Depois de estrear no Teatro Nacional D. Maria II, a peça de Miguel Fragata estará em digressão até janeiro de 2022. A peça que parte do texto homónimo de Gil Vicente, escrito no rescaldo de um ano devastador e é levado à cena em 2021. O texto vagueou pelas ruas de Lisboa, pelas vozes que se fazem a ouvir e as que ecoam.

Desafio. Esta é a palavra que desde logo Miguel, autor e encenador do texto, utiliza para definir o ponto de partida daquela que é uma das peças que integra o projeto Próxima Cena. A partir de um convite de Tiago Rodrigues, representante então do Teatro Nacional, para pegar no texto, fazer uma leitura do texto à luz do presente e trabalhar com Cirila (intérprete da peça). Ainda que a sua relação com Gil Vicente não fosse uma "situação fácil", Miguel, a partir destes três eixos começou por perceber que o projeto faria sentido "a partir do momento em que ficou aberta a possibilidade de se falar sobre a cidade e de pegar nesse nó: cidade, ideia de exclusão, numa ideia também de fazer um pensamento e uma reflexão sobre Lisboa enquanto cidade que já estava, na altura, a sofrer um processo de gentrificação, de despejos contínuos, de alteração e a configuração da própria cidade", afirma.

Cirila Bossuet, fotografia de Filipe Ferreira

O projeto Próxima Cena tem como premissa a universalização do acesso à cultura e no desenvolvimento e valorização de públicos, em territórios de baixa densidade populacional. O BPI e a Fundação ”la Caixa” são mecenas deste projeto, que arrancou com uma releitura de Miguel Fragata do clássico de Gil Vicente, Pranto de Maria Parda, e com a incursão de António Fonseca pel'Os Lusíadas de Luís de Camões.

No palco da sala Estúdio, eram diversas as estruturas em miniatura, de cor branca, mostravam uma cidade em constante mudança. É de um ode ao questionamento de um espaço social, comunitário e geracional que se (re)compõe ao longo das palavras que anteriormente descreviam os recantos de Lisboa que se fala.

"De certa maneira, foi a pensar em todas as questões que o texto convoca e que não estão necessariamente nele de uma forma muito direta, mas poder pensar em todo o historial que um texto pesado e clássico como este pode trazer consigo", acrescenta o artista.

A tradição foi insinuando que da designação “Maria Parda” se extraía a ideia de uma mulher negra. Mas em nenhum momento Gil Vicente parece indicá-lo. Resultará essa conclusão de um preconceito de interpretação e de leitura? Como se olha para este texto com quinhentos anos à luz das questões do racismo e do feminismo, que ele próprio hoje convoca, e que são prementes? Que caminho fizeram, este texto, a cidade e Maria Parda - até hoje?

Maria Parda mostrou-se ser uma mulher racializada, uma mulher miscigenada ou mestiça não havendo à partida em Gil Vicente nenhum sinal nesse nesse sentido

Com o objetivo de questionar a relação que existe entre a tradição e os seus desígnios ao longo de 500 anos de existência do texto, Maria Parda mostrou-se ser uma mulher racializada, uma mulher miscigenada ou mestiça não havendo à partida em Gil Vicente nenhum sinal nesse nesse sentido.

Não tendo qualquer conexão direta com a realidade que se vivia há cerca de dois anos atrás, Miguel reconhece que "a pandemia veio alterar também muito e adensar aquilo que era a premissa sobre o projeto. Tornou ainda mais claras uma série de noções: o comportamento da cidade perante um fenómeno extremo; a observação do que a pandemia nos permitiu fazer; quem são os grupos que, no fundo, apagam em primeiro lugar; quem continuou a trabalhar durante os sucessivos confinamento; quem é que manteve a cidade em funcionamento; quais foram os grupos laborais que nunca pararam de trabalhar e perceber como aí de facto estão inscritas muitas pessoas racializadas, nesses grupos."

A Maria Parda foi, na altura, a personificação do ano mau com o intuito de dar a volta e começar um novo ciclo. Esse mesmo ciclo, aconteceu ou acontece durante os dias de hoje? A esta questão Miguel responde que o espetáculo deixa esta questão em aberto. "Aquilo que ele lança em primeiro lugar é o mote a para essa reflexão, sobre a forma como nós queremos construir uma nova cidade, de que forma desejamos acabar com assimetrias e como questionar os privilégios a que estamos dispostos. Trata-se de nos fazer pensar se estamos dispostos a continuar a sacrificar alguém. Porque não sacrificar todos? Todos sermos Marias Pardas e, de certa forma, atenuar essas desigualdades.

A peça conta ainda com a participação de Capicua (com beat de Virtus) e Chullage no universo musical.

Assinalando uma digressão que se estende entre até 22 de janeiro de 2022, é entre os dias 9 e 10 de novembro de 2021 que subirá ao palco da ACERT – Associação Cultural e Recreativa de Tondela. Nos dia 18 e 19 novembro o destino é o Teatro Diogo Bernardes, Ponte de Lima e ainda o Centro Cultural Solar dos Condes de Vinhais, a 25 e 26.

Já em janeiro do próximo ano é nos dias 21 e 22 que ocuparão o palco do Teatro Micaelense em Ponta Delgada.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias de Filipe Ferreira
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