Edgar Morin afirmou em 2019 que “o papel da Educação é ajudar os alunos a enfrentar os problemas da vida. Isso de uma forma geral, mas sobretudo num mundo em crise.”

A noção de que vivemos em permanente estado de crise acompanha-nos há décadas, mas nos últimos meses tornou-se presente e factual. A crise pandémica transfigurou globalmente a vida das pessoas e gerou muito mais angústias do que a crisedita em tempos normais. Hoje há novos motivos de ansiedade que é preciso reconhecer e confrontar para poder ajudar a formar os jovens cidadãos.

No futuro, o clima, a demografia, a política, a tecnologia, a economia, a saúde…estarão sujeitos a transformações. Não existem certezas, mas sabemo-nos interligados porque nos relacionamos numa consciência planetária.

No relatório O Futuro da Educação em 2030 a OCDE coloca duas importantes questões:

Quais conhecimentos, competências, atitudes e valores que os alunos de hoje precisam para prosperar e moldar seu mundo em 2030?

– Como podem os sistemas educativos desenvolver esses conhecimentos, competências, atitudes e valores?

O futuro exige que a educação encontre caminhos que formem e preparem os jovens para desafios à escala global, sublinhando a urgência de uma educação transformadora que prepare os alunos para aprender a interpretar e a selecionar a informação, saber distinguir a realidade da ficção – problematizar, criar, comunicar, cooperar e adaptar-se à mudança… tudo isto exige o domínio de múltiplas inteligências, equilíbrio emocional e capacidade para integrar informação proveniente de fontes distintas. Implica sobretudo saber reunir e articular conhecimentos de várias áreas disciplinares. O futuro requer transformações profundas na forma como ensinamos e como aprendemos, pedagogias que abordem perspetivas multiculturais que coloquem a ênfase nos contextos e na aplicação dos conhecimentos, para permitir a compreensão ampla dos problemas do mundo, dos outros e de si próprio na relação com o meio.

O Plano Nacional das Artes (PNA) promove a educação que defende que a vida também é currículo e que artes são áreas centrais para a aquisição de saberes e de competências que formam para a  autonomia, o desenvolvimento da sensibilidade estética, da criatividade e do pensamento crítico – aptidões centrais à plena integração na sociedade. Por isso, propuzemos aos Agrupamentos Escolares a adesão a um programa que desafia o sistema “disciplinar” a se “indisciplinar.

Às escolas que vieram ter com o Plano colocamos a questão: “como podem as artes e o património ajudar a resolver um problema específico, concreto, dessa escola, na relação com o território e/ou a comunidade? O desafio propõe desde logo a construção de um projeto cultural a partir de uma situação problemática, um desejo ou conflito existente, aliado ao projeto criativo. A metodologia projetual que está na base da criação do Projeto Cultural de Escola parte de três vetores: uma intenção, um diagnostico e uma proposta criativa. Acreditamos que não é possível mudar a escola se não fizermos da aprendizagem um processo ativo, participativo que seja capaz de quebrar “muros”, dê voz à comunidade (incluindo encarregados de educação, autarquia, instituições culturais, empresas, docentes e não docentes) e cuja aplicabilidade responda às vivência cultural daquele Km2, à relação com o património e com os seus agentes.

O programa “Indisciplinar a Escola” implica que as escolas definam, com autonomia, um programa adequado às necessidades e interesses dos seus alunos, incorporando as artes e as práticas culturais no currículo. Esta proposta não é uma medida fora de contexto, faz parte de uma estratégia concertada de valorização das artes e das expressões, com enquadramento nos objetivos nacionais e internacionais para a educação, tais como a Agenda 2030 das Nações Unidas (ODS4) e da UNESCO (que defende uma educação integral com acesso ao património cultural e às artes). E, insere-se numa estratégia governativa e num pensamento internacional de mudança que compreende a educação ao longo da vida.

O Plano Nacional das Artes vê na escola uma comunidade de aprendizagem onde todos os membros são co-construtores. Um organismo dinâmico e permeável, inclusivo, que ajuda a encontrar caminhos de realização pessoal e de intervenção no espaço publico. O PNA garante o acesso à fruição e à produção cultural e pretende corrigir as desigualdades no acesso através da integração das diversas expressões artísticas e da participação de diferentes comunidades, fomentando nestes processos a colaboração entre artistas, educadores, professores e alunos.

Indisciplinar a Escola significa alterar a “cultura da escola”, rejeitar a compartimentação disciplinar em prol de uma visão de conjunto capaz de gerar modos diversos de ser e de interpretar o mundo e o outro, sem excluir ninguém. Significa transformar a escola num Polo Cultural.

Este ano letivo lançamos o desafio aos Agrupamentos do país para se juntarem ao Plano e construir a mudança desejada. A adesão foi expressiva – 65 Agrupamentos (mais de 20 000 alunos e de 500 docentes) em todo o território nacional, o que nos permitiu criar raízes de norte a sul, no interior e no litoral, em zonas rurais e urbanas.

A crise tornou evidente que as artes nos ajudam a resistir e a imaginar caminhos alternativos, dão um sentido poético à vida, um sentido que Edgar Morin associa à noção de felicidade. Não é por isso surpreendente a motivação dos Agrupamentos Escolares que mesmo em situação de pandemia quiseram “Indisciplinar a Escola”. Apesar da maioria dos estabelecimentos se encontrarem ainda encerrados, a adesão para o próximo ano letivo 2020/21 é já de mais 41 Agrupamentos Escolares.

Esta vontade mostra-nos que a comunidade educativa está aberta a novas propostas, consciente do seu compromisso com a cultura, e reconhece a importância que o património e as artes têm na sustentabilidade dos territórios, na coesão e no bem-estar das comunidades. As Escolas desejam “Indisciplinar a Escola” porque reconhecem que a fruição e a criação artísticas são essenciais para a formação dos jovens cidadãos.

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
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