O que é exatamente?

Podemos começar por dizer que se trata de um caso sério de “poesia de proximidade” que acontece todas as segundas, por volta das 22h, no Povo, um restaurante/bar que fica na rua cor-de-rosa, no Cais do Sodré, em Lisboa. Passo a explicar, pelas palavras de Alexandre Cortez, mentor do projecto: “no Poetas do Povo falamos daquilo que está próximo das pessoas, para que elas sintam que fazem parte daquilo, e por isso nós temos o microfone sempre aberto no final de cada sessão”. Com Alexandre, está Nuno Miguel Guedes, host das noites do Poetas do Povo.

Cada sessão cumpre geralmente um formato simples, com duas partes, em que a primeira é dedicada à declamação de poesia por parte de alguns convidados e a segunda está aberta ao público. A acompanhar as performances existe sempre música. E uma boa dose de assumida informalidade, “quase de dessacralização da poesia”, tendo como convidados desde estudiosos de literatura a pessoas comuns que têm apenas o gosto pela declamação de poesia, trazendo assim “um conjunto de convidados diversificados que possam apresentar leituras diferentes do tema da sessão”, e apostam que é daí que vem o sucesso.

Na verdade, o ambiente que ali se sente no Povo é caloroso e convidativo, quase familiar. “Hoje em dia, tendo em conta a multiplicidade de meios que nos entretém – precisamos assim tanto de estímulos? – a poesia foi colocada um bocadinho mais para último plano e, agora, quando surge, aquilo que nos traz é a proximidade, algo que nos vem sendo retirado por todos os novos meios de comunicação que nos isolam.” E lá, a entrada é livre.

Alexandre Cortez e Nuno Miguel Guedes.
Porque é que decidiram falar sobre este tema?

Chego ao Povo por volta das 22h de uma segunda-feira. Não uma segunda-feira qualquer, mas o dia em que o Poetas do Povo, projecto coordenado pelo Alexandre Cortez e pelo Nuno Miguel Guedes, celebrava o número redondo das 250 sessões. Isto trocado por outras palavras é o mesmo que dizer, mais coisa menos coisa – porque não coincidiu exatamente na sessão 250ª – que se celebrava 5 anos de existência. Tinha sido avisada que o espectáculo só começava às 22:30h, mas ainda assim achei melhor chegar mais cedo para conhecer o outro lado do Povo, levada pela curiosidade de assistir à transformação do espaço de divertimento nocturno para lugar de intelectuais amantes de poesia. Havia de perceber mais tarde, é certo, que um e outro continuariam a ser o mesmo e que isto de “metermos” as coisas que não conhecemos em gavetas é tão humano quanto limitador.

Ainda com a ideia de assistir à metamorfose do espaço e, já sentada, comecei por pedir alguma coisa para beber. Tiro uma agenda onde tenho alguns apontamentos e logo me perguntam se sou uma das convidadas para dizer poesia naquela noite. Fico surpreendida com a pergunta mas depressa percebo, pela conversa que tenho com o rapaz do bar, que qualquer pessoa como eu podia estar ali como convidada. Conta-me ele que numa das últimas sessões, uma das mais concorridas que se lembra, o tema, em torno da activista brasileira Marielle Franco, levantou todo o tipo de vozes. E pensei que, de facto, até eu teria algumas palavras a dizer.

Passando uma vista rápida à minha volta, tentando imaginar como seria essa sessão, percebo que estou num espaço que se estiver cheio, como ele me diz, ainda pode levar umas boas dezenas de pessoas. Entretanto, ainda perto de mim encontram-se vários estrangeiros e muitas canecas de cerveja. Ri-se alto. Parece um autêntico british pub bem ao estilo português. Já do outro lado do bar, é mais vinho. É lá que está o microfone e que se encontram as pessoas reunidas à espera que comece a sessão o que, por volta das 22:30h, se cumpre. O host do Poetas, o Nuno, abre as hostes à “festarola” que estava para acontecer.

Pedem-se aplausos, fazem-se agradecimentos e fala-se em celebrar a poesia sem fronteiras, sem contenção, deixando o apelo para que os presentes se inscrevam para ir ao microfone. Ali, como se sublinha, a palavra é de todos. E para todos, acrescentaria eu. O primeiro poema dito, “Alguns gostam de poesia”, fala precisamente disso, da relação que se pode ter com as palavras. No final ouvem-se muitas palmas e até os estrangeiros, querendo fazer parte da festa, atiram uns “Bravo! Bravo!”,  como se entendessem tudo aquilo que acabava de ser dito. O nosso português. E não se iriam ficar por ali.

A sala estava cheia, com pessoas de todas as idades, homens e mulheres. Muitos estão sentados, alguns de pé e outros ainda descontraidamente no chão. Há quem prefira ler com o telemóvel e quem ainda opte pelo papel. Como Rita Baldaya, umas das participantes assíduas. Para essa noite, Rita levava o “Poema Inacabado” sobre amor, sobre desencontros e um tanto erótico. As palavras saem-lhe o tempo todo com um sorriso. Também ela e não apenas o seu poema em constante sedução com as palavras. A boca aproxima-se do microfone. É tudo muito orgânico, muito sentido. E o humor, outro amigo que vai estando sempre presente. Ali, se tivesse que apostar, é tudo muito mais para rir do que para ficar sério. Por isso há até quem queira antecipar a vez para ir ao microfone dedicar um poema à namorada e que lhe roube mais gargalhadas do que qualquer lágrima.

Espalhados pelas mesas contam-se, para além de muitos copos, livrinhos e folhas de rascunhos.

Ainda durante a primeira parte os estrangeiros voltam a entrar em cena. Um dos senhores do grupo, provavelmente o mais velho, diz em inglês uns versos que contam uma história castiça da sua terra-natal. Não houve como não rir com toda a sua boa-disposição, nem como deixar de comentar a “diversidade que tão bem caracteriza o Poetas do Povo”. Isso e a típica frase “não tenho nada preparado”, uma das mais ouvidas ao longo das 250ª sessões, garante Nuno. Só que ali, que se pode ler até poesia de outros, isso não pega. E é sobre isso que Cristina, umas das vozes que foi até ao microfone, fala. Da necessidade de comunicar, de dizer poesia, ainda que seja através das palavras dos outros. Até porque “fazer poesia, boa poesia, não é nada fácil”. E pelo microfone, até ao intervalo, falar-se-ia ainda dos anos 80, da necessidade do derrube de fronteiras, do bem que faz à cidade a existência daquele projecto. Sussurrando-se e gritando.

É durante a pausa, que aconteceu às 23:30h, que as pessoas podem aproveitar para se inscrever. Tão fácil quanto irem ter com o Nuno e darem-lhe o nome que ele aponta numa lista. Foi nessa altura, mais de convívio, em que muitos aproveitam para sair e apanhar ar, que conheço o José Anjos, o primeiro host do Poetas. O Alexandre já me tinha falado sobre ele, por isso não podia deixar de perguntar aquilo que estava a achar daquela noite, se ia participar ou não, e responde-me que sim mas que ainda não sabe se vai levar algo seu ou não, “no momento logo vê.” Surpreendo-me com tal descontracção. “O José Anjos por ter sido o primeiro host do Poetas tem uma relação muito especial com o projecto. E depois, como tudo, temos convidados que se preparam muito bem para as sessões, e outros que não, ou porque dominam muito bem o assunto ou porque acham que deve haver mais informalidade e vão ao telemóvel buscar os poemas na hora.”, diz-me depois o Alexandre. Com o José Anjos tenho ainda tempo para falar sobre os 5 anos do Poetas do Povo e conta-me que antes do Poetas, nada disto havia em Lisboa. Só no Porto. Que assim foi durante muito tempo porque aqui, enfim, “somos mais snobes”. O que me deixou a pensar, mal começava ainda a segunda parte e já se pedia algum silêncio.

Nuno Miguel Guedes a apontar os nomes de quem arrisca ir ao microfone.

A componente da actualidade, daquilo que se vive hoje, aqui e agora foi estando sempre muito presente. Como quando dois homens, num diálogo improvisado, levaram o nome de Lula a ecoar naquela sala. “Lula!”, gritaram entusiasticamente. Como quando alguém, uma profissional da área da saúde, fez questão de destacar a importância da cultura levantando a questão da actual crise do sector. Há ainda tempo, para além da língua inglesa, de se dizer poesia em castelhano. E ouve-se no final: “Isso é muito bonito, eu entendi-te! É sobre a importância da poesia.”.

E entre idas ao microfone, Nuno vai trocando comentários com o público, o seu público. E eu vou me apercebendo que há quem vá à Igreja para orar e que depois há quem venha aos Poetas fazer o mesmo, do seu jeito.

O que mais se destaca?

Ao Povo não se vai só para ouvir dizer poesia e, com isto, digo que se vai também para ouvir boa música. A Lisbon Poetry Orchestra, banda que se formou no âmbito do Poetas do Povo, é exemplo disso. Muito por influência do percurso pessoal de Alexandre, como o próprio reconhece, marcado por uma carreira musical como membro dos Rádio Macau e pela pertença a alguns projectos de poesia como o Word Song, o Social Smokers e até o Festival Silêncio. “No caso do Povo, mais uma vez, achei que a música podia permitir outro tipo de leituras da poesia, porque a música quando associada à palavra pode transportar-nos para um imaginário diferente. Claro que também podem dizer qua a música pode influenciar o sentido daquilo que se declama mas para mim só acrescenta, só vem dar outra força às palavras. Mas nem sempre nas nossas sessões isso resulta. Às vezes os declamadores estão tão concentrados que nem estão a ligar à música que está por detrás mas, quando resulta é quando acontece um diálogo entre a música e a poesia e isso é extraordinário.”,  diz-me.

O contrabaixo é um dos instrumentos musicais habituais nas sessões.

Retomando a ideia de poesia de proximidade, é impossível não ver a relação intimista que cada sessão estabelece com o público. Não é só pelo microfone livre, que já levou pessoas a estrearem-se na declamação de poesia e inclusive a proporem-se hoje a participar noutros sítios, mas é também o ambiente que ali se cria, muito acolhedor, que propicia a cumprir a ideia de permuta que o Alexandre me falava inicialmente e que consiste em “dar e receber das pessoas, de uma forma muito descomprometida”. O que por vezes se reflecte no espírito de iniciativa do público habitual, que chega a propor temas para sessões, algumas até que já chegaram a acontecer. E ouvi-lo, ao público, não podia ter dado melhor resultado, sendo que duas dessas sessões, uma sobre Fernando Pessoa, chamada “Os pessoas”, e outra sobre Bob Dylan e Leonard Cohen, foram das que mais adesão tiveram. Tudo isto, sem esquecer o novo livro da Lisbon Poetry Orchestra, à venda em quase todas as livrarias, uma vez que se trata de mais uma forma de pôr a “mexer” as pessoas e de torná-las parte da acção.

A boa disposição é visível na mesa habitual dos convidados.

O livro vem com dois CD, um com instrumental e outro com os poemas declamados, em que é suposto que, por cima do instrumental, as pessoas experimentem dizer os poemas escritos. Com páginas em branco entre os vários textos, pretende-se que o dono do livro também desenhe e escreva nele. Para eu perceber melhor, o Alexandre mostra-me o dele, já personalizado, deixando escapar algum jeito para a ilustração. “Olha, vês? Isto aqui são desenhos meus. E isto que colei é um postal que o meu pai me mandou quando estava na guerra, em África. Aconselho-te mesmo a comprar porque isto é realmente um objecto muito bonito. A ideia disto depois é que as pessoas nos enviem as ilustrações que forem fazendo e nós, ao final de algum tempo, analisamos todas e fazemos uma selecção para utilizarmos nos espetáculos ao vivo. E a mesma coisa com os poemas.”

Há sempre uma história lateral que merece ser contada. Qual é essa história?

Uma das minhas curiosidades, à medida que fui conhecendo melhor este projecto, foi tentar perceber se, por detrás da performance poética, existe hoje um modelo de negócio que a sustente. No caso do Poetas, o objectivo nunca passou pela criação de um negócio e isso ficou desde logo claro quando comecei por levantar a questão ao Alexandre. Isto essencialmente porque a existência de um implicaria falta de liberdade, no sentido em que a escolha dos temas das sessões passaria a recair sobre aqueles que pudessem atrair mais público e, assim, gerar mais receitas.

Embora seja certo que a falta de um modelo de sustento interfira, ainda que por vezes, na organização das sessões. Assim, uma vez que os convidados não são pagos porque o projecto não dá lucro, é de entrada livre, “há do lado deles (dos artistas) algum receio em comprometerem-se e depois surgir outro tipo de trabalho que pague”, explica-me o Alexandre. Mas se houvesse, neste caso, outro tipo de recursos, nomeadamente mais apoio com a logística, ou seja, com as questões ligadas à comunicação e marketing do projecto, tanto o Alexandre como o Nuno ficariam com mais disponibilidade para a poesia propriamente dita e esse tipo de trabalho seria realizado de forma mais eficiente por pessoas que apensas se ocupariam disso. E, quem sabe, se assim fosse, “nós não editávamos uma revista só de dois em dois meses, por exemplo”.

Mas a questão de fazer da poesia vida, ou melhor, de fazer vida da poesia, como profissão, já vem de trás, como me recorda Alexandre. Não sendo a poesia uma área de prioridade na nossa cultura, com uma fraca expressão nos hábitos de consumo, muitos dos nossos poetas viveram e vivem de outras profissões. “A poesia, ao contrário por exemplo da dança, que produz espectáculo, é uma forma de arte muito recatada, em que quem escreve é como se produzisse para si.”, o que significa que seria realmente importante que se criassem e incutissem  “novos hábitos de consumo, educando as pessoas para que elas gostem o suficiente da poesia”, defende Alexandre. E num cenário destes, com os devidos apoios, projectos como este poderiam chegar a salas e auditórios maiores e, talvez, vender alguns bilhetes.

Se eu quiser saber mais sobre este tema onde posso ir?

A comunicação do Poetas do Povo é sempre feita através das redes sociais, como o facebook, mas também existe uma revista, a “Cidade Nua”, editada pelo Alexandre e pelo Nuno, em que se anuncia o programa das sessões. Custa 5 eur e pode ser comprada no Povo ou através de venda postal.

O mais recente livro da Lisbon Poetry Orchestra, o “Poetas Portugueses de Agora”, é também uma boa opção para quem quiser conhecer melhor o conceito deste projecto que alia a música à poesia.

Por último, a Cultural Trend Lisbon, empresa responsável pelo Povo, é o meio oficial para quem quiser chegar à organização com alguma ideia ou sugestão, podendo fazê-lo via e-mail para aqui: office@ctlisbon.com

Texto por Madalena Massena
Fotos da Andreia Mayer