Sempre dancei. Pelo menos desde o momento em que tenho memória de mim.

Na minha infância dançava enquanto via videoclipes tentando acompanhar as coreografias que eram dançadas. O mesmo acontecia nos diferentes programas de televisão que assistia sozinha ou em família. E como na aldeia onde cresci não havia ensino de dança para a pré-escola, foi nas aulas de ginástica que comecei a exprimir-me, de uma forma mais coordenada, através do corpo. Mas sempre que havia oportunidade lá andava eu a cantarolar para ter música para me mexer. Também nessa altura investi muito no papel de coreógrafa, e criava sequências de movimento que ensinava às minhas amigas e colegas para depois as partilhar em alpendres, varandas, quintais e sempre que possível no palco das escolas. Não faltavam espaços que não me parecessem palcos prontos para receber uma bailarina cheia de energia e criatividade.

Tudo era desculpa para dançar. 

Nesses anos acompanhei vários movimentos e modas, e de vez em vez lá consegui convencer a minha mãe a investir no figurino. Ainda hoje a minha mãe guarda uma saia minúscula (porque eu era bem pequena e o modelo de saia era à medida) que usava para dançar a famosa “Lambada”.

E enquanto crescia a dança ia acompanhando o meu percurso. Não me formei como bailarina, embora tenha momentos em que o lamento, mas fui frequentando aulas, workshops e formações de vários estilos, também dependendo do sítio onde estudava e vivia e um dia, mais concretamente quando tinha acabado de fazer os meus 18 anos, descubro um festival que mudou a minha vida e a forma de como “absorvi” a dança e a comecei a “usar” no meu dia-a-dia, o Andanças.

Lembro-me muito bem dos meus primeiros dias dessa primeira experiência no Andanças, foram dias de muito estímulo e com aquela grande oferta de oficinas e bailes de diferentes estilos de dança era difícil fazer escolhas e parar. Dancei, dancei muito e com muitas pessoas!

Até àquela experiência nunca tinha dançado tanto e em colectivo, sem conhecer minimamente com quem dançava.

A energia de dançar em grupo e de me deixar levar pelos ritmos e pulsação impostos pelo diálogo entre quem tocava e quem dançava não me “deixavam” ter tempo para comer e dormir. Ao quarto dia de muita dança estava exausta mas, incrivelmente, continuava com uma enorme energia, e no coração um sorriso que não me deixava abandonar os “palcos”.

Foi incrível. Esse momento mudou a minha vida e a minha relação com os outros, com os corpos dos outros.

A partir desse agosto percebi que a dança podia ter, para mim, um significado mais amplo e que me poderia permitir comunicar com os outros de outra forma.

Percebi, também, que a dança tradicional pode continuar a ter na contemporaneidade um lugar super válido e que pode até alterar a forma de estar e de quebrar preconceitos.

Dediquei-me, pessoal e profissionalmente, à dança tradicional nas suas diferentes vertentes depois desta participação no festival Andanças. Esta descoberta, foi o momento que ligou o meu bem estar e a minha felicidade, felicidade esta que, felizmente, se prolongou no tempo.

Desde esse verão de 2000 que danço sozinha ou em grupo, em casa, aulas, workshops, bailes, festivais... todas as semanas. Acho que não se passou uma semana em que não tenha dançado com uma ou mais pessoas, em contextos públicos ou privados. Até que chegou o fatídico dia 12 de março de 2020...e tudo mudou. Praticamente 20 anos depois de começar a dançar fiquei privada deste prazer que tanto me balança, me equilibra, me permite conhecer pessoas, desenvolver competências de diferentes áreas. Que me permite concretizar profissionalmente e me mantém sã! 

Percebo agora, passados estes meses todos de privação, que estes momentos foram os grandes responsáveis pelo bem estar da minha saúde física e mental. Eram eles que me regulavam! Apesar de muitas vezes estar a trabalhar enquanto dançava, eram estes momentos que faziam bombear o meu coração ao mesmo tempo que me ativavam física e emocionalmente.

Sinto-me mais fraca sem a dança, sinto-me mais fraca sem dançar com os outros, sem dialogar com os outros através da dança, e da escuta da música ao vivo para dançar.

Preciso de dançar! De voltar a estar firme quando conduzo o meu par e, no momento seguinte, ser volúvel à indicação de quem me passou a guiar.

Parece longínquo o tempo em que mudava de par no meio de uma dança...

Como nesses momentos parecia simples que corpos suados depois de muito dançar pudessem ser tocados por estranhos e que isso não nos impedisse de continuar a dançar e a trocar de par.

É mesmo uma memória longínqua essa..., mas da qual careço e da qual preciso, e quero, voltar a viver, o mais rápido possível.

Preciso voltar a provocar momentos de dança!

Preciso programar música que se dance!

Preciso dançar!

É preciso Dançar!

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
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