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POC, uma doença que rouba tempo e qualidade de vida

Maria, João e Manuela, todos eles nomes fictícios, são os rostos, ainda que ocultos, desta reportagem. Não dão a cara, mas fazem ouvir as suas vozes, através das suas histórias e vivências com uma doença tão esgotante e punitiva como a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC).

Ilustração de Frederico Pompeu

Pode dizer-se que nunca antes se falou tanto sobre saúde mental. Que a sociedade evoluiu e as mentes estão cada vez mais abertas a compreender as doenças do foro psicológico. Contudo, há ainda um longo caminho a percorrer e, prova disso, é o anonimato escolhido por todos os entrevistados que sofrem ou já sofreram de uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), nesta reportagem.

Exatamente por isso, serão contadas três histórias, de rostos escondidos. Ecoarão três vozes, ainda a medo do que os outros possam eventualmente pensar e das repercussões no trabalho, vida familiar ou grupo de amigos. Três realidades diferentes, que se unem num ponto comum: a POC. A matemática pode ser simples, mas a doença é diametralmente complexa.

“Acho que, no caso da POC, as pessoas não compreendem, porque reagem como se fossemos atrasados mentais, nesse aspeto”, reflete Manuela (nome fictício). “Para as pessoas, sou a cismada. Criticam e não entendem. Nem querem perceber”, completa a jovem administrativa.

João (nome fictício) tem uma perspetiva distinta. Acredita que houve uma progressão positiva da forma como a sociedade olha para este distúrbio. “Hoje em dia, já não há o estigma que havia. A doença mental tem sido tão debatida, que já está muito banalizada”, afirma, explicando que prefere não revelar a identidade mais “por uma questão de conforto”. “A POC passou a ser uma doença da moda e, portanto, toda a gente tem”, acrescenta.

Uma linha ténue

Todavia, não é assim tão simples. Afinal, apesar de todos, de forma mais ou menos consciente, fazermos rituais considerados obsessivos, a linha entre o que é ou não visto como uma perturbação obsessivo-compulsiva é ténue. “Existem algumas manifestações parecidas com a POC que fazem parte do funcionamento normal das pessoas”, sublinha David Neto, psicólogo especialista nesta patologia. E dá as superstições, a organização da secretária em determinada ordem ou a confirmação de uma porta fechada como exemplo. “Desde que isso não seja muito consumidor de tempo ou muito perturbador”, é “um indicador positivo”, adiciona.

Quando as horas perdidas ou a ansiedade provocada são excessivas, estaremos, sim, perante este distúrbio. “A Perturbação Obsessivo Compulsiva é uma doença psiquiátrica caracterizada pela presença de obsessões e compulsões. As obsessões são pensamentos (ou, às vezes, imagens) que surgem contra a vontade da pessoa e que provocam uma ansiedade e um sofrimento brutais. É esta ansiedade que a leva adotar comportamentos, ou também pensamentos, que são absurdos e repetitivos: as compulsões”, define Pedro Morgado, psiquiatra e vice-presidente da secção "Perturbação Obsessivo-Compulsiva e perturbações relacionadas" da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPS).

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da American Psychiatric Association, algumas das dimensões dos sintomas mais comuns são “as de limpeza (obsessões por contaminação e compulsões por limpeza); simetria (obsessões por simetria e compulsões de repetição, organização e contagem); pensamentos proibidos ou tabus (p. ex., obsessões agressivas, sexuais e religiosas e compulsões relacionadas); e ferimentos (p. ex., medo de ferir a si mesmo ou aos outros e compulsões de verificação relacionadas)”.

Origem multifatorial

E o que poderá estar por trás desta patologia? “Existem vários fatores de risco, mas não sabemos exatamente o que é que causa a doença”, clarifica Pedro Morgado. Ricardo Moreira, também psiquiatra e presidente da mesma secção da SPPS, acrescenta: “Não existe uma causa única identificada, mas sim um conjunto de fatores que podem contribuir para o aparecimento da doença”. “A presença de alguns aspetos da personalidade (ex: traços ansiosos ou obsessivos), bem como a presença de algumas distorções cognitivas (ex: o perfeccionismo ou o excessivo sentido de responsabilidade), podem predispor ao aparecimento desta patologia”, destaca.

No caso de Manuela, este último ponto poderá ser a explicação da sua doença. Depois de casar, saiu de casa dos pais para ir viver com o marido e era a última a fechar a porta antes de irem trabalhar. “Uma coisa, era quando morava em casa dos meus pais: eu saía e sabia que estava lá sempre alguém. Outra coisa, era estar sozinha e saber que não tenho ali ninguém. Se correr mal, vai tudo à vida”, pensava. Com medo de perder a sua casa, a jovem de 35 anos começou a fazer verificações de forma compulsiva. “Confirmava se fechei a porta, se desliguei o ferro, se tinha o fogão desligado. Sabia que estava desligado, mas tinha de ir ver se estava realmente desligado”, conta, explicando que verificava tudo o que pudesse causar perigo, repetidas vezes: “Eu ia para trás duas, três, quatro vezes, até que a médica me aconselhou a tirar fotografias. Mas, mesmo tirando fotos, ia para trás três, quatro vezes depois de as tirar. Porque depois surge aquela pergunta «E se? E se não vi bem?»".

Ilustração de Frederico Pompeu

Acompanhada pela atual psicóloga, conseguiu deixar de concretizar estes rituais. Porém, quando nasceu a primeira filha, que tem já 7 anos, a POC evoluiu para uma preocupação extrema com a sua saúde e a dos seus familares, verificando possíveis sinais no corpo que lhe pudessem indicar ter uma qualquer doença grave. “Quando sentia alguma coisa, começava a cismar até conseguir um exame médico. Só quando o fazia é que ficava tranquila”, revela. “Uma vez, acreditava que tinha qualquer coisa na garganta. Cheguei ao ponto de não conseguir beber água. Sentia dor”, recorda.

O nascimento da filha terá estado, desta vez, na origem dos rituais de verificação. Ricardo Moreira explica que “a ocorrência de um evento significativo/traumático”, como a “sujidade/contaminação e limpeza numa mulher após o parto, por preocupação excessiva com a saúde do filho ou após a pandemia”, é outro dos factores que pode estar associado à POC.

Predisposição genética

Por outro lado, “existe um componente hereditário relevante nesta patologia”, salienta. Sabendo disso, Manuela tem receio do que poderá acontecer às filhas. “Tenho muito medo que elas tenham alguma coisa que seja transmito por mim, por me verem. E, ao mesmo tempo, estou muito atenta. Se noto algo de diferente nesse aspeto, vou logo ajudá-las de pequeninas, porque não quero que vivam o que eu vivo”, diz. “No início, quando tomava banho com a minha filha, estava a ver [o meu corpo]. Como ela era muito pequenina, começou a imitar-me. A partir daí, parei na hora. Nunca mais fiz à frente dela”, revela.

David Neto, psicólogo, clarifica: “há todo um conjunto de regras, valores e crenças que passam de pais para filhos que depois estão, muitas vezes, presentes na POC”, como as questões do controlo ou da limpeza, que “podem ser apreendidos com a família, seja por aprendizagem de valores, seja por observação”.

Essa predisposição genética associada à perturbação obsessivo-compulsiva pode ser encontrada na família de João, uma vez que o seu irmão, 9 anos mais novo, e a sua prima também sofrem deste distúrbio. “Ele começou também pelos 14, 15 anos, e foi muito rápido. A minha prima também tem e está a ser tratada”, refere.

Contudo, apesar de admitir que a questão genética poderá ser uma das razões que explicam a sua doença, o economista lisboeta não quer ter um motivo externo para o seu distúrbio. “O que pode ter espoletado isto? Foi abordado ao de leve [nas consultas]. Nunca tive grande preocupação em saber. Nunca foi uma coisa que me intrigasse muito, até porque não queria arranjar uma justificação para ter. Eu tenho. Ponto. A culpa não é de ninguém”, frisa.

Já Maria (nome fictício), considera “frustrante” não o saber, mesmo que, em conjunto com a psicoterapeuta, tenha procurado descobrir a resposta. “À partida, será porque, talvez, muito inconscientemente, acho que há algum perigo”, afirma.

Lavar a ansiedade

Ilustração de Frederico Pompeu

É deste modo que a jovem de 25 anos tenta explicar as lavagens repetidas e frequentes das mãos, assim como os atos de evitar tocar em superfícies e pessoas. Mas não deixa de sentir que a origem da sua doença é uma incógnita. “À partida, limpas uma coisa, porque está suja - eu uso o termo sujo, mas não é porque acho necessariamente que está sujo, é porque não há uma palavra melhor para usar -, mas, no meu caso específico, não limpo por estar limpo. Mas também não limpo por estar sujo. Por exemplo, alguém tocou [em alguma coisa]: vou morrer por tocar em alguma coisa em que alguém tocou? Não. Se eu acho isso? Não acho. Só se for muito, muito, muito, inconscientemente. Nunca me passou pela cabeça, de forma consciente, «alguém pegou nisto, por isso, se eu pegar também, vou morrer. Ou se eu pegar também, vou ficar doente»”, declara.

A dificuldade em indicar uma razão para a origem da POC assemelha-se à de tentar perceber quando tudo começou. Maria aponta para a fase em que frequentava o ensino básico, mas não consegue afirmá-lo com certeza. “Nunca sei falar muito bem sobre o início, porque sinto que foi algo que me passou muito ao lado, sinceramente. Acho que um dia tinha uma vida normal e outro dia estava a lavar as mãos milhares de vezes, por motivos que não faziam sentido. Ou seguidas”, reflete.

Tal como no início, esses rituais são, agora, tão espontâneos que, por vezes, nem se apercebe de que os faz. “Apesar de já ter passado muito tempo, de fazer terapia e tratamento, estas coisas, para mim, são muito naturais. Às vezes, apenas tenho noção que lavo as mãos muitas vezes, porque fico com elas em ferida. E só aí é que tenho noção real de que «ok, estou a exagerar». Se calhar antes não tinha reparado - apesar de ser uma coisa que estou a tentar controlar -, porque já é tão normal que é automático”, afirma.

Não tão automático é o raciocínio que faz para lidar com outros sintomas que não a lavagem das mãos. O seu cérebro - como é comum nos doentes com POC - não para e uma cadeia de pensamentos surge abruptamente, por exemplo, quando tem de tratar da roupa: “Se for apanhar a roupa do estendal, apanhei, guardei nas minhas coisas, mais ninguém mexeu. Teoricamente, no meu mundo, está limpa. Mas alguém a pôs no estendal. E eu sei disso, porque não sou estúpida. Não foi lá parar por magia. Mas consigo viver com isso. Noutro cenário, alguém a apanhou, pousou-a não sei onde e foi passá-la. Já estragou tudo. Mesmo que eu não veja”, explica, perguntando-se “Qual é a lógica disto?”.

Horas e horas roubadas pela POC

João também teve rituais relacionados com contaminação, ainda que tenha tido “um bocadinho de tudo”. Desde os 13 anos, altura em que espoletaram os primeiros sintomas de POC, o economista de 40 anos tomava longos banhos que o faziam, por exemplo, chegar atrasado às aulas. “A minha casa, na altura, tinha três casas de banho: uma na zona da cozinha, que era a que ficava mais perto da porta, uma a meio do corredor e outra no fundo da casa. Eu tomava banhos em cada uma delas antes de sair de casa”, descreve, e acrescenta: “Acordava e ia tomar banho. Tomava um banho de hora e meia, na primeira. Depois, passava para a seguinte, na qual demorava cerca de 40 minutos. E, por fim, tomava banho, na terceira. Aí, uma meia hora já bastava. Só depois é que ia para as aulas”.

Isto significa que, no secundário, raramente chegava antes das 11h da manhã à escola. “Os professores sabiam que havia algo que não estava bem. Basicamente, eu tinha uma espécie de declaração médica que lhes dizia que aceitassem as justificações, para não chumbar por faltas. Caso contrário, não teria passado ano nenhum”, conclui. "Com a minha mãe havia o acordo: faltas às aulas, mas tens de ter média superior a 16 em todas as disciplinas. «Ok, tranquilo, não há problema». Como lhe apresentava as notas, ela justificava as faltas. Foi a minha forma de conseguir dar a volta”, esclarece.

Ilustração de Frederico Pompeu

Porém, este não era o único ritual a roubar horas de vida a João. Não apagava as luzes das divisões da casa, porque a escuridão estava associada a algo negativo e à morte; não gostava de alguns números, como os terminados em 6 ou 4, o seu dia de anos, uma vez que “ter nascido não era uma coisa boa e, portanto, o quatro não era uma coisa boa”; se passava por uma lomba ou buraco, perguntava-se se não teria atropelado alguém e, para garantir que não o tinha feito, dava voltas com o carro pelos mesmos sítios, várias vezes; ou não calcava a tijoleira de casa, apenas as carpetes, pois algo de mal poderia acontecer. “Tinha de fazer quase triplo salto”, comenta.

Além disso, na altura em que foi para a faculdade, chegou a regressar a casa a meio do caminho. “Quando ia apanhar o comboio - na altura, morava em Oeiras e ia estudar para a cidade universitária -, lembro-me que, - na altura, falava-se muito sobre a SIDA e que havia muitos mendigos com essa doença a circularem por dentro do comboio -, se me cruzava com algum, já não chegava à faculdade. Voltava para trás. O que tinha na mochila ia para o lixo, virava os apontamentos do meu primeiro ano no contentor do lixo e a roupa ia toda para lavar. E mal chegava a casa começava com o ritual dos banhos todos outra vez”, relembra.

Nos momentos mais duros, procurou negociar com a própria POC: “Pensava «eu já não consigo fazer isto, então se eu não fizer isto e fizer aquilo, pode ser?»”, conta, acrescentando: “A patologia tem uma característica muito punitiva. É uma parte que nos castigamos a nós mesmos. Parece que tempos uma dívida qualquer que temos de saldar permanentemente”.

Uma vida de desassossego

Claro que tudo isto tem um impacto brutal no dia a dia de quem sofre deste distúrbio e rouba-lhe, não só tempo, como qualidade de vida. “Eu não vivo, eu sobrevivo. Desde que me levanto, até que me deito, estou sempre com medo de alguma coisa. Às vezes, até nem sei de quê, mas estou com medo. Às vezes, tenho medo apenas por estar bem, porque, depois, pode surgir alguma coisa má”, confessa Manuela. “Não consigo tirar prazer de nada, porque estou sempre preocupada com alguma coisa”, adiciona.

Maria chegou a pensar: “Para mim, talvez fosse mais fácil se não soubesse. Talvez não fosse considerado até uma doença. Se achasse normal tudo o que faço, não atrapalharia a minha vida. Simplesmente fazia”. “Eu podia lavar as mãos 30 vezes por dia. Se achasse isso normal, se não estivesse em sofrimento por causa disso. Se calhar, para as pessoas de fora, que não fazem isso, pensariam «é doida», mas, no fundo, «quem és tu para me dizer o que é normal?». «Porque é que lavar as mãos 30 vezes não é normal, se não atrapalhar em nada a minha vida?». Só que, claro, a uma dada altura, vai inevitavelmente atrapalhar, porque tens de parar de fazer outras coisas para fazer aquelas”, declara.

A exaustão e frustração que a doença traz, chega, por vezes, a traduzir-se em pensamentos suicidas. “Até aos 18, dos 13 aos 18, morava perto da estação de Oeiras e, muitas vezes, passava horas na plataforma da linha do comboio: «é para este que salto ou é para o próximo». Era extenuante. Tive várias cartas de suicídio escritas”, revela João.

Mas não é o único. Um estudo de novembro de 2020, intitulado “Suicide attempts and suicidal ideation in patients with obsessive-compulsive disorder: A systematic review and meta-analysis”, concluiu que 1 em cada 10 pacientes com POC tenta pôr fim à sua vida, enquanto 1/3 tem constantes pensamentos suicidas.

Uma mão profissional

É por isso que o apoio psicológico é tão importante nestes casos. “Comecei a ser acompanhada no último ano da universidade, nos serviços da faculdade”, recorda Maria, que não contou aos pais que tomara esta decisão, adiando essa conversa para quando foi colocada em cima da mesa a possibilidade de começar a tomar medicação para ajudar no processo. “Pensei que isto já estava a atrapalhar demasiado a minha vida, que ia começar a ter ainda menos controlo do que já tinha e, por isso, estava a tentar parar, para ver se não ficava pior do que já estava”, completa.

No entanto, a jovem tinha já sintomas há alguns anos, pelo que o processo de tratamento acabou por ser mais moroso.

“Os estudos sugerem que os doentes esperam muito tempo (vários anos) até decidirem procurar a ajuda de um médico ou de um psicólogo”, elucida Ricardo Moreira. Isto “faz com que na prática clínica seja muito mais frequente encontrarmos casos moderados/graves do que casos ligeiros”, remata.

Então, quando se deve iniciar o acompanhamento? “Os principais sinais de alarme são a presença de elevados níveis de ansiedade e de comportamentos exagerados, repetitivos e ritualizados que vão persistindo ao longo de semanas/meses e que vão consumindo cada vez mais tempo da vida da pessoa em causa”, explica o psiquiatra. Assim, mal sejam notados estes indícios, um profissional de saúde deve ser contactado para que o tratamento comece o mais rapidamente possível.

Principiado o acompanhamento psicológico, o médico irá ensinar diferentes técnicas ao paciente, adaptando sempre a terapia a cada caso. João utilizou várias estratégias, como a racionalização, através da criação de uma prova por A+B que aquele pensamento intrusivo não faz sentido, ou o exagero até tornar a obsessão ridícula. “Houve ainda uma fase em que pensava - e pode parecer uma coisa muito infantil, agora - «eu tenho de fazer isto, não posso fazer aquilo». A Dra. Sofia [a sua psicoterapeuta] virava-se e dizia «Faz. Se acontecer alguma coisa, a culpa é minha. Eu responsabilizo-me». Parece muito estúpido, mas o facto de alguém te estar a tirar a culpa ou a responsabilidade, ajudou”, refere.

Também em consulta, Manuela aprendeu que deveria dizer ao seu cérebro para adiar fazer determinada verificação. Pensar “logo vejo”. “A doença, para aparecer, é um caminho reto. Para a curar é um caminho de cabras. Por isso temos de treinar, treinar, treinar, até o cérebro [desconstruir o pensamento obsessivo]”, nota.

Já Maria fez uma lista com os seus rituais e avaliou, de um a dez, o sofrimento que lhe causavam, para posteriormente dar início ao processo de exposição. Depois dessa análise, começou por batalhar contra o que associava a uma angústia menor: colocar o cinto, no carro. “Se não puser o cinto, consigo não me encostar para trás. A partir do momento em que tiver de pôr o cinto, vou ter de me encostar. Ou seja, há uma maior parte de mim que vai estar em contacto com um ambiente que não controlo e que não posso limpar. Sobretudo se for verão, porque vai tocar em mais partes de mim que não sejam roupa”, esclarece.

Ilustração de Frederico Pompeu

Porém, a colocação do cinto, além de obrigatória, como é relembrado no site da Prevenção Rodoviária Portuguesa, poderá minimizar ou evitar traumatismos graves em caso de acidente. Maria sabe-o, conscientemente, mas o seu cérebro percebe o perigo de forma diferente e irracional. “No meu mundo de fantasia, por algum motivo, isso não é tão importante”, diz. “No fundo, tenho uma perceção - que não é 100% verdade, porque eu sei que é perigoso - e o meu cérebro percebe o perigo das coisas de forma desproporcional. Aquilo que devia encarar como maior perigo, não encaro”, termina.

Ir)racionalmente pensando

É neste jogo consciência vs inconsciência que a doença vive. “Pelo menos eu - e sei que muitas outras pessoas -, tenho plena consciência de que não faz sentido. E a partir do momento que sabes que uma coisa não faz sentido, que está a atrapalhar a tua vida e que não a queres fazer, mas continuas a fazer, qual é a lógica? Qual é a justificação?”, questiona-se Maria.

João corrobora esta ideia: “Sempre tive consciência do que fazia. Mais ninguém tomava banho de quatro horas. Todos nós sabemos que não apanhamos HIV por respirarmos no mesmo espaço que alguém que o tenha. Mas há uma parte do nosso cérebro que diz «e se». E aquela percentagem infinitesimal que qualquer pessoa diz «não existe», na nossa cabeça atinge uma proporção estratosférica”. “De facto, é uma loucura. Mas é uma loucura consciente. Porque sabemos que aquilo que estamos a fazer não faz sentido. Como é que eu, por não fazer determinada coisa, ou não apagar a luz, ou tocar três ou quatro vezes numa coisa, vou evitar que haja um tsunami no Japão? Quer dizer, não somos omnipotentes. Parece que temos uma espécie de complexo de deus, [porque achamos] que conseguimos evitar determinadas catástrofes ou determinadas coisas, quando não temos controlo nenhum. Por isso é uma loucura, porque não conseguimos evitar fazê-lo”, observa o economista.

Um regresso à “normalidade" possível

Contudo, com o apoio dos familiares e acompanhamento psicológico é possível conseguir efetivamente evitar fazê-lo. O jovem de 40 anos é prova disso.

Foi diagnosticado ainda bastante novo, mas todos os profissionais de saúde disseram-lhe que nunca conseguiria abandonar as obsessões e compulsões. “Dos 13 aos 24, todos [psicólogos e psiquiatras] disseram-me que isto não tinha cura e que era algo com que teria de viver. Poderia melhorar, poderia piorar, mas ia ser sempre assim”, conta.

Saltou de psicólogo em psicólogo, de psiquiatra em psiquiatra, de medicação em medicação, e esteve mesmo perto de ser internado, mas foi apenas quando começou a ser acompanhado na associação Domus Mater - fundada em 2003 por um grupo de pais e amigos do doente obsessivo-compulsivo, quando sentiram que não encontravam, nem respostas adequadas por parte do Estado, nem equipamentos devidamente estruturados onde pudessem recorrer com urgência e que se adaptassem à sua realidade - que as suas perturbações e compulsões chegaram a um fim.

Com a ajuda da Dra. Sofia Santos, diretora técnica na instituição com cerca de 600 sócios e psicoterapeuta especialista em perturbações obsessivo-compulsivas, ao fim de nove meses, já não tinha rituais, nem obsessões. “Ela disse-me «tens cura» e, a partir daí, para mim, é como se tivesse ouvido «eu consigo livrar-me [desta doença]»”, revela.

“É uma doença tratável e é possível levar uma vida perfeitamente normal. A par com a capacidade do profissional em dar as ferramentas necessárias para vencer a doença, a vontade do paciente em lutar contra a POC tem um papel muito preponderante para o sucesso”, refere Sofia Santos.

E João queria recuperar a sua vida. “Temos de ter uma coisa: força de vontade. Predisposição para sofrer, porque no pain, no gain (numa tradução livre, “não se consegue nada sem esforço”). E a família é muito importante. Tenho consciência que só consegui melhorar, porque tinha a minha mãe e os meus avós. Teres um bom psicólogo ou um bom psicoterapeuta é extremamente importante, mas eles não estão 24 horas por dia contigo. Por exemplo, eu tomava banho e a minha avó chegava a fechar-me o gás. Eu acabava com água fria, porque tinham de me impor limites. Chegava sair do banho a chorar, porque não conseguia sair lá de dentro”, lembra.

Em números

Estas três histórias não são únicas quando falamos de perturbações obsessivo-compulsivas. Entre 2 a 3% das pessoas, a nível mundial, sofrem desta patologia. A nível nacional, este valor era, de acordo com um estudo epidemiológico de 2012, ligeiramente mais elevado: cerca de 4% da população portuguesa foi diagnosticada com POC, o que significa que aproximadamente 400.000 pessoas têm esta doença. 400.000 pessoas que já ouviram, muito possivelmente, um “és maluquinho”, “és uma cismada”, “este sofre da cabeça” e outras palavras despropositadas, quando, ao invés, “é preciso ter uma atitude que valide e respeite a pessoa que tem esse tipo de problemáticas”, finaliza o psicólogo David Neto.

Contactos e serviços disponíveis

Se sentires que precisas de ajuda ou conheces alguém nessa situação, podes recorrer a vários serviços fidedignos:

DOMUS MATER
218 406 187
domusmater.org

LINHA SAÚDE 24
808 24 24 24
Horário: Todos os dias 24 horas/dia

SOS VOZ AMIGA
21 354 45 45
91 280 26 69
Horário: diariamente, 16h00 – 24h00
sosvozamiga.org

VOZES AMIGAS DE ESPERANÇA DE PORTUGAL
222 030 707
Horário: 16h00 – 22h00

TELEFONE DA AMIZADE  
222 080 707
Horário: 16h00 – 23h00

VOZ DE APOIO
225 506 070
sos@vozdeapoio.pt
Horário: 21h00 – 24h00

SOCIEDADE PORTUGUESA DE PSICANÁLISE
300 051 920
Horário: dias úteis, 08h00 – 24h00

LINHA CONVERSA AMIGA
808 237 327
210 027 159
Horário: dias úteis, 15h00 – 22h00 | fins de semana, 19h00 – 22h00

FUNDAÇÃO NOSSA SENHORA DO BOM SUCESSO
211533854
Horário: dias úteis, 10h00 – 13h00 e 14h00 – 18h00

Texto de Inês Aparício
Ilustrações de Frederico Pompeu

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