Há cerca de dois anos, Mia Tomé, uma jovem atriz, sonhadora e amante de uma boa conversa, de 26 anos, estreava o seu primeiro podcast “Querem Drama?” a convite dos The Broad. Um programa recheado de humor com convidados das várias áreas do setor da cultura. Áreas essas como a música, o cinema, a televisão, ou mesmo, a literatura. Ainda assim, este programa tem um formato pouco convencional, já que tem a particularidade de ter como fio condutor o teatro e muito drama nele envolvido.  

O tempo passou e o que Mia não adivinhava é que o podcast se viria a tornar um sucesso a nível nacional. A prova disso é o convite, por parte do Canal Q, para emitir o seu podcast, agora, em versão televisiva. A emissão arranca para o ar todas as quintas-feiras, pelas 22h00, a partir do dia 15 de abril.

Apesar dos percalços iniciais com o som, via zoom, o Gerador esteve à conversa com Mia Tomé para tentar conhecer mais de perto este projeto. Ao longo da conversa, Mia refletiu sobre o conceito do podcast, o fascínio pela voz e pela rádio, o bichinho pelo teatro, e falou, ainda, sobre o “recomeço” na vida de apresentadora televisiva.

Gerador (G.) – Gostava que me começasses por contar como é que surgiu este teu podcast do “Querem Drama”? Porquê a escolha deste nome para o programa?

Mia Tomé (M.T) – O podcast existe há dois anos, mais ou menos, num formato só de áudio. Portanto, está só nestas versões de podcast. Agora vai ter uma versão televisiva, curiosamente, também dois anos depois.

O podcast surgiu de um convite que me fizeram. Na altura, foi a The Broad, que disponibiliza alguns podcasts, e achei uma ideia gira. Pensei no conceito e no conteúdo, e, como sou atriz, fiz algo ligado à minha área com muito drama. Então, fiz aí o trocadilho do drama e do dramático. Eu também sou uma pessoa dramática, às vezes. Então, o Querem Drama vem daí, dessa pequena ligação com o teatro. Depois, o podcast tem sempre essa ligação do fio condutor do teatro como base.

(G.) – Neste caso, foi-te dada a opção de criares um podcast em formato áudio. Imaginando que, agora, terias a liberdade de escolher outro formato voltarias a escolher, unicamente, o formato áudio? Neste seguimento, sendo a voz o teu instrumento de trabalho que importância tem, esta, para ti?

(M.T) – Eu gosto muito de trabalhar com a voz. É dos meus trabalhos favoritos. Por isso, o formato áudio é sempre uma coisa que me interessa muito. Mas a televisão, neste caso em específico, também se vai fazer em áudio. O som também é tudo. Acho que a televisão me veio trazer outras coisas ao programa, nomeadamente a imagem que não existia. Adoro a equipa com quem estou a trabalhar, o José Ricardo Lopes, realizador do programa. Ele é incrível e conseguiu dar a imagem que eu imaginava a partir da voz. Quando escutamos o podcast ou a rádio nós temos tendência a imaginar na nossa cabeça e a criar imagens da cara das pessoas. E acho que o Zé, em conjunto com a outra equipa, conseguiu criar a imagem que idealizava.

Portanto, se tivesse de escolher, acho que não iria conseguir escolher porque estou muito feliz com a hipótese de o programa estar na televisão porque traz outras coisas. Mas, lá está, só a voz, dá-nos esta capacidade de imaginar. Eu sou uma ouvinte fascinada pela rádio e, só de a ouvir, traz-me outros estímulos.

(G.) – O programa “Querem Drama?” oferece conversas de humor e convidados de áreas distintas, por exemplo, da área música, do cinema, ou da televisão. Um aspeto curioso é que as conversas contam sempre com o fio condutor do teatro, como disseste. Sendo tu uma jovem atriz sentes que, através deste recurso teatral, consegues despertar uma maior atenção dos ouvintes?

(M.T) – Eu gostava que sim até porque um dos conceitos do programa é não ter convidados que sejam do teatro para poder falar sobre o teatro com pessoas que não são da área. Como perguntaste, e bem, pretendo dar algum estímulo às pessoas que ouvem, para não fazer ser aquele ping pong e a conversa ficar fechada. Eu não queria que a coisa ficasse limitada a pessoas da área. Eu quero falar com músicos, com artistas plásticos, escritoras para poder perguntar quando vão ao teatro, que salas frequentam, etc. Eu tenho essa curiosidade.

Por exemplo, sobre os ouvintes que ouvem o programa, tive algum feedback positivo sobre isso porque são sempre referidos espetáculos que estão em cena ou que já tiveram em cena. Aliás, uma das perguntas que faço sempre vai ao encontro da frequência dos espaços culturais. Neste caso, qual foi o último espetáculo que viste e qual foi o espetáculo que mais te marcou. Este tipo de perguntas põem sempre no radar os espetáculos. É essa a minha ideia. E tive algum feedback positivo relativamente a pessoas que ouvem e espero continuar. É uma forma de continuar a espalhar a vontade de ir às salas.

(G.) – Destas conversas há alguma que te tenha marcado de uma forma particular?

(M.T) – Sim! Normalmente eu termino a conversa e penso que esta foi a melhor. É sempre tão fixe e enriquecedor. Ainda por cima, adoro conversar, então penso muito sobre isso.

Houve uma conversa com o Hugo van der Ding que me marcou. Já que é uma pessoa especial, e cheia de universos, e um artista que vai a muitos lugares. O teatro também está muito presente na vida dele, então foi, assim, um vulcão de coisas que ele partilhou. Ele tem uma cabeça muito interessante, então lembro-me que fiquei particularmente entusiasmada com essa conversa.

Outra conversa foi com a Joana Bértholo. Conversar com a Joana Bértholo é sempre incrível. Ela é escritora, mas também está ligada ao teatro e já escreveu para teatro. Então, conversar com ela é um mar de coisas que considero mesmo preciosas. Lembro-me de que, quando acabei de falar com ela, fiquei a pensar na sorte que tenho de poder partilhar estas coisas e dar a partilhar também.

(G.) – Depois de dois anos em formato áudio nas plataformas de podcast, "Querem Drama?" ganha novo formato televisivo no Canal Q. À pouco já me falaste sobre isto vagamente, mas como é que recebeste a notícia? Era algo esperado?

(M.T) – Não, não era esperado, de todo. Agora, falando da minha carreira de atriz, eu sempre fui o patinho feio, no sentido em que nunca fui muito aceite na televisão. Por isso, não estava mesmo à espera. Aqui, o que se passou foi que o canal Q comprou alguns podcasts e decidiram incluir o meu nessa compra. Disseram-me que isso estava a acontecer e perguntaram-me se eu tinha interesse. Lembro-me de que fiquei muito entusiasmada com a ideia. Era pôr mais uma camada ao que já existia.

Fotografia da cortesia de Mia Tomé

(G.) – Nesta lógica, procuraste manter o conceito original ou houve alguma readaptação do podcast ao meio televisivo?

(M.T) – Eu estava, sim, um bocado preocupada com como iria ser… O áudio dá-nos a imaginação, mas depois, na prática, tive de pensar como iria transformar isto num programa de televisão. Volto a dizer que foi fundamental o trabalho de toda equipa do Canal Q. Eles foram incríveis a ouvir o que pensava, e muito disponíveis para ouvir o conceito do programa, para tentarmos encontrar um termo que funcionasse para todos. Portanto, tive algumas conversas com a produção, muitas conversas com o José Ricardo Lopes e trocámos referências. Eu mandei-lhe imagens que achei que fizessem sentido para o cenário. O Zé, na altura, tinha sugerido um teatro para fundo, mas eu sentia que não queria bem uma plateia com tanto dourado. Queria algo que fosse mais industrial e que nos lembrasse a sala estúdio que nos remete muito a espetáculos com experiência. Lembro-me de que, na altura que estudei em Nova Iorque, tive a oportunidade de ir a alguns espetáculos off-broadway. Eu gostava sempre de ir àquelas salas estúdio. Sempre mais underground e que tinham uma vida mais emergente. Então, tentámos pôr isso para o cenário. Não tenho nada contra as salas douradas, até porque adoro, mas não era desafiante. Isto resolveu-se com muito cuidado, com muita escuta e com muito trabalho deles.

(G.) – O que nos podes adiantar destes primeiros programas televisivos?

(M.T) – Vamos receber o Martim Sousa Tavares, Samuel Úria e a Inês Faria. São alguns nomes para deixar água na boca.

Fotografia da cortesia de Mia Tomé

(G.) – Para as pessoas que, ainda, não te conheciam e querem agora começar a ouvir o teu podcast por onde o podem encontrar?

(M.T) – Podem ouvir os episódios de áudio em todas as plataformas de podcasts. Se quiserem começar a ver a versão televisiva vai, já, para o dia 15 de abril. Um programa semanal, todas as quintas, às 22h30.

(G.) – Pensando mais além, o que gostavas, ainda, de alcançar com o podcast “Querem Drama?”

(M.T) – Eu gostava de fazer uma tour com ele e de fazer alguns episódios fora do estúdio. Por exemplo, um episódio em Madrid, outro em Nova Iorque… Mas a pandemia também nos limitou muito isto e tem mesmo de ser em estúdio.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Mia Tomé