Repousar, deixar que as ideias maturem e abrir a porta ao diálogo. É com algumas destas ideias em mente que a associação POUSIO tem trabalhado nos lugares menos óbvios, a criar relações entre artistas e comunidades. Os tempos que correm fizeram com que se mudasse temporariamente para o virtual, mas não esquece que é no mundo “não digital” que quer continuar a deixar as suas sementes. 

Depois de inaugurar as exposições “Sós”, a 28 de abril, “Distância”, a 1 de maio, “Extensão do toque” a 5 de maio,  e “Turns out it was never there”, que inaugura hoje, a associação continua a pensar em formas de se conectar dentro do que é possível numa altura em que o confinamento não é obrigatório, mas continua a ser recomendado. É por isso que já têm programação fechada até ao dia 22 de maio e continuam a ser um espaço que privilegia relações entre artistas, curadores, designers e, claro, a comunidade. 

Por muito que a POUSIO tenha começado a aparecer mais nos feeds das redes sociais na altura em que repensou o seu formato para o digital, há uma história de um ano para trás que importa ser conhecida. Numa voz una, a associação que conta já com o apoio de mais de 100 pessoas, conversou com o Gerador sobre o que está para trás, as questões intemporais e o que está para vir. 

Gerador (G.) – Na descrição da POUSIO, no vosso site, dizem que esta é uma associação “para a cultura, para o lugar e para a pessoa”. O que é que vos levou à criação da associação? Surgiu de algumas necessidades dentro do meio artístico e cultural que começaram a sentir?
POUSIO (P.) – A POUSIO nasceu duma vontade nossa de criar uma comunidade artística aberta e imparcial, seja através das nossas residências ou de outros projectos, que se preocupasse com a acção social, isto é, o artista questionar-se sobre como se pode pôr a ele mesmo ao serviço dos outros e, por consequência, a sua arte também. A POUSIO foi constituída por três artistas: uma pintora, um escultor e um actor/ encenador – cada um com a sua escola e com as suas preocupações. Desde a sua concepção, a POUSIO procura trabalhar a interdisciplinaridade, nomeadamente através do diálogo e da colaboração entre artistas de diferentes áreas e criar o espaço, que nos parecia que não existia, para alimentar este tipo de trabalho. As nossas residências procuram exactamente disponibilizar as condições necessárias para que os artistas possam partilhar as suas obras em todas as fases do processo, havendo a possibilidade deste contágio sub ou inconsciente, ou até perfeitamente consciente. Com “o lugar”, a nossa preocupação é a mesma: conhecer as pessoas locais e os seus costumes, gastronomia, ofícios, expressões/ vocabulários, etc. e, através da interiorização de tudo isto, criar obras influenciadas pela cultura local. Hoje, a POUSIO conta com doze associados e está em crescimento exponencial desde o seu lançamento.

G. – Há uma relação com a terra no nome do projeto e em alguns pontos do seu ADN. Isto aconteceu porque todos os seus fundadores tinham uma ligação com a terra, ou foi uma vontade de escapar à confusão da urbe de que a arte e os seus circuitos tantas vezes se alimentam?
P. – De certa maneira, o nome da POUSIO reflecte algumas das nossas principais preocupações: a descentralização da produção artística, a representação da cultura do interior do país e a procura do sossego e do desconhecido para a criação artística. Na nossa associação, estamos a desenvolver, para além de outros projectos paralelos, como o JANUS Project, uma rede de residência artísticas pelo território português. Isto por várias questões, mas nomeadamente porque a experiência da cultura local e a inserção no âmbito social são imprescindíveis para a compreensão da realidade destas localidades. Procuramos sempre terras que sofrem duma crise de baixa densidade demográfica, mas também questões como o envelhecimento populacional, o distanciamento dessa povoação a terras de maior dimensão, etc. O nosso principal objectivo é beber directamente destas fontes e, por isso, achámos que a presença física e a inserção na comunidade destas terras, ao longo de três ou quatro semanas, a maneira mais fiel e mais correcta para atingirmos isso. Pode-se verificar a importância que damos ao lugar exactamente pelo nosso projecto inaugural ter sido uma residência de várias semanas num local com tanto potencial como o da serra algarvia.

G. – Num terreno em pousio, as terras encontram-se em descanso, em repouso. Que importância tem esse repouso na arte contemporânea e da cultura?
Quão necessário sentem que é, e porquê?

P. – Há vários tipos de repouso, entre eles, o activo e o passivo; para aqueles que não estão a produzir obras nos tempos de quarentena em que vivemos, há um certo repouso activo, no sentido em que estão a planear o que virá depois desta fase. Um artista precisa sempre do seu tempo de concepção, pesquisa, reflexão antes da execução e isto é imprescindível para a criação artística. O repouso que nos preocupava e que incentivou a criação da POUSIO foi exactamente o repouso passivo. Um terreno em pousio pode estar nesse estado por várias razões: abandono, por não ter condições para ser cultivado, por não lhe ser reconhecido o seu real valor. O que nós procuramos, seguindo a analogia do terreno e que, através da descentralização destes projectos – da passagem das zonas urbanos para as tais localidades interiores – possamos explorar e maximizar o potencial destes prados em repouso – destas comunidades – expondo-os a diferentes formas de arte. Há várias iniciativas que têm esta mesma preocupação que é importantíssima para todo o terreno português; o que nos difere de outros projectos é essa nossa busca activa de nos imergir na comunidade e cultura locais.

G. – Uma das questões que fazem é “como pode a arte pôr-se ao serviço?”. A questão que vos coloco é como tem a POUSIO posto a arte ao serviço?
P. – Nas nossas residências, procuramos instituir uma componente de acção social local no quotidiano dos artistas. Isto permite-nos criar laços com as pessoas que depois possibilitam uma troca mais íntima quando chegar ao momento da observação e da participação nas actividades locais e na produção artística. Parece-nos importante também convidar os mesmos a participar na criação da arte através de várias contribuições diferentes – seja através de poemas, histórias, até a explicação de objectos de ofícios locais e disponibilizarem-se para serem retratados, etc. Com o nosso projecto CARDO, procuramos dar às utentes do Convento dos Cardaes, em Lisboa, a possibilidade de se expressarem através de diferentes disciplinas artísticas. Com o JANUS Project, queremos expor as obras de variadíssimos artistas, nomeadamente jovens artistas portugueses, levando as suas obras às casas de cada um. Nós preocupamo-nos em sermos o intermédio pelo qual artistas, curadores e designers se podem conhecer, encontrar e estabelecer novas relações – pensando para além do projecto, isto é, futuras colaborações e trabalhos.

G. – Inauguraram recentemente três exposições virtuais, “Sós”, “Distância” e “Extensão do toque” . Que tipo de questões vos surgiram na hora de pensar como fazer exposições na internet? E como é que vão fazendo a seleção dxs curadorxs e designers que colaboram convosco?
P. – A nossa equipa passou muito tempo a pensar como é que podíamos iniciar um processo destes e quais as bases necessárias para construirmos o JANUS Project com esta equipa enorme, isto é, com mais de cem pessoas envolvidas. Foi um processo e uma troca de ideias muito divertidas e achamos que encontrámos, com os artistas, curadores e designers, soluções bastante interessantes. Claro que há muitas limitações a considerar quando se esboça um ciclo de exposições como o JANUS. Primeiramente, e pelo desafio passar pela utilização de obras que pertencem aos mundos da Arte Visual, Artes Plásticas, Literatura, Música e Artes Performativas, o próprio enquadramento das obras num ecrã. Pensando também nas limitações que as redes sociais nos trazem, como é que podemos divulgar uma exposição e partilhar obras de arte duma maneira que seja fiel à obra original? Esta questão, que acaba por ser muito mais profunda do que pode parecer – pois temos que considerar o valor de cada objecto e a dignidade da experiência física da sua captação – levou-nos ao conceito do JANUS Project em si. Como podemos trabalhar esta experiência de ver uma obra virtualmente assumindo que o objecto virtual não nos permite a mesma experiência que o objecto real. É com essa duplicidade que seguimos o conceito do deus da mitologia romana, Janus:

Estamos no intermédio. Em tempo de limbo. É tempo de aprender um novo modo de ver, de oferecer, de partilhar. A ausência da presença física leva-nos à celebração da memória, leva-nos a perscrutar o futuro. Este ciclo é uma partilha das várias dimensões da obra de arte. Tal como Janus, também a obra de arte é feita do percurso, da transição, da dupla face. Nesta partilha encontramos as relações da obra-enquanto-realidade-material com a obra-enquanto-momento-digital. Este ciclo é uma janela para o objecto artístico – outro. A obscuridade do estar só, a clausura dos tempos, a criatividade do repouso, tornam mais premente ainda a necessidade de partilha, diálogo e de amizade. Agora, a Pousio lançou o convite a vários artistas, curadores, designers e outros, para tornar real esta partilha e compor as exposições online que apresentamos de ora em diante.

(Duarte Bénard da Costa, 2020)

Para nós, o mais importante era expor de uma forma que fosse o mais fiel possível aos artistas que convidámos e às suas obras. Isto é, convidámos cerca de cem artistas a enviar-nos obras para serem expostas neste ciclo e que pensassem como queriam que fossem expostas e que as documentassem, por assim dizer, da maneira que lhes fizesse mais sentido – fotografia, vídeo, descrição escrita, etc. Desafiámos vários curadores e designers, dentro do mesmo âmbito da comunidade artística jovem portuguesa – que temos vindo a acompanhar e que achámos que tinham a disponibilidade e coragem de enfrentar este desafio – a construírem estas exposições com as duzentas e tal obras no nosso catálogo. Queríamos, também, que os designers tivessem um maior papel autoral durante este processo, isto é, promover a colaboração entre o curador e o designer durante a construção da exposição de cada equipa. Criámos um sistema de diálogo inicial entre a direcção do projecto e os artistas convidados e, mais tarde, também com os curadores e designers de cada exposição. Para nós, a troca de ideias entre os curadores e os artistas era muito importante para um projecto desta natureza e isso vê-se nos resultados das exposições que vão sendo lançadas ao longo do mês de maio.

G. – Nesse sentido, quais são os grandes desafios de criar pontes entre a arte e a comunidade numa altura em que o contacto presencial não se pode dar?
P. – Como não podia deixar de ser, tivemos que apostar muito na divulgação em redes sociais, nomeadamente o Instagram, para espalhar a todos esta iniciativa que procura dar às obras que não podem ser mostradas ou apresentadas em galerias, museus, teatros ou salas de espectáculo uma plataforma onde podem ser partilhadas com todos. Para além de saciar esta sede imediata de quem está em quarentena, também procuramos incitar uma vontade de as querer experienciar – e outros tipos de obras de arte também – quando chegar o momento de voltarmos a sair à rua e visitar estes espaços culturais. O que nós tentamos oferecer aos nossos visitantes, é exactamente esta experiência assumidamente virtual que serve por si só e está a ser, para todos envolvidos, um projecto de natureza muito diferente e exigente, mas também com o contacto inter-geracional e a apresentação de artistas emergentes de quem podemos ir à procura quando o contacto presencial voltar. Claro que, nos tempos que correm, é muito diferente irmos ao encontro das gerações mais novas ou de pessoas de idades superiores. Temos tido o cuidado de, através das nossas plataformas e nossos contactos, divulgar o nosso projecto, não só nas redes sociais, como o Instagram e Facebook, mas também LinkedIn e e-mail.

G. – Sentem que o design expositivo pode, desta forma, ganhar uma maior relevância, perante situações como a que vivemos?
P. – Certamente, o design expositivo é muito mais importante num projecto desta natureza do que numa exposição de carácter habitual. O design e a comunicação de eventos expositivos têm sempre um grande desafio: o de criar um discurso complementar à exposição que não a desvirtue e que não atropele o seu conteúdo. Neste projecto, o design confronta-se com um desafio ainda maior: desenvolver o contexto expositivo gráfico – ser simultaneamente a planta, o espaço, a parede, o ecrã – um recipiente que encaixa e dá o devido valor a cada obra, de mão dada com o projecto de curadoria. A sua relevância é extrema e temos tido designers muito competentes e criativos, a criar novos caminhos, num diálogo muito rico e próximo com os curadores. Considerando também que neste novo mundo tecnológico a experiência virtual possa começar a ter maior adesão – resta-nos saber como é que o mundo artístico vai reagir a estes novos módulos de trabalho e de partilha.

G. – Conseguiram adaptar todas as atividades que tinham de um contexto físico para o digital? Já planeiam voltar à “normalidade” ou vão fazer, por enquanto, do digital o vosso novo normal?
P. – Alguns dos nossos projectos, pela natureza deles, como já abordámos, não podem ser traduzidos para o mundo digital. Trabalhamos com comunidades não-digitais, por assim dizer, e, por essa razão, a suspensão da nossa agenda foi, sem dúvida, um percalço muito grande. Para esses casos, já estamos a programar o regresso e a recalendarização dos mesmos. Entretanto, também estamos a trabalhar os nossos objectivos enquanto associação. Voltámo-nos para as forças motoras de todas as nossas iniciativas: os artistas, o processo criativo, o exercício expositivo e curatorial, o exercício da comunicação e o acesso cultural. Até lá, apostamos no mundo digital – do JANUS Projecto e todos os frutos que surgirão do mesmo.

“Turns out it was never there”, a exposição com curadoria de Ana Begonha que inaugura hoje, bem como as restantes que continuam disponíveis online, pode ser vista no site da POUSIO, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia da POUSIO
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