Sinto-me atraído por ti.

Namoro-te, desde pequenino.

Amo-te no cheiro da urze queimada com caruma e pinhas nos magustos, lá bem na Serra, perto de Casal de Cinza. Faziam-se pequenas labaredas, depois brasas, uma cama vermelha para deitar as castanhas. Saltávamos por cima, os adultos iam à jeropiga e nós subíamos as rochas, inventando guerras entre nações, castelos, praças de batalha, que tomávamos antes do regresso a casa.

Amo-te nos campos de centeio a caminho da Arrifana,  onde passeávamos com o Professor Lourenço, o meu professor da quarta classe, o mesmo que, solenemente, subiu na cadeira sobre o estrado à frente do quadro de ardósia. Foi no início de Maio (um Maio depois de um Abril cheio de cravos), tirou da parede, lenta e solenemente, os retratos de Américo Tomás e Marcello Caetano, levantou o estrado (eu nem sabia que se podia levantar o estrado) e  aí por baixo colocou os despojos institucionais do Estado Novo. Virou-se para nós devagar e disse: “Um dia vão compreender o que acabei de fazer”.

Amo-te na beira do rio Côa, onde, em bandos de crianças, passávamos e repassávamos os pontões perto do Sol Rio, ouvindo a água a fender as pedras, como desde o princípio da água e das pedras.

Amo-te nas missas em que cantávamos na Igreja da Misericórdia, nas Páscoas frias na Sé da Guarda, nas férias da Ericeira e do Alvor, amo-te nas ruas de Lisboa, desde que te vi Lisboa. Nos basaltos redondos das ruas perto do Castelo, nos passeios domingueiros no parque do Monteiro-Mor, nas bolas de Berlim às seis da manhã na padaria da Almirante Reis, nos bares do Bairro Alto e no fado vadio.

Amo-te do cimo das arcadas da universidade, olhando Coimbra nos braços da minha primeira namorada.

Amo-te nas faldas de Óbidos, segurando a mão amada da minha futura mulher, mãe dos meus filhos.

Amo-te nos meus filhos, também filhos teus, da tua geografia, da tua história, do teu corpo e da tua alma.

Amo-te em cada lugar de ti onde desenhei e cumpri a minha paixão pela artes e pela cultura, de Bragança a Tavira, de Viena do Castelo a Évora, do Funchal ao Porto, de Beja a São Miguel e hoje, amo-te em Oeiras. Tantos e tantos lugares, tantas e tantas pessoas, tantas e tantas dificuldades e alegrias.

Amo-te em cada amiga e amigo, feitos de sangue e de terra, cheirosos como as urzes, as giestas, as castanhas.

Amo-te a cuidar do teu passado, a fazer parte do teu presente, a pensar no teu futuro. Afinal és meu avô, pai, mãe, filho, irmão, irmã. És família minha, partilhada família, nos amores de todos e todas que te amam.

És o meu caderno de desenho, de escrita, e também a espada, sobre a cabeça.

Ah! Claro! Como não falar dos pastéis de bacalhau e dos pastelinhos de massa tenra com arroz de tomate!

Em ti nos juntamos e nos abrigamos. É justo que assim seja, em ti estamos em casa.

Tanto te amaldiçoei tantas vezes, tanto sofri e sofro por ti e em ti! É assim o amor no seu outro lado.

Quando estou longe de ti, sei que voltarei. E mesmo quando quero partir, é porque há um porto, um abrigo, de onde começo a viagem.

Não tenho vergonha de confessar este meu amor. Podes rir-te até.

Mas sinto-me mais aliviado por te contar o que me vai no coração.

É que já chega de fazer de conta. Não, não me és indiferente.

Aqui estou, e haverá um dia, quando criar raízes dentro da tua terra, ou em cinza me evolar sobre a tua marítima água, juntando o meu silêncio a outros amados silêncios, tu saberás que precisarei dos teus braços abertos.

E o meu descanso será tão pleno qual hoje o alento, em ti, barco intercontinental, onde te abraço, minha namorada lusa, içando à força dos braços doridos as tuas velas.

Como as desejo enfunadas pelo vento bom!

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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