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Precisa de avisar a CP que quer viajar de comboio com 6 horas de antecedência?

Nas Gargantas Soltas de hoje, Ana Catarina Correia relata-nos algumas experiências que teve como passageira em comboios. "Durante anos fiz viagens frequentes na linha Porto/Aveiro. Posso afirmar que o meu embarque e desembarque do comboio dependia, tão simplesmente, da boa vontade e consciência do revisor que estivesse ao serviço naquele momento. (...) quem utiliza cadeiras de rodas ou quem necessite de algum apoio específico da CP por razão de deficiência tem de planear obrigatoriamente as suas viagens com 6 horas de antecedência. E as 6 horas é um número recente porque a regra já foi 48 horas, 24 horas e 12 horas."

Fotografia da cortesia de Ana Catarina Correia

Hoje trago-vos um tema que me inquieta e causa angústia há anos. Peço desculpa pelo meu egoísmo, mas partilharei convosco algumas situações e experiências pessoais. Valem o que valem, mas permitem exemplificar de forma concreta a mensagem que vos quero transmitir.

Utilizo uma cadeira de rodas elétrica de forma permanente para me deslocar em qualquer espaço e contexto. Possuo, por isso, uma mobilidade que nasce desse maravilhoso acessório (notem, o adjetivo “maravilhoso” não é ironia, é de facto isso mesmo!). Acessório esse que é uma parte fundamental da minha identidade e do meu corpo.

Como centenas de pessoas, necessito de viajar e de me deslocar todos os dias. Assim, o comboio poderá ser uma opção (para muitas pessoas é mesmo a única possibilidade que existe). Até aqui creio que estamos de acordo, parece bastante simples. Mas não é. Para uma pessoa com deficiência em Portugal viajar de comboio significa, muitas vezes, uma experiência angustiante, tortuosa e/ou impossível.

Durante anos fiz viagens frequentes na linha Porto/Aveiro. Posso afirmar que o meu embarque e desembarque do comboio dependia, tão simplesmente, da boa vontade e consciência do revisor que estivesse ao serviço naquele momento. A CP – Comboios de Portugal tem um serviço designado de SIM – Serviço Integrado de Mobilidade – que a empresa apelida de inclusivo. Ora, quem utiliza cadeiras de rodas ou quem necessite de algum apoio específico da CP por razão de deficiência tem de planear obrigatoriamente as suas viagens com 6 horas de antecedência. E as 6 horas é um número recente porque a regra já foi 48 horas, 24 horas e 12 horas.

Nas viagens frequentes que realizei em comboios urbanos, sempre me recusei a acionar tal serviço. Ninguém tem de o fazer, porque terei eu? As consequências foram várias: situações em que não me permitiram entrar no comboio porque não colocaram a rampa (“não coloco porque a menina não acionou o SIM e é obrigatório!”); revisores que teciam comentários como “a menina não avisou mas hoje entra porque eu até estou bem disposto”; outros ainda, após o embarque, faziam a viagem a conversar comigo e alegando que “tens que compreender que é obrigatório avisar porque tu necessitas de mecanismos especiais, não és como os restantes passageiros” – notem o tratar por “tu”. Será que o fazem com os outros passageiros desconhecidos?; outras situações houveram em que usaram argumentos como “se não avisou nem devia entrar neste comboio. Aliás, você devia era ligar para os bombeiros e deslocar-se de ambulância porque precisa de um transporte especial. Eles estão preparados para transportar doentes!”. Os exemplos não terminam aqui. Também ouvi que “você devia avisar, sim, e nem se deveria queixar. Vocês, os deficientes, até têm condições especiais de preço. O que querem mais?”. Comprometo-me, na próxima crónica a desconstruir estas “condições especiais de preços”.

Só para terminar os exemplos: um amigo com cadeira de rodas elétrica e com dificuldade a fazer-se compreender verbalmente passou pela angústia de o tentarem impedir de embarcar – mesmo tendo ele acionado o SIM – porque o revisor considerou que ele “não tinha condições para viajar sozinho, devia ter trazido um acompanhante!”.

Não posso deixar de mencionar as experiências positivas: centenas de situações vivi em que não me colocaram entraves de espécie alguma, nesta linha de viagens em particular.

Notem os olhares e perspetivas que estão por trás de tais práticas: as pessoas com deficiência devem usufruir de transportes especializados só para elas e, portanto, viver à margem da vida pública; devem ser gratas pelo que existe porque significam uma espécie de esforços e trabalho extra; as pessoas com deficiência são dependentes e passivas e, como tal, lentes como dignidade, autonomia e liberdade numa lógica de direitos fundamentais... São algo inconcebível e até visto como aborrecido e desprovido de qualquer fundamento válido.

Recomendo que sobre este assunto leiam: https://www.publico.pt/2022/08/08/p3/noticia/viajar-cp-pessoas-mobilidade-reduzida-avisar-seis-horas-antes-comboios-nao-pensados-2016286

E tudo isto deriva da nossa invisibilidade. Dos entendimentos sociais e culturais sobre nós, pessoas com deficiência, que são sustentados na nossa inferiorização e opressão. É tempo de agir. É tempo de tomar consciência coletiva de que isto tem que mudar! E não temos de agradecer as mudanças. Temos antes de as provocar e usufruir delas. São nossas por direito. E há muito tempo!

-Sobre a Ana Catarina Correia-

Licenciada e mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto com interesse particular na problemática da deficiência. Foi doutoranda na mesma escola e área disciplinar, num projeto de investigação que versa sobre as políticas para a deficiência em Portugal e na Europa e que dá enfoque à filosofia da Vida Independente e que ainda não foi finalizado.
Atualmente, é técnica no Centro de Apoio à Vida Independente Norte da Associação Centro de Vida Independente. Na mesma organização é dirigente e coordena a delegação do Porto. Colabora, ainda, com outras organizações representativas de pessoas com deficiência. É ainda atleta federada de Boccia pelo Sporting Clube de Espinho e membro da seleção nacional da modalidade desde 2016.
Grande motivação na vida: a crença de que a construção de sociedades justas e inclusivas depende de cada um de nós e que esse será um dos grandes sinais de desenvolvimento humano. E qual é uma das grandes bases para este desenvolvimento? A educação e uma consciência global de Direitos Humanos.

Texto de Ana Catarina Correia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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