Na Rua de Machede, em Évora, há duas portas discretas que dão entrada para um espaço imponente. De madeira maciça, têm formas geométricas salientes e ornamentos de metal que contrastam com as rugas que o passar do tempo foi deixando a nu. Ao redor, o vão da porta é debruado a amarelo vivo, numa linha reta que se prolonga pelos contornos do edifício. Estamos no Alentejo, afinal de contas.

Ao lado, na parede branca que se estende em muro pela rua comprida, está uma placa de metal com uma espécie de listagem que anuncia atividades culturais. No fundo lê-se: “Associação Pó de Vir a Ser”.

Ao entrar, passamos por uma sala repleta, onde a abundância de objetos e móveis faz do percurso labirinto. Percebe-se que funciona como uma espécie de passagem, que permite aceder a um espaço descoberto. Lá, vemos esculturas, árvores, portões de ferro, paredes brancas manchadas e um chão de pedras irregulares. Por cima, o céu azul e raios de sol. Em frente, uma espécie de pátio comprido com imponentes colunas de metal alaranjado.  A estrutura cobre de sombra uma parede forrada a azulejo branco e suportes de ferro. Outrora, ali se penduravam animais mortos. Hoje vemos mesas de madeira e vitrines com obras de arte.

Foi há cerca de 35 anos que o paradigma mudou. O antigo matadouro municipal de Évora, inaugurado em 1886, estava fechado e ao abandono. O edifício, que durante um século serviu para centralizar a matança de gado, estava devoluto e servia ocasionalmente de armazém.

Este local emblemático estava a precisar de algumas intervenções, mas tinha potencial para acolher novas iniciativas. “Viemos ver o espaço com o vereador da Cultura na altura e interessou-nos imediatamente. Era exatamente o que andávamos a procurar sem saber bem o que era e o encontrámo-lo aqui. Ficámos com a chave e, no dia seguinte, começámos a trabalhar”, conta-nos Pedro Fazenda.

O artista faz parte do grupo de escultores ligados a João Cutileiro e que, em 1985, ocupou este espaço para fazer dele o Departamento de Escultura em Pedra. Nessa altura, integrávamos uma estrutura que havia - que não era única de Évora - que eram os centros culturais que estavam disseminados pelo país”, conta o escultor. “Portanto, nós integrámos o Centro Cultural de Évora, que existia desde 75 - já há dez anos - e que incluía a Companhia de Teatro, a Escola de Formação de Atores, Escola de Formação de Técnicos, Departamento de Vídeo, Fotografia enfim... tinha uma orgânica muito grande.”

Pedro Fazenda

Esta orgânica foi-se perdendo aos poucos, trazendo dificuldades na manutenção de uma estrutura que se tornava demasiado complexa. Os centros culturais perderam força e acabaram por extinguir-se sendo, em 1988, constituída a Cooperativa de Produção Artística, que substituiu o Departamento do Escultura em Pedra e se manteve até 2017. Houve um momento em que éramos os únicos a funcionar e, portanto, era uma estrutura muito pesada. Então, reconvertemo-nos na associação Pó de Vir a Ser - Departamento de Escultura em Pedra/Centro Cultural de Évora para manter sempre a ligação "ideológica" ou à atitude dos centros culturais”, diz Pedro Fazenda, atual presidente desta associação.

O foco principal era preservar a escultura em pedra enquanto elemento característico da cidade e região, criando um espaço onde estivessem disponíveis todos os recursos necessários a esta prática. “Era importante aproximar esta noção das pessoas”, diz Mariana Mata Passos, membro da direção da Pó de Vir a Ser.

“Acho que isso foi mesmo o primeiro trabalho: criar uma nova dimensão para se poder falar de escultura como uma coisa que nos interessa a todos e que passa muito por construir um programa à volta da noção de que todos podemos esculpir a nossa realidade”, diz a responsável que tem a seu cargo a coordenação das atividades do espaço.

Espaço de liberdade e possibilidade

O complexo de edifícios do antigo matadouro, pertencente à autarquia, tornou-se, assim, um lugar de possibilidades criativas. Ao passar os portões de ferro que dão passagem para as traseiras, vemos um novo espaço amplo, a céu aberto, onde as esculturas prontas se misturam com os trabalhos ainda em curso. As máquinas e ferramentas que vemos cobertas de pó de mármore são o que possibilita a tantos escultores vir desenvolver peças em residência artística.

Além das áreas de trabalho, também há zonas que são - ou eram, antes da pandemia suspender muitas atividades - utilizadas para outras ações como sessões de cinema ao ar livre, ou eventos culturais.

De acordo com Pedro Fazenda, já passaram por aqui cerca de 150 artistas, desde que o espaço foi inicialmente ocupado. A grande mais-valia da associação é possibilitar-lhes a liberdade necessária ao desenvolvimento das obras, fornecendo todos os materiais necessários: pedra, instrumentos de trabalho e tranquilidade. “O artista escolhe o que quer fazer e onde quer fazer e organizam-se as coisas neste sentido. O objetivo é não deixar instalar a estagnação”, diz o escultor.

A matéria-prima constitui-se sobretudo, de “sobras” de pedra, desperdícios sem valor comercial, sobretudo de mármore e granito. São obtidos através da parceria que a Associação Pó de Vir a Ser mantém com a Assimagra – Recursos Minerais de Portugal, que favorece a relação com as empresas de extração e transformação da pedra, permitindo a reutilização de materiais. O desperdício comercial que não tem valor é incomensurável em quantidade e em qualidade, sobretudo para o trabalho em escultura e para muitas outras coisas”, sublinha Pedro Fazenda.

Outro elemento que importa frisar é que neste espaço é dada prioridade ao talho direto da pedra. Ou seja, para que uma proposta de trabalho seja aceite para residência, a obra terá de ser esculpida pelo próprio artista. “Às vezes há cenas que são quase caricaturais, de um escultor de 40 anos que nunca tocou sequer em barro”, critica Pedro Fazenda, para quem o contacto direto é uma parte crucial de todo o processo de criação. “Uma escultura, sobretudo uma escultura em pedra, cria uma relação com o material. É um material muito específico e tem uma carga simbólica muito forte. A pedra é o primeiro material que a humanidade usou e com que fez construções, foi a sua primeira intervenção na paisagem”, diz o responsável. “Portanto, quando os artistas vêm para aqui é uma espécie de processo de reconstrução da própria legitimidade do trabalho artístico”, acrescenta.

Uma legitimidade que importa frisar já que, segundo explicam os responsáveis, a escultura em pedra acaba por ser o parente pobre das artes visuais. As dificuldades na obtenção da matéria-prima, no acesso às ferramentas necessárias e até o tempo que leva a executar uma obra são aspetos que acabam por desmotivar esta prática.  “Não é, digamos, a mais popular das artes”, frisa Mariana que, com isso, justifica a importância do trabalho de promoção e preservação levado a cabo pelo coletivo.

De matadouro a “criadouro”

A reconversão de um antigo matadouro em espaço artístico e cultural ainda gera curiosidade. “Costumo brincar e dizer que agora somos um 'criadouro'”, diz Mariana Mata Passos. Mas se para uns a ideia é poética, para outros é perturbadora a memória da morte de animais em pleno centro histórico. “Há artistas que, quando sabem que isto foi um matadouro, pura e simplesmente viram as costas e vão-se embora. Eu, pessoalmente, acho que isso é uma falsa questão, por diversas razões. Uma delas é que foi matadouro, mas já não é há 35 anos, portanto, mudou-se a função”, afirma Pedro Fazenda.

Fotografias via Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Évora

A desativação do matadouro municipal de Évora esteve relacionada com as próprias mudanças no mercado e com o aumento do consumo de carne, que obrigou a agilizar procedimentos e levar a matança para fora das cidades.

O escultor e fundador da associação diz que um dos motivos desta mística em torno do local prende-se com a forma como hoje encaramos a morte, com menos naturalidade. A relação que havia com a morte até aos anos 70 era muito mais clara. Conheci (e conheço) muita gente que trabalhou aqui e que vinha cá em criança ver matar. Era uma curiosidade normal, era aceite”, explica. “Hoje comemos tanta carne, mas ficamos muito impressionados [com a morte dos animais]. Ficamos muito preocupados com a forma comos bichos morrem, mas muita pouca com [a forma como] os bichos vivem”, diz o responsável.

No caso de Sérgio Carronha, o historial não incomoda. “Não vejo nenhum problema “energético”, na verdade sinto-me muito bem por poder estar aqui, no centro de uma cidade, a trabalhar em pedra”, afirma o escultor, que está em residência artística.

Sérgio Carronha

Sérgio encontra-se a desenvolver um “menir que tem uma forma de uma pinha, mais ou menos, feito de vários pedaços de mármores”, no que diz ser um retrato da identidade do território enquanto “aglomerado de partes”.  A sua experiência neste espaço, permite-lhe descrever o trabalho da Pó de Vir a Ser como “fundamental”, por todas as condições e aprendizagens que o mesmo lhe tem vindo a proporcionar. “Pode-se aprender muito. Há aqui pessoas muito especializadas, com conhecimento profundo muito sustentado e sai daqui toda a gente muito mais informada”, destaca o artista.

No que toca ao contexto do espaço, também Renata Bueno não sente qualquer incómodo. A artista brasileira, que está radicada em Montemor-O-Novo há cinco anos, iniciou o trabalho com a Pó de Vir a Ser em 2019, por via de uma residência artística. Desde então tem, além disso, colaborado com o coletivo em diversos projetos artísticos e culturais. “Não conhecia, mas logo que cheguei aqui fiquei encantada com as possibilidades deste lugar”, diz enquanto replica um dos trabalhos que tem vindo a desenvolver: desenhos “efémeros” feitos com uma peneira e pó de pedra.

A história do local não lhe causa incómodo, antes pelo contrário. A transformação acaba por servir de inspiração para os muitos trabalhos desta artista multidisciplinar. “Eu acho que este lugar é cheio de segredos e mistérios. E todo dia parece que eu venho aqui descobrir um lugarzinho novo, uma pedra nova ou uma cor nova. Eu acho que é um lugar muito estimulante para criar”, sublinha.

É que, além de conter pedaços da história recente da cidade de Évora, este complexo é atravessado por uma muralha fernandina, construída originalmente no século XIV e modificada no século XVII. Este elemento, que funciona como divisória das seções, é reconhecido como monumento nacional, o que até contribuiu para manter o espaço sob a alçada de uma organização cultural. “De certa maneira a muralha defende-nos [das pressões imobiliárias], mas não completamente. Isso também é uma luta política, digamos assim, no sentido de as pessoas valorizarem”, diz Pedro Fazenda.

Renata Bueno

(O Gerador tentou obter declarações da Câmara Municipal de Évora, mas não foi possível obter resposta em tempo útil)

A criatividade como meio para esculpir narrativas

Além da prática da escultura em pedra, a Pó de Vir a Ser promove uma série de iniciativas e projetos que têm as artes como elo de ligação entre território e comunidade. Aqui, o próprio processo de escultura é quase uma metáfora do trabalho que a associação desenvolve com as pessoas.

Uma destas iniciativas denomina-se “NÓS: primeira pessoa do plural” e foi desenvolvida em parceria com a IPSS MetAlentejo – Associação para o Bem-Estar Psicossocial na Comunidade. Está inserida no Projeto Intermunicipal de Inclusão pela Cultura, promovido pela Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central.

Nesta prática experimental, de inclusão pelas artes, pessoas com experiência de doença mental participam semanalmente em sessões em que são levadas a cabo atividades criativas assentes na partilha. Artistas, beneficiários e mediadores culturais juntam-se às sextas-feiras no antigo matadouro, onde convivem e criam livremente.

O Gerador esteve numa dessas sessões, onde todos são tratados pelo nome próprio, sem que seja indicado qualquer contexto de cada um. O que importa mesmo são as ideias e a partilha que se materializa em práticas criativas conjuntas. Aqui não há estigma nem preconceito. A ideia é promover a autoestima e a inclusão e melhorar as relações interpessoais enquanto se colabora numa atividade criativa ou artística que pode ser desenho, pintura, escultura ou outra. No fim, dá direito a chá, biscoitos e conversas no pátio.

Patrícia Claudino, terapeuta especializada que acompanha as atividades, explica que “participar num processo destes faz com que se abram caminhos para acontecimentos que podem ter um impacto grande na vida das pessoas e que muitas vezes não são evidenciados”. Quer isto dizer que o impacto do trabalho desenvolvido durante os dez meses da iniciativa não é mensurável, já que é diferente para cada um. Apesar disso, é indubitavelmente positivo. “[É necessário] compreender o que vai mudando ao longo do tempo e o que vai sendo construído na narrativa da vida da pessoa, simultaneamente com o processo criativo”, diz a responsável.

“O que se consegue perceber é que a vivência de um processo eminentemente criativo faz com que a pessoa se familiarize com processos de decisão que não são fechados”, explica. “Isto, psicologicamente falando, pressupõe um exercício que é muito importante do ponto de vista emocional. É confrontarmo-nos com as nossas limitações e, em algum momento sermos capazes de dizer: “Consigo ou não consigo? Não importa, faço.””, acrescenta Patrícia Claudino.

As benesses das sessões semanais são sentidas não apenas pelos participantes, como pelos membros da equipa e os artistas em residência, que muitas vezes se juntam a eles. “É muito importante para a Pó de Vir a Ser este movimento de emancipação, de usarmos uma prática artística como metáfora para a tomada de posição, para a ação”, diz Mariana Mata Passos.

Mariana Mata Passos

A responsável sublinha a importância do trabalho desenvolvido em comunidade com mais um exemplo: o projeto de prescrição cultural que está a ser desenvolvido em colaboração com os “interlocutores do território”, “os interlocutores de saúde” e “os agentes culturais” da região. A iniciativa insere-se num programa mais vasto denominado Transforma, que está a ser promovido pela Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central, e inclui os 14 concelhos do distrito de Évora. A ideia passa por aproximar as várias entidades, ouvir os entendimentos de cada uma e encontrar uma metodologia de forma a que seja possível “prescrever cultura ou práticas culturais aos utentes que respondam a determinados critérios de elegibilidade”, explica.

Tudo isto é feito e trabalhado de forma a fazer da arte - particularmente da escultura em pedra - um elemento que possibilita a união e o apoio comunitário e que vai transformando as narrativas que cada um constrói ao seu redor. “Acho que as pessoas não são a escultura, acho que são escultores da realidade”, diz Mariana.


Texto de Sofia Craveiro
Fotografias de Daniel Filipe

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