Queria começar por dizer que, apesar de há muito estar a pensar sair do que chamamos indústria, motive ou whatever, nunca pensei ter de fazer um texto de despedida. Sempre pensei que desaparecia e pronto, mas parece que é bem mais difícil do que isso.
Há já algum tempo que me afastei de muitas coisas, a pandemia também ajudou. Não se tem passado muito, mas uma coisa não mudou: os telefonemas de artistas novos, velhos, managers, editoras e o reconhecimento nas próprias ruas.
Apesar de dizer a quase todos que já não estou muito por dentro da indústria, o meu telefone continua a tocar, por isso acho que este texto faz todo o sentido nesta fase.

Ya é mesmo isto, quero com este texto dizer que vou pendurar as “latas” e afastar-me de qualquer projeto, negócio que envolva música, indústria e etc.

Devo ter despertado para este movimento em 1995, a música foi a primeira coisa que me fez apaixonar pelo Hip Hop e, pouco a pouco, fui-me apaixonando pelas restantes vertentes, sempre foi pelo love. No início o love era o nosso combustível, por isso ficávamos até às tantas a dar freestyle, gravar músicas, discutir qual o melhor rapper, ou a fugir à polícia, numa linha de comboio para fazer Graffiti.

O Hip Hop, para mim, tinha cheiros, cores, caras, histórias, figuras, respeito, acho que o que és e fazes no Hip Hop tem muito que ver com as tuas bases e eu fui um sortudo por ter as melhores. Acredito que a minha introdução neste movimento tenha sido feita pelo meu falecido amigo GURU e a continuação, assim como todo o sentido, foi dado pelo meu primo Boda, dos maiores Hip Hop Heads que conheço. O meu gosto  e sabedoria pelo rap de NYC vem todo dele. Para mim, é o melhor rap de sempre, a história de Nova York dava vários filmes, OBRIGADO BODA, BIG UP.

Tenho saudades de ouvir os programas do José  Marino, saudades de ir à Big Punch comprar latas, de andar nos transportes e cumprimentar people só porque se vestiam como eu, FUBU, WU WEAR, AVIREX, AIR FORCE, a realidade é que tudo aquilo que me fez apaixonar já não encontro mais aqui. Estou triste com o moove de agora, deixa-me sem vontade. Durante anos defendi esta bandeira, dizia à boca cheia: “eu sou Hip Hop, eu respiro, vivo e sou Hip Hop“. Hoje em dia, essa moral desapareceu, em algumas situações tenho até  vergonha, real talk, provavelmente, estou a ficar velho.Esta cultura deu-me tudo, eu costumo fazer uma ligação entre tudo o que tenho e por acaso tudo se liga ao Hip Hop. Até a relação que tenho com a minha esposa, há mais de 14 anos. Fiz muito dinheiro, viajei, fui a África, Madeira, Londres, dormi em centenas de hotéis, fiz centenas de amizades e sou totalmente grato por tudo. Sinto-me um grande sortudo por tudo o que vivi, mas isto já não está a ser engraçado. Cheguei a um ponto em que já nem disfruto as coisas e, olhando nos olhos da maior parte das pessoas, vejo que muitos estão lá porque é moda, porque dá dinheiro, ou outra razão qualquer. E somos muito poucos os que começaram e estão desde a altura em que isto não dava 1 euro.

Sou bué defensor da frase “quem está mal, muda-se” e eu estou mal de momento, mal e triste. Acho que saio numa boa altura, se calhar está na altura de passar a missão a outros.

Não saio porque as coisas não estão a funcionar, antes pelo contrário, estão a funcionar muito bem, o Hip Hop continua a ser das plataformas mais consumidas: este ano tínhamos duas viagens de finalistas fechadas, o canal de YouTube continua a fazer dinheiro, temos uma equipa sólida, que a partir deste mês vão começar a receber todos os outros projetos que dão lucro, não prejuízo, por isso, como se diz em Chelas – “saio em altas”.
Nesta fase, só me apetece ouvir Nas, Wu Tang, Mobb Deep e ir comprar latas e fazer uns bombings.

Noto, também, uma grande renovação a todos os níveis dentro da indústria. Isto pode ser o choque de gerações, que não me faz sentir confortável, fuc* it… o meu trabalho foi feito, e bem feito, diga-se de passagem. It’s a fact. Obrigado a tudo, a todos, se quiserem beber um bom vinho e falar sobre Hip Hop, aceito, mas só pessoal acima dos 35, por favor.

Props: Boda, Guru RIP, toda a equipa da Hip Hop Sou Eu e todos os que passaram pela Hip Hop Sou Eu, toda a team Liga Knockout e todos os Mcs que passaram pela LKO, Mu Mafia, FK, GPK, meu boy Ema, meu boy Kaka, meu boy Hernani, meu boy Page, todo o people das minhas Crews de Graffiti, Peep Show, Big Up Sam The Kid obrigado por estar na capa do Praticamente, Dominus Familia, Sentenza Crew, Monte Kapta GS, Don Rosa Negra, TWA, todos os meus niggas que morreram, Toni, Edinho, Soares, Snake moh Jim Jones, Barbosa, Beto di Ghetto meu primo, todos os artistas que ajudei, direta ou indiretamente, a todos os reais do movimento.

Obrigado. O vosso boy, Varela.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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