Alonguei-me sobre a espreguiçadeira.

O sol cobria-me as costas numa massagem cálida.

Estava meio adormecido, e ouvia o rumorejar da água na piscina, as conversas na mesa de jogo.

Pensei vagamente em pegar no jornal que deixara na relva, esvoaçando com a brisa.

Mas era esforço de mais, virar-me e esticar os braços.

Deixei-me estar.

Senti um perfume fresco, uma sugestão de laranjas e canela a aproximar-se.

Era a  Irís, estavam à minha espera na piscina.

Ah, pois.  Tínhamos combinado uma conversa.

Sentei-me, vagarosamente, espreguicei-me, a sentir os ramos dos pinheiros em movimento, o mar por perto.

Pus os óculos de sol e pedi à Íris um pouco de protetor nas costas.

Disse ao barman para me trazer um gin tonic com morangos e zimbro, muito gelo, e fui para a piscina.

O Zézé, o Pitó e a Xanã já lá estavam, com água pela cintura, cada um com a sua bebida, o som do piano saindo do salão. O Zézé, depois de fazer um sinal  para começarem a servir as entradas, chamou o filho: “Manú, diz ao João que toque outra coisa mais alegre”. O Manú foi falar com o pianista.

Entrei na piscina, e fui-me juntar aos outros, de copo na mão.

Encostámo-nos na beira, com as bebidas, comendo as tapas de abacate com caviar e o chèvre com mel.

O Zézé sugeriu que, antes de almoçarmos, fizéssemos, ali, uma oração pelos pobres. Recolhemo-nos um minuto em silêncio nos nossos fatos de banho, pensando nos problemas do mundo.

A Xanã lembrou que havia meninos nos bairros sociais que tinham más notas.

O Pitó disse que um dia um sem abrigo tinha falado com ele.

Ficámos todos muito tristes, com os males dos meninos dos bairros e dos sem abrigo.

Já não sei quem sugeriu que podíamos fazer uma recolha de fundos na próxima festa da Tia Jú de Souza. Discutimos durante dez minutos se seria melhor recolher fundos para os sem abrigo ou para os meninos dos bairros.

O Zézé pediu para o pianista parar de tocar e mandou servir o almoço.

O Pitó perguntou como nos íamos organizar para tratar da recolha de fundos.

A Xanã disse que ia falar com a Pápé e que as duas iriam a casa da Tia Jú perguntar o que ela achava da ideia.

Lembrei que a Tia Jú estava no Douro, na quinta, e que não devia descer antes de Setembro.

“Logo se vê”, judiciou a Xanã.

Saímos da piscina e recolhemos aos quartos, para tomar um duche e mudar de roupa.

Quando cheguei à sala de jantar, já estavam todos à mesa: o Zézé, a querida da Mómó (a terceira mulher do Zézé, filha do Tio Chico e da Tia Mary), o Manú (do segundo casamento do Zézé), a Xulachana (do primeiro casamento), a Xanã e o marido (o Cajó), o Pitó, a Íris e a Ritinha.

O Zézé disse uma oração, pediu uma bênção para todos os que ali estávamos e para os pobres em geral. Depois, mandou trazer os faisões que tínhamos caçado ontem e que a cozinheira preparou com uma marinada, acompanhado por chalotas, batatinhas regadas com uma redução de aipo e hortelã e salada verde.

Falámos um bocado sobre a fome no mundo e todos nos entristecemos. Lembrámos  a conversa da piscina. Fez-se um breve silêncio.

Depois a Xanã disse: “Então e o vestido que a Zizi levou à festa das debutantes?”. Desatámos à gargalhada. A Zizi, por mais que se esforçasse, não acertava nas tendências da moda. Nunca percebi quem é que a aconselha. Acho que lhe vou enviar a minha style coach.

Passámos o resto do almoço a trocar sugestões de roupas para o Verão e a preparar o passeio de barco na Córsega.

Mesmo assim, a conversa na piscina deixou-me meio abatido.

Mas, de vez em quando, é bom falar de certas coisas.

Coitados dos pobrezinhos!

Bem, acho que depois das sobremesas vou fazer uma sesta lá para cima, a minha pele não se dá bem com o stress.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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