Já a vislumbrar o futuro próximo, livre de restrições, é preciso refletir sobre o que se seguirá aos estados de “alerta”, “calamidade”, “emergência”…  Tudo o que vivemos alterou a consciência que temos do mundo, mostrou que estamos interligados e evidenciou o quanto a arte nos faz falta.

I.

Cuidar e apoiar são ações que ganharam nos últimos meses maior visibilidade, reconhecemo-las nas esferas da saúde e da ação social, porém, têm igual enquadramento no âmbito da cultura: sem livros, espetáculos, cinema ou exposições, a vida torna-se insipida, “sem graça”.

É verdade que a cultura salva, cuida do bem-estar das pessoas, dá esperança e contribui para a redução dos estados de ansiedade e solidão. Creio que muitos já se questionaram sobre como sobreviveríamos a futuros confinamentos, e à perda, sem a ajuda da música, da literatura, do teatro, da artes, nas suas múltiplas formas. Na verdade, somos mais felizes porque sabemos que os locais de património resistem e perduram! Que os teatros estão abertos, as bibliotecas, os centros culturais, os museus estão abertos.

Justamente, a responsabilidade de manter os equipamentos culturais nacionais abertos é simbólica e é tácita, e resulta do compromisso das políticas culturais com os cidadãos. A abertura destes equipamentos revela determinação e resiliência, constituindo-se estes indicadores — de confiança, de segurança, de estabilidade — como essenciais para o reconhecimento da relevância da cultura no sistema social.

Em plena crise e com exigentes normas de contingência, os equipamentos culturais são capazes de acolher os públicos, de adequar as suas rotinas aos novos horários ou gerir as equipas de acordo com as necessidades ditadas, sempre com a vontade de estar presente, mostrando que são uteis àqueles que servem seguindo uma linha de ação que “cuida”.

A resposta à questão que dá título a esta crónica: “Pode a arte ser útil?’” foi, em alguns casos, o lema para a concretização de projetos, desenvolvidos e implementados diretamente com as comunidades. De resto, estas experiências co-criativas, que seguiram o princípio de construir “com” e não “para”, revelaram-se adequadas ao contexto inédito que vivemos e capazes de promover relações autênticas de colaboração e confiança.

II.

Inspirada pelas pessoas que levam as artes e a cultura aos lugares mais distantes e aos contextos mais adversos, gosto de pensar que por força deste período que vivemos é possível encontrar alternativas, como alterações na mobilidade, na produção, no consumo ou no trabalho.

Esta possibilidade de imaginar um outro futuro para o planeta exige coragem para reequilibrar prioridades e necessidades, desejos e expectativas, direitos e deveres. Imaginar esse futuro alternativo implica acreditar que o podemos fazer coletivamente, envolvendo grupos onde a voz do cidadão está bem presente, e nisto é essencial um pensamento divergente e inclusivo, vindo dos cidadãos ativos, criativos, visionários, a gizar vários planos, várias ações, várias vozes.

Agrada-me também projetar que no rescaldo da pandemia não voltamos ao local de partida. Desenhar um plano com a escala necessária para chegar aos contextos de maior complexidade. Neste plano vejo especificamente a importância do papel dos artistas na construção da estratégia e da ação, no terreno, junto das pessoas, valorizando as artes e a criação, com os consequentes impactos sociais. Imagino um projeto amplo e transnacional, com equivalente investimento na produção, na participação, na fruição e na educação.

É justamente em situações desafiantes como esta que vivemos que deixamos claros, nas decisões que tomamos, os princípios e os valores com que nos regemos e o que queremos para a nossa comunidade, assim, no futuro que desejamos e que já estamos a construir, a arte é um bem útil e de primeira necessidade.

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
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