A vida ensina-nos a ser cidadãos por via da experiência, aprendemos com quem nos é próximo, ou, de outro modo, com quem nos marca em situações específicas, sobretudo quando nos ensinam a ter consciência de que toda a ação tem uma consequência, todo o gesto, na relação com o outro, tem uma intenção.

O facto é que aprendemos o que significa ser cidadão (ou sobre as formas de participar ativamente na vida pública), em diversos lugares e circunstâncias: seja modelando comportamentos, experimentando, dialogando e assim descobrindo o “outro” que nos habita, inquieta e questiona. A aprendizagem da cidadania, como da vida, não tem um botão para ligar e desligar. A cada momento “ensinamos e aprendemos”, não é uma escolha, é uma condição. 

É um facto que aprendemos muito com os professores, a família, os amigos... na rua, em casa, nas redes sociais, brincando, jogando, e sobretudo em situações de entreajuda, cooperando, desenvolvendo projetos, imaginando, desafiando, mas também em contextos de conflito ou através do erro.

José Pacheco, pedagogo fundador da Escola da Ponte, disse numa entrevista recente que “não aprendemos o que o outro diz, nós aprendemos o outro”[i]. Aprendemos através das atitudes as suas crenças e valores. Esta ideia coloca o foco sobre a responsabilidade do educador enquanto modelo, que não transmite aquilo que diz, mas aquilo que é.

De outro modo, também Paulo Freire reforça que “A educação é um ato político[ii], sublinhando que não há prática educativa indiferente a valores, inscrevendo neste pensamento a noção de que a educação tem uma intenção política, é uma prática democrática através da qual educadores e educandos tiram as vendas dos olhos para melhor verem a realidade. Neste sentido, a forma como ensinamos e aprendemos, as histórias que contamos e a forma como defendemos o seu valor são na sua génese atos políticos.

Justamente porque importa lembrar que para exercer uma educação para a cidadania a centralidade não pode estar tanto no “currículo” mas na pessoa, enquanto ser singular, é útil estabelecer à partida a igualdade que decorre da diversidade, sem preconceitos ou juízos que coloquem uns em frente de outros, mas para que se saiba reconhecer os valores intrínsecos de cada um como aspeto a preservar nessa relação de descoberta, inserindo cada ator no seu contexto particular, na sua comunidade de aprendizagem.

Assim, se a educação se centra no indivíduo - para que ele possa aprender e desenvolver-se de acordo com as suas necessidades e expectativas - é preciso diversificar os modos desse aprender: não podemos esperar que todos aprendam da mesma forma, ao mesmo tempo, com os mesmos recursos. Logo, o princípio de que partimos do mesmo lugar, ou que almejamos metas comuns, não é justo, porque não somos, nem nunca seremos, todos iguais. Aliás, não é demais repetir que a igualdade como fim é uma distopia e que a educação que persegue a homogeneidade tem uma visão totalitária.

No seu livro “O Mestre ignorante”, o filosofo Jacques Rancière afirma: “A igualdade jamais vem após, como resultado a ser atingido. Ela deve sempre ser colocada antes.”

Ora, se somos únicos e diversos por natureza, então também a educação, formal e não formal, os seus agentes, os recursos, as estratégias, devem representar e incluir várias visões do mundo, mostrando caminhos para o conhecimento e diferentes formas de trilhar esses caminhos. Não existe neste objetivo educativo, enunciado na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável – que preconiza a concretização efetiva de um desenvolvimento sustentável baseado em princípios de universalidade, inclusão, responsabilidade, interligação, paz, tolerância, multiculturalismo, cidadania e cooperação, com vista a fomentar a resolução de crises e conflitos, avanços na ciência e na tecnologia, diminuição de desigualdades, e proteção dos Direitos Humanos - um modelo exemplar a seguir, cada um terá que se capacitar para o efeito, de forma responsável e consciente. 

Impõe-se uma abordagem da educação que capacite os educandos para tomar decisões informadas e adotar ações responsáveis que assegurem a integridade ambiental, a viabilidade económica e uma sociedade justa para as gerações presentes e futuras.

Porque sabemos que os objetivos como estes são processos para além de serem fins, é preciso estarmos continuamente atentos aos modelos de escola, de museu, de comunidade educativa, e prevenir que os lugares onde se ensina e se aprende se fechem “dentro muros”, defendendo-se implicitamente de visões plurais e inclusivas, de outras formas de conhecimento, de outras mundivisões – e desta forma evitando o confronto com a diferença, revelando nessa atitude a incapacidade para incluir ou para acolher o que chega de fora, desses lugares “além muros”. Tudo isto nos alerta para os perigos da normalização excessiva, das verdades absolutas, do preconceito e do medo, porque estes são valores próprios de uma educação que exclui e categoriza. Como diz Jacques Rancière, que não emancipa, embrutece.

Quando as instituições educativas alinham a sua missão com as metas partilhadas de uma sociedade inclusiva e com os objetivos comuns de desenvolvimento sustentável; quando estas instituições se inscrevem num sistema, num território, numa comunidade, como entidades endémicas numa ecologia social, ficam certamente mais aptas a promover uma cidadania participativa.

A representatividade da diferença na educação exige a presença de vozes diferentes que ensinem a pensar e concedam lugares de fala[iii], introduzindo o conflito como estratégia positiva, o pensamento crítico, a escuta e a argumentação, o confronto com o desconhecido, a apreciação e a sensibilidade. Com responsabilidade e liberdade, demonstrando que as ações individuais têm impactos coletivos. Esse é o sentido da educação para a cidadania.

Sara Barriga Brighenti


[i] Entrevista a José Pacheco “aula não ensina, prova não avalia” in Revista Ensino Superior, RFM Editores , Brasil,

4 de fevereiro de 2020, acedido em  https://revistaensinosuperior.com.br/jose-pacheco-aula-nao-ensina/?fbclid=IwAR3Rd1-8JhPatAd1tqCJrWAmLKXelmqH1mRNktS0JPNmca_UhC1AU9LSA4k

[ii] Entrevista a Paulo Freire; "A educação é um ato político", in Cadernos de Ciência, Brasília, n. 24, p.21-22, jul./ago./set. 1991, acedido em http://acervo.paulofreire.org:8080/xmlui/handle/7891/1357

[iii] Segundo Djamila Ribeiro (2017) o lugar de fala confere uma ênfase ao lugar social ocupado pelos sujeitos numa matriz de dominação e opressão, dentro das relações de poder, ou seja, às condições sociais (ou locus social) que autorizam ou negam o acesso de determinados grupos a lugares de cidadania.

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
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