifica a inexistência de uma evolução notória na relação dos primeiros com a leitura e a escrita, após o lançamento do PNL, no que diz respeito aos anos de escolaridade que lecciona. “Porventura, no 1º, no 2º e, eventualmente, 3º ciclo, e já com algumas reservas, acredito que seja possível algumas implicações directas do esforço que tem sido o Plano Nacional de Leitura, que é um projecto extremamente meritório, a todos os níveis, ao nível da literacia, da informação, de combate da própria desinformação. Não ponho em causa o Projecto. Sinceramente, no secundário, de forma geral, não tenho observado um impacto extraordinário, que se possa traduzir num incremento de alunos mais leitores e escritores. Como digo, neste nível. Os alunos, até ao 5º, 6º, 7º anos, antes de entrarem na adolescência, aderem muito bem à leitura, mas, neste momento, confrontam-se com o mundo digital. Não quer dizer que a leitura não se possa fazer em digital. Mas a leitura é um processo que implica muita solidão, muita paciência, e isso é um bocado contrário à adolescência. Portanto, é residual. Sou capaz de, numa turma, vamos imaginar, de vinte e cinco alunos, ter cinco bons leitores, o que não é o número que gostaria. A leitura confronta-se, hoje, com uma problemática que é a do ser e do estar, dos tempos que vivemos.” Para a professora, uma possível resposta poderia passar por novas propostas de habitar o tempo na escola, coexistentes com as curriculares, com as quais encontrassem um equilíbrio. “Há muitas imposições, muitas obrigações e poucas coisas por prazer. E a leitura é uma delas, e não entra nesta equação.” Neste sentido, partilha, como exemplo, uma práctica em que convida os alunos e as alunas a ter “sempre à mão um livro que não seja obrigatório”, no qual podem entrar nos intervalos ou nos feriados. Quanto à dificuldade de leitura integral das obras obrigatórias, o que faz com que grande parte dos estudantes e das estudantes recorra a resumos, reserva os primeiros dez minutos de aula para tal.

Na sua opinião, o prazer “tende, com o tempo, a desaparecer. Mais difícil do que fazer um leitor, é mantê-lo.”

O portal da leitura

Para além das sugestões de leitura, o PNL2027 disponibiliza, no portal online , uma série de instrumentos facilitadores da acção a que se propõe, junto das diversas comunidades que envolve. Um dos grandes objectivos é o reforço da aposta no digital, bem como do trabalho conjunto com outros ministérios, para além do da Educação e da Cultura, como o Ministério da Economia. “No plano da qualificação dos portugueses, ainda não chegamos lá, mas acredito que o plano estratégico, que está agora para sair, nos permita uma maior atenção, da parte dos parceiros, às questões da literacia. O problema da leitura e da escrita tem, hoje, aquilo a que se convencionou, no ramo, chamar ‘literacia’, e que envolve qualificações que estão associadas à empregabilidade, a produtividade, às formas de cidadania novas, que esta sociedade do digital implica e que gostaríamos de ver reforçadas. A diminuição da qualificação dos portugueses diminui a sua riqueza e, portanto, favorece factores de desigualdade e de empobrecimento.”

Neste sentido, a comissária expressa o desejo de construção de uma biblioteca digital, que não existe em Portugal, e recorda a importância dos recursos desta ordem, durante o período de confinamento, que permitiram que não se registasse uma redução dos níveis de leitura no país.

Sem preconceitos em relação ao digital, Teresa Calçada defende que, primeiro que tudo, há que estar a par da literatura sobre o tema e coloca-la à disposição das pessoas, de modo a que estas façam um uso esclarecido de tais ferramentas. Descrente da morte do papel, nota que “o livro que nós conhecemos, antes do digital, não é o livro, é a última forma do livro, pós-revolução industrial. Portanto, ele parte dessa premissa.”

“O que me preocupa, verdadeiramente, é que o valor da palavra se perca, se os homens perdem esse valor civilizacional, que é a palavra falada, a palavra escrita. O que é preciso é ter a consciência de que isso pode acontecer, em todas as sociedades, por razões várias, ou porque se queimam os livros, ou porque algoritmos os fazem menos valorizados, e, portanto, nos tornam mais bárbaros, menos críticos menos senhores de nós próprios. O que está sempre em causa, pode ainda estar mais em causa no tempo acelerado. Vivemos num tempo em que é muito fácil manipular a opinião, aceder ao entretenimento, porque vivemos numa sociedade muito fluida, em que formas mais simples podem ganhar o lugar das mais reflexivas. Porque, tal como noutras habilidades do ser humano, a leitura também é precisamente sempre informativa. É mais simples, mais complexa, mais elaborada, e pode haver, por exemplo, o perigo com as tecnologias digitais, de haver uma atenção excessivamente dispersa, o que, mais o tempo acelerado, nos leva a um grande abandono daquilo que exige reflexão.”

Teresa Calçada chama ainda a atenção para o erro constante em colocar a geração mais jovem como habitantes do mundo virtual e a responsável, por isso mesmo, pela perda do processo de leitura implicado no suporte papel. “Nós, os que não nascemos no digital, já o introduzimos na nossa vida. Somos todos menos leitores de livros continuados. Não são os nossos miúdos, somos nós. Somos nós que somos menos leitores. Portanto, vamos olhar para nós, vamos ter sentido crítico sobre as nossas acções e sobre o modo como somos o livro e damos o exemplo do uso do livro, porque, como nós sabemos, em Portugal, a família tem muita influência, embora haja outras formas de socialização. Portanto, é preciso que as famílias percebam que o problema da leitura não é ‘vai ler, eu vou para outro ambiente’, ou ‘isso é um problema da escola’. Não, é um problema nosso, porque há um problema societário. E, já agora, os média também nem sempre compreendem isto, ou cedem à tentação de, como isto é mais difícil, não se faz.” Porém, a escola “tem sempre um papel dupla e triplamente importante”, “porque uma das suas missões é não estigmatizar ninguém.  A leitura e a escrita fazem parte desse património, com que cada um deve sair da escola, sendo que muitos entramos na escola com um património muito diferenciado.”

*O artigo encontra-se ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia de Jerry Wang, via Unsplash